CAPÍTULO 3Gratuito
O Labirinto de Nitrogênio
O alarme não era um som contínuo, mas um pulso grave e rítmico que parecia vibrar dentro da caixa torácica. Luzes estroboscópicas vermelhas varriam o corredor de vidro, transformando o ambiente estéril da diretoria em um pesadelo fragmentado.
— Alana sumiu — Dante constatou, a voz baixa, enquanto checava o corredor com a pistola erguida. — Ou ela fugiu, ou ela os deixou entrar.
Lívia segurava a arma que ele lhe dera com as duas mãos, apontada para o chão, como vira em filmes. O metal parecia uma extensão estranha de seu corpo. O medo estava lá, uma criatura fria no estômago, mas havia algo mais: uma clareza gelada. O pânico, que deveria estar paralisando seus músculos, estava sendo processado, arquivado e convertido em foco. Projeto Hera, a voz em sua mente sussurrou. Otimização de resposta ao estresse.
— O elevador principal está bloqueado pelo protocolo de segurança — Lívia disse. Ela não sabia como sabia daquilo, mas olhou para o painel de luzes na parede e a lógica do sistema pareceu óbvia, como ler uma frase simples em um livro infantil. — Eles vão esperar que tentemos o heliporto. É a rota de fuga padrão para executivos.
Dante olhou para ela, uma sobrancelha arqueada no meio do caos. — Você leu os protocolos de segurança?
— Não. Eu... eu apenas vejo o padrão. As luzes dos andares superiores estão em lockdown. O térreo está piscando em amarelo. A única rota livre é o subsolo.
— O subsolo é o armazenamento criogênico — Dante retrucou, recuando para dentro da sala e puxando Lívia pelo braço. — É um labirinto a vinte graus negativos. Se ficarmos presos lá...
— É a única saída que não está sendo vigiada pelas câmeras do sistema principal. O servidor de lá é independente para evitar superaquecimento. — As palavras saíam da boca de Lívia com uma certeza que ela não sentia emocionalmente. Era como se outra pessoa estivesse pilotando seu cérebro.
Um tiro estilhaçou o vidro da sala de conferências ao lado deles. Dante não hesitou. Ele disparou três vezes em direção às sombras que surgiam no final do corredor, forçando os invasores a buscar cobertura.
— Subsolo então — ele rosnou. — Siga-me. E não atire nas minhas costas.
Eles correram. Não para os elevadores, mas para uma porta de serviço discreta atrás da mesa da recepção. Dante chutou a fechadura eletrônica, que cedeu com faíscas, e eles mergulharam na escuridão da escadaria de emergência.
A descida foi vertiginosa. Quarenta andares. A cada lance de escadas, o ar ficava mais frio e pesado. O som dos passos deles ecoava no concreto, misturado com o som distante de botas táticas descendo pelos elevadores de carga. Eles estavam sendo caçados por uma matilha.
Quando chegaram à porta pesada de aço do Nível -3, Dante estava suando, a respiração pesada. O ferimento na testa voltara a sangrar. Lívia, por outro lado, sentia-se estranhamente revigorada. O esforço físico não parecia taxar seus pulmões da mesma forma. Seu coração batia forte, mas ritmado, uma máquina eficiente bombeando combustível.
Dante digitou um código no painel. A porta se abriu com um silvo hidráulico, liberando uma nuvem de vapor branco e denso. O Setor de Criopreservação.
Era um mundo alienígena. O teto era alto, perdido na neblina de nitrogênio. O chão era uma grade metálica sobre tubulações que zumbiam. E, estendendo-se até onde a vista alcançava, havia fileiras de tanques de aço inoxidável, altos como obeliscos, onde o futuro da humanidade — ou suas aberrações — dormia suspenso no tempo.
— Fique perto — sussurrou Dante. O vapor saía de sua boca a cada palavra. Ele tremia levemente. A temperatura ali devia estar próxima de zero, e o sistema de refrigeração estava operando em potência máxima.
Lívia entrou na névoa. Ela não sentiu frio. Não da maneira que deveria. Enquanto Dante encolhia os ombros dentro da jaqueta de couro, Lívia sentiu apenas uma sensação de frescor, como uma brisa suave num dia de verão. Sua pele não se arrepiou. Seus dentes não bateram. O ambiente hostil parecia... acolhedor.
Sujeito 01. Resistência a condições extremas. A realidade de sua natureza artificial atingiu-a com mais força do que a revelação no escritório. Ler num papel era uma coisa. Sentir seu corpo desafiar a biologia humana era outra. Ela era um monstro. Uma coisa feita para sobreviver onde humanos morreriam.
— Ali — Dante apontou para uma passarela elevada. — A saída de carga fica no setor norte.
Eles avançaram entre os tanques gigantes. O vapor de nitrogênio criava uma visibilidade quase nula, o que era tanto uma bênção quanto uma maldição.
De repente, um laser vermelho cortou a névoa, passando a centímetros do ombro de Lívia. — Contato! — uma voz gritou à direita.
O tiroteio começou. O som dos disparos era ensurdecedor naquele espaço fechado, ricocheteando no metal dos tanques. Dante empurrou Lívia para trás de um cilindro de preservação e abriu fogo, derrubando um homem que surgira da névoa com um rifle de assalto.
— Eles estão flanqueando! — Dante gritou, trocando o carregador da pistola com mãos que tremiam pelo frio. — São pelo menos quatro. Não consigo ver através desse vapor.
Lívia fechou os olhos por um segundo. Concentre-se. Ela abriu os olhos. O mundo parecia ter desacelerado. O zumbido dos tanques, o som das botas no metal, a respiração de Dante... ela conseguia separar cada som. Ela ouviu o clique suave de um pino de granada sendo puxado à esquerda, a dez metros.
— Esquerda! Granada! — ela gritou, sem pensar.
Dante confiou nela. Ele não questionou. Agarrou-a pela cintura e se jogou para a direita, rolando pelo chão de grade no momento em que a explosão sacudiu o setor. O estrondo foi brutal. Um dos tanques de criopreservação foi atingido, rompendo-se. Um jato violento de nitrogênio líquido e material biológico explodiu para fora, congelando instantaneamente o chão e a parede oposta.
Dois mercenários que avançavam pela esquerda foram pegos no jato. Eles não tiveram tempo de gritar. O frio absoluto, de quase duzentos graus negativos, os atingiu. Eles caíram, rígidos, cobertos por uma casca branca instantânea. Mortos pelo próprio ambiente que invadiram.
Dante levantou-se, tossindo. Ele olhou para os corpos congelados, depois para Lívia. Havia medo nos olhos dele agora. Não dos mercenários, mas dela. De como ela soubera.
— Como você...?
— Não pergunte — ela cortou, a voz dura. — Apenas vamos sair daqui.
Mas a saída estava bloqueada. Uma silhueta enorme surgiu na passarela acima deles. O líder da equipe tática. Ele não estava atirando. Ele segurava um detonador.
— O Sr. Montblanc manda lembranças — disse o homem, a voz amplificada por um alto-falante na máscara.
Sr. Montblanc? O pai dela estava morto. A menos que...
O homem apertou o botão. As travas de segurança dos tanques ao redor deles se abriram simultaneamente. O gás começou a vazar em torrentes, inundando o corredor. A visibilidade caiu para zero. O oxigênio estava sendo deslocado. Era uma armadilha de asfixia.
— Máscaras! — Dante tateou o cinto, mas ele não tinha equipamento de respiração. Ele começou a tossir, o ar rarefeito queimando os pulmões. Ele caiu de joelhos.
Lívia sentiu o ar ficar fino. Ela sabia que deveria estar sufocando. Mas seu corpo reagiu de outra forma. Seu batimento cardíaco caiu drasticamente, entrando em um estado de hibernação metabólica instantânea. Ela conseguia funcionar com menos oxigênio. Muito menos.
Ela viu Dante cair, a pistola escorregando de sua mão. Lívia não correu para a saída. Ela correu para a parede de controle de pressão. O mercenário na passarela riu, erguendo o rifle para finalizá-la.
Lívia olhou para cima. Seus olhos ardiam, mas ela não piscou. Ela mirou a pistola que Dante lhe dera. Mire no centro de massa. Não. O colete dele era à prova de balas. Ela mirou num cano de vapor superaquecido que passava logo acima da cabeça dele. Física básica. Expansão térmica.
Ela puxou o gatilho. Duas vezes. A bala perfurou o isolamento do cano. Um jato de vapor a 200°C explodiu diretamente no rosto do mercenário. O grito dele foi horrível, humano demais, ecoando pelo laboratório congelado. Ele caiu da passarela, despencando na névoa branca lá embaixo com um baque úmido.
Lívia correu até o painel e acionou a ventilação de emergência. As turbinas no teto rugiram, sugando o nitrogênio para fora. Ela voltou para Dante. Ele estava inconsciente, os lábios azuis.
— Não morra — ela ordenou, agarrando-o pelo colarinho da jaqueta. — Você não tem permissão para morrer e me deixar sozinha com essa... essa coisa que eu sou.
Ela o arrastou. Ela pesava sessenta quilos; ele, quase noventa de puro músculo. Mas ela o arrastou como se fosse um boneco de pano até a saída de carga. A força em seus braços não era natural.
Eles saíram na noite fria de Goiânia, nos fundos do complexo, onde o mato alto encontrava a cerca elétrica desativada pela explosão. Lívia colocou Dante no banco de trás de um carro de serviço estacionado ali, fez uma ligação direta nos fios de ignição (outra habilidade que suas mãos executaram sem que seu cérebro consciente ensinasse) e acelerou para longe da torre de vidro, deixando para trás os mortos congelados e a inocência que ela perdera definitivamente naquela noite.
