
A Herdeira do Gelo
Romance Dark/Suspense Psicológico
Aos 32 anos, Lívia Montblanc descobre que toda sua vida foi uma mentira elaborada. Criada em um internato suíço de elite após a suposta morte dos pais em um acidente, ela é convocada de volta ao Brasil para assumir o…
CAPÍTULO 1
A Arquitetura do Silêncio
O frio de Campos do Jordão era diferente do frio de Zurique. Na Suíça, o inverno era uma entidade honesta: seco, cortante, previsível. Ele batia no rosto com a precisão de um relógio e a clareza do cristal. Ali, na Serra da Mantiqueira, o frio era úmido, traiçoeiro. Ele não apenas tocava a pele; ele se infiltrava pelos poros, carregando o cheiro de terra molhada, de pinheiros antigos e, naquela noite específica, o cheiro metálico de algo que Lívia Montblanc só conseguia identificar como medo.
O carro blindado, um SUV preto que mais parecia um carro fúnebre de luxo, contornava as curvas fechadas da estrada com uma suavidade enjoativa. Lívia encostou a testa no vidro frio. A neblina do lado de fora transformava as araucárias em espectros, silhuetas distorcidas que pareciam vigiar sua ascensão ao topo da montanha.
Trinta e dois anos. Havia levado trinta e dois anos para ela voltar para casa. Ou melhor, para o lugar que os documentos diziam ser sua casa.
Lívia olhou para as próprias mãos pousadas sobre o colo. Estavam calmas, imóveis. Anos de treinamento no *Institut Le Rosey*, seguidos por uma década de disciplina autoimposta, haviam lhe dado o dom da impermanência facial. Ninguém, olhando para ela agora, veria a tempestade. Veriam apenas uma mulher elegante, vestida num *trench coat* de lã cinza, com o cabelo castanho perfeitamente alinhado, voltando para enterrar pais que ela mal conhecia.
— Estamos chegando, Senhorita Montblanc — a voz do motorista quebrou o silêncio. Ele não a olhou pelo retrovisor. Era um homem grande, de pescoço largo, que se apresentou apenas como "Santos". Ele dirigia com uma competência mecânica, sem curiosidade, sem empatia.
— Obrigada — ela murmurou. A voz saiu rouca. Havia dias que ela não falava mais do que o estritamente necessário com advogados e oficiais consulares.
A notícia chegara há três dias, numa terça-feira cinzenta. Não houve uma ligação pessoal. Apenas um e-mail criptografado do departamento jurídico da *Criobank*, seguido pela visita de um homem de terno que cheirava a tabaco e colônia cara no saguão do hotel onde ela morava em Genebra. *“Acidente aéreo. Falha mecânica catastrófica. Não houve sobreviventes.”*
As palavras eram assépticas. "Falha mecânica". Como se seus pais fossem peças defeituosas de uma engrenagem que, finalmente, cedeu à pressão. Roberto e Helena Montblanc. Para o mundo, visionários da biogenética. Para Lívia, os financiadores de sua vida distante. Um cheque mensal, um cartão de aniversário assinado por uma secretária, e a exigência silenciosa de que ela permanecesse longe, segura, perfeita.
O carro diminuiu a velocidade diante de um portão de ferro maciço, tão alto que parecia tocar a copa das árvores. Câmeras de segurança com lentes vermelhas brilharam na escuridão, girando para focar neles como olhos de predadores cibernéticos. O portão se abriu sem ruído.
À medida que o carro subia a alameda de pedras, a "mansão glacial" se revelou. Lívia prendeu a respiração. Não era uma casa; era uma declaração de guerra contra a natureza. Um cubo modernista de concreto aparente e vidro temperado, encravado na rocha viva da montanha. A iluminação externa era indireta, azulada, fazendo a estrutura parecer um bloco de gelo flutuando na escuridão da serra. Não havia calor ali. Não havia "boas-vindas".
O carro parou. Santos desceu e abriu a porta para ela. O ar da montanha a atingiu como um tapa, gelado e rarefeito.
— A equipe doméstica foi dispensada para a noite, conforme instruções do Sr. Cavalcanti — disse Santos, retirando a única mala de Lívia do porta-malas. — Ele está aguardando lá dentro.
Lívia franziu a testa. — Cavalcanti?
— Dante Cavalcanti. O Diretor de Operações.
O nome provocou um arrepio que não tinha nada a ver com a temperatura. Nos relatórios financeiros que ela recebera às pressas no voo, o nome de Dante aparecia em todas as linhas de decisão dos últimos cinco anos. Procurações, autorizações de transferência, gestão de crise. Seus pais eram os donos, mas esse homem... esse homem era quem segurava as chaves.
— Obrigada, Santos. Pode ir.
Lívia subiu os degraus de granito preto. A porta principal, uma laje pivotante de madeira carbonizada, estava destrancada. Ela empurrou.
O interior da casa era ainda mais impressionante e intimidador que o exterior. O *hall* de entrada tinha pé-direito duplo, com uma escadaria flutuante de aço que levava ao andar superior. O chão era de mármore branco, tão polido que refletia o teto como um lago congelado. E o silêncio... O silêncio era absoluto, hermético, como se a casa tivesse sido selada a vácuo.
— Olá? — ela chamou. Sua voz ecoou, rebatendo nas paredes de vidro.
Nenhuma resposta.
Lívia caminhou para a sala de estar. Tudo era minimalista ao extremo. Sofás de couro italiano branco, esculturas abstratas de metal, nenhuma fotografia, nenhum livro fora do lugar, nenhum sinal de que seres humanos viviam ali. Parecia o saguão de uma clínica de luxo, não um lar.
Ela viu uma luz vindo de um corredor lateral, onde portas de vidro jateado sugeriam um escritório. O som de papel sendo rasgado — um som violento, rápido — veio de lá.
Lívia hesitou por um segundo. O instinto de sobrevivência, aquele que ela aprimorara observando as garotas cruéis do internato e a sociedade polida de Genebra, disse para ela recuar. Mas a raiva falou mais alto. Aquela era *sua* casa agora. Aquele era o mausoléu de seus pais, e havia um estranho revirando os ossos.
Ela caminhou até o escritório e empurrou a porta.
A sala estava na penumbra, iluminada apenas pela luz azulada de três monitores de computador e uma luminária de mesa focada em uma pilha de documentos. E atrás da mesa, sentado na cadeira de couro que deveria pertencer ao seu pai, estava ele.
Dante Cavalcanti não se parecia com um executivo. Ou, pelo menos, não com os executivos engomados que ela conhecia. Ele estava sem o paletó, as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos, revelando antebraços fortes e um relógio que custava mais que o carro que a trouxera. A gravata estava desfeita, pendurada no pescoço como uma corda frouxa.
Ele não olhou para ela imediatamente. Continuou lendo o documento em suas mãos, os olhos escuros varrendo as linhas com uma velocidade predatória. Em seguida, com um movimento fluido, jogou o papel numa trituradora ao lado da mesa.
— Você está atrasada, Lívia — ele disse. A voz era grave, arranhada pelo cansaço, mas carregava uma autoridade natural que fez a espinha dela ficar rígida.
— E você está na minha cadeira — Lívia respondeu, surpreendendo-se com a firmeza da própria voz. Ela entrou na sala, o salto de suas botas ecoando no piso de madeira escura.
Dante finalmente levantou os olhos.
Foi um choque físico. Lívia esperava um burocrata de meia-idade. O homem à sua frente devia ter trinta e cinco, trinta e seis anos. Tinha um rosto de linhas duras, maxilar marcado e uma sombra de barba por fazer que lhe dava um ar perigoso, de quem não dormia há dias. Mas eram os olhos que a prenderam: inteligentes, frios e desprovidos de qualquer simpatia. Eram olhos de quem já tinha visto coisas que preferiria esquecer.
Ele parou, a mão suspensa sobre a próxima folha de papel. Um sorriso cínico, quase imperceptível, curvou o canto de sua boca.
— *Sua* cadeira? — Ele se levantou devagar. Era alto, dominando o espaço ao redor da mesa. — Esta cadeira pertence a quem mantém este império de pé enquanto os donos brincam de família feliz na Europa ou morrem em acidentes convenientes.
Lívia sentiu o sangue subir ao rosto. — Cuidado com o tom, Sr. Cavalcanti. Meus pais acabaram de morrer.
— Eu sei. Eu identifiquei os corpos — ele disse, brutalmente direto. Ele contornou a mesa e parou a dois passos dela, invadindo seu espaço pessoal. Ele cheirava a café forte, uísque e papel velho. — E se você acha que está aqui para chorar o luto e escolher as flores do velório, é melhor voltar para o aeroporto. A *Criobank* não tem tempo para sentimentalismos.
Lívia sustentou o olhar dele, recusando-se a recuar. — Eu não vim aqui por sentimentalismo. Eu vim porque sou a única herdeira legal de tudo isso. Incluindo esta casa, esta empresa e... — ela olhou para a trituradora —...os documentos que você está destruindo.
Dante riu, um som seco, sem humor. — "Herdeira legal". Que termo bonitinho. — Ele cruzou os braços, os músculos dos bíceps tensionando sob o tecido da camisa. — Você não herdou uma empresa, princesa. Você herdou um alvo nas costas. Você não faz ideia do que a *Criobank* realmente faz, faz?
— Fertilização *in vitro*, preservação de material genético, pesquisas com células-tronco — ela recitou o texto do site institucional, sentindo-se subitamente tola ao dizê-lo em voz alta diante daquele homem.
A expressão de Dante mudou. O cinismo deu lugar a algo mais sombrio. Ele se aproximou mais um passo, baixando a voz para um sussurro que parecia raspar na pele dela.
— Isso é o que vendemos nos folhetos para casais ricos do Leblon e dos Jardins. — Ele apontou para a parede de vidro atrás dele, que dava para a vista panorâmica e escura da montanha. — O que fazemos de verdade... o que pagou por essa casa, pelas suas escolas na Suíça e pelas roupas de grife que você está usando... é muito mais complicado. E muito mais sujo.
Lívia sentiu um nó no estômago. As palavras dele ecoavam uma suspeita que ela carregara a vida toda. A distância dos pais, o segredo obsessivo, a segurança excessiva.
— O que você quer dizer com "sujo"? — ela perguntou, a voz falhando levemente.
Dante a analisou, como um cientista analisando uma amostra sob o microscópio. Ele parecia estar decidindo se ela valia o esforço. — Seus pais não morreram num acidente, Lívia. O jato deles foi sabotado. Alguém cortou a linha hidráulica principal.
O mundo de Lívia oscilou. Ela precisou segurar na borda da mesa de mogno para não perder o equilíbrio. — Sabotado? A polícia disse... o relatório preliminar...
— A polícia diz o que é paga para dizer. Ou o que é incompetente demais para descobrir. — Dante passou a mão pelo cabelo escuro, num gesto de frustração. — Eles estavam prestes a encerrar o "Protocolo Gênesis". Iam fechar a torneira de um projeto que vale bilhões no mercado negro. Alguém não gostou.
— Quem? — A pergunta saiu num sussurro.
— Se eu soubesse, já teria resolvido. — Ele se virou, pegando um copo de cristal com um resto de líquido âmbar sobre a mesa e virando de uma vez. — O ponto é: eles estão mortos. E agora, você está aqui. O que significa que o problema agora é seu. Ou você é a próxima da lista.
Lívia olhou ao redor, para as sombras que pareciam se alongar nos cantos da sala. A mansão, que antes parecia apenas fria, agora parecia uma armadilha.
— Por que você está me contando isso? — ela perguntou, estreitando os olhos. — Se você é o homem forte da empresa, por que não me deixar no escuro? Por que não tentar tomar o controle?
Dante a encarou novamente. Por um breve segundo, a máscara de frieza caiu, revelando uma exaustão profunda e... algo mais. Culpa?
— Porque eu prometi ao seu pai que, se algo acontecesse, eu tentaria manter você viva. — Ele pegou uma pasta preta grossa de cima da mesa e estendeu para ela. — Não sei por que fiz essa promessa, considerando que você é uma estranha mimada que nunca pisou num laboratório, mas eu sou um homem de palavra.
Lívia pegou a pasta. Era pesada. Na capa, apenas um número de série e um carimbo vermelho: *CONFIDENCIAL - Nível 5*.
— O que é isso?
— O inventário real — Dante disse. — Não o dos advogados. O verdadeiro. Lista de ativos, passivos e... os cadáveres no armário. Literalmente, em alguns casos. Leia hoje à noite. Amanhã de manhã, às 08:00, vamos para a sede. Se depois de ler isso você quiser correr de volta para a Suíça, eu colocarei você no primeiro voo e assumirei o controle. Se você ficar... bem, aí a alma é sua para vender.
Ele pegou o paletó do encosto da cadeira e o jogou sobre o ombro. — Vou dormir na ala leste. Tranue a porta do seu quarto. Não abra para ninguém além de mim.
— Você está me assustando de propósito? — Lívia desafiou, abraçando a pasta contra o peito como um escudo.
Dante parou na porta do escritório. Ele olhou para ela por cima do ombro, e a intensidade daquele olhar fez o coração de Lívia bater descompassado, uma mistura confusa de medo e uma atração física inoportuna, visceral.
— O medo mantém você alerta, Lívia. A complacência mata. Bem-vinda ao lar.
Ele saiu, deixando-a sozinha na penumbra do escritório.
Lívia ficou imóvel por um longo tempo, ouvindo os passos dele se distanciarem até o silêncio retomar a casa. O frio parecia ter aumentado. Ela olhou para a pasta em suas mãos. Seus dedos estavam brancos de tanto apertar o couro sintético.
Ela caminhou até a janela. Lá fora, a neve começava a cair, flocos finos e lentos cobrindo o mundo de branco. Era uma beleza mortal. Ela pensou nos pais, na mentira que fora sua vida, e no homem rude e magnético que acabara de virar seu mundo de cabeça para baixo.
*Voltar para a Suíça*, ela pensou. Seria o racional. Seria o seguro. Mas então ela se lembrou da trituradora de papel. Do som das folhas sendo rasgadas. Dante estava escondendo algo. Ele dissera que queria mantê-la viva, mas não dissera que era inocente.
Lívia abriu a pasta ali mesmo, sob a luz fraca da lua. A primeira página não era um contrato. Era uma fotografia. Uma foto antiga, granulada, de três bebês em incubadoras. Mas as incubadoras não tinham nomes. Tinham códigos de barras. E no canto da foto, datada de trinta e dois anos atrás — o ano de seu nascimento —, estava a assinatura de seu pai e uma outra assinatura, ilegível, mas com um sobrenome que ela reconheceu vagamente das colunas sociais da Europa.
Seu coração falhou uma batida. Ela virou a página. Um perfil genético. O dela. Mas ao lado da categoria "Status", não estava escrito "Natural". Estava escrito: *Projeto Hera - Sujeito 01. Êxito parcial.*
Lívia fechou a pasta com um estalo, a respiração presa na garganta. O ar do escritório parecia subitamente rarefeito, insuficiente. Ela não era apenas a herdeira. Ela era parte do produto.
O som de um vidro quebrando no andar de cima a fez pular. Não foi o som de algo caindo por acidente. Foi o som deliberado de uma janela sendo forçada.
Dante dissera para trancar a porta. Lívia desligou a luminária, mergulhando o escritório na escuridão total. Seus olhos se acostumaram rapidamente às sombras. O instinto de presa, aquele que ela achava ter deixado para trás na terapia, assumiu o controle.
Ela tirou os sapatos para não fazer barulho. Segurando a pasta pesada como uma arma improvisada, ela se esgueirou para o corredor. Ela não iria correr para a Suíça. Não ainda. Primeiro, ela precisava descobrir quem — ou o que — ela realmente era.
E se Dante Cavalcanti achava que ela era uma boneca de porcelana prestes a quebrar, ele estava prestes a descobrir que o gelo, quando pressionado, não quebra. Ele corta.
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