CAPÍTULO 3Gratuito
Sussurros no Abismo
A estrada para o Penhasco dos Sussurros serpenteava pela costa como uma cicatriz prateada sob a lua cheia. Sophia dirigia devagar, as mãos apertadas no volante, o GPS do celular sua única companhia na escuridão densa. À esquerda, o Pacífico rugia invisível contra as rochas. À direita, mansões adormecidas brilhavam como olhos vigilantes.
O nome do lugar era adequadamente sinistro. Segundo a placa turística desbotada que ela passou, o Penhasco dos Sussurros havia ganho seu nome dos ventos constantes que atravessavam as formações rochosas, criando sons que pareciam vozes. Os locais evitavam o lugar depois do pôr do sol.
Sophia entendeu por quê quando finalmente chegou.
O estacionamento improvisado era apenas uma clareira de terra batida cercada por pinheiros retorcidos. O Porsche ficou ridículo ali, um cavalo de corrida em um cemitério. A Ducati vermelha de Nicholas estava estacionada perto das rochas, seu metal ainda quente.
Sophia saiu do carro, e o vento imediatamente açoitou seus cabelos. O ar cheirava a sal e algo mais — decomposição vegetal, talvez. Ou apenas seu medo.
— Você veio.
A voz de Nicholas surgiu das sombras antes dele. Ele estava sentado no parapeito de pedra que marcava onde a terra terminava e o abismo começava, as pernas balançando sobre duzentos metros de queda. Um cigarro brilhava entre seus dedos.
— Pensei que não viria — ele continuou, tomando uma tragada longa. — Pensei que meu irmão a convenceria a ficar.
— Ele tentou — Sophia se aproximou cautelosamente, mantendo distância segura do precipício. — Mas eu não vim aqui para ser controlada por homens ricos com complexos não resolvidos.
Nicholas riu, o som transportado pelo vento.
— Bom. Você tem espinha. Marina tinha também. No começo.
Ele jogou o cigarro fora, observando-o ser levado pela escuridão, então se levantou com a graça de um predador. À luz da lua, seus olhos verdes pareciam fosforescentes.
— Quer saber a verdade? — ele se aproximou. — A verdade completa, não a versão sanitizada que meu irmão vai te contar?
— É por isso que estou aqui.
— Então se prepare — Nicholas avisou. — Porque quando você souber, não tem volta. Não pode desconhecer. E vai olhar para Alexander e ver exatamente o que ele é.
Sophia sentiu seu coração acelerar, mas manteve a voz firme:
— Conte.
Nicholas respirou fundo, seus olhos perdidos no horizonte escuro.
— Marina Santos chegou a Sapphire Cove há quatro anos. Vinte anos, acabada de sair da faculdade de belas artes, talentosa como o inferno. Meu pai a contratou como assistente na galeria. Ela era... — sua voz falhou. — Ela era luz pura. Sabe quando alguém entra em uma sala e tudo fica mais brilhante? Era assim com ela.
Ele fez uma pausa, e Sophia viu a dor crua em seu rosto.
— Nos apaixonamos imediatamente. Loucamente. Do tipo de amor que queima tudo ao redor. Fazíamos planos — sair de Sapphire Cove, abrir nossa própria galeria em algum lugar real, longe de toda esta falsidade. Ela odiava este lugar. Dizia que era uma gaiola dourada cheia de pássaros com asas cortadas.
— Mas? — Sophia sussurrou.
— Mas Alexander também se apaixonou por ela — Nicholas disse amargamente. — E o que Alexander quer, Alexander conquista. Ele sempre foi assim. O filho perfeito, o herdeiro, o escolhido. Eu era apenas o backup, o plano B caso algo desse errado com o precioso primogênito.
Ele começou a andar à beira do penhasco, e Sophia o seguiu nervosamente.
— Meu irmão é paciente. Calculista. Ele começou sutilmente — elogios profissionais, oportunidades de curadoria, convites para jantares 'de negócios'. Marina achava que ele estava apenas sendo um bom chefe. Eu sabia melhor. Eu via como ele olhava para ela quando achava que ninguém estava vendo.
— E então?
— Então nossa mãe morreu — Nicholas parou abruptamente. — Afogamento, disseram. Nadou para muito longe, ficou cansada. Mas minha mãe era nadadora olímpica na juventude. Ela não simplesmente *se afogava*.
Sophia sentiu um arrepio que não tinha nada a ver com o vento.
— Você acha que foi...?
— Assassinato? — Nicholas terminou. — Eu *sei* que foi. Mas não consegui provar nada. O legista era velho amigo de meu pai. A polícia local é financiada por doações dos residentes de Sapphire Cove — ou seja, por famílias como a nossa. A investigação foi uma piada.
Ele se virou para enfrentá-la diretamente.
— Minha mãe havia mudado o testamento duas semanas antes de morrer. Ia dividir tudo igualmente entre mim e Alexander. Mas de alguma forma, o novo testamento desapareceu. Só o antigo foi encontrado — deixando tudo para o primogênito.
— Alexander — Sophia murmurou.
— Alexander — Nicholas confirmou. — Que de repente tinha controle total da galeria, da fortuna familiar, de tudo. E sabe o que ele fez primeiro? Promoveu Marina a curadora sênior. Deu a ela o apartamento da cobertura — o mesmo onde você está agora. Começou a cobri-la de presentes. Roupas, joias, tudo azul porque era a cor favorita dele.
A náusea cresceu no estômago de Sophia.
— Ela aceitou?
— No começo, sim — Nicholas admitiu, e a culpa tingiu sua voz. — Eu estava destruído pela morte de minha mãe, bebendo demais, usando drogas. Fui um idiota. Empurrei Marina para longe quando ela tentou me ajudar. E Alexander estava lá, sóbrio, estável, oferecendo tudo que eu não podia.
— Eles ficaram juntos?
— Por seis meses — Nicholas disse. — Seis meses do inferno. Eu os via juntos em eventos, ela usando as roupas que ele comprava, sorrindo aquele sorriso que não alcançava os olhos. Ele a tratava como uma boneca de porcelana — bonita, frágil, para ser exibida mas nunca realmente *tocada*.
Ele passou a mão pelos cabelos, frustrado.
— Então, uma noite, Marina apareceu na minha porta. Chorando. Ela disse que havia descoberto algo sobre Alexander. Algo terrível sobre a morte de nossa mãe. Disse que tinha provas.
Sophia segurou a respiração.
— Que tipo de provas?
— Ela não me disse — Nicholas bateu o punho contra a rocha. — Disse que me mostraria no dia seguinte, que precisava organizar tudo primeiro. Mas tinha medo. Disse que Alexander havia mudado, ficado possessivo, obsessivo. Que ele a seguia, checava seu telefone, ameaçava qualquer homem que olhasse para ela por mais de dois segundos.
— E no dia seguinte?
— No dia seguinte foi a festa anual dos Blackwood — Nicholas disse suavemente. — Duzentos convidados, champanhe fluindo, fogos de artifício sobre a baía. Marina estava lá, usando um vestido azul e o colar de safiras que você usou hoje à noite. Ela parecia assustada. Tentei falar com ela, mas Alexander não a deixava sozinha nem por um segundo.
Ele fechou os olhos, a dor evidente.
— À meia-noite, houve um enorme espetáculo de fogos. Todos estavam na varanda dos fundos assistindo. Quando terminaram e as luzes se acenderam, Marina havia desaparecido. Pensamos que ela tinha ido ao banheiro, ou saído para tomar ar. Duas horas depois, um casal encontrou o corpo dela nas rochas aqui embaixo.
Sophia olhou para o abismo negro, imaginando a queda.
— A polícia disse que foi acidente — Nicholas continuou, sua voz rouca. — Que ela bebeu demais, se aproximou da beirada para ver a vista, escorregou. Mas Marina mal tinha tocado o champanhe aquela noite. E ela tinha medo de altura. Nunca se aproximaria voluntariamente deste penhasco.
— Você acha que foi Alexander — Sophia disse. Não era uma pergunta.
— Eu sei que foi — Nicholas a corrigiu. — Ela descobriu algo. Ele a matou para manter em segredo. E então, por três anos, ele manteve o apartamento dela intocado. Um santuário. Uma obsessão. Meu irmão não é apenas controlador, Sophia. Ele é doente.
— Mas por que eu? — Sophia finalmente fez a pergunta que a atormentava. — Por que me trazer aqui?
Nicholas a estudou por um longo momento.
— Porque você é idêntica a ela. E Alexander não consegue deixar ir. Ele está tentando ressuscitá-la através de você. Te moldar, te controlar, te possuir da forma que nunca conseguiu completamente com Marina.
Ele se aproximou, suas mãos segurando os ombros dela.
— Você precisa ir embora, Sophia. Hoje. Agora. Antes que seja tarde demais.
— E você? — ela sussurrou. — Por que você está aqui? Se Alexander matou sua mãe e Marina, por que não foi embora?
O sorriso de Nicholas foi sombrio.
— Porque eu voltei para destruí-lo. Passei dois anos seguindo pistas, juntando provas, fazendo conexões. E agora estou próximo. Muito próximo de expor tudo que ele fez.
— Que tipo de provas?
Antes que ele pudesse responder, faróis cortaram a escuridão. Um carro preto e elegante entrou no estacionamento com um rangido de pneus.
— Merda — Nicholas sussurrou. — Ele seguiu você.
Alexander saiu do Mercedes, sua silhueta recortada contra os faróis. Mesmo à distância, Sophia podia sentir a fúria emanando dele.
— Sophia! — ele gritou. — Afaste-se dele!
Nicholas não a soltou. Se aproximou mais, sua voz urgente:
— Há um pen drive escondido no ateliê de Marina, no porão da galeria. Tudo que ela descobriu está lá. Encontre-o antes que Alexander destrua as provas.
— Nicholas, me solta—
— AGORA, Nicholas! — Alexander estava correndo em direção a eles.
Nicholas a soltou abruptamente, mas seus olhos permaneceram intensos nos dela.
— Confie em mim. Por favor.
Então Alexander estava ali, ofegante, posicionando-se entre eles.
— O que você disse a ela? — ele exigiu de Nicholas.
— A verdade — Nicholas respondeu calmamente. — Algo que você nunca fará.
— Mentiras — Alexander se virou para Sophia. — Ele está mentindo. Nicholas estava tendo um caso com a esposa de nosso melhor amigo. Quando foi descoberto, teve um colapso. Desde então, inventa histórias, vê conspirações onde não existem—
— Eu não estava tendo um caso! — Nicholas gritou. — Você plantou aquelas fotos! Você destruiu minha reputação assim como destruiu tudo mais!
— Você está paranoico—
— VOCÊ MATOU MARINA!
O silêncio que seguiu foi absoluto. Até o vento parecia ter parado.
Alexander ficou muito quieto. Perigosamente quieto.
— Saia daqui, Nicholas — ele disse em voz baixa. — Antes que eu faça algo de que me arrependa.
— Como fez com Marina? — Nicholas o desafiou.
Alexander se moveu tão rápido que Sophia nem viu. Num segundo ele estava parado, no próximo tinha Nicholas pela gola da camisa, perigosamente perto da beirada do penhasco.
— Alexander, não! — Sophia gritou.
— Diga isso de novo — Alexander sibilou. — Diga de novo e eu juro—
— Vai me jogar do penhasco também? — Nicholas sorriu, selvagem. — Na frente de testemunha? Ou vai esperar até ela também se tornar inconveniente?
Alexander o empurrou, mas para longe da beirada. Nicholas cambaleou, recuperou o equilíbrio, ainda sorrindo aquele sorriso terrível.
— Você a matou porque ela descobriu sobre mamãe — Nicholas disse. — E quando Sophia descobrir a verdade, você vai matá-la também.
— CHEGA! — Sophia gritou, e ambos os homens pararam. — Chega. Os dois.
Ela olhou de um para o outro — Nicholas com seus olhos selvagens e acusações impossíveis, Alexander com sua máscara finalmente despedaçada, mostrando algo negro e furioso por baixo.
— Eu não sei em quem acreditar — ela disse, sua voz tremendo. — Mas sei que não quero estar aqui, neste lugar onde uma mulher morreu, enquanto vocês dois se destroem.
Ela começou a andar em direção ao Porsche.
— Sophia, espere — Alexander a seguiu. — Deixe-me levá-la de volta. Não é seguro você dirigir assim.
— Nada sobre você é seguro — ela retrucou.
— Por favor — havia desespero real em sua voz. — Apenas... me dê uma chance de explicar. Tudo. A verdade completa.
— Eu já ofereci isso — Nicholas disse atrás deles. — Ela escolheu não acreditar.
— Porque suas 'verdades' são delírios alimentados por álcool e culpa — Alexander disparou.
— PAREM! — Sophia se virou para os dois. — Eu quero a verdade. A verdade real, não as versões distorcidas que vocês dois criaram para justificar o que quer que esteja acontecendo entre vocês.
Ela respirou fundo, tomando uma decisão.
— Vou ficar em Sapphire Cove. Vou fazer meu trabalho. E vou descobrir o que aconteceu com Marina Santos. Sozinha. Sem a 'ajuda' de nenhum de vocês.
— Sophia, você não entende—
— Não — ela interrompeu Alexander. — Eu entendo perfeitamente. Vocês dois estão tão consumidos por seus jogos de poder que mal conseguem ver que estão usando uma mulher morta como arma um contra o outro. E agora querem fazer o mesmo comigo.
Ela entrou no Porsche, ligou o motor.
— Mantenham distância. Os dois. Até que eu descubra o que é real e o que é manipulação.
Ela saiu do estacionamento em uma nuvem de poeira, deixando os dois irmãos parados na escuridão, separados por três metros de terra e um abismo de ódio.
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De volta ao apartamento, Sophia não conseguia parar de tremer. Tomou um banho quente que fez pouco para aquecer o frio em seus ossos. Vestiu um pijama de seda — um dos únicos itens no closet que não era azul — e se serviu generosamente de uma garrafa de vinho branco que encontrou na geladeira gourmet.
Eram 2h da manhã quando finalmente se deitou, mas o sono não vinha. Cada vez que fechava os olhos, via o rosto de Marina. Seu próprio rosto. Um fantasma que não descansava.
O celular vibrou. Uma mensagem de número desconhecido:
*"Ateliê. Porão. Terça às 3h. Estarei na galeria fazendo inventário. A. B."*
Alexander, assumindo que ela viria.
Outro ping. Número diferente:
*"Ele vai mentir. Sempre mente. Quinta, 10h, Café Seabreeze. Tenho provas reais. N."*
Nicholas, igualmente confiante.
Sophia jogou o telefone no sofá. Dois irmãos, duas verdades conflitantes, uma mulher morta que era seu reflexo perfeito.
E no meio de tudo, ela — Sophia Winters, que havia vindo a Sapphire Cove fugindo de complicações, apenas para mergulhar de cabeça em algo muito pior.
O vinho a deixou sonolenta finalmente. Quando adormeceu, sonhou com água salgada enchendo seus pulmões, rochas afiadas, e dois pares de olhos — azuis e verdes — observando-a afundar.
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A manhã chegou brilhante e implacável. Sophia acordou com o sol atravessando as enormes janelas, iluminando cada canto do apartamento que havia pertencido a Marina.
Seu celular mostrava doze chamadas perdidas — oito de Alexander, quatro de Nicholas. Havia também uma mensagem do escritório da galeria, lembrando que ela deveria comparecer às 10h para assinar os contratos formais de trabalho.
Sophia se levantou, ignorando a dor de cabeça do vinho, e tomou outro banho. Dessa vez, quando abriu o closet, não sentiu apenas desconforto. Sentiu determinação.
Se ia descobrir a verdade, precisava jogar o jogo deles. E isso significava parecer a parte.
Escolheu um conjunto de seda cor creme — não azul, uma pequena rebelião — e sandálias nude. Manteve a maquiagem natural mas impecável, os cabelos em um coque baixo elegante. Quando se olhou no espelho, viu uma curadora profissional, não uma substituta assustada.
A Galeria Blackwood estava surpreendentemente movimentada para uma terça-feira de manhã. Através das paredes de vidro, Sophia viu pelo menos seis pessoas circulando — equipe de manutenção, pelo que parecia, limpando e ajustando a iluminação para as peças.
Alexander a esperava no escritório principal, segundo andar. O escritório era todo dele — decoração masculina em tons de cinza e preto, uma vista espetacular da marina, e paredes cobertas por fotos da família Blackwood através das gerações.
Ele se levantou quando ela entrou, e Sophia notou as olheiras sob seus olhos. Ele não havia dormido.
— Sophia — ele disse, sua voz cuidadosa. — Obrigado por vir.
— Trabalho é trabalho — ela respondeu, mantendo-se profissional. — Você disse que havia contratos para assinar?
Algo passou pelo rosto dele — decepção? — mas ele acenou com a cabeça e empurrou uma pasta grossa através da mesa.
— Contrato padrão de dois anos, com opção de renovação. Salário, benefícios, tudo que discutimos. Meu advogado revisou tudo ontem.
Sophia pegou a pasta mas não a abriu imediatamente.
— Alexander, eu preciso saber. O apartamento—
— Eu vou providenciar outro — ele a interrompeu. — Você está certa. Não foi apropriado. Eu estava... — ele passou a mão pelos cabelos, uma rachadura em sua armadura perfeita. — Eu não estava pensando claramente.
— Por que eu? — Sophia perguntou diretamente. — A verdade desta vez.
Ele a estudou por um longo momento.
— Porque quando vi seu portfólio, vi Marina. Seu talento, sua paixão. E sim, seu rosto. Mas então liguei para suas referências, li suas críticas, vi as exposições que você curou. E percebi que você não é uma substituta, Sophia. Você é possivelmente melhor.
— Isso não torna menos doentio — ela disse suavemente.
— Eu sei — ele admitiu, e havia dor real em sua voz. — Eu sei que está errado. Mas por favor, não deixe meus erros destruírem sua oportunidade. Você merece estar aqui. Seus próprios méritos.
Sophia queria acreditar nele. Queria acreditar que era vista, valorizada por suas próprias conquistas.
Mas então pensou em Nicholas, na paixão desesperada em sua voz quando falava sobre Marina. Na certeza absoluta de que Alexander era um assassino.
— Eu preciso de garantias — ela disse finalmente. — Liberdade criativa total. Nenhuma interferência pessoal. E acesso completo aos arquivos da galeria.
— Feito — Alexander concordou imediatamente. — Qualquer coisa que você precisar.
— Incluindo o ateliê de Marina no porão?
O silêncio foi apenas um batimento cardíaco longo demais.
— Como você sabe sobre o ateliê?
— Nicholas mencionou — Sophia mentiu suavemente. — Disse que ela deixou trabalhos inacabados. Pensei que pudessem ser relevantes para uma futura exposição memorial.
Alexander relaxou minimamente.
— É claro. Eu posso mostrar para você agora, se quiser. Embora não tenha certeza de que encontrará muito. Eu removi a maioria das coisas pessoais dela depois... depois.
*Removeu ou destruiu?*, Sophia pensou, mas manteve o rosto neutro.
— Mais tarde seria melhor — ela disse. — Preciso me familiarizar com o inventário atual primeiro.
— Claro — Alexander sorriu, e era seu sorriso profissional de novo, a máscara de volta no lugar. — Aliás, há um jantar beneficente na sexta à noite. Leilão de arte, toda a elite de Sapphire Cove estará lá. Seria bom você comparecer. Networking, você sabe como é.
— Estarei lá.
— Posso buscá-la—
— Eu dirijo — Sophia o cortou suavemente. — Mas obrigada.
Ela assinou os contratos sem lê-los completamente — provavelmente estúpido, mas neste ponto, o que eram contratos legais comparados a segredos mortais?
Quando estava saindo, Alexander a chamou:
— Sophia? Sobre ontem à noite. Nicholas não é confiável. Ele tem... problemas. Desde a morte de nossa mãe. Drogas, álcool, paranoia. Tudo que ele disse—
— Não é da minha conta — Sophia o interrompeu. — O passado de vocês é entre vocês dois. Eu estou aqui para trabalhar, não para ser árbitro de disputas familiares.
Ela viu algo como admiração passar pelos olhos dele.
— Você é forte — ele disse. — Mais forte que Marina. Ela deixou que as coisas a consumissem.
— Então talvez — Sophia disse suavemente —, se você realmente me vê como pessoa separada, deveria parar de me comparar a ela.
E saiu antes que ele pudesse responder.
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O resto do dia passou em um borrão de inventário, catalogação, e reuniões com a equipe da galeria. Sophia conheceu:
**Margaret Chen**, 55 anos, gerente de operações da galeria há quinze anos. Eficiente, fria, com um olhar afiado que não perdia nada. Ela claramente desaprovava Sophia, embora mantivesse-se profissional.
— Srta. Winters — ela disse quando foram apresentadas. — Espero que sua estadia seja mais... duradoura que a de sua predecessora.
**James Rodriguez**, 32 anos, especialista em autenticação e conservação. Bonito de um jeito clássico, com óculos de armação grossa e um sorriso caloroso. Ele foi o único que pareceu genuinamente feliz em conhecê-la.
— Finalmente alguém novo! — ele disse, apertando sua mão entusiasticamente. — Margaret tem ameaçado me fazer assumir a curadoria se Alexander não contratasse alguém logo. E eu amo arte, mas organizar exposições? Prefiro morrer.
— Dramático — Margaret murmurou.
— Realista — James corrigiu, piscando para Sophia. — Se precisar de qualquer coisa, estou aqui. Sério. Sapphire Cove pode ser... intimidante no começo.
**E então havia Diane Blackwood**, 58 anos, irmã do falecido pai dos garotos, que apareceu na galeria por volta das 15h.
Diane era elegante de um jeito que dinheiro antigo proporcionava — cabelos grisalhos em um bob perfeito, roupas Chanel discretas, pérolas reais no pescoço. Mas seus olhos castanhos eram perspicazes e um pouco tristes.
— Então você é a famosa Sophia — ela disse, estudando o rosto de Sophia abertamente. — Sim. Eu vejo por que meu sobrinho ficou... interessado.
— Tia Diane — Alexander apareceu do nada. — Não sabia que você viria hoje.
— Sou parte da diretoria, querido — ela disse secamente. — Tenho direito de conhecer nossos novos funcionários. Especialmente quando eles são tão... notáveis.
Ela se virou para Sophia novamente.
— Você se parece com alguém que conheci. Uma menina doce. Trágico o que aconteceu com ela.
— Marina — Sophia disse.
— Ah, então você sabe — Diane pareceu surpresa. — Bom. É melhor do que fingir que ela nunca existiu, como meu sobrinho prefere fazer.
— Tia Diane, por favor—
— Por favor o quê, Alexander? — ela o encarou. — Você mantém o apartamento dela como santuário por três anos, depois traz uma sósia perfeita para Sapphire Cove, e eu deveria fingir que é normal?
— Não é o que parece — Alexander disse tensamente.
— Nunca é, querido — Diane suspirou. — Nunca é.
Ela tocou o braço de Sophia gentilmente.
— Cuidado, minha querida. Os homens Blackwood são lindos, carismáticos e absolutamente destrutivos para as mulheres que amam. Aprendi isso do jeito difícil com meu próprio casamento. Não cometa os mesmos erros.
E saiu, deixando um silêncio constrangido.
— Ela está exagerando — Alexander disse finalmente.
— Está? — Sophia perguntou, mas não esperou por resposta.
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Às 18h, Sophia estava exausta. Ela havia catalogado cinquenta e três peças, conhecido doze pessoas, e recebido um curso intensivo em como operar a galeria. Seu cérebro doía.
Alexander a encontrou na saída.
— Quer jantar? — ele perguntou. — Há um restaurante italiano incrível na—
— Estou cansada — Sophia o interrompeu. — Talvez outro dia.
— Claro — ele assentiu, mas ela viu a decepção. — Amanhã então. Podemos discutir ideias para sua primeira exposição.
Sophia dirigiu de volta para o Edifício Coral no modo automático. Sua mente estava muito ocupada processando tudo que havia visto e ouvido.
Margaret que claramente odiava sua presença. James que parecia aliado potencial. Diane com seus avisos velados. E Alexander, sempre Alexander, com suas camadas de charme sobre algo mais escuro.
O apartamento estava exatamente como ela havia deixado — exceto por um arranjo enorme de peônias brancas no balcão da cozinha. O cartão dizia apenas: *"Desculpe. - A"*
Sophia jogou as flores no lixo.
Pediu comida tailandesa pelo aplicativo e trocou de roupa por leggings e camiseta. Enquanto esperava a entrega, ela explorou o apartamento mais minuciosamente do que havia feito antes.
O closet era óbvio — roupas de Marina. Mas havia outros toques pessoais? Sinais da mulher que havia vivido ali?
No banheiro, Sophia encontrou um frasco de perfume esquecido atrás de outros produtos. *Chanel Nº 5*. Quando abriu, o cheiro era familiar — ela havia sentido esse perfume antes, recentemente.
Onde?
A entrega chegou, interrompendo seus pensamentos. Sophia comeu sem realmente saborear, sua mente ainda trabalhando no quebra-cabeça.
Às 21h, seu celular tocou. Número desconhecido.
— Alô?
— Srta. Winters? — uma voz feminina, jovem, nervosa. — Você não me conhece. Meu nome é Elena Vasquez. Eu era melhor amiga de Marina.
O coração de Sophia acelerou.
— Elena. Sim. Você quer falar comigo?
— Eu preciso — Elena disse urgentemente. — Há coisas que você deveria saber. Coisas que ninguém mais vai te contar. Mas não posso falar por telefone. E não posso ser vista falando com você.
— Onde então?
— Você conhece a biblioteca pública de Sapphire Cove? Seção de referências, último andar. Amanhã às 14h. Finjo estar estudando, você finge estar pesquisando. Ninguém vai notar.
— Eu estarei lá.
— E Srta. Winters? — Elena hesitou. — Não confie em nenhum dos Blackwood. Nenhum deles. Eles todos estão mentindo sobre o que aconteceu com Marina.
A ligação caiu.
Sophia ficou olhando para o telefone, seu coração batendo acelerado.
*Eles todos estão mentindo.*
Não apenas Alexander. Não apenas Nicholas.
Todos eles.
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Sophia não dormiu bem aquela noite. Quando finalmente adormeceu, sonhou que estava no Penhasco dos Sussurros. Mas desta vez, não era apenas observadora.
Ela estava caindo.
E enquanto o vento açoitava em volta dela, duas vozes gritavam seu nome — mas não conseguia distinguir se estavam tentando salvá-la ou se alegrando com sua queda.
Acordou ofegante, suor frio em sua pele.
Na janela, o sol nascia sobre o Pacífico, pintando tudo de vermelho.
Vermelho como sangue.
Vermelho como morte.
E Sophia soube, com uma certeza que a gelou até os ossos, que antes do verão terminar, alguém mais cairia daquele penhasco.
A única questão era: seria ela?
