CAPÍTULO 3Gratuito
República
A mala chegou de Calgary na manhã do segundo dia com um bilhete de desculpas da companhia aérea e um voucher de cinquenta dólares que só era válido para voos domésticos canadenses.
Bianca abriu a mala no quarto, verificou que tudo estava lá, e ficou olhando para as roupas que havia dobrado com cuidado em BH três semanas antes como se fossem de outra pessoa. Parecia muito tempo atrás. Parecia que havia chegado há muito mais do que vinte e quatro horas.
Ela estava organizando o armário quando ouviu a porta do banheiro bater no corredor, depois passos na escada, depois silêncio.
Priya.
Elas haviam dividido a cozinha no café da manhã anterior com a eficiência mínima necessária — "tem leite no segundo prateleira", "obrigada", "de nada" — sem que nenhuma das duas iniciasse nada além disso. Bianca havia concluído que Priya era do tipo que precisava de tempo para aquecer, o que ela respeitava. Havia gente assim. Não era hostilidade, era calibração.
O que ela não havia calculado era que Priya podia estar concluindo a mesma coisa sobre ela, e portanto ambas estavam esperando que a outra aquecesse primeiro, o que resultava em silêncio funcional e nenhum movimento.
Bianca fechou o armário, desceu a escada, e foi à cozinha onde Priya estava em pé lendo algo no celular enquanto esperava a chaleira ferver.
— Bom dia, — disse Bianca.
— Bom dia. — Priya não tirou os olhos do celular. — A mala chegou?
— Chegou. Com voucher de consolação.
— Para voos domésticos canadenses, provavelmente.
— Cinquenta dólares.
— Inútil. — Ela finalmente olhou. — Você toma chá?
— Café, se tiver.
— Tem no armário de cima. Filtro também.
Elas ficaram na cozinha em paralelo — Priya com o chá, Bianca tentando descobrir onde ficavam os coadores — num silêncio que foi, gradualmente, ficando menos ensaiado. Priya perguntou de onde ela era. Bianca disse BH. Priya disse que havia ouvido falar, que tinha um primo que havia ido ao Rock in Rio dois anos atrás e havia voltado convicto de que o Brasil era o melhor lugar do mundo.
— Seu primo foi ao Rock in Rio e generalizou para o país todo? — disse Bianca.
— Meu primo generaliza para tudo. Ele foi ao Japão e voltou convicto de que os japoneses eram geneticamente superiores na culinária.
— Pelo menos dessa vez ele não estava errado.
Priya deu uma risada curta. Era a primeira vez que Bianca ouvia ela rir. Mudava o rosto inteiro.
— Você é de onde? — disse Bianca.
— Mississauga. Mas minha família é de Gujarat, na Índia. Terceira geração canadense.
— Direito, você disse.
— Segundo ano de mestrado. Direito Internacional. — Ela envolveu as mãos na caneca. — E você?
— Jornalismo. Intercâmbio da UFMG. — Bianca sentou no banquinho de madeira ao lado da janela que dava para o jardim dos fundos ainda coberto de neve. — Um semestre.
— Apenas um?
— Por enquanto.
Priya a olhou com uma expressão que Bianca ainda estava aprendendo a ler, mas que parecia ser uma combinação de análise e reserva de julgamento.
— O inverno vai ser difícil para você, — disse Priya. — Não é pessoal. Todo mundo de clima quente passa por isso.
— Já passei pelo primeiro dia.
— O primeiro dia nunca é representativo. Você ainda estava em modo de sobrevivência. — Ela pegou os livros que havia deixado na mesa. — Na segunda semana é quando bate o frio de verdade. Não no termômetro. No humor.
Bianca achou isso honesto o suficiente para ser apreciado.
— Avisa se precisar de indicação de médico, farmácia, qualquer coisa, — disse Priya, indo para a escada. — Tenho todos os contatos.
— Obrigada. — Bianca fez uma pausa. — Você parecia mais fria ontem.
Priya parou no degrau de baixo e virou.
— Você parecia mais caótica, — disse Priya.
Elas ficaram olhando uma para a outra.
— Fair enough, — disse Bianca.
Priya subiu.
Bianca ficou sentada na cozinha com o café que havia ficado levemente forte, olhando para o jardim coberto de neve. De alguma forma, a conversa havia ido melhor do que ela esperava. Priya não era fria. Era precisa. Havia uma diferença.
Ela estava lavando a xícara quando o celular tocou — número brasileiro, código de São Paulo.
— Tomás.
— Bia! Cara, você chegou bem? Vi no grupo que a mala foi para outra cidade.
— Calgary. Chegou hoje. — Ela secou a mão na calça. — Tudo bem?
— Tudo. Passei o dia fotografando o porto de Santos ontem. Mas olha, mudança de planos — meu voo mudou. Chego dia dezesseis, não dia treze.
— Três dias a mais?
— É. A fotografia que enviei para a residência saiu. Lembra que eu ia desistir? Então mandei no último dia e saiu.
— Tomás! — ela disse, e era genuíno, o prazer que sentiu. — Isso é ótimo.
— É. Mas significa que chego mais tarde. Você tá bem por lá? Tem gente bacana na república?
— Tem uma colega de quarto que é advogada e diagnosticou que vou ter crise no humor na segunda semana.
— Diagnóstico preciso. Você sempre tem crise no humor quando sai da zona de conforto.
— Eu não tenho zona de conforto.
— Sua zona de conforto é você mesma, e faz tempo que você tá numa cidade nova sem ninguém que te conheça. Conta o prazo a partir daí.
Ela detestava quando ele estava certo. Ele estava certo com frequência irritante.
— Como é o buddy? — Tomás continuou. — Você tem um buddy, né? No e-mail dizia.
— Tem. Callum.
— Simpático?
Bianca considerou a palavra. Simpático implicava certa disposição para o outro. Callum havia sido preciso, informativo, e havia dado informação sobre pho barato sem que ela tivesse pedido diretamente. Isso era simpático? Ou era eficiência?
— É rápido, — disse ela. — Anda rápido. Fala rápido. Parece que está sempre atrasado para outra coisa mesmo quando não está.
— Isso é um tipo de pessoa. Meu pai é assim.
— Seu pai é ótimo.
— Meu pai é irritante. Você só acha ótimo porque não mora com ele.
— Tomás. — Ela foi para a janela. — Fico feliz que a residência saiu. De verdade.
— Eu sei. — Uma pausa. — Dia dezesseis. Já reservei o Uber do aeroporto.
— Não reserva, eu vou te buscar.
— Você vai me buscar? Em Toronto? Você não sabe andar de ônibus em Toronto.
— Estou aprendendo.
— No aeroporto tem placas em inglês, Bia.
— Sei inglês.
— Você lê inglês. Falar inglês canadense é diferente.
— Dia dezesseis, Tomás.
Ela desligou, ficou com o celular na mão olhando para o jardim.
Depois subiu para o quarto, abriu o caderno, e escreveu a data no topo da página.
A Priya é mais interessante do que parece na superfície. Ou menos fria. Ainda não tenho léxico certo para ela. Isso é bom — significa que tem coisa para descobrir.
Ela passou a linha.
O Callum: não sorri. Não é que seja mal-educado — é que sorrir parece não ser o modo padrão. Deu informação boa sobre comida barata sem parecer que estava fazendo favor. Isso é ou desinteresse ou uma forma específica de consideração que ele não rotula como tal.
Ela ficou olhando para as últimas palavras. Riscou "que ele não rotula como tal" e escreveu: provavelmente desinteresse.
Depois ficou olhando para o teto por um tempo, ouvindo o barulho de vento nos vidros e o calor do aquecimento central que fazia um som grave e contínuo nas paredes da casa, pensando que três dias era tempo suficiente para descobrir como ir ao aeroporto de Pearson no TTC.
Ela ia buscar Tomás. Fosse como fosse.
