
Marés de Cristal
Romance Contemporâneo com Suspense Psicológico
Em Sapphire Cove, um dos balneários mais exclusivos da costa leste americana, onde mansões de vidro se equilibram sobre penhascos e iates de milhões ancoram em águas cristalinas, três vidas estão prestes a colidir de forma devastadora. Sophia Winters, 25…
CAPÍTULO 1
Águas Turquesas
O Porsche conversível prateado deslizava pela Pacific Coast Highway como se flutuasse sobre o asfalto quente. Sophia Winters ajustou os óculos escuros Versace — um presente de despedida que preferia esquecer — e deixou o vento salgado embaraçar seus cabelos castanhos. Cada quilômetro que a distanciava de Nova York parecia aliviar o peso em seu peito, como se pudesse finalmente respirar depois de meses sufocada.
A placa dourada surgiu na curva: *Sapphire Cove - Where Paradise Meets Privilege*.
Sophia quase riu da pretensão. Mas quando a estrada revelou a vista da baía, suas mãos apertaram o volante. Era impossível não se impressionar. Mansões de vidro e aço pendiam dos penhascos como joias, suas infinitas paredes transparentes refletindo o azul impossível do Pacífico. Iates brancos pontuavam a marina privada como cisnes adormecidos. Era o tipo de lugar onde o dinheiro não era apenas poder — era arte.
A Galeria Blackwood ficava no coração da Marina District, um cubo de mármore branco e vidro fumê que parecia flutuar sobre a água. Sophia estacionou ao lado de um Lamborghini amarelo que provavelmente custava mais que seu antigo apartamento em Manhattan.
— Você deve ser Sophia Winters.
A voz a fez estremecer. Profunda, controlada, com um toque de sotaque que não conseguia identificar. Sophia virou-se devagar.
O homem encostado na coluna de mármore parecia ter sido esculpido pelo mesmo artista que criara a galeria. Alto, ombros largos sob um blazer azul-marinho perfeitamente cortado, cabelos negros levemente ondulados pelo sal do mar. Mas eram os olhos que a paralisaram — azuis como o oceano profundo, e duas vezes mais perigosos.
— Alexander Blackwood — ele estendeu a mão, e Sophia notou o Patek Philippe que brilhava em seu pulso. — Bem-vinda ao paraíso.
O aperto de mão dele foi firme, quente, e durou um segundo a mais que o apropriado. Sophia sentiu algo despertar em seu estômago, uma sensação que havia jurado nunca mais permitir.
— Obrigada pela oportunidade, Sr. Blackwood. Estou ansiosa para—
— Alexander — ele a interrompeu, um sorriso mínimo curvando seus lábios. — Formalidades não combinam com Sapphire Cove. Aqui, fingimos que somos todos amigos.
*Fingimos.* A palavra ficou suspensa entre eles.
— Deixe-me mostrar a galeria — Alexander colocou a mão nas costas dela, guiando-a para dentro. O toque era profissional, mas Sophia sentiu o calor através da seda de sua blusa. — E depois, o apartamento que preparamos para você. Fica no último andar do Edifício Coral, vista de 360 graus. Espero que seja... adequado.
A galeria era ainda mais impressionante por dentro. Três andares de espaço aberto, luz natural filtrada para proteger as obras, uma coleção que rivalizava com qualquer museu de Nova York. Sophia reconheceu um Basquiat original, um Hockney que havia sido leiloado por milhões no ano anterior.
— Impressionante — ela murmurou, genuinamente maravilhada.
— Meu pai começou a coleção há trinta anos — Alexander estava próximo demais, seu perfume de bergamota e âmbar invadindo seus sentidos. — Mas foi minha mãe quem tinha o verdadeiro olho para arte. Ela teria adorado você.
— Teria?
Uma sombra passou pelos olhos dele.
— Ela morreu há três anos. Afogamento. Uma tragédia.
— Sinto muito.
— Todos sentem — a voz dele endureceu. — Até descobrirem que ela deixou tudo para mim e não para meu irmão. Então sentem menos.
O som de pneus cantando no estacionamento quebrou o momento. Através da parede de vidro, Sophia viu uma moto Ducati vermelha parar bruscamente. O piloto tirou o capacete, revelando cabelos negros selvagens e um rosto que era uma versão mais jovem e perigosa de Alexander.
— Falando do diabo — Alexander murmurou, sua mandíbula tensionando.
Nicholas Blackwood entrou na galeria como uma tempestade. Jeans rasgados, camiseta preta justa, uma jaqueta de couro jogada sobre o ombro. Onde Alexander era controle, Nicholas era caos puro.
Seus olhos — verdes como o mar antes da tempestade — encontraram os de Sophia, e algo passou entre eles. Reconhecimento? Impossível. Eles nunca haviam se encontrado.
Nicholas parou abruptamente, seu rosto empalidecendo.
— Não — ele sussurrou, então mais alto, para Alexander: — Não! O que você fez?
— Nicholas, esta é Sophia Winters, nossa nova curadora — Alexander disse calmamente, mas Sophia notou como ele se posicionou protetoramente ao lado dela.
Nicholas a estudou como se ela fosse um fantasma. Seus olhos traçaram cada linha de seu rosto, e Sophia sentiu-se nua sob aquele escrutínio.
— Inacreditável — Nicholas riu, mas não havia humor no som. — Você é doente, Alex. Completamente doente.
— Você está bêbado — Alexander disse friamente. — De novo. Que surpresa.
— Bêbado? — Nicholas se aproximou, e Sophia sentiu o cheiro de couro e gasolina. — Não, irmão. Pela primeira vez em dois anos, estou perfeitamente sóbrio. E posso ver exatamente o que você está fazendo.
Ele se virou para Sophia, e a intensidade em seus olhos a fez recuar.
— Você não tem ideia de onde se meteu, tem? — sua voz era baixa, urgente. — Fuja. Agora. Antes que seja tarde demais.
— Nicholas, chega — Alexander se moveu entre eles.
— Ou o quê? — Nicholas o desafiou. — Vai me mandar embora de novo? Me exilar como da última vez? Não funcionou muito bem com a Marina, funcionou?
O nome caiu como uma bomba. Alexander ficou rígido, e Nicholas sorriu cruelmente.
— Isso mesmo. Marina. Quer contar para nossa nova curadora sobre Marina? Ou devo eu?
— Você deveria ir — Alexander disse, sua voz perigosamente baixa.
Nicholas deu um passo para trás, mas seus olhos permaneceram em Sophia.
— Quando você descobrir a verdade — ele disse suavemente —, e você vai descobrir, procure-me. Eu serei o único disposto a contar o que realmente aconteceu naquela noite.
Ele saiu tão abruptamente quanto havia chegado, deixando um silêncio pesado em seu rastro.
— Peço desculpas pelo meu irmão — Alexander disse finalmente, sua compostura retornando como uma máscara. — Nicholas tem... problemas. Desde o acidente de nossa mãe.
— Marina — Sophia testou o nome. — Ela era...?
— Uma amiga — Alexander a cortou. — Que teve um final trágico. Nicholas nunca superou. Ele a amava, sabe. Nós dois amávamos.
O modo como ele disse a última frase fez a pele de Sophia se arrepiar.
— Venha — ele tocou seu cotovelo. — Deixe-me mostrar onde você vai morar. O pôr do sol de sua varanda é espetacular. Dizem que é o melhor de toda Sapphire Cove.
Enquanto seguia Alexander para fora da galeria, Sophia olhou para trás uma última vez. Nicholas ainda estava no estacionamento, encostado em sua moto, observando. Quando seus olhos se encontraram, ele acenou com a cabeça uma vez, como um aviso.
O Edifício Coral era luxo em seu estado mais puro. O elevador privativo subia silenciosamente, e Sophia tentava processar os últimos trinta minutos. Havia aceitado este trabalho para fugir de complicações, não para cair em outras.
— O código do elevador é 0823 — Alexander disse. — Você é a única além de mim que tem acesso a este andar.
— Você mora aqui?
— No penthouse ao lado — ele sorriu. — Somos vizinhos. Espero que não se importe.
A cobertura era de tirar o fôlego. Toda decorada em branco e azul, com janelas do chão ao teto mostrando o Pacífico em toda sua glória. O sol começava a se pôr, pintando tudo de dourado e rosa.
— É... perfeito — Sophia sussurrou.
— Você é perfeita.
As palavras a fizeram congelar. Alexander estava muito próximo, seus olhos intensos demais.
— Para o trabalho — ele adicionou suavemente. — Seu portfólio é impressionante. A exposição que você curou no MoMA foi revolucionária.
Sophia relaxou minimamente, mas algo na forma como ele a olhava a mantinha em alerta.
— Há uma festa hoje à noite — Alexander continuou, movendo-se para a janela. — Na casa dos Pemberton. Toda a elite de Sapphire Cove estará lá. Seria bom você conhecer nossos colecionadores.
— Claro.
— Vou buscá-la às oito — ele se virou para sair, mas parou na porta. — Sophia? Use algo azul. É minha cor favorita.
Depois que ele saiu, Sophia ficou sozinha no apartamento silencioso, observando o sol mergulhar no oceano. Pegou seu telefone e digitou no Google: "Marina + Sapphire Cove + morte".
Os resultados a fizeram gelar.
*Marina Santos, 24 anos, encontrada morta nas rochas abaixo do Penhasco dos Sussurros. Morte ruled acidental afogamento. Última vez vista na festa dos Blackwood. Investigação encerrada por falta de provas.*
A foto que acompanhava a notícia fez o telefone escorregar de suas mãos.
A mulher morta poderia ser sua irmã gêmea. Os mesmos cabelos castanhos ondulados, os mesmos olhos cor de mel, até a pequena pinta acima do lábio superior.
Marina Santos era sua cópia perfeita.
Ou melhor — Sophia era a cópia perfeita de Marina.
O telefone vibrou no chão. Uma mensagem de número desconhecido:
*"Penhasco dos Sussurros. Meia-noite. Venha sozinha se quiser a verdade. - N"*
Sophia olhou para o sol que desaparecia no horizonte, tingindo as águas de vermelho sangue. Havia fugido de Nova York para escapar de seu passado.
Mas aparentemente, havia corrido direto para algo muito pior.
O paraíso, descobriu, tinha dentes.
E ela estava prestes a descobrir o quão profundamente eles podiam morder.
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