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Carregando...romance-contemporaneo
Bianca Alves chegou a Toronto para contar histórias. O que ela não esperava era encontrar alguém que passou a vida inteira fugindo delas. Como bolsista de jornalismo em intercâmbio no Canadá, ela tem seis meses, uma câmera, um caderno —…
CAPÍTULO 1
O painel de chegadas do Aeroporto Internacional Pearson tinha o charme de uma rodoviária às três da manhã num feriado de segunda categoria — fluorescente demais, alto demais, cheio de gente parada no lugar errado. Bianca Alves ficou três minutos imóvel na frente do carrossel número seis antes de perceber que ele havia parado de girar.
A bagagem não estava lá.
Ela verificou o ticket. Verificou o número do voo. Verificou o carrossel. Verificou o ticket de novo. Depois olhou para a placa acima que dizia "CARROUSEL 6 — GRU/YYZ — ENCERRADO" e sentiu aquela sensação específica de quando a situação ficou mais séria do que você estava preparada para aceitar.
— Você está procurando uma mala azul? — disse uma voz ao lado dela.
Era um senhor de uns sessenta anos, casaco bege, bigode grisalho, carregando uma mochila pequena com a postura de quem nunca extraviou nada na vida.
— Azul-royal, — disse Bianca. — Com uma fita laranja no zíper.
— Vi uma assim indo para o atendimento de bagagens. Lá atrás. — Ele indicou um corredor com um aceno de cabeça. — Mas é bom correr, já são quase oito horas da noite.
Bianca correu.
O corredor levou a outro corredor, que levou a uma fila de oito pessoas à frente de um balcão com dois atendentes que trabalhavam no ritmo de quem tinha certeza de que o mundo não ia a lugar algum com pressa. Ela ficou na fila por quarenta minutos. A mala tinha sido mandada para Calgary por um erro de etiquetagem. Chegaria em dois dias, no máximo. Havia um formulário para preencher. Havia um segundo formulário. Havia um número de protocolo que ela deveria guardar.
— Mas eu preciso de roupas, — disse Bianca para a atendente, uma mulher de tranças que parecia genuinamente solidária com a situação mas genuinamente incapaz de resolver.
— Posso oferecer um kit de higiene básico.
CAPÍTULOS
O kit continha uma escova de dente minúscula, pasta de dente suficiente para uns três usos, e um par de meias brancas sem graça.
Bianca saiu do terminal com o kit dentro da bolsa de mão, o casaco que estava usando — um de inverno comprado em BH com promessa de aguentar até dez graus negativos, o que ela achava que era exagero na época — e zero mudas de roupa.
Do lado de fora, Toronto a recebeu com vento.
Não era o vento que ela conhecia. Vento em Belo Horizonte tinha uma textura, uma direção, uma personalidade. Esse era diferente: vinha de todos os lados ao mesmo tempo e tinha temperatura de metal. Ela ficou parada nos primeiros cinco segundos tentando entender o que estava acontecendo com o próprio rosto.
O celular marcava dois por cento de bateria.
Ela tinha o endereço da república no app de e-mail. Abriu o e-mail, copiou o endereço mentalmente — 47 Palmerston Avenue, The Annex —, depois viu a bateria cair para um por cento e decidiu não arriscar usar o GPS. Pegaria um táxi. Táxi era simples. Táxi existia em todo lugar.
Havia uma fila de táxis do lado de fora. Ela entrou no primeiro, disse o endereço, e o motorista disse algo que ela não entendeu por causa de sotaque e barulho de aquecedor ao mesmo tempo.
— Sorry? — disse ela.
Ele repetiu. Ela entendeu "Annex" e "trinta dólares" e achou que era isso.
O táxi arrancou.
Nevava. Ela olhou pela janela com a consciência específica de que nunca havia visto neve de verdade — não como turista, não num lugar que fosse seu, pelo menos temporariamente. A neve em São Paulo que parou as notícias uma vez era outra coisa. Isso aqui era neve funcionando, neve que cobria tudo com intenção.
O celular morreu aos fundos da rodovia.
Ela ficou imóvel por um segundo, segurando o aparelho apagado, e depois o enfiou na bolsa. Tudo bem. Ela tinha o endereço de cabeça. Quarenta e sete Palmerston. The Annex.
O motorista parou numa rua. Disse algo.
— Palmerston? — disse ela.
Ele indicou a janela. Havia uma rua. Casas victorianas enfileiradas, telhados cobertos de neve, calçadas limpas mas frias, uma árvore pelada de galhos que pareciam vasos sanguíneos contra o céu cor de cinza escuro. Parecia saído de um filme.
Ela pagou, saiu, e o táxi foi embora.
Quarenta e sete. Ela procurou os números nas portas. Dezoito. Vinte e dois. Vinte e seis. Vinte e nove — espera, não era assim que os números funcionavam? Ela foi na direção oposta. Trinta e dois. Trinta e oito. Quarenta. Quarenta e três.
O quarenta e cinco tinha uma planta morta na janela e luz acesa.
O quarenta e sete não existia.
Bianca ficou parada na calçada olhando para o espaço entre o quarenta e cinco e o quarenta e nove como se o prédio fosse aparecer se ela esperasse com convicção suficiente. Neve caía nos ombros dela. As mãos dentro das luvas tinham atingido uma temperatura que ela não sabia que mãos podiam atingir.
— Você parece perdida.
Era um jovem de uns vinte e poucos anos, altura média, jaqueta escura, gorro de lã e aquela expressão específica de quem cresceu no frio e portanto não estava sofrendo.
— Tô procurando o quarenta e sete, — disse ela.
— Esse é o quarenta e sete, — ele disse, indicando o espaço vazio. — Mas é um estacionamento. Tem certeza que é Palmerston?
Ela ficou quieta por um segundo.
— Talvez seja Palmerston Boulevard, — ele disse. — Palmerston Avenue termina aqui, mas o Boulevard começa duas ruas adiante. Números altos ficam lá.
Ela respirou.
— Obrigada.
— Direto, vira à direita na Bloor, depois esquerda. — Ele já estava andando. — Boa sorte.
E sumiu.
Ela ficou olhando para a direção que ele tinha apontado. Direto. Direita na Bloor. Esquerda. Simples. Ela conseguia fazer isso.
Vinte minutos depois, encharcada até a altura dos tornozelos porque havia pisado sem querer numa poça coberta por neve que escondia a profundidade real, Bianca encontrou o quarenta e sete da Palmerston Boulevard. Era uma casa duplex de tijolos vermelhos com uma placa pequena que dizia "INTERCÂMBIO — QUARTOS DISPONÍVEIS" e luz acesa no segundo andar.
Ela tocou a campainha.
Uma voz de dentro disse algo indistinto.
A porta abriu para uma garota de cabelo escuro preso num coque frouxo, óculos de leitura levantados na testa, que a olhou de cima a baixo com uma expressão que não era exatamente hostil mas era definitivamente analítica.
— Bianca Alves? — disse a garota.
— É eu.
— Você está completamente ensopada.
— Eu sei.
— E está carregando só uma bolsa de mão.
— A mala foi para Calgary.
A garota abriu a porta mais. — Entre antes de congelar.
A casa tinha aquecimento central e cheiro de chá e uma pilha de livros jurídicos na mesa de centro da sala. Era pequena, tinha um corredor que levava à cozinha, uma escada estreita, e aquela sensação de lugar que ficou habitado por muito estudante ao longo de muitos anos. Confortável de uma forma que não era bonita.
— Sou Priya, — a garota disse, fechando a porta. — Seu quarto é o segundo à esquerda. Banheiro compartilhado. Tem toalhas extras no armário. Tem arroz no fogão se você quiser. — Ela pegou o livro jurídico que havia colocado de lado na mesinha. — Qualquer coisa, é só chamar.
E voltou a ler.
Bianca ficou parada no corredor por um segundo, bolsa no ombro, casaco pingando. Depois foi ao quarto.
Era um quarto de república: cama de solteiro, escrivaninha, janela com vista para o jardim dos fundos coberto de neve. Uma lâmpada amarelada. Armário vazio cheirando a naftalina.
Ela sentou na cama sem tirar o casaco.
Dentro da bolsa de mão havia: passaporte, carteira, carregador portátil (que ela havia esquecido de carregar), um livro de contos do Murilo Rubião, o caderno preto de capa dura que ela levava a todo lugar, e a escova de dente minúscula do kit do aeroporto.
Ela abriu o caderno na primeira página em branco.
Toronto, novembro. Chegou com neve e sem bagagem, escreveu. A cidade parece grande e muito cinza e muito fria. Precisei de ajuda para encontrar o endereço e o cara que me ajudou sumiu sem nem olhar para trás, o que é um comportamento honesto pelo menos. A Priya parece eficiente. Ou fria. Ainda não sei se são a mesma coisa aqui.
Ela parou. Olhou para a janela.
A neve havia intensificado. Do jardim dos fundos vinha uma luz fraca, o quintal de alguém, um jardim coberto de branco que parecia completamente quieto.
Ela acrescentou uma linha: Vai ser incrível.
Não era certo. Era insistência.
Mas às vezes insistência era tudo que você tinha no primeiro dia.
Ela fechou o caderno, foi à cozinha, serviu arroz, e comeu de pé porque ainda não havia desempacotado nada — e o que ela teria desempacotado, afinal, não estava lá.