
Segredos de Veludo
Romance Contemporâneo
Helena Monteiro tem tudo que sempre sonhou: uma carreira de sucesso como curadora de arte em São Paulo, um casamento aparentemente perfeito com o empresário Ricardo Valdez e uma vida invejável na alta sociedade paulistana. Mas quando o misterioso colecionador…
CAPÍTULO 1
A Chegada
A taça de champanhe tremia ligeiramente na mão de Helena enquanto ela observava o salão principal da Galeria Monteiro se encher com a elite paulistana. O vestido vermelho-sangue de Valentino moldava perfeitamente suas curvas, escolhido especificamente para aquela noite que mudaria os rumos da galeria que herdara do pai. Aos trinta e cinco anos, Helena Monteiro Valdez havia transformado o espaço em um dos mais prestigiados da América Latina.
— Você está deslumbrante — sussurrou Ricardo em seu ouvido, as mãos pousando possessivamente em sua cintura.
Helena forçou um sorriso. O toque do marido, que antes a incendiava, agora parecia frio, calculado. Dez anos de casamento haviam transformado o que fora paixão em uma parceria de conveniências, pontuada por jantares sociais e sexo protocolar às quintas-feiras.
— O italiano chegou? — Ricardo perguntou, seus olhos azuis esquadrinhando o salão.
— Ainda não. O voo deve ter atrasado.
Helena mentiu com a naturalidade de quem prática o ato há anos. Lorenzo Martinelli havia chegado há duas horas e estava no escritório privado da galeria, supervisionando pessoalmente a instalação da peça central da exposição: "Vênus Adormecida", uma tela do século XVII que estivera desaparecida desde a Segunda Guerra Mundial.
— Helena, querida! — Sofia Amaral surgiu entre a multidão, seu vestido dourado competindo em brilho com as joias que ostentava. — A galeria está um escândalo de linda! Ricardo deve estar tão orgulhoso de você.
As duas mulheres se beijaram no rosto, o perfume caro de Sofia misturando-se ao de Helena. Amigas desde a adolescência no Colégio Santa Marcelina, compartilhavam segredos que poderiam destruir casamentos e reputações. Ou pelo menos era o que Helena acreditava.
— Preciso falar com você — Sofia sussurrou, apertando o braço da amiga. — Em particular. É sobre o Gabriel.
Gabriel Valdez, irmão mais novo de Ricardo, acabara de retornar de Miami após dois anos de ausência. A morte súbita de sua esposa, Beatriz, em um suposto acidente de barco, deixara mais perguntas que respostas.
— Depois da apresentação — Helena respondeu, notando a chegada de sua mãe.
Carmen Monteiro entrou no salão como quem entra em um tribunal: cabeça erguida, passos medidos, o poder emanando de cada gesto. Aos sessenta e oito anos, a juíza aposentada mantinha a postura que aterrorizara réus por três décadas.
— Mãe — Helena cumprimentou, recebendo um beijo formal na face.
— Espero que você saiba o que está fazendo, Helena. Essa exposição... esse italiano... — Carmen deixou a frase no ar, seus olhos verdes idênticos aos da filha carregados de advertência.
Antes que Helena pudesse responder, um murmúrio percorreu o salão. Lorenzo Martinelli havia chegado.
O primeiro pensamento de Helena foi que as fotos não faziam justiça ao homem. Alto, com cabelos negros levemente grisalhos nas têmporas, Lorenzo tinha a elegância natural dos italianos e algo mais — uma presença magnética que fazia o ar ao seu redor parecer eletrizado. O smoking Armani parecia ter sido costurado sobre seu corpo atlético, e quando seus olhos cor de mel encontraram os de Helena através do salão, ela sentiu o impacto como um soco no estômago.
— Senhora Valdez — ele disse ao se aproximar, sua voz grave carregando um sotaque que transformava cada palavra em uma carícia. — Finalmente nos conhecemos pessoalmente.
Ele tomou sua mão e, em vez de apertá-la, levou-a aos lábios em um gesto antiquado que deveria parecer formal, mas que enviou uma corrente elétrica pelo braço de Helena.
— Senhor Martinelli — ela conseguiu responder, orgulhosa de sua voz não trair o turbilhão interno. — Seja bem-vindo à Galeria Monteiro.
— Por favor, me chame de Lorenzo — ele disse, ainda segurando sua mão por um segundo a mais que o apropriado. — Afinal, vamos trabalhar muito próximos nas próximas semanas.
Ricardo se aproximou, passando o braço pela cintura de Helena em um gesto territorial que não passou despercebido por Lorenzo.
— Ricardo Valdez, marido de Helena — ele se apresentou, estendendo a mão.
— Um homem de sorte — Lorenzo respondeu com um sorriso que não alcançou seus olhos. — Sua esposa tem... um olhar extraordinário para a arte.
Helena percebeu a pausa calculada, o duplo sentido sutil. Seus olhos encontraram os de Lorenzo novamente, e por um momento, o salão cheio pareceu desaparecer.
— Devemos começar a apresentação — ela disse, afastando-se dos dois homens. — Com licença.
Enquanto caminhava em direção ao pequeno palco montado para a ocasião, Helena podia sentir o olhar de Lorenzo queimando em suas costas. Não sabia ainda que em menos de uma hora, sua vida ordenada começaria a desmoronar, e que o homem de olhos cor de mel seria tanto sua salvação quanto sua perdição.
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