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Ana Luísa veio a Barcelona para descobrir se queria ser arquiteta. Encontrou um homem que a ensinou que a vida mais bonita pode ser a que ainda está sendo construída. Ana Luísa Braga tem 21 anos, uma bolsa Erasmus e…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — Antes de Ela Existir
O restaurante ainda está fechado quando Mateu arrasta as cadeiras do depósito para a calçada.
São sete da manhã. O Carrer del Rec tem aquela luz de setembro que chega rente ao chão, quase horizontal, como se o sol precisasse ganhar fôlego antes de subir de verdade. Mateu conhece essa luz desde os sete anos — a luz do Born de manhã cedo é uma das poucas coisas que não mudou enquanto o bairro mudava ao redor dele. Quando era criança, o mercado ainda funcionava como mercado de verdade. Agora é museu e atração turística e os turistas tiram foto de tudo, incluindo das cadeiras que ele está empilhando agora.
Ele para um momento com uma cadeira na mão. Olha para cima.
O céu de setembro em Barcelona tem uma cor específica — não é o azul claro de julho, que é quase branco de tanto calor, e não é o cinza molhado que vai chegar em novembro. É um azul médio, firme, com uma faixa de laranja ainda no horizonte que vai se apagando devagar. Mateu olha para essa faixa de laranja todos os dias e toda vez pensa na mesma coisa sem querer pensar: que é bonito. Que ele está aqui para ver.
Isso é novo. Antes do diagnóstico, ele não pensava assim. Bonito era bonito e pronto, não precisava de registro interno. Agora ele registra, sem querer, como se o cérebro estivesse fazendo backup automático.
Arruma a última cadeira e entra.
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O Soler 1987 é um restaurante de bairro que fingiu durante vinte anos não querer ser mais do que isso e eventualmente parou de fingir. O nome é o ano em que os avós de Mateu abriram a primeira versão, num local menor, duas ruas acima. Quando o avô morreu, a avó passou para a mãe. Quando a avó morreu, a mãe passou para o irmão mais velho, Arnau, na prática — mas Dolors ainda é quem decide o que entra no menu. Mateu trabalha aqui desde os quinze anos. Sabe onde fica cada utensílio, qual mesa balança se você não colocar o calço embaixo, que a torneira do banheiro masculino precisa de três voltas e meia para fechar de verdade.
CAPÍTULOS
A cozinha cheira a alecrim e a gordura antiga e ao tomilho que a mãe esfrega na madeira do balcão toda semana por razão que ninguém mais questiona. Mateu passa a mão no balcão ao entrar. Ritual antigo, automático.
— *Bon dia.* — A voz da mãe vem do fundo, onde ela já está com o avental, de costas para ele, reorganizando as prateleiras de especiarias em ordem que só faz sentido pra ela.
— *Bon dia,* mãe. — Ele pega o avental dele no gancho. — O Arnau disse que o fornecedor de azeite muda hoje?
— Disse. — Ela não vira. — Preferia ficar com o Domènech.
— Eu sei. Mas o Arnau...
— O Arnau administra. Eu sei. — A voz não tem ressentimento, só aquela tonalidade específica de mãe catalã que diz *eu não concordo mas entendo a ordem das coisas.* — Você comeu alguma coisa?
— Comi em casa.
Ela vira para olhar para ele. É um olhar rápido — dos pés à cabeça, o rosto, as mãos — o olhar de quem está avaliando algo que não consegue falar sem chorar e então treinou para fazer isso em menos de dois segundos. Dolors Soler faz esse olhar nele todos os dias. Mateu fingiu por um tempo não notar. Agora só deixa passar.
— Você comeu o quê em casa? — ela pergunta.
— Torrada e café.
— Mateu.
— Mãe. — Ele amarra o avental. — Estou bem. Comi.
Ela vira de volta para as especiarias. Fim da conversa, por enquanto. Assim que sempre foi — no Soler 1987, o amor tem a forma de verificar se você comeu e não insistir além de um ponto.
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Às oito, o Sapi aparece na janela.
Ele não entra — nunca entra antes de o restaurante abrir, não por cerimônia mas porque Dolors uma vez o encontrou comendo diretamente da panela de caldo às oito e quinze da manhã e ele preferiu não repetir o constrangimento. Fica na janela com um café da padaria da esquina e bate no vidro com o dedo.
Mateu levanta a persiana pela metade.
— Você está de folga hoje? — pergunta Sapi.
— De tarde. — Mateu apoia o cotovelo na janela aberta. — Por quê?
Sàpura Djibril tem 24 anos, um metro e oitenta e três de altura, e a capacidade específica de parecer completamente relaxado em qualquer situação, incluindo situações onde o relaxamento seria clinicamente absurdo. É técnico de som e trabalha com bandas locais e eventos pela cidade. Cresceu em El Raval, três quilômetros daqui, e chegou à vida de Mateu aos 16 anos por causa de uma briga de skate que nenhum dos dois começou.
— Estou fazendo som no Palau de la Música de tarde — diz Sapi. — Ensaio de câmara. Você quer vir depois que acabar?
— Talvez. — Mateu olha o céu que já está mais claro agora. — Tenho a consulta amanhã.
Sapi bebe o café. Não muda a expressão, mas tem uma qualidade de silêncio nele que significa que está prestando atenção em tudo.
— E você está...?
— Igual. — Mateu encolhe um ombro. — O ciclo continua. Semana que vem tem o hemograma de controle. Amanhã é só o Jaume querendo me ver antes dos resultados.
O *Jaume* é o Dr. Jaume Puig, oncologista do Hospital Clínic. Mateu começou a chamá-lo pelo primeiro nome há seis meses, não por familiaridade excessiva mas porque *o doutor Puig vai me dizer o quê desta vez* é uma frase que ele não consegue dizer sem a voz ficar diferente, e *o Jaume vai me dizer o quê desta vez* soa mais como qualquer outra coisa da vida.
— Quer que eu vá junto?
— Não. — Ele diz sem hesitar. — Fica com o ensaio.
Sapi não insiste. Esse é um dos motivos pelos quais Mateu ainda consegue conversar com ele sem querer mudar de assunto a cada três frases — Sapi aprendeu onde a linha fica e não pisa nela sem convite.
— Então te falo depois — diz Sapi. — A propósito, o Marc disse que você sumiu do grupo de mensagens.
— Não sumi. Silenciei.
— Por quê?
— Porque eles ficam mandando notícia de futebol às onze da noite.
Sapi ri — um som curto, genuíno, que Mateu conhece desde que tinham 16 anos e estavam deitados no chão de El Raval com skates quebrados e a sensação específica de ter sobrevivido a algo.
— Você está ficando velho — diz Sapi.
— Tenho 23 anos.
— Exato.
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A manhã passa como todas as manhãs de setembro.
O turismo de setembro é diferente do turismo de agosto — menos famílias, mais casais, mais pessoas que vieram especificamente para ver a cidade e não apenas para estar em algum lugar quente. Mateu prefere setembro. As pessoas de setembro olham para as coisas.
Ele serve café, serve torradas com tomate e azeite, serve o *pa amb tomàquet* que a mãe insiste em fazer do jeito correto — o pão esfregado no tomate, não o tomate cortado em cima do pão, diferença que para um turista é zero e para Dolors Soler é questão de identidade cultural. Ele concorda com a mãe nesse ponto específico. Tem coisas que você não muda só porque é mais fácil.
Entre o almoço e o meio da tarde, quando o movimento baixa, Mateu tira vinte minutos e senta no banco do corredor lateral com o caderno de esboços.
O caderno tem a capa preta gasta e foi comprado há dois anos. Quando comprou, ainda estava no primeiro ciclo e achava que dois anos seria mais do que suficiente para enchê-lo. Não encheu. Não por falta de tempo — por aquela coisa que acontece às vezes onde quanto mais você quer fazer algo, mais difícil fica começar. Os esboços que tem são bons. Ele sabe que são bons sem precisar de validação exterior, que foi uma das coisas que aprendeu e depois largou na Escola Massana: identificar o que é bom sem precisar de alguém dizendo que é.
Hoje abre numa página em branco e desenha a fachada do prédio em frente. Não há razão especial para esse prédio. É o prédio que está na frente.
Ele desenha devagar. As linhas dos balcões, a gelosia de ferro que está meio enferrujada no segundo andar, a janela do primeiro que tem uma planta que quase cai há três meses e nunca cai. Desenha sem calcular muito. A mão sabe o que o olho viu.
O relógio do avô marca 14h20. Ele olha para o relógio como faz várias vezes por dia — não para saber as horas exatamente, mas para aquele segundo de contato com o couro velho da pulseira. O avô Llorenç morreu quando Mateu tinha onze anos, de coisa totalmente não relacionada, de uma segunda-feira sem aviso prévio, e o relógio foi parar no pulso de Mateu porque era o único que tinha pulso pequeno o suficiente. Ele cresceu com o relógio. Às vezes parece que o relógio cresceu com ele.
A consulta é amanhã às dez.
Ele fecha o caderno sem pensar mais nisso. Não é que ignora — não ignora, nunca ignorou, o diagnóstico tem uma presença muito concreta para ser ignorado. É mais que aprendeu que existe um tamanho certo para pensar em determinadas coisas em determinados momentos. Às 14h20 de uma segunda-feira de setembro no corredor do restaurante da família, o tamanho certo para pensar na consulta de amanhã é esse: ela existe, está lá, vai acontecer. Pronto.
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À tarde, quando o turno termina, ele pega a jaqueta e sai.
O Born de tarde tem uma luz diferente da manhã — mais horizontal ainda, mais dourada, aquela coisa de setembro que está tecnicamente quente mas tem um ar que já sabe o que vem. Mateu caminha sem destino fixo, que é como ele quase sempre caminha no bairro porque depois de 23 anos aqui não faz mais sentido ter destino — qualquer rua é familiar, qualquer esquina tem memória.
Na Carrer dels Carders para para ver os pombos. Não gosta de pombos particularmente, mas uma pomba está em cima de uma sacada com uma palha na boca com aquela determinação absurda de pombos que estão construindo alguma coisa, e há algo naquilo que o faz parar.
Continua caminhando.
Passa em frente ao Mercat de Santa Caterina e olha para cima para o teto ondulado, as cerâmicas coloridas que refletem o sol da tarde. Aquele teto foi inaugurado quando ele tinha quatro anos. Cresceu sem entendê-lo e depois, em algum ponto entre os quinze e os dezessete, começou a entender. É o tipo de coisa que parece excesso e depois você percebe que era precisamente aquilo.
Telefone vibra. É Arnau.
*Você pegou as notas do fornecedor antes de sair?*
Mateu olha o telefone. Não pegou as notas do fornecedor.
*Não.*
*Mateu.*
*Posso voltar.*
*Não precisa, já peguei. Mas semana que vem lembra.*
Ele coloca o telefone no bolso. Arnau tem 27 anos e a cara dura do primogênito que assumiu a responsabilidade antes de estar pronto e depois ficou com ela. Mateu o admira e às vezes acha difícil ficar perto dele porque Arnau o olha com uma qualidade de preocupação específica — não como a mãe, não como o Sapi — que é a preocupação de quem cresceu no mesmo quarto que você e não consegue separar quem você é de quem você era com dez anos com joelhos ralados e a certeza de que ia jogar no Barça quando crescesse.
O Barça. Mateu quase ri.
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Ele acaba no Parc de la Ciutadella sem ter planejado.
Senta no banco de sempre, perto do lago, onde os patos se movem com aquela indiferença de patos e as crianças jogam migalhas que eles comem com o mesmo tipo de indiferença. Setembro ainda tem luz até quase às oito. Ele tem três horas antes de ficar escuro.
Abre o caderno de novo. Dessa vez não desenha o lago — já desenhou o lago umas doze vezes, tem todas as versões, do lago de inverno cinza ao lago de verão com a luz batendo de cima. Hoje fica olhando a página em branco.
Não há nada específico na página em branco. É só uma página em branco.
Mas tem alguma coisa no ar hoje que ele não sabe nomear. Uma qualidade ligeiramente diferente de setembro que não é a temperatura nem o cheiro nem nada visível. Como quando você vai visitar uma casa pela primeira vez e sente que é um lugar onde algo vai acontecer sem saber o quê. Não pressentimento dramático — só uma diferença sutil que a maioria das pessoas não nota porque a maioria das pessoas não aprendeu a notar essas coisas.
Mateu aprendeu a notar essas coisas há dezoito meses.
Ele fecha o caderno. Olha o lago. Os patos.
Amanhã tem a consulta com o Jaume. Hoje tem este parque e este lago e esta luz de setembro que vai embora devagar. Ele respira e fica presente no que existe agora — que é a única coisa que sempre fez sentido, mesmo antes de saber que fazia sentido.
O telefone vibra de novo. Desta vez é o Sapi.
*O ensaio acabou mais cedo. Vou até o Ciutadella. Estou no lago atrás do pato mais gordo.*
Mateu olha à volta. Vê o Sapi a uns trinta metros, com o coffe cup na mão, procurando por ele com aquela expressão levemente desajeitada de quem acabou de enviar mensagem descrevendo onde está para alguém que ainda não viu.
Ele levanta a mão.
O Sapi acena de volta.
Mateu sente — e vai lembrar disso depois, naquela forma como a memória às vezes organiza as coisas com uma clareza que no momento não existia — uma sensação leve de que algo está no lugar que deveria estar. Que hoje é um dia comum de um setembro comum na cidade que ele conhece de cor. Que amanhã vai acontecer a consulta e depois o hemograma e depois o próximo ciclo ou a próxima decisão ou o que o Jaume tiver a dizer.
Mas agora o Sapi está caminhando na direção dele com o café e os patos estão no lago e o teto do Mercat de Santa Caterina está refletindo o sol a dois quarteirões daqui com aquelas cores absurdas e bonitas.
E tem alguma coisa no ar que é diferente.
Ele só não sabe ainda o quê.