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Romance Contemporâneo
Beatriz nunca planejou fugir para o outro lado do mundo. Mas quando a única saída de um relacionamento que a sufocava foi um emprego de babá num rancho isolado em Montana, ela agarrou a chance sem olhar para trás —…
CAPÍTULO 1
O avião fazia um barulho de máquina de lavar velha.
Beatriz Andrade — Bia para qualquer pessoa que não fosse sua mãe gritando do outro lado da casa em Ouro Preto — sabia distinguir o som de máquina de lavar velha porque cresceu com uma. Uma Brastemp de 1998 que centrifugava com a fúria de quem não aceita a aposentadoria. O avião da United Airlines, voo 4372 com conexão em Denver, fazia exatamente o mesmo barulho quando atravessava uma turbulência, e isso deveria ter sido reconfortante de alguma forma, mas não era. Nada era reconfortante a dez mil metros de altitude quando se está fugindo para um lugar onde não se conhece ninguém, não se fala o idioma direito e a temperatura lá fora é de menos dezenove graus.
Menos dezenove. Ela tinha pesquisado. Em Ouro Preto, o inverno mais frio da vida dela chegara a sete graus positivos, e ela já reclamava com três cobertores, um gato no peito e uma xícara de café com leite entre as mãos.
— Moça, com licença.
A aeromoça sorriu daquele jeito treinado que significava "você está bloqueando o corredor e eu preciso passar o carrinho". Bia encolheu os joelhos contra o encosto da frente e murmurou um "sorry" que saiu mais parecido com "sóri". Sentada na janela da última fila — porque as passagens baratas ficam sempre no fim do avião, onde o barulho é pior, o banheiro é mais perto e a turbulência sacode mais —, ela apertou a alça da bolsa que carregava no colo desde São Paulo.
Dentro da bolsa: passaporte, contrato de trabalho assinado em inglês que ela entendia oitenta por cento, carteira com trezentos dólares que representavam tudo que sobrara depois da passagem, e um saquinho de pão de queijo que sua mãe enfiara na mala no aeroporto de Confins, com os olhos vermelhos e a voz firme demais para quem estava se despedindo da filha única.
"Leva. Congela quando chegar. Assim você tem um pedacinho de casa."
CAPÍTULOS
Bia não ia congelar o pão de queijo. Ia comer os seis no avião, um a cada hora de voo, como quem toma remédio de ansiedade em forma de polvilho.
Já tinha comido quatro.
§
A decisão de sair do Brasil não foi um momento. Foi uma erosão.
Foi o jeito como Rafael começou a escolher as roupas dela. Primeiro com sugestões — "Esse vestido fica melhor em você, amor" — e depois com olhares que pesavam mais que qualquer palavra quando ela vestia algo que ele não aprovara. Foi o celular que ele conferia toda noite, com a naturalidade de quem confere o próprio. As amigas que foram sumindo, não porque quisessem, mas porque cada encontro com elas gerava uma semana de perguntas que não eram perguntas: "Quem mais estava lá? O que vocês conversaram? Por que demorou tanto?"
Bia era pedagoga. Tinha formação em desenvolvimento infantil, sabia identificar padrões de comportamento controlador em relações familiares, escrevia relatórios para o conselho tutelar sobre pais que faziam exatamente aquilo. Sabia. E mesmo assim ficou três anos.
Porque é diferente quando a sala de aula é a sua própria vida.
Porque ele nunca bateu — quase, mas nunca. O quase era o que a prendia, de algum modo. A mão que apertava forte demais no braço, os dedos que seguravam o queixo dela quando queria que olhasse nos olhos dele, o copo que se espatifava contra a parede a quinze centímetros da cabeça dela. Sempre perto, nunca nela. Como se o erro fosse dela por ter medo de algo que tecnicamente não aconteceu.
A noite do celular foi quando a erosão virou desabamento.
Bia estava na cozinha do apartamento deles — dele, era dele, o contrato estava no nome dele, ele fazia questão de lembrar — e o telefone tocou. Era a professora Marlene, sua antiga coordenadora do intercâmbio, mandando uma mensagem sobre uma vaga de babá no interior de Montana. Um rancho. Duas crianças. Seis meses de contrato.
Rafael pegou o celular da mão dela. Leu a mensagem. E o estalo do aparelho contra o chão foi o som mais limpo que Bia já ouviu.
Ele disse alguma coisa. Sempre dizia alguma coisa — com a voz baixa e controlada que era pior que grito, porque grito pelo menos é honesto. Mas Bia não ouviu. Estava olhando para os estilhaços do celular no piso de cerâmica, e o único pensamento que conseguia formar, nítido como vidro, era: eu vou embora.
Não amanhã. Não depois de conversar. Agora.
Dormiu na casa da mãe aquela noite. Na manhã seguinte, respondeu a professora Marlene de um celular emprestado. Escreveu a carta de apresentação numa mesa de bar, com o português firme e o inglês tropeçando a cada linha, e mandou antes de ter coragem de reler.
Três semanas depois, estava num avião.
§
A turbulência piorou quando começaram a sobrevoar Montana.
Pela janela embaçada de condensação, Bia viu as Montanhas Rochosas pela primeira vez — ou melhor, viu o contorno delas por trás de uma camada espessa de nuvens cinzentas que pareciam feitas de algodão sujo. O piloto anunciou algo sobre condições climáticas em Bozeman que ela não entendeu inteiramente, mas captou as palavras "snow", "delay" e "remain seated", que juntas não formavam nenhuma combinação animadora.
Neve. Bia nunca tinha visto neve na vida.
Nas fotos, neve parecia macia, romântica, o tipo de coisa que se via em filmes de Natal com cachorros golden retriever e casas com lareiras. Na prática, enquanto o avião descia sacudindo como a Brastemp de 1998, neve parecia punição divina.
O celular — novo, comprado com dinheiro contado, sem o número do Rafael — mostrava uma mensagem da agência de au pair: "Mr. Calloway will pick you up at Bozeman Yellowstone International. He drives a black truck."
Mr. Calloway. O pai das crianças. O rancheiro viúvo que precisava de uma babá e estava na sétima tentativa.
Sétima. A agência não disse isso explicitamente, mas a professora Marlene sim, com aquele tom de quem prepara o terreno: "Bia, é uma situação... delicada. A esposa morreu faz dois anos. O menorzinho não fala desde então. A maiorzinha é um amor, mas carrega peso demais pra uma menina de sete anos. E o pai..." Pausa. "O pai é um bom homem, mas tá congelado. Tipo aqueles rios que congelam no inverno por cima mas continuam correndo por baixo."
Bia não entendeu a metáfora na hora. Agora, olhando para a paisagem branca que surgia por entre as nuvens enquanto o avião descia, começava a entender. Montana inteira parecia congelada por cima.
O pouso foi um tranco. Bia bateu o joelho no assento da frente, mordeu a língua e pediu desculpas ao nada porque pedir desculpas era reflexo — mais um presente do Rafael que ela ia levar tempo para desembalar e jogar fora.
O aeroporto de Bozeman era pequeno. Menor que o de Confins, o que era dizer muito. Ao sair do finger — será que chamava finger em inglês? — o ar gelado bateu nela como um tapa. Não o frio educado de ar-condicionado de shopping. Um frio que mordia. Que entrava pelas narinas e congelava os pelos do nariz. Que fazia os olhos lacrimejarem instantaneamente.
Bia estava usando um casaco que comprara no Brás por cento e cinquenta reais, que em Belo Horizonte era casaco de inverno e em Montana era basicamente uma camiseta com pretensões. Os dentes começaram a bater antes de chegar à esteira de bagagem.
A mala era uma Samsonite vermelha que a mãe emprestou "porque vermelho dá sorte". Bia achava que sorte, àquela altura, seria um casaco de verdade. Puxou a mala — uma das rodinhas travava e fazia a mala puxar para a esquerda como se também quisesse voltar para o Brasil — e caminhou até a área de desembarque.
Tinha gente esperando. Famílias com cartazes, motoristas de Uber com placas, uma moça com orelhas de Mickey que abraçou o namorado com o entusiasmo de quem reencontra alguém da guerra.
Nenhum Mr. Calloway.
Bia olhou em volta. Procurou alguém que parecesse um rancheiro do interior de Montana, embora sua referência para isso fosse exclusivamente o ator de Yellowstone, o que provavelmente não era parâmetro confiável.
Dez minutos. Quinze. O frio do aeroporto era suportável, mas a ansiedade que subia pela garganta não era. Ela pegou o celular, abriu a mensagem da agência, tentou ligar para o número de Mr. Calloway. Caixa postal. A voz gravada era grave, seca, e dizia apenas: "Leave a message." Nem nome, nem cordialidade, nem "obrigado por ligar".
Bia não deixou mensagem. Não sabia o que dizer. "Hi, I am the babá, I am here, please come get me antes que eu congele"?
Sentou-se num banco de metal perto da saída, a mala vermelha encostada nas pernas, o pão de queijo número cinco entre os dedos. Estava frio. Era duro e um pouco amassado do transporte, mas quando mordeu, o gosto era exatamente o da cozinha da mãe — polvilho azedo, queijo curado, manteiga — e por três segundos, Montana não existia. Existia a cozinha amarela de Ouro Preto com rádio ligado na FM, a mãe cantarolando Elis Regina, o cheiro de café passado no coador de pano.
Os olhos arderam e não era do frio.
— Andrade?
A voz veio de cima e da esquerda. Bia levantou os olhos — e levantou mais, porque o homem parado diante dela era absurdamente alto.
Ele usava uma jaqueta grossa de lã forrada, jeans surrado nos joelhos e botas que pareciam ter pisado em toda lama do estado de Montana. O rosto era anguloso, quase austero — maxilar definido, barba de uma semana que ninguém tentara aparar, rugas ao redor dos olhos que pareciam menos de idade e mais de quem aperta o rosto contra o vento há anos. Cabelo castanho-claro escondido sob um boné desbotado. E os olhos — azul-cinzento, como o céu lá fora antes da neve, como algo entre tempestade e calmaria que não se decide.
Bia engoliu o pedaço de pão de queijo sem mastigar.
— Yes. Bia. I am... eu sou... I am Bia.
Ele não sorriu. Não estendeu a mão. Olhou para a mala vermelha, para o casaco claramente inadequado, para os cachos dela que o frio estático tinha transformado numa auréola rebelde, e disse:
— Truck's outside.
Virou e começou a andar.
Bia ficou ali por dois segundos, processando. Depois catou a mala — a rodinha travada protestando contra o piso —, enfiou o resto do pão de queijo na boca e correu atrás dele.
Lá fora, a neve caía com uma determinação silenciosa que não parecia natural. Não eram flocos delicados de filme de Natal. Era uma cortina branca e densa que engolia o estacionamento e tornava tudo — carros, postes, placa de saída — fantasmas embaçados. O vento cortava o rosto como se tivesse opinião pessoal sobre a presença dela ali.
A caminhonete era preta, enorme, suja de lama e neve derretida. Ele abriu a porta do passageiro sem dizer nada. Bia jogou a mala no banco de trás — ou tentou, porque a mala pesava mais do que parecia e ela quase derrubou no chão — e subiu. O banco era alto. Ela teve que se impulsionar. As pernas eram curtas para aquele veículo americano projetado para pessoas de um metro e noventa.
Dentro da caminhonete, o aquecedor funcionava com a potência de uma fornalha e o cheiro era de couro velho, café preto e algo que ela não identificou de imediato — feno, talvez, ou terra úmida, ou simplesmente o cheiro de alguém que trabalha ao ar livre. Era um cheiro bom. Não era colônia. Não era perfume de shopping. Era real.
Ele ligou o motor, colocou a marcha e saiu do estacionamento sem falar.
Bia olhou pela janela. A neve cobria tudo — o mundo inteiro era branco e cinza, sem uma única cor, como se alguém tivesse esquecido de pintar a paisagem. As montanhas, que do avião pareciam enormes, agora eram invisíveis atrás da nevasca.
Ela queria dizer alguma coisa. Qualquer coisa. "Obrigada por vir me buscar" ou "Que frio, né?" ou "Quanto tempo até o rancho?" — mas todas as frases que formava em inglês na cabeça pareciam erradas antes de chegar à boca, e o silêncio dele era tão sólido que parecia falta de educação quebrá-lo.
Foram vinte minutos assim. Vinte minutos de estrada branca, motor ronronando, aquecedor soprando, e nada. Nenhuma pergunta sobre o voo. Nenhum "bem-vinda". Nenhum "como foi a viagem?". Bia já tinha conhecido cariocas que falavam mais em dez segundos do que esse homem provavelmente falava num mês inteiro.
Quando a caminhonete saiu da estrada principal para uma de terra — ou de neve, porque terra não se via —, ele disse:
— Road's bad. Hold on.
Bia segurou no apoio de braço. A caminhonete sacudiu, subiu, desceu, e por um momento ela teve a sensação clara de que iam tombar. Não tombaram. Ele dirigia com a naturalidade de quem faz aquilo todo dia desde antes de ter carteira.
A estrada serpenteava entre cercas de madeira meio enterradas na neve e árvores que Bia não sabia nomear — pinheiros, talvez, ou abetos, alguma coisa alta e escura que parecia aguentar o inverno com mais dignidade do que ela.
E então, por entre a cortina de neve, a casa apareceu.
Era grande. Maior do que Bia esperava. Dois andares de madeira escura e pedra, com uma varanda larga na frente e um telhado inclinado coberto de branco. Ao lado, um celeiro vermelho desbotado e outras construções menores que ela não conseguia identificar através da nevasca. Fumaça saía da chaminé — ao menos seria quente por dentro.
Mas a impressão que ficou, a primeira e mais forte, era que a casa parecia cansada. Não abandonada, não feia — cansada. Como se as paredes guardassem um peso que não era estrutural.
Ele estacionou, desligou o motor, e pela primeira vez desde o aeroporto, olhou para ela.
— This is it.
Bia olhou para a casa. Olhou para a neve. Olhou para as próprias mãos, que tremiam — de frio, de nervo, de tudo.
Abriu a porta, desceu da caminhonete, e afundou na neve até o meio da canela.
O frio entrou por dentro do tênis como água. Porque era água — neve derretendo dentro de um All Star que era perfeitamente adequado para Ouro Preto e perfeitamente ridículo para Montana.
Ele já tinha pegado a mala dela e caminhava para a varanda sem olhar para trás. Bia tirou o pé da neve, deu um passo, escorregou, se segurou na lateral da caminhonete e respirou.
O ar gelado queimou o pulmão. Os olhos lacrimejaram de novo. A neve caía no rosto como agulhas minúsculas.
Beatriz Andrade, pedagoga, mineira, vinte e sete anos, fugitiva de um relacionamento que quase a engoliu, estava plantada no meio de uma nevasca no interior de Montana, com um tênis encharcado e um casaco de mentira, a dez mil quilômetros de qualquer coisa que já amou.
Na varanda, a porta da casa se abriu, e uma menina pequena apareceu. Cabelo claro, rosto fino, olhos imensos e curiosos. Ela usava um pijama de flanela com estampa de cavalos e segurava um bicho de pelúcia contra o peito — um cavalo marrom com crina desfiada.
A menina olhou para Bia. Bia olhou para a menina.
E a menina sorriu — um sorriso tão aberto e tão cheio de esperança que doeu no peito, porque crianças não deveriam ter aquela quantidade de esperança no olhar ao ver uma estranha, a menos que tivessem esperado demais.
— Are you Bia? Dad said you're coming from BRAZIL!
A palavra "Brazil" saiu com quatro sílabas e uma excitação que transformou o nome do país inteiro em parque de diversões.
Bia sentiu algo se deslocar no peito. Algo que não era medo, nem saudade, nem frio. Algo que se parecia perigosamente com o começo de alguma coisa.
— Yes — disse, com os pés encharcados, o nariz vermelho e um sotaque que fazia a palavra soar como "iés". — I am Bia.
A menina largou o cavalo de pelúcia na varanda e desceu os degraus correndo, de meias, na neve, e abraçou Bia na cintura com uma força desproporcional para um corpo tão pequeno.
E dentro da casa, atrás da porta entreaberta, havia uma sombra menor. Um menino. Quatro anos, cabelo escuro, olhos grandes e vazios como janelas de casa fechada. Ele não sorriu. Não acenou. Não disse nada.
Apenas olhou — e voltou para dentro.