
Receita para o Desastre
Comédia Romântica
Clara Monteiro é chef patissière, perfeccionista e obcecada por controle. Renato "Nato" Oliveira é dono de boteco, autodidata e alérgico a regras. Os dois já tiveram o pior encontro da história — e agora a produção de um reality culinário…
CAPÍTULO 1
O Convite
O envelope chegou numa terça-feira, escondido entre boletos e um panfleto de dentista. Clara quase o jogou no lixo junto com o resto — teria jogado, se não fosse o papel grosso, cor de creme, com um selo dourado que parecia excessivo demais para ser propaganda. O tipo de envelope que tentava dizer algo antes mesmo de ser aberto.
Ela o deixou sobre a bancada da cozinha entre um pote de farinha de amêndoas e uma forma de silicone, e foi terminar de limpar os bicos de confeitar que estavam de molho na pia. A água morna corria entre seus dedos, levando restos de chantilly por entre as cerdas da escova, e o cheiro de manteiga que impregnava o avental — o cheiro que há quinze anos era a primeira coisa que sentia ao acordar e a última antes de dormir — lhe dava a mesma sensação de sempre: ordem. Previsibilidade. Controle.
Só abriu o envelope quando já estava de pijama, com uma xícara de chá de camomila na mão e os pés descalços apoiados no braço do sofá. O apartamento em Perdizes era pequeno — sala, quarto, cozinha com espaço justo para duas pessoas que não se gostassem muito — mas era dela. Cada superfície limpa, cada livro de gastronomia em ordem alfabética na estante, cada pano de prato dobrado em retângulo preciso. Clara Monteiro não colecionava bagunça.
O convite era impresso em tipografia elegante, com aquele tipo de fonte que restaurantes caros usam quando querem justificar cobrar oitenta reais por uma entrada.
*Amor & Sabor — A competição culinária que vai temperar seu coração.*
Clara fechou os olhos. Abriu. Releu.
*Temos o prazer de convidá-la para participar da primeira temporada de Amor & Sabor, o novo reality show do Canal Sabores. Seis casais. Doze episódios. Uma cozinha. O casal vencedor receberá um investimento de R$ 500.000 para o empreendimento gastronômico dos seus sonhos.*
Meio milhão de reais. A cifra piscou na sua cabeça como o timer de um forno.
Largou o envelope no sofá como se queimasse e pegou o celular. Precisava ligar para alguém sensato. Alguém com os pés no chão. Alguém que diria "não aceita, é armadilha, reality show é a morte da dignidade profissional".
Ligou para Luana.
Erro tático.
A ligação caiu na caixa postal depois de três toques, mas trinta segundos depois chegou um áudio de WhatsApp. Sete minutos e doze segundos. Clara já sabia que seria uma viagem sem escalas pelo turbilhão que era a mente de Luana Reis.
*"CLARA MONTEIRO. Não. Me. Diz. Que. Você. Recebeu. Eu acabei de ver no grupo de social media do mercado gastronômico que o Canal Sabores tá escalando gente e JURO por tudo que é mais sagrado que se você me disser que recebeu convite e tá pensando em recusar eu vou na sua casa agora são dez e meia da noite eu não me importo Clara escuta EU TRABALHO COM ISSO eu sei que reality parece coisa de gente desesperada mas não é mais 2015 tá ok isso aqui é conteúdo é visibilidade é meio milhão de reais MEIO MILHÃO você tem ideia do que isso significa pra sua confeitaria SUA confeitaria Clara aquela que você me mostrou o projeto no guardanapo naquele bar horrível em Pinheiros quando tava bêbada de caipirinha e chorou falando que queria um lugar que fosse seu e aí eu chorei também e o garçom trouxe guardanapo extra enfim o ponto é NÃO RECUSA eu te conheço você vai arranjar uma desculpa tipo 'ah Luana reality show é entretenimento vulgar' e eu vou te dizer que sabe o que é vulgar é você ser a melhor confeiteira que eu conheço e ficar fazendo macaron pra restaurante dos outros pro resto da vida me liga tá EU TE AMO tchau ah e leva aquele avental bordado fica lindo na câmera beijo"*
Clara ouviu o áudio inteiro com a xícara de camomila suspensa no ar, sem beber um gole.
Meio milhão de reais.
Sua confeitaria.
O projeto vivia dentro de uma pasta no computador, meticulosamente organizado em planilhas, moodboards e projeções financeiras. Tinha nome — "Pétala" —, tinha cardápio conceitual, tinha até a cor exata do ladrilho hidráulico que queria no piso. O que não tinha era dinheiro. E o banco não financiava sonhos de confeiteiras de vinte e nove anos sem patrimônio, por mais que seus macarons de framboesa com rosas fossem absurdamente perfeitos.
Levantou-se do sofá e andou até a janela. São Paulo pulsava lá embaixo como sempre — buzinas distantes, o cheiro de chuva recente subindo do asfalto, luzes amarelas de apartamentos onde outras pessoas tomavam decisões menos dramáticas sobre suas vidas.
Voltou para o envelope. Leu a parte em letras menores.
*A competição reunirá seis casais — reais ou formados pela produção — em desafios culinários semanais. Os participantes conviverão no estúdio Maison Délice, em Alphaville, durante toda a temporada. A inscrição inclui acomodação, alimentação e uma ajuda de custo semanal.*
Casais.
A palavra ficou atravessada como uma espinha de peixe. Clara não estava em um casal. Clara não queria estar em um casal. Clara tinha uma relação perfeitamente satisfatória com seus bicos de confeitar e não precisava de mais nada.
Mas meio milhão.
Sentou-se no chão da cozinha — algo que fazia desde criança quando precisava pensar. O piso era frio sob as pernas, e ela encostou as costas no armário embaixo da pia, fechou os olhos e deixou a memória fazer o que fazia sempre que pensava em cozinha, em sonhos, em ter um lugar que fosse seu.
A cozinha do pai.
Não a cozinha profissional do restaurante Monteiro, com suas panelas de cobre e a brigada de cozinha gritando "saiu!" a cada prato. A outra cozinha. A de casa. A de antes.
Clara tinha nove anos e os pés não alcançavam o chão quando sentava no banquinho de madeira ao lado do fogão. A mãe estava viva, e a casa cheirava a alecrim porque Tereza Monteiro colocava ramos frescos em todos os cômodos — na sala, no banheiro, até no quarto de Clara, preso com fita adesiva no abajur, o que provavelmente era um risco de incêndio, mas ninguém pensava nessas coisas nos anos 2000.
O pai estava de avental — não o do restaurante, com o logo bordado, mas um velho, xadrez vermelho, que a mãe tinha comprado numa feira e que ele fingia detestar. Marcos Monteiro, o chef de uma estrela Michelin, cozinhando de avental xadrez numa cozinha com azulejo descascado.
— Presta atenção, Clara. — A voz dele era grave, pausada, do tipo que não precisava de volume para ser obedecida. — Você não olha pro relógio. Você olha pra massa. Ela te diz quando tá pronta.
Clara esticava o pescoço para ver dentro da panela. A calda borbulhava, espessa, cor de âmbar, e o cheiro de açúcar caramelizado era tão doce que quase dava para mastigar o ar.
— E se eu não entender o que ela tá dizendo?
O pai sorriu. Marcos Monteiro sorria pouco, mas quando sorria, era como o sol aparecendo entre nuvens de inverno — raro, quente, e você guardava na memória porque não sabia quando viria o próximo.
— Aí você presta mais atenção.
Mais tarde, depois que a calda virou caramelo e o caramelo virou a cobertura de uma torta de maçã que Tereza fotografou com uma câmera descartável, Clara ficou na cozinha sozinha. Todo mundo já tinha ido para a sala. A louça estava na pia, restos de massa grudados no mármore, farinha no chão.
E Clara olhou ao redor e pensou, com a clareza absurda que crianças às vezes têm: *Um dia eu vou ter uma cozinha assim. Só minha. E vai cheirar a caramelo todo dia.*
Vinte anos depois, o cheiro de caramelo era uma lembrança, a mãe era uma ausência, e o pai era um homem que não cozinhava mais.
Clara abriu os olhos. O piso da cozinha ainda era frio, mas agora havia algo quente no peito — aquele tipo de calor que vem de decisões que você sabe que vai se arrepender, mas toma mesmo assim, porque a alternativa é ficar parada, e ficar parada é a única coisa que Clara Monteiro não sabia fazer.
Pegou o celular. Mandou um áudio de treze segundos — recorde pessoal de brevidade:
*"Lu. Eu aceito. Mas tenho condições."*
A resposta veio em forma de vinte e sete emojis de fogo e um áudio que ela decidiu não ouvir naquela noite.
Na manhã seguinte, Clara ligou para o número no envelope. Atendeu uma produtora chamada Renata que falava rápido demais e ria depois de cada frase, como se tudo fosse levemente engraçado.
— Clara Monteiro! A gente estava torcendo pra você aceitar. Sou Renata, produtora executiva do Amor & Sabor. Podemos conversar sobre os detalhes?
— Podemos. Eu tenho condições.
— Claro, claro! Pode falar.
Clara tinha anotado numa lista — naturalmente, porque era isso que pessoas organizadas faziam antes de negociar com desconhecidos que riam demais.
— Primeira: eu escolho meus próprios utensílios. Levo minhas facas, meus bicos, meu termômetro. Não trabalho com equipamento alheio.
— Pode ser.
— Segunda: não faço confessionário chorando. Se vocês quiserem drama fabricado, procurem outra pessoa.
Renata riu. — A gente quer autenticidade, Clara.
Clara duvidou profundamente, mas continuou.
— Terceira: preciso de espaço de treino individual. Pelo menos uma hora por dia. E quarta — fez uma pausa para respirar, porque essa era a que importava —: eu preciso de garantia contratual de que, independentemente da eliminação, terei direito a uma contrapartida profissional. Nem que seja visibilidade e contato com investidores. Eu não vou parar minha carreira para virar meme de internet sem nenhuma garantia.
Um silêncio na linha. Renata parou de rir.
— Clara, posso ser honesta?
— Prefiro.
— Você é exatamente o tipo de participante que a gente queria. Aceito todas as condições. A gente até ajusta o contrato. Mas tem um detalhe que eu preciso mencionar.
O estômago de Clara se contraiu. Detalhe. Nada que começa com "tem um detalhe" termina bem.
— Que detalhe?
— O formato do programa é de casais. E como você se inscreveu como participante solo, a produção selecionou um parceiro para você. Alguém do meio gastronômico, com perfil complementar ao seu.
— Complementar como?
Mais uma risada. Dessa vez, Clara poderia jurar que havia algo de nervoso nela.
— Digamos que... é alguém com uma abordagem culinária bem diferente da sua. A gente acredita que a dinâmica vai ser incrível para o programa.
Clara apertou o celular com tanta força que as pontas dos dedos ficaram brancas.
— Eu quero saber quem é.
— A revelação faz parte da dinâmica do primeiro episódio. Todos os participantes solo conhecem seus parceiros na chegada. É surpresa.
— Eu não gosto de surpresas.
— Eu sei. — Renata riu pela última vez. — É por isso que vai ser tão bom.
Clara desligou o telefone e ficou olhando para a tela preta por um longo tempo. O reflexo que a encarava tinha olhos cor de mel, lábios apertados e a expressão de alguém que acabara de assinar um contrato sem ler as letras miúdas.
Respirou fundo. Meio milhão. Sua confeitaria. A cozinha que cheirava a caramelo.
Ela conseguia lidar com um parceiro desconhecido. Ela conseguia lidar com qualquer coisa.
Havia apenas uma condição que importava de verdade — e não era nenhuma das que tinha ditado para Renata.
A condição era simples, silenciosa e intransferível: Clara Monteiro não perdia o controle. Nunca. Para ninguém.
Pegou o caderno de receitas que ficava na gaveta do criado-mudo — o caderno com capa de couro surrada que carregava desde o Le Cordon Bleu, com anotações em letra miúda e margens cheias de rabiscos — e abriu na última página em branco.
Escreveu no topo, com a caneta preta de ponta fina que usava para tudo:
*Amor & Sabor — Estratégia.*
E embaixo, em letras maiúsculas:
*NÃO DEIXAR NINGUÉM ATRAPALHAR.*
Sublinhou duas vezes.
Fechou o caderno, apagou a luz, e dormiu o sono inquieto de quem sabe que algo está prestes a mudar — mas ainda acredita, com a teimosia cega dos perfeccionistas, que é possível controlar a mudança.
Não era.
Porque havia uma condição que Renata não mencionou, que o contrato não previa e que o envelope cor de creme não anunciava com sua tipografia elegante:
Ela precisava de um parceiro.
E a produção já tinha escolhido um.
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