CAPÍTULO 3Gratuito
Interrogatórios e Tentações
## Capítulo 3 - I A delegacia da Bela Vista às três da manhã tinha o cheiro característico de café velho e desespero. Helena estava sentada em uma sala de interrogatório há duas horas, o vestido vermelho agora parecendo gritante sob a luz fluorescente. O delegado Marcos Ferreira, um homem de cinquenta anos com olhos cansados, folheava suas anotações pela terceira vez.
— Vamos recapitular, senhora Valdez. A vítima, Zhang Wei, não estava na lista de convidados.
— Não. Nunca o vi antes desta noite.
Era mentira. Helena havia visto Zhang Wei duas vezes — ambas saindo do escritório de Ricardo no centro da cidade. Mas admitir isso levantaria questões que ela não estava preparada para responder.
— Seu marido diz que também não o conhecia.
— Se Ricardo diz, deve ser verdade.
O delegado a estudou por um longo momento.
— E o senhor Martinelli? Ele conhecia a vítima?
— Terá que perguntar a ele.
— Estou perguntando a você. Vocês dois estavam sozinhos no escritório pouco antes do assassinato.
Helena manteve o rosto impassível, mesmo sentindo o calor subir por seu pescoço ao lembrar do que havia acontecido naquele escritório.
— Estávamos discutindo a autenticação da obra.
— Por meia hora? A portas fechadas?
— É um processo delicado, delegado. A peça vale milhões.
Ferreira inclinou-se para frente.
— Senhora Valdez, vou ser franco. Temos um homem morto com ligações conhecidas ao mercado negro de arte. Temos uma obra de arte que esteve desaparecida por décadas. E temos um colecionador italiano com um passado, no mínimo, questionável. Isso sem mencionar que seu marido foi visto discutindo acaloradamente com a vítima no terraço, quinze minutos antes do assassinato.
Helena sentiu o chão desaparecer sob seus pés.
— Isso... isso deve ser um engano.
— Três testemunhas confirmaram. Seu cunhado Gabriel entre elas.
A porta se abriu e Carmen Monteiro entrou, impecável mesmo àquela hora, seguida por um dos advogados criminalistas mais caros de São Paulo.
— Minha filha não dirá mais nada sem a presença de seu advogado — Carmen anunciou com a autoridade de quem comandou tribunais por décadas.
— Juíza Monteiro — o delegado levantou-se respeitosamente. — Não esperava vê-la aqui.
— Minha filha foi vítima de uma tragédia em seu estabelecimento. Vim garantir que seus direitos sejam respeitados.
Enquanto os advogados conversavam com o delegado, Carmen puxou Helena para o canto.
— O que você não está me contando? — sussurrou.
— Mãe, eu...
— Não minta para mim, Helena. Conheço Lorenzo Martinelli. Ou melhor, conheci o pai dele, há trinta anos. Você não tem ideia do ninho de cobras em que está se metendo.
Antes que Helena pudesse perguntar mais, a porta se abriu novamente. Lorenzo entrou, ainda de smoking, mas agora com a gravata desfeita e os primeiros botões da camisa abertos. Mesmo ali, sob a luz cruel da delegacia, ele emanava uma sensualidade perigosa.
— Senhora Valdez — ele cumprimentou formalmente, mas seus olhos diziam muito mais. — Espero que não estejam sendo muito duros com você.
— Senhor Martinelli — o delegado interveio. — Precisamos conversar sobre o cartão encontrado ao lado do corpo.
— Claro. Mas antes... — Lorenzo tirou o paletó e colocou sobre os ombros de Helena. — Está frio aqui dentro.
O gesto íntimo não passou despercebido por ninguém na sala. O paletó cheirava a ele — uma mistura de cedro, whisky e algo unicamente masculino que fez o pulso de Helena acelerar.
— Eu gostaria de falar com o senhor Martinelli a sós — disse o delegado.
Todos saíram, exceto Lorenzo e Ferreira. Helena foi levada para a recepção, onde encontrou Ricardo conversando intensamente com Gabriel. Quando a viu, seu marido aproximou-se, o rosto uma máscara de fúria controlada.
— Você estava fodendo com ele? — Ricardo sussurrou, agarrando seu braço com força.
— Ricardo, você está me machucando...
— Responda!
— Solte minha filha imediatamente — Carmen interveio, sua voz cortante como aço.
Ricardo a soltou, mas seus olhos prometiam que a conversa não havia terminado.
— Vamos para casa — ele disse friamente.
— Ainda não fomos liberados — Helena respondeu.
— Então esperaremos.
A espera estendeu-se por mais uma hora. Helena cochilava no ombro de Sofia, que havia aparecido com roupas limpas e café, quando Lorenzo finalmente emergiu da sala de interrogatório.
Ele caminhou direto até ela, ignorando o rosnado de advertência de Ricardo.
— Preciso do meu paletó de volta — disse simplesmente. — E precisamos conversar. Amanhã, na galeria. Há coisas sobre aquela pintura que você precisa saber.
Helena tirou o paletó, imediatamente sentindo frio sem ele. Quando o entregou, Lorenzo segurou sua mão por um momento.
— Cuidado em quem confia — murmurou apenas para ela ouvir. — Nem todos que dizem te amar querem seu bem.
Ele se foi, deixando Helena com mais perguntas que respostas.
Na limusine a caminho de casa, o silêncio era opressivo. Ricardo olhava pela janela, seu reflexo duro como pedra. Quando chegaram à cobertura no Jardins, ele foi direto para o bar.
— Vá dormir — ordenou sem olhar para ela.
— Ricardo, precisamos conversar sobre Zhang Wei...
O copo que ele atirou explodiu contra a parede a centímetros de sua cabeça.
— Não ouse pronunciar esse nome nesta casa!
Helena recuou, chocada. Em dez anos de casamento, Ricardo nunca havia sido violento.
— Você o conhecia — ela afirmou, não perguntou.
Ricardo virou-se, seus olhos azuis agora quase negros de raiva.
— Você não sabe de nada. E é melhor continuar assim, se sabe o que é bom para você.
— Está me ameaçando?
Ele aproximou-se, o cheiro de whisky forte em seu hálito.
— Estou te protegendo, sua idiota. — Suas mãos agarraram seus ombros, sacudindo-a. — Acha que seu italiano de merda se importa com você? Ele está usando você, Helena. Assim como usou todas as outras.
— Que outras?
Ricardo riu amargamente.
— Pergunte a ele sobre Venetia Morosini. Pergunte o que aconteceu em Veneza há três anos.
Ele a soltou abruptamente e foi para o quarto de hóspedes, batendo a porta.
Helena ficou sozinha na sala, tremendo. Pegou o laptop e digitou: "Venetia Morosini Veneza morte."
As manchetes que apareceram fizeram seu sangue gelar:
"HERDEIRA ITALIANA ENCONTRADA MORTA EM CANAL DE VENEZA" "POLÍCIA INVESTIGA MORTE SUSPEITA DE VENETIA MOROSINI" "AMANTE MISTERIOSO É PRINCIPAL SUSPEITO EM ASSASSINATO"
E havia uma foto. Venetia Morosini era loira, linda, e usava um colar de esmeraldas que Helena reconheceu imediatamente. Era idêntico ao que Lorenzo havia enviado para ela na semana anterior, com um cartão que dizia apenas: "Para combinar com seus olhos."
O colar ainda estava em sua gaveta de joias, escondido de Ricardo.
Helena fechou o laptop, o coração acelerado. Pegou o telefone e havia uma mensagem de um número desconhecido:
"Não acredite em tudo que lê. A verdade é muito mais perigosa. Durma bem, mia cara. L."
Ela olhou para a janela. Lá embaixo, do outro lado da rua, uma figura solitária fumava sob um poste de luz. Mesmo à distância, ela reconheceu a silhueta de Lorenzo.
Ele acenou uma vez e desapareceu na noite.
Helena foi para o quarto, sabendo que não conseguiria dormir. Em sua mente, o gosto do beijo de Lorenzo misturava-se com o sangue de Zhang Wei e o mistério de Venetia Morosini.
Ela havia entrado em um jogo mortal, e não tinha ideia de quem eram os jogadores ou quais eram as regras.
Mas uma coisa era certa: não havia volta.
