CAPÍTULO 3Gratuito
Capítulo 3 — O Sarcofago de Pedra Negra
Helena esperou três dias antes de descer.
Três dias de trabalho meticuloso nos afrescos, três dias de noites inquietas no apartamento de Mala Strana, três dias tentando convencer a si mesma de que era uma profissional sensata e não uma personagem de romance gótico prestes a cometer o erro clássico de descer sozinha a um porao escuro.
No quarto dia, desceu.
Era uma quinta-feira. O ceu de Praga estava particularmente cinzento, e uma neve fina caia sobre a Cidade Velha como cinzas de algo que queimara em silêncio. Helena chegou a catedral ao amanhecer, verificou que estava sozinha, e empurrou a pedra atrás do anjo caido com as duas mãos. O mesmo gemido surdo. A mesma corrente de ar frio subindo das profundezas, trazendo aquele cheiro que não conseguia classificar — terra, mineral, algo orgânico e antigo.
Levava uma mochila com lanterna de cabeça, lanterna de mão reserva, celular com bateria cheia, uma garrafa de água, e o kit de ferramentas de restauracao — incluing o cinzel de aco que usava para remover argamassa. Não que esperasse encontrar algo para cinzelar. Mas o peso da ferramenta na mochila era reconfortante, como um amuleto pragmatico.
A escadaria em espiral era mais longa do que imaginara. Os degraus de pedra calcaria estavam gastos no centro por seculos de pés — não poucos pés ocasionais, mas trafico regular, repetido, como se muitas pessoas tivessem subido e descido aquele caminho por muito tempo. As paredes eram de pedra bruta, sem reboco, e a cada poucos metros havia nichos escavados na rocha onde, provavelmente, tochas haviam queimado algum dia.
Helena contou os degraus. Vinte. Quarenta. Sessenta. Estava descendo bem abaixo do nível da rua, abaixo dos alicerces da catedral, entrando no subsolo de Praga — aquela rede labirintica de tuneis, adegas, catacumbas e passagens que existia sob a cidade como um sistema nervoso esquecido.
No octogesimo degrau, a escadaria se abriu.
Helena parou. A lanterna de cabeça iluminou um espaço que fez seu estômago contrair — não de medo, mas de assombro. Era uma galeria subterranea com teto abobadado, talvez quatro metros de altura, construida com a mesma pedra da catedral mas de forma mais antiga, mais crua. Colunas grossas sustentavam os arcos, e entre as colunas, ao longo das paredes, havia nichos.
E nos nichos, ossos.
Cranios empilhados com a simetria perturbadora de quem arruma livros numa prateleira. Femures cruzados em padrões geometricos. Ossadas completas encaixadas nos nichos maiores, como se dormissem. Helena reconheceu o estilo — o ossuario de Sedlec, nos arredores de Praga, era famoso por sua arte macabra com ossos. Mas isso era anterior. Mais primitivo. Mais... respeitoso. Não havia decoração. Os ossos estavam ali não como ornamento, mas como guarda.
Helena caminhou pela galeria. Seus passos ecoavam como batidas de coração num peito de pedra. O ar era seco e gelado — perfeito para conservacao, percebeu com o automatismo de restauradora. Era por isso que os ossos estavam tao bem preservados. E era por isso que o que quer que estivesse la embaixo sobrevivera aos seculos.
A galeria se estreitava, depois se alargava novamente, e os nichos de ossos deram lugar a paredes lisas cobertas de inscricoes. Helena parou diante delas. Latim, cirilico, e uma terceira escrita que não reconhecia — angular, geometrica, como runas mas mais antigas. Os mesmos símbolos alquimicos dos afrescos, mas aqui sem a disfarce da iconografia religiosa. Puros. Brutos. Círculos dentro de círculos, pentagramas, serpentes, ampulhetas. E palavras que Helena conseguia ler:
"NOCTIS AETERNUM" "SANGUINIS CUSTOS" "HIC DORMIT PRINCEPS"
Aqui dorme o príncipe.
O coração de Helena batia tao forte que ela podia ouvir o sangue nos ouvidos. Avançou. A galeria terminava numa camara circular — uma rotunda subterranea com cupula baixa, sustentada por seis colunas dispostas em hexagono. O chão era de pedra diferente — escura, quase negra, polida como obsidiana. E no centro exato da camara, sobre uma plataforma elevada de três degraus, estava o sarcofago.
Helena soltou o ar que não percebera estar segurando.
Era enorme. Dois metros e meio de comprimento, um metro de largura, talvez oitenta centímetros de altura. Feito de uma pedra que Helena nunca vira — negra como noite sem lua, com veios que pareciam pulsar na luz da lanterna como veias sob pele translucida. A superfície era coberta de entalhes tao finos e detalhados que desafiavam a possibilidade de terem sido feitos por mãos humanas. Rostos — dezenas deles — emergiam da pedra em alto-relevo. Anjos e demonios, homens e mulheres, crianças e idosos, todos com expressões de algo que oscilava entre extase e agonia. No centro da tampa, uma figura masculina deitada como efígie tumular medieval, mãos cruzadas sobre o peito, olhos fechados. O rosto era de uma beleza austera e dolorosa.
Helena reconheceu o rosto. Era o mesmo do afresco la em cima — o homem de cabelos negros com a cicatriz de espada no torso.
Correntes de prata circundavam o sarcofago. Não prata moderna — Helena reconheceu o brilho fosco, a patina específica de prata medieval, trabalhada a mão, com elos grossos como dedos. Cada elo tinha um símbolo gravado. Treze correntes, treze selos.
Helena se ajoelhou ao lado do sarcofago. A pedra irradiava frio — não o frio normal de pedra subterranea, mas algo mais profundo, como se a temperatura emanasse de dentro, como se houvesse algo la dentro que fosse o oposto de calor.
Com mãos profissionais, limpou a poeira da superfície. Os entalhes eram ainda mais extraordinarios de perto. Cada rosto era único, cada expressão diferente. E entre os rostos, mais inscricoes — latim, cirilico, e aquela terceira escrita desconhecida. Helena tirou fotos. Dezenas de fotos, de cada ângulo, com a disciplina obsessiva que Ana Vasconcelos lhe ensinara.
— Documenta primeiro — sussurrava a voz da mãe na sua memoria. — Toca depois.
Helena documentou. E depois tocou.
A pedra era lisa como seda gelada. Os dedos de Helena deslizaram sobre os rostos entalhados, sobre as inscricoes, sobre as correntes de prata. Sentia uma vibracao quase imperceptível — não mecânica, mas orgânica, como o ronronar de um gato adormecido. O sarcofago vibrava. Como se algo dentro dele pulsasse num ritmo lento demais para ser coração mas constante demais para ser imaginação.
Helena alcou o cinzel da mochila. Queria examinar a juncao entre a tampa e a base, verificar se havia argamassa ou se era pressão mecânica. Com cuidado, inseriu a ponta do cinzel na fissura lateral.
A ferramenta escorregou.
O aco mordeu a palma da sua mão direita — um corte fino, agudo, imediato. Helena soltou uma exclamação e puxou a mão. Sangue. Um filete vermelho escorrendo da base do polegar, cruzando a palma, pingando.
O primeiro pingo caiu sobre o sarcofago.
Helena olhou, mais irritada com o descuido do que preocupada, já procurando o lenco no bolso para pressionar o corte. O sangue era visivelmente vermelho contra a pedra negra — um contraste quase artístico, como vermelhao sobre betume.
E então a pedra absorveu o sangue.
Helena congelou. Observou, incredula, enquanto o filete vermelho era sugado para dentro da pedra negra como água num solo ressequido. Não escorreu. Não manchou. Foi absorvido. A superfície do sarcofago onde o sangue tocara brilhou por um segundo — um pulso de luz avermelhada que correu pelas veias da pedra como um raio em camera lenta — e depois se apagou.
— O que...
Mais sangue caiu da mão de Helena. Outro pulso. Mais forte. As veias da pedra se iluminaram como um sistema circulatorio, e o brilho se espalhou do ponto de contato em ondas concentricas, alcançando cada um dos rostos entalhados, cada inscrição, cada corrente de prata. A camara inteira pulsou com luz vermelha.
Helena recuou. O lenco pressionado contra o corte, os olhos arregalados, o corpo inteiro vibrando com o instinto primordial de que algo estava muito, muito errado.
As correntes de prata começaram a tremer.
O som era quase inaudivel — um tinir metalico, fino, como sinos de cristal num terremoto distante. As correntes tremiam. Os elos se dilatavam. Os símbolos gravados brilhavam — primeiro prateados, depois vermelhos, depois brancos. Helena recuou mais, bateu com as costas numa coluna, e assistiu enquanto, uma a uma, as treze correntes de prata se rompiam.
Não quebraram. Desintegraram-se. Viraram po prateado que caiu sobre a pedra negra como neve artificial.
O sarcofago tremeu.
Helena deveria ter corrido. Cada instinto, cada molecula de bom senso, cada conselho sensato que já recebera na vida gritava para que corresse escadaria acima e nunca olhasse para tras. Mas Helena era filha de Ana Vasconcelos, e Ana Vasconcelos não fugia de coisas enterradas — desenterrava-as.
A tampa do sarcofago se moveu.
Um centímetro. Dois. Um som de pedra contra pedra que ecoou pela camara como um gemido de terra. Poeira de seculos se ergueu em nuvens finas. A tampa deslizou para o lado, lenta, inexoravel, empurrada de dentro.
E uma mão emergiu.
Cinzenta. Longa. Dedos que poderiam pertencer a um pianista ou a um cadaver — ossudos, elegantes, com unhas que pareciam garras retraidas. A mão agarrou a borda do sarcofago e apertou. A pedra rachou sob a pressão.
Helena não respirava.
A tampa caiu para o lado com um estrondo que sacudiu o po dos ossos nos nichos da galeria la atrás. E do interior do sarcofago, algo se ergueu.
Ele se sentou primeiro. O torso nu, cinzento como cinzas, coberto de po e teias e seculos de imobilidade. A pele estava ressecada como pergaminho velho, esticada sobre ossos proeminentes, mas enquanto Helena observava — incapaz de desviar o olhar, incapaz de mover um único músculo — a pele começou a mudar. Cor retornando como água enchendo um leito seco. Cinza se tornando marfim. Veias se tornando visiveis sob a superfície. Músculos se preenchendo, se definindo, como se o corpo estivesse sendo esculpido em tempo real por mãos invisiveis.
Ele abriu os olhos.
Prateados. Cinza-prateados como a lua de inverno sobre o Vltava, com pupilas que se dilataram na escuridão e encontraram Helena com a precisão de um predador que localiza a presa pelo cheiro do sangue.
O rosto era o do afresco. O mesmo rosto — maçãs do rosto altas, mandibula forte, labios que pareciam esculpidos para pronunciar sentencas irrevogaveis. Cabelos negros, compridos até os ombros, grudados ao craneo por seculos de sono. E a cicatriz, cortando o torso da clavícula esquerda ao quadril direito, branca sobre a pele que agora parecia marmore vivo.
Ele a olhou. Helena o olhou.
E então ele se moveu.
Foi tao rápido que Helena não viu. Um segundo estava dentro do sarcofago, no seguinte estava diante dela — não, sobre ela. A mão no pescoco, apertando com uma força que não era humana, erguendo-a do chão como se não pesasse nada. Os pés de Helena deixaram a pedra. O ar deixou seus pulmões. E o rosto dele estava a centímetros do seu — os olhos prateados agora escurecendo para vermelho, vermelho escuro como sangue arterial, e a boca se abria revelando caninos que não pertenciam a nenhuma anatomia humana.
Presas.
Helena lutou. Chutou, arranhou, tentou gritar. As mãos agarraram o braco dele — gelado, rigido como ferro. A fome nos olhos vermelhos era absoluta, sem pensamento, sem humanidade. Setecentos anos de jejum concentrados num único instinto: alimentar-se.
Ele a puxou contra si. A boca no pescoco dela, o halito gelado contra a pele, os caninos tocando a artéria que pulsava sob a carne. Helena sentiu a ponta das presas — nãa dor ainda, apenas pressão, a promessa da perfuracao.
E então o sangue dela tocou os labios dele.
O sangue que ainda escorria do corte na mão, que sujara a camisa, que respingara quando ele a agarrou. O sangue Antiqui.
Algo aconteceu.
Os olhos dele se arregalaram. O vermelho recuou como marea vazante, dando lugar ao prata, e no prata, Helena viu — como imagens projetadas numa tela — coisas. Florestas cobertas de neve. Torres de madeira em chamas. Uma mulher de olhos escuros sorrindo. Outra mulher num salao dourado, usando seda. Uma terceira mulher, mais velha, num leito de morte, segurando uma mão que não envelhecia. Seculos de dor comprimidos num único instante, transmitidos pelo sangue como uma linguagem mais antiga que qualquer idioma.
Ele a soltou.
Helena caiu no chão de pedra. Tossiu. Levou a mão ao pescoco — duas perfuracoes, rasas, sangrando levemente. Ele não completara a mordida. Parara.
O ser — o homem, o monstro, o que quer que fosse — recuou. Os olhos prateados estavam arregalados agora de algo que não era fome. Confusão. Horror. Dor.
Olhou para as próprias mãos. Olhou para Helena caida no chão. Olhou para o sangue nos seus labios.
E fez um som que Helena nunca esqueceria — um som de animal ferido, de homem acordando de um pesadelo para descobrir que o pesadelo e real.
Disse uma palavra. Uma única palavra, num idioma que Helena não falava mas que, pelo sangue que haviam acabado de compartilhar, entendeu com perfeita clareza.
— Prostite — disse ele em russo antigo.
Perdao.
E desapareceu na escuridão como se a própria escuridão o tivesse reclamado.
Helena ficou no chão da camara subterranea, sob a luz da lanterna que rolara para um canto, com as mãos tremendo e o pescoco sangrando e o sarcofago vazio ao lado, e soube — com a certeza irracional e absoluta de quem acabou de ter a realidade reescrita diante dos olhos — que o mundo que conhecia até aquele momento não existia mais.
E que o mundo verdadeiro tinha presas.
