CAPÍTULO 3Gratuito
Uma Cidade que Não Termina
Capítulo 3 — Uma Cidade que Não Termina
Saí sozinha na segunda manhã.
Iara ainda estava dormindo — ela tem a capacidade, que nunca entendi completamente, de ajustar o ciclo de sono para qualquer fuso horário em menos de 24 horas, como um sistema operacional que reinicia com as configurações locais. Às oito da manhã ela estava dormindo. Eu estava acordada desde as cinco e meia olhando o teto do quarto e ouvindo o apartamento se tornar outro em lugares diferentes ao longo dos primeiros minutos de luz.
Peguei o caderno, a garrafa d'água, a câmera pequena que trouxe por hábito e raramente uso, e desci os três lances de escada com a chave que gira para o lado errado.
A Carrer de la Providència às oito da manhã tem barulho de gente que vai trabalhar e cheiro de café de padaria e sol que ainda está baixo, batendo de frente na calçada do lado oposto da rua. Virei à esquerda sem razão específica e comecei a caminhar.
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A primeira coisa que aprendi sobre Barcelona nessa manhã é que ela é menor do que São Paulo de uma forma que não é óbvia no mapa.
São Paulo tem 12 milhões de pessoas e você sente os 12 milhões em todos os lugares, na largura das avenidas, na quantidade de prédios, no peso do ar. Barcelona tem 1,6 milhão e você sente isso diferente — não é que é vazia, é que tem escala humana em lugares onde SP não tem. As calçadas do Gràcia são largas o suficiente para duas pessoas lado a lado com conforto. As ruas têm árvores. Os prédios têm o tamanho que faz as pessoas nas janelas do terceiro andar ficarem na mesma altura que os olhos de quem está na calçada.
Eu sou paulistana, cresci em Santo André que é parte da Grande SP, estudei na FAU que fica num campus grande e arborizado na Cidade Universitária, e ainda assim a escala do Gràcia me fez perceber que tinha uma tensão nos ombros que eu não sabia que estava carregando.
Soltei os ombros.
Continuei caminhando.
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Cheguei no Passeig de Gràcia por acidente geográfico — caminhei na direção que parecia ir para baixo (em direção ao mar, que eu não conseguia ver mas sabia que existia), e o Gràcia vai abrindo para o Eixample que vai abrindo para o Passeig. A diferença é imediata: do bairro de ruas médias com prédios de quatro andares, de repente o boulevard largo com árvores no canteiro central e os prédios que são os prédios modernistas.
Passei pela Casa Batlló devagar.
Tem uma qualidade na fachada da Casa Batlló que eu já tinha visto em fotos e que as fotos não transmitem: ela não tem superfície plana. É tudo curva e osso e escama e cor — azul e verde e cinza em cerâmica que brilha diferente dependendo do ângulo. O telhado tem aquela forma de dragão com telhas que parecem escamas iridescentes. Parei na calçada por um tempo longo, olhando.
Uma mulher com um grupo de turistas parou ao meu lado, falando em inglês para o grupo com o tom de guia que está repetindo a mesma frase pela quarta vez hoje.
— Gaudí said that straight lines are for men, curved lines are for God — ela disse.
Eu não disse nada porque não havia nada que eu precisasse dizer em voz alta. Mas pensei: tem alguma arrogância bonita em projetar um prédio como declaração teológica. E tem alguma coisa emocionante em um prédio que foi construído em 1906 e ainda consegue fazer uma estudante de arquitetura de 21 anos parar na calçada às 8h45 de uma manhã de setembro.
Desenhei um detalhe da fachada no caderno — a janela do segundo andar com as divisões ósseas, o que parece osso de clavícula em cerâmica. Não desenhei o prédio inteiro porque isso levaria mais tempo do que eu tinha para estar parada. Só o detalhe.
Continuei andando.
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A Sagrada Família ficou para o final da manhã sem planejamento.
Tomei café num bar que tinha aquelas cadeirinhas nas calçada e um garçom que não tentou falar inglês quando eu pedi o café em espanhol ruim, o que eu apreciei. O café era forte e o croissant que veio junto tinha a consistência certa — não a versão industrializada, mais densa e com manteiga de verdade. Escrevi no caderno enquanto comia: o endereço do bar, a hora, a qualidade da luz que batia no mármore branco das mesas redondas.
Depois peguei o metrô até a Sagrada Família.
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Não há jeito de descrever a Sagrada Família que não pareça inadequado depois que você a vê de verdade.
Eu tentei. Tenho esboços de tentativa no caderno, feitos nos primeiros vinte minutos em que fiquei parada na Plaça de Gaudí olhando para ela. Tem o esboço da fachada do Nascimento, com as figuras esculpidas que se acumulam sobre as torres em progressão vertical que nunca para. Tem um esboço das torres — oito das dezoito planejadas concluídas até agora, a torre central da nave ainda em construção. Tem um esboço que é só linhas tentando capturar o movimento geral da coisa, o sentido de que cada detalhe existe em serviço de um todo que você só consegue ver inteiro se ficar longe o suficiente.
Nenhum dos esboços é bom. São todos tentativas.
Depois de uns vinte minutos parada na praça, eu parei de esboçar e fiquei só olhando.
Setembro. Quase 30 graus. O sol direto em cima da praça fazendo a pedra das fachadas variar entre branco e creme e cinza dependendo da hora do dia. As guindastes que continuam a obra visíveis acima das torres já concluídas — ali está a construção em andamento, ali está o andaime que vai tirar de quadro quando a foto de divulgação for feita. Os turistas ao meu redor em dezenas de idiomas. Uma criança que estava tentando contar as torres e perdeu a conta no quinto.
Eu fico com a questão da escala por muito tempo.
Na faculdade, a gente aprende escala como conceito técnico: a relação entre a representação e o objeto real, a proporção humana nos espaços, como um corredor de 1,20m funciona e por que um corredor de 2,50m muda a experiência de estar nele. Mas existe outra escala que é mais difícil de ensinar, que é a escala do tempo.
A Sagrada Família começou em 1882. Tem 143 anos de construção. Gaudí morreu em 1926 sem vê-la terminada, atropelado por um bonde numa segunda-feira comum sem nenhuma pompa. Os arquitetos que continuaram depois dele trabalharam com os planos que existiam e as maquetes que restaram depois de um incêndio no estúdio de Gaudí em 1936 que destruiu boa parte da documentação. Existe um projeto para terminar em 2026. Pode ou não acontecer no prazo.
142 anos de construção. Uma geração inteira de arquitetos trabalhou nela sem ver o começo. Outra vai trabalhar nela sem ver o fim.
E mesmo assim a nave é usada. Tem missas. Tem concertos. Tem turistas. Tem crianças contando torres e perdendo a conta.
É uma coisa incompleta que funciona completamente.
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Fiquei lá até o meio-dia.
Desenhei por períodos e parei para olhar por outros. Circulei ao redor do prédio, que muda completamente dependendo de qual fachada você está vendo — a fachada do Nascimento tem aquela exuberância escultórica orgânica, a fachada da Paixão (Subirachs) tem uma austeridade cubista que quase não parece do mesmo prédio, como dois artistas que tiveram uma conversa sobre o mesmo tema e chegaram em lugares completamente diferentes.
Escrevi no caderno, embaixo de um dos esboços ruins:
*Isto é uma obra que nunca vai ter um arquiteto que pode dizer: eu fiz. Isso não parece que deveria funcionar como modelo de autoria. E no entanto é o prédio mais importante que eu já vi.*
Depois reli e parei no *nunca vai ter um arquiteto que pode dizer: eu fiz.*
Não é que nunca vai ter — é que já teve vários, e nenhum é o autor completo. É um prédio de processo. De continuidade. O que fica depois de cada geração não é a assinatura individual mas a acumulação de escolhas que se tornam estrutura.
Não sei exatamente o que fazer com esse pensamento ainda. Mas ele ficou.
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Na volta, andei até o Parc de la Ciutadella porque o mapa indicava que ficava na direção do Born e eu queria passar pelo Born, que eu tinha lido era um dos bairros mais antigos da cidade, com as ruas estreitas medievais ainda em parte intactas.
O parque estava cheio de setembro — famílias, estudantes, um grupo que praticava acrobacia numa das clareiras. Atravessei devagar. Olhei o lago. Desenhei mentalmente (o caderno já estava satisfeito por essa manhã) a cascata ao fundo, que é uma cascata monumental de 1888 que Gaudí ajudou a construir enquanto ainda era estudante, o que significa que Gaudí tem trabalho nessa cidade desde muito antes da Sagrada Família e ainda assim a Sagrada Família é o que fica quando você pensa nele.
Saí pelo lado do Born e andei pelas ruelas.
As ruas do Born têm paralelepípedos irregulares que fazem você andar de um jeito levemente ajustado, sempre consciente de onde está colocando o pé. Os prédios são de quatro, cinco andares, com janelas estreitas e sacadas de ferro. Há bares com cadeiras na calçada às duas da tarde, com pessoas bebendo cerveja e falando catalão e espanhol misturado, com aquela qualidade específica de almoço que não precisa terminar logo porque não há razão para terminar logo.
Olhei o mercado de Santa Caterina de passagem. O teto é uma ondulação colorida que parece improvável de cima e é exatamente o que deveria ser quando você está na calçada de baixo. Fiz uma anotação no caderno: *teto Santa Caterina — mosaico cerâmico, Enric Miralles 2005. A ondulação que muda de cor dependendo de onde você está. Como pode ser feio e bonito ao mesmo tempo dependendo da distância.*
Cheguei de volta no Gràcia às três da tarde.
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Iara estava acordada e tinha feito amizade com a vizinha do segundo andar, uma moça espanhola chamada Bea que fez intercâmbio em Amsterdam dois anos antes e queria saber tudo sobre o Brasil com o entusiasmo de quem coletava experiências. Elas estavam tomando café na sala.
— Ana, a Bea conhece todo mundo no bairro — Iara disse, com aquele tom de *veja que coisa boa encontrei.*
— Que ótimo — eu disse.
— Você foi onde? — Bea perguntou, em espanhol.
— Sagrada Família — eu disse, em espanhol que estava melhorando a cada hora porque não havia alternativa.
Bea fez aquela expressão que os barceloneses fazem quando turistas mencionam a Sagrada Família — não hostilidade, mas uma mistura de orgulho e ligeiro cansaço, como quando a cidade mais famosa da sua casa é também a que aparece em mais camiseta de souvenir.
— E o que você achou? — ela perguntou.
Eu pensei na resposta por um segundo.
— Que é um prédio que não precisa terminar para ser o que é — eu disse.
Bea me olhou de um jeito diferente. Depois disse: — Você vai gostar desta cidade.
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Naquela noite, no quarto, com o pátio lá fora, eu abri o caderno em página nova.
Não havia nada específico que eu queria desenhar. Só a sensação de que o dia havia sido mais do que eu esperava — não dramático, não de revelação com música de fundo, só aquela qualidade de um dia que entrou mais fundo do que o previsto.
Eu tinha vindo a Barcelona para descobrir se queria ser arquiteta. Essa era a versão racional da razão do intercâmbio. E naquela manhã em frente à Sagrada Família, com o esboço inadequado no caderno e o sol de setembro batendo direto na pedra, alguma coisa havia mudado sutilmente.
Não a resposta à pergunta. Só a qualidade da pergunta. Ela tinha ficado maior. Mais interessante. Menos assustadora de uma forma que ainda precisava de tempo para entender.
Escrevi no caderno: *Barcelona, dia 2. Ela não precisava terminar de ninguém específico para ser completa. Não sei ainda o que fazer com isso.*
Fechei o caderno. Olhei o teto.
Entendi, sem conseguir articular completamente ainda, que estar aqui ia ser diferente de uma forma que não cabia na lista de objetivos do formulário de intercâmbio.
E que isso era, provavelmente, a coisa exatamente certa.
