CAPÍTULO 3Gratuito
Capítulo 3 — Nana Neném
Bia acordou com um grito que não era dela.
Por dois segundos — os piores dois segundos —, estava de volta ao apartamento em Belo Horizonte. O corpo reagiu antes da mente: encolheu os ombros, puxou o cobertor até o queixo, prendeu a respiração. Os músculos da barriga contraíram, prontos para o impacto de uma porta abrindo com força, de passos pesados no corredor, da voz baixa e controlada que era pior que grito.
Então o grito veio de novo — agudo, infantil, rasgado de medo — e o corpo de Bia se recalibrou.
Não era Rafael. Era uma criança.
Sentou na cama. O quarto de hóspedes era escuro e frio — o aquecedor fazia um zumbido fraco que mal aquecia o ar ao redor da cama, e além das cobertas o mundo era gelo. A janela mostrava um céu sem lua, sem estrelas, só o branco fosco da neve refletindo uma claridade fantasma que não parecia vir de lugar nenhum.
Outro grito.
Bia afastou as cobertas. O frio mordeu as pernas — ela dormia de shorts e camiseta velha da UFMG porque todas as roupas de frio estavam na mala que ela não terminara de desfazer — e os pés descalços no assoalho de madeira fizeram um som que lembrava estalos. Tudo nessa casa estalava: o chão, as paredes, o vento contra as janelas. Como se a estrutura inteira murmurasse.
O corredor era um túnel de sombras. A luz do banheiro, que ela tinha deixado acesa por instinto — hábito de mulher que dormiu meses com medo do escuro porque o escuro era onde coisas ruins aconteciam —, fazia um retângulo amarelo no chão. O quarto das crianças ficava três portas adiante. A porta estava entreaberta.
Bia parou na soleira.
Noah estava sentado na cama, os joelhos contra o peito, os olhos abertos e opacos de quem não está inteiramente acordado nem inteiramente no pesadelo. Não gritava mais — o grito tinha virado um som baixo e contínuo, como motor afogado, um gemido que saía do fundo do peito e que não era choro, era algo mais antigo que choro. Terror noturno. Bia conhecia. Tinha trabalhado com crianças que tinham.
Lily dormia na cama de cima do beliche, com a profundidade de sono que só crianças exaustas de compensar adultos conseguem. Estrela estava caída no chão entre as camas.
Bia entrou.
Não acendeu a luz. Não falou alto. Não tocou Noah.
Sentou no chão, ao lado da cama dele, com as costas contra a estrutura do beliche e os joelhos dobrados. Perto o bastante para que ele soubesse que tinha alguém ali. Longe o bastante para não invadir.
O gemido continuava. Noah balançava o corpo para frente e para trás num ritmo que era dele, que era o único ritmo que ele tinha quando as palavras não vinham.
Bia fechou os olhos. E cantou.
Baixinho. Tão baixo que era quase respiração com melodia. A canção mais antiga que conhecia — a que a avó Dina cantava em Ouro Preto, na varanda da casa de pedra, com o cheiro de goiabada no fogão e o som de passarinho no quintal. A canção que a mãe cantara para ela todas as noites até os dez anos, e que depois Bia cantava para si mesma nos piores dias do apartamento com Rafael, sentada no chão do banheiro com a porta trancada.
"Nana neném, que a cuca vem pegar... papai foi pra roça, mamãe foi trabalhar..."
A voz saiu rouca de sono e de algo que se parecia com saudade mastigada — saudade da avó, da mãe, da versão dela mesma que cantava essa música sem precisar se esconder para fazer isso.
O gemido de Noah mudou. Não parou — diminuiu. Como se o volume estivesse sendo girado devagar por uma mão invisível.
Bia continuou.
"Bicho papão, sai de cima do telhado, deixa esse menino dormir sossegado..."
O balançar de Noah desacelerou. O corpo dele foi relaxando — primeiro os ombros, depois as mãos que agarravam o lençol, depois os joelhos que se afastaram do peito milímetro por milímetro.
Bia não abriu os olhos. Cantava como se estivesse sozinha, como se não existisse menino nem quarto nem Montana nem neve nem nada além da melodia e do escuro e do calor mínimo que a voz produzia no ar gelado.
Quando a canção acabou, cantou de novo. E de novo. Na terceira vez, o silêncio de Noah tinha mudado de textura — não era mais o silêncio tenso de antes, feito de medo comprimido. Era o silêncio de quem está ouvindo.
E então sentiu.
Uma mão pequena. Quente — estranhamente quente para uma criança que dormia num quarto frio. Os dedos eram finos e macios e se fecharam em torno do indicador de Bia com a força exata de quem não quer segurar forte demais mas tem medo demais de soltar.
Bia abriu os olhos.
Noah estava deitado de lado, voltado para ela, os olhos ainda abertos mas diferentes agora — não opacos, não vazios. Presentes. Ele olhava para Bia como se ela fosse a coisa mais real que tinha visto em muito tempo, e a mão dele segurava o dedo dela com a certeza de quem encontra algo sólido num mundo que balança.
Bia não se mexeu. Não ousou. A respiração dela era lenta e controlada — como fazia com os bebês na creche em BH, quando algum deles acordava apavorado e a única coisa que funcionava era presença sem pressa.
Os olhos de Noah foram pesando. Os dedos afrouxaram — não soltaram, apenas afrouxaram. O corpo dele se acomodou no colchão com a rendição de quem finalmente para de lutar contra o sono.
Dormiu.
Bia ficou sentada no chão com o dedo preso na mão de Noah, as costas contra o beliche, o frio subindo pelas pernas nuas, e o peito tão cheio de uma coisa sem nome que respirar doía.
Não a dor do medo. A outra. A que vem quando você encontra o exato lugar onde deveria estar, no exato momento em que deveria estar, e a única prova é uma mão de criança segurando seu dedo no escuro.
§
Na porta do quarto, Ethan estava parado.
Bia não o viu. Não podia — ele estava na sombra do corredor, encostado no batente, e tinha chegado depois do segundo grito, com a velocidade automática de pai que dorme com o radar ligado. Ia entrar. Sempre entrava. Sentava com Noah, segurava o filho no colo, esperava o terror passar como espera tempestade — aguentando.
Mas quando chegou à porta, ela já estava lá. Sentada no chão, de shorts e camiseta numa temperatura de congelar, cantando uma coisa em português que ele não entendia mas que soava como reza — não o tipo de reza que se faz em igreja, o tipo que se faz quando nenhuma outra coisa funciona.
E Noah — Noah, que não respondia a terapeutas, que não olhava para estranhos, que se retraía de todo toque como se a pele fosse alarme — estendeu a mão e segurou o dedo dela.
Ethan encostou a cabeça no batente e fechou os olhos.
A garganta ardia. Algo que não era resfriado. Algo que se acumulava há dois anos, camada sobre camada, como neve sobre neve, e que aquele gesto mínimo — a mão do filho segurando o dedo de uma estranha — tinha deslocado com a precisão de uma pedra jogada em superfície lisa.
Não entrou no quarto.
Voltou para o corredor, para o próprio quarto, para a cama que era grande demais para uma pessoa só. Deitou de costas, os olhos no teto, e ficou ouvindo.
A cantiga continuava. Fraca, distante, em português. Uma melodia que ele não conhecia e que, mesmo assim, tinha a forma exata de algo que faltava na casa há dois anos.
Não dormiu pelo resto da noite.
§
A manhã chegou cinzenta e pesada.
Bia acordou com torcicolo, as costas latejando, e a mão de Noah ainda segurando seu dedo — mais frouxo agora, puro reflexo de sono. Com cuidado de desarmar bomba, ela afastou o dedo. Noah se mexeu, resmungou algo sem palavras, e se virou para o outro lado.
Lily, do beliche de cima, olhava para ela com olhos enormes.
— You slept on the floor?
Bia se levantou devagar. Cada articulação protestou. Tinha trinta anos de corpo nos joelhos de alguém de vinte e sete, cortesia de uma noite no chão de madeira a temperaturas que Ouro Preto desconhecia.
— Yes — sussurrou, para não acordar Noah. — He had bad dream. I... fiquei. I stayed.
Lily olhou para o irmão. Depois para Bia. E alguma coisa no rosto dela — uma tensão fina que nenhuma criança de sete anos deveria carregar — se desfez.
— The other babysitters didn't stay.
A frase era simples e devastadora. Bia sentiu a garganta fechar.
— I stay — disse. E soou mais como promessa do que deveria num primeiro dia.
§
A cozinha cheirava a café. Café americano — fraco, aguado, um insulto a tudo que Bia acreditava sobre a bebida — mas café, e portanto minimamente aceitável.
Ethan estava de pé no balcão, vestido como se já tivesse trabalhado horas: jeans, camisa de flanela cinza sob uma jaqueta de trabalho, botas sujas de neve. O cabelo estava úmido — de suor ou de banho rápido, Bia não saberia dizer. Ele segurava uma caneca e olhava pela janela da cozinha para o branco do quintal com a concentração de quem lê um texto que ninguém mais vê.
— Morning — disse, sem olhar para ela.
— Morning.
Silêncio. O tipo de silêncio que nos filmes é preenchido com música e nos ranchos de Montana é preenchido com o barulho de café sendo servido e mais nada.
Bia se serviu. Provou. Fez uma careta involuntária que tentou disfarçar como gole.
— Is the coffee — ela começou, procurando as palavras com a cautela de quem anda em chão escorregadio — always... how do you say... aguado? No, I mean... light?
Ele olhou para ela por cima da caneca. Sem expressão. Um rosto que poderia ser pedra.
— It's coffee.
— It's... water with memory of coffee — Bia murmurou, mais para si mesma do que para ele, em tom baixo o suficiente para ser deniable. Mas o canto da boca dele se moveu — um milímetro, talvez menos, um espasmo tão rápido que poderia ter sido imaginação. Não foi.
Lily desceu correndo, ainda de pijama, e ocupou a cozinha com o volume de som de alguém três vezes o seu tamanho.
— Bia! Can you braid my hair? The other babysitters didn't know how. Well, Mrs. Patterson knew but she pulled too hard. Can you do it soft? And can you make those round things you were eating at the airport? Dad said you were eating something round. What was it? Was it Brazilian? Do Brazilians eat round things for breakfast?
Bia olhou para Ethan. Ele olhou para Bia. E por um segundo — breve, frágil, tão inesperado que ambos desviaram os olhos imediatamente — houve algo parecido com cumplicidade.
— Pão de queijo — Bia disse para Lily. — It's called pão de queijo. Cheese bread, but not bread. Is... different. Better.
— Can you make it?!
— I need... queijo. Cheese. And polvilho. Is like... how do you say... tapioca flour? And eggs. And...
Ela fez uma pausa. Olhou para a cozinha americana — funcional, limpa, com armários de madeira clara e prateleiras organizadas por uma mulher que não estava mais ali para mantê-las assim. Abriu uma gaveta. Talheres. Abriu outra. Panos de prato. Abriu o armário sobre a pia.
Sal. Pimenta. Ketchup. Mostarda. Maple syrup.
Nada de tempero. Nenhum. Zero. Nem cominho, nem páprica, nem alho em pó, nem uma folha de louro esquecida.
— Where is the tempero? — A palavra escapou em português, mas Bia estava chocada demais para corrigir. Virou-se para Ethan com a expressão de quem abriu um caixão e encontrou vazio. — Condimentos. Spices. Where are the... spices?
Ele apontou para o armário com a caneca.
— Salt's there. Pepper too.
— Só isso?!
A frase saiu em português puro, indignação pura, e Ethan claramente não entendeu, mas Lily riu — aquela risada de criança que é pura reação ao absurdo — e até Noah, que tinha descido sem que ninguém percebesse e estava parado na porta da cozinha com o pijama amassado e o caderno de desenhos sob o braço, levantou os olhos para Bia.
Não sorriu. Não falou. Mas olhou.
Bia segurou o olhar. Gentil, sem pressão, como quem deixa a porta aberta sem empurrar ninguém para dentro.
— Good morning, Noah — disse, suave.
Ele baixou os olhos e foi sentar na cadeira de sempre. Abriu o caderno. Pegou o lápis de cor. Começou a desenhar.
Cavalos. Sempre cavalos.
§
O dia se arrastou com a velocidade de mel em superfície fria.
Bia passou a manhã tentando entender a logística da casa. O aquecedor central funcionava, mas o do quarto dela não — fazia barulho mas não esquentava, como promessa de político. Os armários da cozinha tinham mantimentos básicos: arroz, macarrão, latas de sopa, caixas de cereal. Nada fresco. Nada que exigisse mais de dez minutos de preparo. Geladeira: leite, ovos, ketchup (de novo), suco de maçã, restos de frango assado que pareciam ter sido feitos com boa intenção e pouca habilidade.
Ela fez uma lista mental — a pedagoga nela não conseguia não organizar — de coisas que precisava: roupas de frio de verdade, temperos, ingredientes, talvez um cobertor extra, talvez uma garrafa térmica, certamente um par de botas que não fosse All Star.
Lily era sua sombra. Seguiu Bia por cada cômodo, narrando a casa como guia turístico mirim: "Esse é o banheiro, a torneira quente demora, esse é o quarto do papai, a gente não entra quando ele tá lá, esse é o escritório, mamãe usava pra ler, agora ninguém usa."
A casa de Sarah. Bia sentia a mulher ausente em cada superfície — as cortinas floridas que ninguém trocou, os livros na estante do corredor com o nome "Sarah Calloway" na primeira página, a marca de batom num copo no armário que ninguém lavou ou jogou fora. Uma casa-mausoléu, preservada não por escolha mas por incapacidade de mudar.
— Do you want to see Mommy's photo? — Lily perguntou, e antes que Bia pudesse responder, já a puxava para a sala.
A foto estava na lareira. Moldura de madeira, uma mulher loira de sorriso aberto, segurando um bebê no colo — Noah, talvez com um ano — com Lily pendurada nas costas dela como macaco. A mulher era bonita de um jeito que parecia natural: rosto aberto, sardas, olhos verdes que mesmo na foto transmitiam calor.
— She was pretty, right? — Lily disse, e não era pergunta.
— Very pretty — Bia respondeu. E pensou: a casa inteira ainda é dela.
Noah estava na sala, no tapete, desenhando. Bia sentou num canto do sofá — perto o bastante para estar presente, longe o bastante para não pressionar — e observou.
Ele desenhava com concentração feroz. O cavalo no papel era sempre o mesmo: grande, marrom, com crina voando. Mas esse tinha algo diferente. Ao lado do cavalo, Noah desenhou uma figura. Pequena, com cabelo comprido e escuro. Parada ao lado do cavalo, sem montar.
Bia não comentou. Apenas ficou ali, no sofá, enquanto Lily tagarelava sobre a escola e sobre neve e sobre como o pai fazia o melhor chocolate quente do condado (o que Bia duvidava muito, considerando o estado do café) e Noah desenhava figuras que talvez dissessem coisas que a boca não conseguia.
O dia passou. Almoço foi sopa de lata que Bia aqueceu com a dor na alma de quem viu sua avó fazer sopa de mandioquinha por seis horas. Ethan entrou e saiu da casa como maré — aparecia coberto de neve e cheirando a couro e feno, comia de pé, dizia uma ou duas palavras sobre o tempo ("getting worse" ou "should stop tonight") e voltava para fora. Bia tentou perguntar sobre a rotina das crianças. Ele respondeu com a economia de um telegrama: "Lily, school at eight. Noah, home. Meals at seven, twelve, six. Bedtime at eight."
Nenhuma instrução sobre atividades. Nenhuma menção a brincadeiras, leituras, músicas, nada que sugerisse que o dia de uma criança deveria ser mais do que a administração de sobrevivência.
Bia mordeu a língua. Primeiro dia. Observar. Entender. Depois agir.
§
A segunda noite chegou com mais neve e mais silêncio.
Bia colocou Lily na cama — escovou os cabelos da menina, ouviu a leitura do capítulo (um livro sobre uma menina que viajava no tempo, que Lily lia com a fluência impressionante de quem descobriu que livros são lugares mais seguros que a realidade), e apagou a luz.
Noah já estava deitado, de costas para o quarto, o corpo enrolado no lençol como casulo.
Bia parou na porta. Olhou para o menino.
— Boa noite, Noah — disse, em português. Porque algo nela sabia — sabia com a certeza que não vem da cabeça, vem do lugar onde se guarda tudo que não tem explicação — que o idioma não importava. Que o som importava. Que a intenção era a língua que Noah ainda ouvia.
Ele não se mexeu.
Ela apagou a luz e saiu.
No corredor, parou. Esperou. Dez minutos. Vinte. O relógio do celular marcou nove e meia, depois dez. A casa rangia com o vento. Lá embaixo, o som de gavetas abrindo e fechando — Ethan na cozinha, provavelmente. O pingue-pingue da torneira que precisava de conserto.
Às dez e meia, o som começou.
Não um grito. Ainda não. Um gemido baixo, como o de ontem, mas antecipado — como se o pesadelo estivesse se formando em câmera lenta e Noah lutasse contra ele de olhos fechados.
Bia entrou. Sentou no mesmo lugar de ontem — chão, costas no beliche, pernas dobradas. E cantou.
"Nana neném, que a cuca vem pegar..."
Dessa vez não esperou o grito. Dessa vez chegou antes.
Noah se virou na cama. Os olhos estavam fechados, mas o corpo se orientou na direção da voz como girassol para o sol — involuntário, magnético.
Bia cantou. "Boi da cara preta" — porque a avó Dina dizia que boi da cara preta era para espantar medo. "Ciranda cirandinha" — porque ciranda é roda e roda não tem ponta onde se machucar. "Brilha brilha estrelinha" — não a versão em inglês, a tradução torta que a mãe inventou e que não rimava direito mas tinha cheiro de casa.
Noah não acordou. O gemido parou. O corpo relaxou. E em algum momento entre a segunda e a terceira canção, a mão dele escorregou para fora da cama e encontrou o ombro de Bia — não o dedo, como ontem, o ombro inteiro — e ficou ali, os dedos pequenos apoiados na curva entre pescoço e braço, como se verificasse que ela era real.
Bia ficou imóvel. Cantou até a mão amolecer de sono. Cantou até a própria voz ficar fio. Cantou até o frio dos pés não importar mais, até o torcicolo não doer mais, até sobrar só a melodia e o peso leve de uma mão de criança no ombro.
Quando parou, o quarto estava em silêncio. O bom silêncio — o de gente que dorme sem medo.
Bia se levantou. As pernas formigavam. O corredor estava escuro.
Mas havia luz no fim — uma nesga, fina como unha de lua, escapando por baixo da porta do quarto de Ethan.
Ele estava acordado. Ele tinha ouvido.
Bia não bateu na porta. Não precisava. Algo na qualidade daquela luz — fraca, hesitante, como se até a lâmpada tivesse dúvida — dizia que ele sabia. Que tinha ouvido a cantiga. Que tinha ouvido o silêncio depois. E que o silêncio depois era diferente dos outros silêncios daquela casa, porque era o primeiro em dois anos que não parecia abandono.
Ela voltou para o quarto dela. Deitou na cama gelada. Puxou as cobertas até o nariz.
O aquecedor fazia barulho e não esquentava.
Bia dormiu assim mesmo — com frio nos pés, cansaço nos ossos e, pela primeira vez desde que saiu de Belo Horizonte, a sensação estranha e perigosa de que talvez, talvez, tivesse feito a escolha certa.
Na manhã seguinte, o aquecedor do quarto dela funcionava perfeitamente.
Ninguém mencionou o conserto.
