
Sangue Eterno
Romance Fantasia / Paranormal
Helena Vasconcelos, restauradora de arte brasileira de 28 anos, e contratada para restaurar uma catedral abandonada em Praga. Nos subterraneos, seu sangue acidentalmente toca um sarcofago de pedra negra selado com simbolos alquimicos — e desperta Aleksandr Volkov, um vampiro…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — A Cidade das Torres Negras
A primeira coisa que Helena Vasconcelos notou ao descer do trem na Estação Central de Praga não foi o frio — embora o frio fosse brutal, um tipo de frio que não existia no vocabulário de uma mineira criada entre morros dourados e igrejas barrocas. Não. A primeira coisa que notou foi o cheiro. Pedra antiga, rio gelado, algo metalico que poderia ser neve ou poderia ser historia. O ar tinha gosto de seculos.
Puxou a mala com rodas emperradas pela plataforma e ajeitou o cachecol que comprara as pressas em Viena, quando percebeu que o casaco de la que julgava suficiente não era nem remotamente adequado para fevereiro no coração da Europa Central. Os cachos castanho-avermelhados escapavam do gorro de trico como vinhas rebeldes, e ela os empurrava para tras com os dedos marcados por anos de solventes e pinceis — mãos de restauradora, mãos que conheciam a textura de cada seculo pela aspereza da tinta.
Praha. Praga. A cidade das cem torres. A cidade dourada.
Mas não havia nada dourado naquela tarde de inverno. O ceu era um manto de chumbo derretido sobre os telhados, e os edifícios da Cidade Nova emergiam da neblina como fantasmas petrificados. Helena sorriu. Havia beleza naquilo — a beleza específica das coisas que se recusam a morrer.
Pegou um taxi. O motorista falou em tcheco, depois em alémão, e Helena respondeu em inglês entrecortado antes de mostrar o endereço no celular. Mala Strana. O bairro antigo abaixo do castelo, onde as ruas eram estreitas demais para o seculo vinte e um e as fachadas tinham cores desbotadas que um pintor renascentista invejaria.
— Turistka? — perguntou o motorista, erguendo uma sobrancelha no retrovisor.
— Restauradora — respondeu Helena. — Vim trabalhar.
Ele assentiu como se isso explicasse tudo e nada ao mesmo tempo.
O apartamento ficava no terceiro andar de um edifício do seculo dezessete, com uma escadaria de madeira que gemia sob cada passo como se protestasse contra a presença de mais um ser humano. A imobiliaria havia descrito como "charmoso". Helena traduziu mentalmente para "gelado, pequeno e com um banheiro que provavelmente viu a queda do Imperio Austro-Hungaro". Mas quando abriu a porta e viu a janela que dava para os telhados de Mala Strana, para as torres goticas da Cidade Velha além do rio, para a silhueta espectral do Castelo de Praga no alto da colina — perdoou tudo.
— Mãe ia adorar isso — murmurou para o apartamento vazio, e depois fechou a boca, porque falar da mãe em voz alta ainda doía como agulha em carne viva, mesmo quatorze anos depois.
Ana Vasconcelos. Restauradora de igrejas barrocas em Ouro Preto. Morta numa queda de andaime quando Helena tinha quatorze. Acidente. Todo mundo disse que foi acidente. Helena cresceu dizendo que foi acidente. Mas havia noites — noites como esta, em cidades estranhas, com o vento assobiando promessas incompreensiveis — em que uma parte dela sussurrava que acidentes não deixam perguntas sem resposta.
Desfez a mala com a eficiência mecânica de quem já morou em sete cidades europeias nos últimos cinco anos. Roupas na comoda. Materiais de restauracao na mesa. Livros empilhados no chão — Vasari, Cennini, um manual de conservacao de afrescos medievais com orelhas em todas as páginas. E o contrato, impresso e assinado, que a trouxera até aqui: a restauracao dos afrescos da Igreja de Sao Cipriano, uma catedral abandonada na Cidade Velha de Praga.
O contrato era estranho. Helena reconhecia a estranheza com a mesma certeza com que reconhecia uma camada de tinta seiscentista sob verniz vitoriano. A Fundação Havrda para Preservacao Histórica havia oferecido três vezes o valor de mercado, cobrido todas as despesas, e feito um único pedido incomum: que Helena trabalhasse sozinha, sem equipe, sem assistentes. Quando questionou, a resposta foi vaga — "sensibilidade dos materiais", "necessidade de discricao", "natureza única dos afrescos". Helena aceitou porque precisava do dinheiro, porque Praga era Praga, e porque afrescos medievais em catedrais abandonadas eram o tipo de coisa pela qual Ana Vasconcelos teria largado tudo.
Na manha seguinte, conheceu o Professor Emil Havrda.
Ele a esperava na porta da Igreja de Sao Cipriano como uma sentinela envelhecida — sessenta e cinco anos distribuidos num corpo magro e ereto, cabelos grisalhos cortados rente, olhos azuis que pareciam guardar mais do que revelavam. Usava um sobretudo escuro que o fazia parecer parte da própria arquitetura gótica, e quando apertou a mão de Helena, seus dedos estavam tao gelados quanto a pedra ao redor.
— Senhora Vasconcelos — disse ele em português surpreendentemente fluente, com um leve sotaque eslavo que suavizava as vogais. — Seja bem-vinda a Praga. E a Sao Cipriano.
— O senhor fala português — disse Helena, genuinamente surpresa.
— Estudei em Coimbra nos anos oitenta. — Ele quase sorriu. — Embora eu duvide que meu português tenha envelhecido bem.
A catedral era magnifica na sua decadência. Gótica tardia, seculo quatorze, com arcobotantes que se erguiam como costelas de um animal primordial. As janelas haviam perdido a maioria dos vitrais, e a luz de inverno entrava obliqua, cinzenta, iluminando o interior com a reverencia de quem visita um túmulo. O chão era de pedra gasta por seculos de joelhos devotos, e as colunas se elevavam até abobadas nervuradas cobertas de umidade e musgo.
E os afrescos.
Helena parou. Respirou. Sentiu as mãos formigarem.
Cobriam toda a abside — a parede curva atrás de onde teria sido o altar — e se estendiam pelas paredes laterais da nave. Mesmo sob camadas de sujeira, fuligem e negligencia de seculos, Helena podia ver: aquilo era extraordinário. Figuras de proporcoes quase bizantinas, com rostos de uma beleza perturbadora, olhos que pareciam seguir o observador. Anjos — não, não exatamente anjos. Figuras aladas, sim, mas com algo errado nas proporcoes. Belas demais. Crueis demais. Anjos caidos, talvez. Ou algo que nunca foi anjo.
— Meu Deus — sussurrou Helena.
Havrda a observava com atenção.
— Impressionante, não?
— E mais do que impressionante. Isso e... — Ela se aproximou, levantando a lanterna de mão. — Esses pigmentos. Lapis-lazuli, vermelhao, folha de ouro. Quem encomendou isso tinha uma fortuna. E o artista... Professor, esse não e um estilo que eu reconheca. Tem elementos goticos, mas a anatomia e sofisticada demais para o seculo quatorze. E esses símbolos...
Ela apontou para as bordas dos afrescos, onde a iconografia religiosa se dissolvia em algo diferente. Círculos concentricos. Triangulos invertidos. Serpentes devorando a própria cauda. Símbolos que não pertenciam a nenhuma tradição crista que Helena conhecesse.
— Alquimicos — disse ela. — Sao símbolos alquimicos misturados com a iconografia religiosa. Isso e... incomum.
— Muito — concordou Havrda, e algo na sua voz fez Helena olhar para ele. O professor não olhava para os afrescos. Olhava para ela. Com uma expressão que Helena, anos depois, reconheceria como medo.
— A senhora tem liberdade total para trabalhar — disse ele, recompondo-se. — O material que solicitou esta na sacristia. Peco apenas que mantenha discricao. Esta catedral tem... significado histórico. E ha pessoas que prefeririam que ela permanecesse esquecida.
— Que pessoas?
— Pessoas pacientes — disse Havrda, e não elaborou.
Helena passou o resto do dia examinando os afrescos. Metodica como sempre — fotografou cada secao, mapeou os danos, identificou as areas de descascamento e as infiltracoes. Mas a cada nova secao que iluminava com a lanterna, a sensação de estranheza crescia. Os rostos nas pinturas não eram genericos. Eram individuais, específicos, como retratos. E todos tinham os mesmos olhos — grandes, luminosos, com pupilas que pareciam absorver a luz em vez de refleti-la.
Olhos de predadores.
No final da tarde, quando a luz já não entrava pelas janelas e a catedral mergulhava numa escuridão prematura, Helena estava ajoelhada diante da parede norte, limpando delicadamente uma camada de fuligem com um cotonete embebido em solvente, quando sentiu algo sob os dedos. Uma irregularidade na parede. Não na pintura — na própria pedra.
Afastou-se. Iluminou. Havia uma fissura vertical, quase invisível, que corria do chão ao teto, parcialmente oculta pelo afresco de um anjo de asas negras. Não era dano estrutural — era regular demais, precisa demais. Uma junta. Uma emenda.
Uma porta.
Helena encostou a mão na pedra. Gelada. Mas havia algo mais — uma corrente de ar, fraca, vinda de dentro. O tipo de corrente que só existe quando ha espaço atrás de uma parede. Espaço que não deveria estar la.
O coração acelerou. Mãos de restauradora — mãos que haviam encontrado pinturas perdidas sob camadas de reboco, que haviam recuperado seculos de coisas que o mundo esquecera — essas mãos tremiam agora com uma urgência que ia além da profissão.
Atrás do anjo caido, havia uma passagem.
Helena olhou ao redor. A catedral estava vazia. Havrda havia partido horas atrás. O silêncio era tao denso que ela podia ouvir o próprio sangue pulsando nos ouvidos.
Deveria ligar para Havrda. Deveria documentar. Deveria seguir protocolo.
Empurrou a pedra.
A parede cedeu com um gemido surdo que reverberou pela nave como o suspiro de algo adormecido. Uma abertura se revelou — estreita, alta, escura como boca de lobo. O ar que saiu de dentro cheirava a terra umida, pedra milenar, e algo mais. Algo que Helena não conseguia identificar mas que fez os pelos da nuca se arrepiarem.
Algo antigo. Algo que não deveria estar ali.
Helena pegou a lanterna. Olhou para a escuridão que se abria diante dela como um convite — ou uma armadilha.
E deu o primeiro passo.
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