CAPÍTULO 3Gratuito
Mise en Place
Clara Monteiro fazia malas como quem montava pratos: com método, precisão e uma pitada de paranoia que ela chamava de "planejamento responsável".
A mala de roupas foi simples — peças minimalistas, cores neutras, nada que gritasse na câmera ou exigisse passar a ferro. Três calças de alfaiataria pretas. Cinco camisetas brancas idênticas. Dois conjuntos de moletom para os dias de folga, caso existissem. Roupas íntimas dobradas em rolinhos e organizadas por cor dentro de uma nécessaire que comprara especificamente para a ocasião, porque improvisar a organização de roupas íntimas dentro de uma mala era o tipo de caos que Clara recusava tolerar.
A mala profissional levou quarenta minutos a mais.
Sentada no chão do quarto, com os objetos dispostos à sua frente como instrumentos cirúrgicos, ela conferiu cada item contra a lista que escrevera no caderno de receitas. O estojo de facas — seis lâminas japonesas com cabo de madeira de nogueira, cada uma em seu compartimento acolchoado, afiadas na noite anterior com a pedra de amolar que trouxera de Paris. O jogo de bicos de confeitar em aço inox, numerados de 1 a 48, organizados em ordem crescente dentro de um porta-bicos de tecido que ela mesma costurara. O termômetro digital de precisão, calibrado no dia anterior. A espátula angular que era praticamente uma extensão da mão direita. Os anéis de acetato para montagem de sobremesas. E o caderno.
O caderno era insubstituível. Capa de couro marrom gasto, cantos dobrados, cheiro de baunilha — não por metáfora, mas porque Clara o guardava na gaveta do criado-mudo junto com uma vagem de baunilha do Taiti que perfumava tudo ao redor. Dentro, quinze anos de anotações: receitas herdadas do pai, criações do Le Cordon Bleu, experiências da Maison Délice, e nas margens, em letra miúda, os pequenos segredos que nenhum livro de gastronomia ensinava. "A calda de maracujá precisa de exatamente 2 min a mais em fogo baixo do que qualquer receita diz." "O chocolate temperado perdoa 0,5°C — depois disso, recomeça." "Pai dizia: a massa sabe quando você está com pressa."
Fechou a mala com o cuidado de quem lacra um cofre.
Às seis da manhã, o apartamento em Perdizes já estava arrumado para a ausência — geladeira limpa, lixo descartado, plantas entregues à vizinha do andar de baixo com instruções escritas que incluíam horários de rega, tipo de adubo e a orientação expressa de "não conversar com as suculentas, elas não gostam". A vizinha achou que era piada. Não era.
O táxi chegou às seis e quinze.
São Paulo ainda acordava quando saíram rumo a Alphaville. A cidade tinha aquela luz morna de início de manhã que transformava até os prédios cinzentos em algo quase bonito — o sol se infiltrando entre as fachadas de concreto, dorando as copas das árvores na avenida, arrancando reflexos dos vidros dos carros parados no trânsito que, naquela hora, ainda era suportável.
Clara olhou pela janela e tentou sentir empolgação.
O que sentiu foi o mesmo que sempre sentia antes de qualquer situação nova: uma contração no estômago que não era exatamente medo, mas algo parecido — o desconforto de quem está prestes a entrar num ambiente que não pode controlar inteiramente. Era como abrir um forno pela primeira vez sem saber se o suflê cresceu ou desmoronou.
O celular vibrou. Luana.
*"TÔ VIBRANDO. Não literalmente. Ou talvez literalmente. Te mandei um compilado de vídeos dos outros participantes que achei online mas você provavelmente não vai assistir porque é teimosa. BRILHA MINHA CONFEITEIRA. Ah e se tiver alguém bonito lá pega o Instagram pra mim beijo"*
Clara bloqueou o celular sem responder. Amava Luana com a intensidade possível entre duas pessoas que eram opostas em praticamente tudo, mas naquela manhã precisava de silêncio. Silêncio era o ingrediente que precedia qualquer grande execução.
O estúdio Maison Délice ficava num complexo em Alphaville que parecia ter sido projetado por alguém que viu muitos filmes sobre televisão americana e decidiu replicar em solo paulista. Portaria com cancela automática, galpões enormes disfarçados de prédios elegantes, estacionamento com vans de produção e cabos grossos como cobras correndo pelo asfalto.
Clara desceu do táxi com as duas malas e um avental dobrado sobre o braço — o avental branco de linho com seu nome bordado em azul-marinho, presente de formatura do Le Cordon Bleu. Nunca o usava em serviço, porque linho manchava e bordado era impraticável numa cozinha profissional. Mas era bonito. E se ia aparecer na televisão, pelo menos apareceria com um avental que dissesse algo sobre quem ela era.
— Clara Monteiro? — Uma produtora com headset e prancheta materializou-se diante dela como se brotasse do asfalto. — Sou Amanda. Bem-vinda ao Amor & Sabor! Posso pegar suas malas?
— Pode pegar a de roupas. A de facas eu carrego.
Amanda fez uma expressão que sugeria que ninguém antes dissera "a de facas eu carrego" como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— Claro. Por aqui.
O interior do estúdio era maior do que Clara esperava. O espaço principal — onde aconteceriam as provas — era uma cozinha aberta com seis bancadas duplas, cada uma equipada com fogão industrial, forno de convecção, batedeira planetária, e um set de utensílios básicos que Clara avaliou com um olhar rápido e catalogou mentalmente como "aceitável". Acima, refletores potentes que transformavam tudo em palco. Nas laterais, câmeras sobre trilhos, monitores de retorno, técnicos com walkie-talkies e aquele zumbido elétrico permanente que estúdios de televisão exalam — uma energia nervosa, artificial, como cafeína convertida em atmosfera.
O aroma era estranho. Uma mistura de produto de limpeza industrial, madeira nova e algo que Clara identificou como baunilha sintética — o tipo usado em velas aromáticas, não em confeitaria. Seu nariz protestou silenciosamente.
Levaram-na para a área de convivência — um lounge com sofás, uma mesa comprida, café que cheirava razoável e uma parede inteira de vidro que dava para um jardim interno com palmeiras que pareciam falsas mas, ao toque, eram reais. Ali, os outros participantes já se acomodavam.
Clara os avaliou com a rapidez discreta de quem está acostumada a ler uma cozinha em segundos. Dois casais no sofá — um par jovem e fotogênico que tinha a postura ensaiada de quem vive de rede social, e um casal mais velho, talvez cinquenta anos, de mãos dadas com a naturalidade confortável de décadas juntos. Uma mulher loira de sorriso largo conversava com um homem de avental já vestido, ambos com energia de quem tinha acabado de tomar três expressos. E mais adiante, uma dupla que Clara não conseguiu categorizar — ela, alta e atlética, com rabo de cavalo apertado e um sorriso que parecia mais dentes do que emoção; ele, asiático, calado, com a expressão concentrada de quem preferia estar em qualquer outro lugar.
Beatriz Santos e Thiago Ferraz, ela descobriria depois. O casal favorito de todo mundo.
— Todo mundo reunido? — A voz veio de trás, amplificada por um microfone de lapela que transformava cada sílaba em evento. Clara se virou.
Valentina Duarte entrou no lounge como quem entra num palco — o que, pensando bem, era exatamente o que fazia. Ex-atriz de novela das sete, agora apresentadora do Canal Sabores, Valentina tinha o tipo de presença que preenchia cômodos antes mesmo de falar. Vestido vermelho justo, saltos que pareciam desafiar a engenharia, cabelos negros numa cascata de cachos que nenhum umidificador de estúdio seria capaz de domar. E um sorriso. O sorriso. Amplo, branco, calibrado por anos de close-up em câmeras de alta definição.
— Meus amores! — Abriu os braços como se fosse abraçar o grupo inteiro de uma vez. — Eu sou Valentina Duarte e é um prazer IMENSO recebê-los na primeira temporada de Amor & Sabor!
Aplausos tímidos. Valentina não pareceu notar.
— Vocês foram selecionados entre centenas de candidatos porque representam o melhor da gastronomia brasileira. Cada casal traz uma história, uma química, uma forma única de cozinhar juntos. E durante as próximas semanas, vocês vão provar que amor e comida são a mesma coisa: dão trabalho, exigem dedicação, e quando ficam prontos... — pausa dramática — são irresistíveis.
Clara cruzou os braços. A frase era claramente ensaiada e provavelmente escrita por alguém que comia miojo no escritório, mas tinha que admitir: Valentina sabia vender.
— Agora — Valentina se moveu pelo lounge como uma leoa patrulhando o território —, alguns de vocês vieram em casal. Maravilhoso. Outros foram escalados solo, e a produção encontrou um parceiro perfeito para vocês. Perfeito. — Repetiu a palavra com o prazer de quem saboreia um ingrediente proibido. — Vamos às apresentações!
Os casais foram chamados um a um. O casal jovem e fotogênico — Mariana e Lucas, ambos chefs de um restaurante em Curitiba, casados há dois anos, energéticos, apaixonados, o tipo de casal que posta foto de brunch no Instagram. O casal mais velho — Seu Jorge e Dona Carmem, ele churrasqueiro, ela quituteira, trinta anos de casados, um acalma o outro. A dupla loira-e-avental: Paula e Ricardo, food truck em Floripa, terminavam as frases um do outro.
Beatriz e Thiago foram apresentados com ênfase especial. Bia sorriu para a câmera com a naturalidade de quem faz isso quinze vezes ao dia para seus dois milhões de seguidores. Thiago acenou com a cabeça como quem pede desculpas por estar ali.
— E agora — Valentina se virou diretamente para Clara, e algo na expressão dela mudou. Uma centelha. Divertimento. — Clara Monteiro. Chef patissière. Nossa representante da alta confeitaria.
Clara assentiu com a economia de movimento que era sua assinatura.
— Clara, seu parceiro foi selecionado pela produção. Alguém com um perfil gastronômico... complementar ao seu. — A mesma palavra que Renata usara. Clara começou a desconfiar. — Vamos conhecê-lo?
A porta lateral se abriu.
E Clara Monteiro experimentou algo que não sentia desde a última vez que abrira um forno e encontrara um suflê desmoronado: a sensação visceral de que algo tinha dado espetacularmente errado.
Ele entrou como entrava em qualquer lugar — sem cerimônia, sem consciência do espaço que ocupava, como se o mundo inteiro fosse o balcão do boteco e todo mundo ali fosse cliente regular. Camiseta preta (nova, pelo menos), bermuda cargo, tênis surrado. Mochila num ombro só. Barba de três dias que parecia permanente, cabelo que não via pente desde o governo anterior. E aquele sorriso. A covinha do lado esquerdo. Os ombros largos de quem carregou engradado demais.
Renato Oliveira.
Nato.
A cozinha com purpurina.
Seus olhares se cruzaram como duas lâminas. O dele se arregalou — surpresa genuína, seguida de um reconhecimento que percorreu o rosto inteiro como uma onda, terminando naquele sorriso nervoso que era metade charme e metade mecanismo de defesa.
— Oi — ele disse. E depois, porque Renato Oliveira era incapaz de ler uma situação e agir de acordo com o bom senso, acrescentou: — Oi, purpurina.
O lounge inteiro sentiu a temperatura cair.
Clara não se moveu. Não piscou. Não respirou visivelmente. Fez o que sempre fazia diante do caos — congelou tudo por fora enquanto por dentro cada engrenagem girava em velocidade máxima, calculando opções, saídas, a distância exata até a porta mais próxima e a viabilidade legal de rescindir um contrato de reality show por motivo de "incompatibilidade homicida com o parceiro designado".
— Vocês se conhecem! — Valentina não conteve o deleite. Seus olhos brilhavam com a intensidade de alguém que acabou de encontrar a cereja do bolo — literalmente e figurativamente.
— A gente se esbarrou uma vez — Nato disse, rápido demais.
— Uma vez foi suficiente — Clara respondeu, e cada palavra tinha o peso de um cutelo.
Valentina olhou de um para o outro como quem assiste a um rally de tênis onde a bola é feita de nitroglicerina.
— Que maravilha. Química instantânea.
Clara quis dizer que não era química, era combustão espontânea, e que combustão espontânea geralmente terminava em incêndio, mas as câmeras estavam gravando e ela não ia dar ao Canal Sabores a satisfação de uma explosão pública.
— Com licença — disse, com a polidez gélida que reservava para situações em que a alternativa era violência. — Preciso de um momento.
Saiu do lounge com passos medidos, atravessou o corredor, encontrou o banheiro dos participantes, entrou, trancou a porta, abriu a torneira para abafar o som e então — só então — disse tudo que precisava dizer.
O repertório foi extenso, variado e incluiu termos em português, francês e um em italiano que aprendera com uma colega de Le Cordon Bleu e que traduzido livremente significava "que a culinária dos seus ancestrais azede".
Três minutos depois, lavou o rosto, secou com papel toalha, ajeitou o coque que não precisava ser ajeitado e olhou para o próprio reflexo no espelho. Olhos cor de mel. Mandíbula travada. A cicatriz entre polegar e indicador.
— Você consegue — disse para o espelho. — É um reality show. Você já sobreviveu ao Le Cordon Bleu, a Chef Laurent gritando em francês, e àquela vez que o forno pifou no meio de um serviço de trezentos macarons. Você sobrevive a um idiota de chinelo.
O espelho não respondeu, mas também não discordou.
Quando voltou ao lounge, Nato estava conversando com Seu Jorge sobre técnicas de churrasco com a desenvoltura de quem fazia amigos na fila do pão. Clara foi direto para ele e, com a mão no cotovelo num gesto que, para as câmeras, poderia passar por familiaridade entre parceiros, o puxou para o canto.
— Escuta aqui — murmurou, baixo o suficiente para que os microfones de lapela captassem ruído branco. — Eu não sei que tipo de brincadeira a produção está fazendo, mas eu não vim aqui para ser humilhada na televisão nacional.
— Calma, Clara, eu também não sabia-
— "Purpurina"? Sério? Na frente de todo mundo?
Nato teve a decência de parecer genuinamente arrependido. A mão direita foi para a nuca — gesto que ela armazenou inconscientemente como "ele faz isso quando se sente culpado".
— Saiu sem pensar. Reflexo.
— Reflexos podem ser controlados. É questão de disciplina.
— Olha, eu juro que não fazia ideia que ia ser você. Se soubesse-
— Se soubesse, o quê? Teria lavado a camiseta? Calçado um sapato?
Ele olhou para os próprios tênis. Depois para ela. E fez algo que Clara não esperava: parou de sorrir.
— Se soubesse — disse, e a voz tinha um tom diferente, sem piada, sem charme forçado —, teria pedido desculpas antes. Pelo que eu falei naquele jantar. Foi imbecil. Eu sei que confeitaria não é cozinha com purpurina. Eu soube na hora que falei. Mas eu estava nervoso e quando eu fico nervoso eu falo besteira e quando eu falo besteira eu dobro a aposta em vez de recuar, e isso é um defeito horrível que eu reconheço.
Clara abriu a boca para responder. Fechou. Abriu de novo.
— Isso foi... inesperadamente maduro — admitiu, com a relutância de quem oferece um elogio como quem entrega o último pedaço de bolo.
— Eu tenho meus momentos.
— São raros, pelo que eu pude observar.
— Mas memoráveis.
Ficaram ali, no canto do lounge, com aquele silêncio esquisito entre duas pessoas que se conhecem mal o suficiente para não saber o que fazer com a informação nova. Clara ainda estava furiosa, mas era uma fúria que perdia temperatura rápido demais para o conforto — e isso, em si, era irritante.
— Eu preciso desse prêmio — disse, e a frase saiu mais honesta do que pretendia.
— Eu também.
Olharam-se. Pela primeira vez, sem hostilidade. Sem defesas erguidas. Apenas duas pessoas num estúdio de televisão que precisavam de algo que nenhuma das duas podia conseguir sozinha.
— A gente precisa funcionar junto — Clara disse. — Pelo menos na frente das câmeras.
— Eu sei cozinhar, Clara. De verdade. Não sou só coxinha e piada.
— Isso ainda está por provar.
— Então me dá a chance.
A produtora Amanda apareceu no corredor, headset crepitando, fazendo gestos urgentes para que voltassem ao set.
Clara respirou fundo. O ar do estúdio ainda cheirava a baunilha sintética e produto de limpeza, mas agora havia algo mais — o cheiro de café que alguém esqueceu no fogo, levemente queimado, levemente amargo, o tipo de cheiro que lembra que nem tudo sai como planejado e que, às vezes, o queimado é o que dá caráter.
— Sem chinelo nas provas — disse, como condição.
— Feito.
Voltaram ao lounge. Valentina os recebeu com um sorriso que tinha a inocência de uma raposa num galinheiro.
— Resolveram as diferenças, meus amores?
— Estamos trabalhando nisso — Clara respondeu.
— Perfeito. Porque a primeira prova é amanhã. — Valentina se virou para o grupo todo, braços abertos, energia de apresentadora no máximo. — Descansem, conheçam o espaço, acomodem-se nos apartamentos. Amanhã, às sete da manhã, a cozinha abre. E ninguém está seguro.
O grupo se dispersou. Clara pegou suas malas. Nato pegou sua mochila — uma mochila, só uma, para semanas de gravação, o que dizia tudo sobre a diferença entre eles.
— A gente se vê amanhã, então — ele disse.
— Sete horas. Não se atrase.
— Vinte e três minutos. Eu sei. Eu lembro.
Clara quase — quase — deixou escapar algo que poderia ter sido um meio sorriso. Conteve a tempo. Virou-se e saiu, malas arrastando pelo chão polido, avental de linho sobre o braço, postura de quem tem tudo sob controle.
Num monitor de segurança nos bastidores, a imagem granulada mostrava o lounge vazio e, no canto inferior direito, a sala de controle onde Hugo Takeda assistia tudo. Quarenta anos, camisa preta, óculos de armação grossa, a expressão de um homem que enxerga pessoas como peças de xadrez e acabou de encontrar a jogada perfeita.
Ele sorriu.
Não o sorriso de Valentina — teatral, expansivo, generoso. O sorriso de Hugo era fino, contido, o sorriso de quem calcula probabilidades.
— Isso — disse para a tela, para ninguém, para si mesmo — vai dar audiência.
