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Isabela Drummond dançou a vida inteira sobre os ossos dos inimigos do pai — sem saber. Filha do maior bicheiro do Rio, Bela cresceu em Ipanema acreditando que seu pai era empresário do entretenimento. Patrocinava barracões, financiava a escola de…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — O Dossiê e o Trem das 21h
POV: Beto
A sala de briefing da Polícia Federal em Brasília cheirava a papel velho e ar-condicionado com defeito. Era o mesmo cheiro de todas as salas de briefing onde ele já tinha estado — em Recife, em Belém, em São Paulo uma vez, num caso que não deu em nada por conta de interferência política que ninguém quis nomear em voz alta. Sebastião Vargas conhecia aquele cheiro como quem conhece o cheiro de família: inevitável, íntimo, e às vezes enjoativo.
Eram 14h37. Ele sabia porque ficou olhando para o relógio enquanto a Delegada Renata Sousa abria a pasta na mesa de vidro fosco. O relógio era um hábito. Não de ansiedade — de precisão. No Complexo do Alemão, onde cresceu, a hora importava. Adiantado era paranoia. Atrasado era descuido. Pontual era sobrevivência.
"Operação Confete," disse Renata, sem preâmbulo. Ela nunca usava preâmbulo. Era uma das razões pelas quais ele a respeitava.
Ele não respondeu. Esperou.
A pasta era grossa — doze anos de trabalho de pelo menos seis agentes diferentes, dois promotores, uma CPI que foi engavetada antes de chegar no nome que importava. Havia recibos fotografados, transcrições de escutas autorizadas, organigramas desenhados à mão que foram digitalizados e reimpressos com qualidade de HD. Havia endereços. Havia nomes. E havia, no centro de tudo aquilo, Antônio "Toninho" Drummond, 58 anos, empresário registrado, bicheiro por tradição e por escolha, financiador de pelo menos três candidaturas a vereador, possível mandante de dois assassinatos que nunca foram provados e de uma série de extorsões que todo mundo no Rio sabia que existiam mas que ninguém conseguia amarrar num processo que durava mais de seis meses sem ser engavetado.
"A dificuldade de sempre é acesso," disse Renata, de pé ao lado da janela que dava para o estacionamento. "Drummond não opera por si mesmo faz anos. Tem camadas. Tem homens de frente. Tem advogados que parecem legítimos porque em parte são. Tem ONG, tem escola de samba, tem boteco, tem imóveis. A estrutura é quase orgânica. Cada pedaço funciona separado o suficiente para sobreviver sozinho se o resto for cortado."
CAPÍTULOS
"Eu sei," disse Beto. "Eu li os relatórios anteriores."
"Então você sabe que as tentativas de infiltração diretas falharam duas vezes."
"Porque foram pela via dos operadores dele. Homens próximos ao crime operacional."
"Exatamente." Renata virou para ele. Tinha olhos escuros e um jeito de olhar que não era julgamento mas era avaliação constante. "Desta vez a entrada é lateral. Pela família."
Ela empurrou uma foto pela mesa. Beto a olhou sem pegar imediatamente — hábito de interrogatório que tinha virado postura de vida.
A mulher na foto estava dançando. Não era uma foto posada — era capturada de algum ângulo de cima, talvez da arquibancada de um barracão, durante o que parecia ser um ensaio. Pele morena escura, cabelos crespos presos no alto, fantasia incompleta — só o tronco superior, os braços livres. Ela estava no meio de um movimento de giro e a foto tinha sido tirada no segundo em que o corpo estava completamente comprometido com aquele giro, nenhuma parte em equilíbrio, tudo em velocidade, e ainda assim havia uma precisão absurda em cada linha.
"Isabela Drummond," disse Renata. "Vinte e sete anos. Filha única de Antônio. Formada em educação física pela UFRJ. Dá aulas numa ONG de dança em Vila Isabel financiada pelo pai. Mora em Ipanema — apartamento que o pai comprou, mas ela paga o condomínio com o que gana. Mora sozinha. Tem uma amiga próxima, Cláudia Santos, porta-bandeira do Império da Coroa. Nenhum envolvimento documentado nos negócios do pai."
"Ela sabe?"
"Não há indicação de que sim. As escutas do apartamento dela — autorizadas, tudo dentro do processo — durante seis meses não produziram nada. Ela fala do pai como... o pai. Liga todo dia. Janta com ele às sextas."
Beto ficou olhando para a foto mais um segundo. Depois a colocou de volta na mesa, virada para Renata.
"A entrada," disse ele.
"O Império da Coroa está procurando patrocínio faz dois Carnavais. Drummond financia boa parte mas quer fachada de diversificação para o dinheiro que entra. Um homem de negócios informais com conexão na Mangueira — nome é Cláudio Ferreira, real, ele vai corroborar se questionado — chegando com proposta de patrocínio menor é plausível. Você entra pelo barracão. Você constrói contato com a escola. Eventualmente com Bela Drummond. Eventualmente com o ambiente próximo a Antônio."
"Eventualmente é quanto tempo?"
"Carnaval é em três semanas."
Ele fez as contas sem precisar fazer as contas. Três semanas para construir confiança suficiente para estar no círculo interno de uma mulher que provavelmente tinha um radar bom para gente que não pertencia ao lugar onde estava. Três semanas no período mais intenso do ano para o ambiente em que ele ia se infiltrar — ensaios diários, eventos, a adrenalina coletiva do Carnaval que tornava as pessoas mais abertas e ao mesmo tempo mais territoriais.
"E se ela não for a entrada?" perguntou ele. "Se Drummond mantiver os negócios completamente separados da filha?"
"Então aprendemos mais sobre como o esquema funciona de dentro de um dos seus braços mais legítimos." Renata fechou a pasta. "Mas eu acho que ela é a entrada. Não porque ela sabe algo — mas porque Drummond tem um ponto fraco, e o ponto fraco tem o nome dela."
Beto levantou e pegou a pasta. Pesava o que pesava — doze anos, duas vidas destruídas que ele sabia de memória sem precisar consultar, e provavelmente mais que isso que ainda não tinha sido contabilizado.
Diego tinha vinte e dois anos quando morreu. Não era do tráfico. Era do jeito que a maioria das mortes no Complexo não eram do tráfico — era de estar no lugar errado, de saber de algo que não devia saber, de ser cobrado por dívida de outrem. O nome de Drummond estava no fio que levava ao nome que levava ao homem que dera a ordem. O fio era longo. Era o tipo de fio que alguns investigadores chamavam de improvável em corte. Beto chamava de suficiente.
Doze anos. Ele tinha esperado doze anos para ter uma pasta com aquele peso na mão.
"Beto." A voz de Renata o alcançou na porta. Ele se virou. Ela tinha aquela expressão de quando ia dizer algo que não era diretamente sobre o trabalho mas que era diretamente sobre o trabalho. "Você tem doze anos nisso. Que é exatamente por que você é o melhor pra essa operação e exatamente por que você precisa ter cuidado."
"Com o quê?"
"Com a diferença entre estar comprometido com a operação e estar comprometido com o resultado que você quer pessoalmente." Ela falou sem acusação. Era avaliação. "Eles não são sempre a mesma coisa."
Ele não respondeu porque não tinha o que responder que não fosse uma mentira ou uma discussão, e ele não tinha tempo para nenhum dos dois.
O trem para o Rio partia às 21h da rodoviária ferroviária. Eram 15h02.
Ele tinha seis horas para existir como Sebastião Vargas, delegado federal, antes de começar a existir como Beto do Rio, homem de negócios informais, com cartão de visita que ele mesmo tinha escolhido — papel reciclado, fonte simples, sem exagero, porque exagero era o erro de gente que não sabia de onde estava tentando parecer vir.
No metrô de volta para o hotel onde tinha deixado a mala, ele abriu a pasta uma vez só e tirou a foto de Bela Drummond. Ficou olhando para ela por um tempo que não cronometrou.
O movimento de giro. O corpo completamente comprometido.
Ele dobrou a foto ao meio e colocou no bolso. Não no bolso da pasta — no bolso da calça. Era um erro operacional e ele sabia. Você não carrega o alvo no bolso do lado do corpo. Você mantém distância física e psicológica porque distância é o que mantém o julgamento limpo.
Ele guardou assim mesmo.
O papel no bolso quando embarcou no trem às 20h58 não era a passagem — essa estava no app do celular, como qualquer pessoa normal. Era a lista das evidências que ainda precisava: transações entre a conta da ONG e as contas de fachada de Drummond, testemunho de pelo menos um operador que pudesse ser virado, documentação física de repasse para os candidatos a vereador, e — o item mais difícil — prova direta de que Drummond sabia do que aconteceu com Diego e com os outros que tinham o mesmo fio.
O trem acelerou na escuridão em direção ao Rio.
Beto encostou a cabeça no vidro e fechou os olhos. Não para dormir — para memorizar o briefing uma vez mais, passo por passo, sem a pasta na frente. Era como ele funcionava. Cada detalhe até que virasse reflexo. Até que Beto do Rio soubesse tudo que Sebastião Vargas sabia sem ter que pensar.
Em algum ponto da viagem, sem querer, ele pensou no movimento de giro da foto.
Corpo completamente comprometido. Nenhuma parte em equilíbrio.
Precisão absurda mesmo assim.
Ele abriu os olhos e olhou para o escuro lá fora.
Três semanas.