CAPÍTULO 3Gratuito
Um Homem Que Não É Daqui
Capítulo 3 — Um Homem Que Não É Daqui
Mãe Jacira de Oxum tinha duas formas de receber gente nova no barracão.
A primeira era com o sorriso largo e o "bem-vindo, meu filho" que ela usava para quem chegava com recomendação conhecida e intenção óbvia — fornecedor, costureira nova, parente de passista. A segunda era com o mesmo sorriso e o mesmo "bem-vindo, meu filho" mas com os olhos fazendo um trabalho completamente diferente: catalogando, pesando, decidindo sem pressa.
Beto recebeu a segunda versão.
Ele tinha chegado às 16h45, quando o ensaio das mirins ainda estava no fim e o barracão ainda não tinha entrado no modo de guerra do ensaio noturno. O horário era calculado. Você não chegava em pleno ensaio — interrompia, chamava atenção errada, deixava claro que não conhecia o ritmo do lugar. Você chegava na transição, quando havia movimento suficiente para que um rosto novo fosse absorvido naturalmente.
A referência era Cláudio Ferreira da Mangueira, que era real, que coordenava um dos blocos afiliados e que tinha — com alguma persuasão via um intermediário que a PF mantinha — concordado em ser citado como apresentação se questionado. "Cláudio me falou que vocês tavam procurando parceiro para o patrocínio deste ano. Sou homem de negócios, tenho interesse em investir em cultura, gostei do enredo." A frase estava ensaiada até o ponto onde parecia não estar ensaiada.
Mãe Jacira ouviu tudo. Depois ficou em silêncio por um tempo que a maioria das pessoas teria tentado preencher. Beto não preencheu.
"Você conhece a Mangueira por dentro ou por fora?" ela perguntou.
"Por fora, Mãe Jacira." Ele usou o título sem exagero, porque exagero era o erro de quem não sabia de onde vinha. "Fiz negócio com o Cláudio, não sou da escola."
"E aqui você quer entrar por dentro ou por fora?"
"Por dentro, se me deixarem. Por fora se for o que tiver."
Ela deu um som que não era exatamente riso mas tinha a mesma temperatura. "Honesto."
"Tento ser."
Ela o levou para uma mesa próxima à parede, longe do fluxo de costureiras que iam e vinham com peças de fantasia, e mandou buscar café. Beto ficou sentado com a postura correta — não encolhido, não expandido, o meio-termo que significa presente sem invadir.
Enquanto Mãe Jacira explicava o Império da Coroa — a história, o tamanho, os dois Vice-campeonatos consecutivos, o enredo deste ano que era o mais ambicioso em uma década — Beto fazia o que tinha sido treinado para fazer: escutar de verdade. Não a performance de escutar enquanto pensava na próxima pergunta. Escutar de verdade, porque pessoas sentem a diferença e Mãe Jacira era o tipo de pessoa que sentia mais do que a maioria.
"O enredo é sobre as Rainhas do Atlântico," disse ela, com um orgulho que era também propriedade. "Mulheres negras no oceano. Da África ao Brasil, mas não só pelo caminho triste — pelo caminho todo. As que escolheram, as que não escolheram, as que viraram Yabás, as que viram. É um enredo de força."
"E a escola de dança da ONG faz parte do desfile?"
Os olhos de Mãe Jacira mudaram ligeiramente. Não suspeita — curiosidade.
"Você sabe da ONG?"
"Cláudio mencionou." Era a resposta certa. Simples, atribuída, plausível. "Disse que a filha do patrocinador principal dá as aulas."
"Bela." Mãe Jacira disse o nome com afeto genuíno. "Sim. As mirins da ONG desfilam com a escola faz dois anos. Bela coordena. É ela que faz o trabalho funcionar — não só aqui, mas lá na ONG também. Aquelas meninas a amam."
Beto anotou mentalmente. Não no caderninho que tinha no bolso — esse era para depois. Mentalmente: a posição de Bela no barracão era de respeito ganhado, não herdado. Isso era importante. Significava que ela tinha construído presença própria num espaço que poderia ter sido do pai.
Foi nesse momento que ele a viu.
Ela estava no centro do barracão com o caderninho na mão, parada enquanto a bateria começava a se organizar. Não era a mulher da foto — a foto era estática e ela era movimento mesmo parada, havia uma qualidade de atenção no corpo dela que tornava o ambiente ao redor levemente mais organizado em função dela. As costureiras contornavam sem perceber. As crianças gravitavam na direção e ela as redirecionava sem quebrar o que estava fazendo.
Beto desviou o olhar em menos de três segundos. Tempo suficiente para registrar. Muito mais curto do que ele tinha de verdade olhado.
"Posso ver o barracão?" perguntou para Mãe Jacira.
Ela se levantou. "Pode."
O tour foi rápido — ateliê de costura no fundo, depósito de alegorias à esquerda, sala de administração que era mais uma mesa com dois computadores do que sala, banheiros que estavam limpos de um jeito que sugeria que alguém os limpava com frequência real. O barracão tinha aquela qualidade específica de espaço que era simultaneamente caótico e funcional, onde a desordem aparente escondia uma lógica que só quem pertencia via.
Beto pertencia a espaços assim. Não a este especificamente — mas ao princípio deles. O Complexo do Alemão tinha a mesma gramática: aparência de bagunça para quem era de fora, estrutura precisa para quem vivia dentro.
Quando voltaram para a parte principal, o ensaio dos adultos estava começando. A bateria entrou e o barracão virou outra coisa — o ar mudou de temperatura, o espaço reorganizou, e as pessoas que um segundo antes eram costureiras e administrativos e visitantes viraram partes de um organismo único respondendo ao mesmo pulso.
Bela estava no meio disso.
Ela não estava no centro de atenção — ela estava no centro de funcionamento. Havia uma diferença. O centro de atenção era onde a porta-bandeira estava, com a fantasia incompleta e o ensaio do giro. O centro de funcionamento era onde o ensaio se movia quando precisava de ajuste, e era lá que Bela estava, com o olho no grupo de passistas mirins que tinham ficado para assistir, garantindo que não saíam do espaço delimitado, corrigindo posição de uma sem parar de acompanhar as outras.
Ela olhou na direção dele.
Não para ele — na direção dele. A diferença era importante e Beto a notou. Ela estava verificando o espaço, não o identificando. Mas o olhar passou por ele e houve um segundo de ajuste — brevíssimo — antes de continuar.
Ele tinha sido registrado.
Mãe Jacira disse ao lado dele: "O que você acha?"
"Acho que é uma escola séria." Ele disse com sinceridade que não era performance. "O enredo é ambicioso. O ensaio é disciplinado. Vale o investimento."
"Quer ver mais?"
"Quero. Mas não hoje — não quero atrapalhar o ensaio com conversa de negócio." Ele se virou para ela. "Posso voltar?"
Mãe Jacira tinha aquele olhar de novo. O que avalia.
"Pode." Ela disse depois de um segundo. "Mas saiba que aqui a gente conhece quem entra. Não agora, não em três visitas. Mas a gente conhece."
"Entendo."
"Bom."
Ele saiu pelo mesmo caminho que tinha entrado. Na porta, sem se virar, teve a sensação de que estava sendo observado. Não por Mãe Jacira — por alguém com olhar diferente. Mais direto. Menos avaliador, mais... curioso.
Do jeito que se é curioso sobre algo que não se sabe ainda se é ameaça ou não.
Beto foi para o boteco do Carlão na esquina, pediu uma água e ficou na parte de fora por um tempo, olhando para a rua de Vila Isabel com o som do barracão chegando em ondas pelo ar quente da tarde que virava noite.
A segunda tentativa de contato tinha que ser natural. Não no barracão — neutro demais, território dela. Tinha que acontecer num espaço onde os dois estivessem em deslocamento, não enraizados. O boteco era candidato. O entorno do barracão pós-ensaio era candidato.
Ele tirou o caderninho e anotou três palavras.
*Paciência. Ritmo. Território.*
Depois guardou e pediu outra água.
No barracão, a bateria estava em plena potência. Ele conseguia sentir no peito mesmo daqui.
Havia algo no lugar que não estava no dossiê. Não sobre Drummond — sobre o que Drummond havia construído ao redor da filha sem que nenhum dos dois parecesse perceber o quanto aquele espaço era deles tanto quanto era do esquema.
Essa observação estava fora do escopo do relatório.
Ele anotou assim mesmo.
