CAPÍTULO 3Gratuito
A Proposta
A mensagem de James Chen chegou às oito e treze da manhã, enquanto Marina equilibrava um guarda-chuva quebrado e uma sacola da Tesco no caminho da estação de Elephant and Castle até o escritório. Chovia — o tipo de chuva londrina que não caía, mas pairava, uma névoa úmida que grudava no rosto e nos cachos que ela não tivera tempo de prender direito.
*"Meu escritório, 14h. Vista algo profissional. Venha preparada para negociar."*
Marina leu a mensagem três vezes. Guardou o celular no bolso do casaco e passou o resto da manhã tentando não pensar no que "venha preparada para negociar" significava.
Não conseguiu.
O memorando que escrevera — seis páginas sobre a viabilidade de casamentos contratuais — estava na mesa de James desde ontem. Ela fizera o trabalho. Analisara os precedentes, as brechas, os riscos. Era um documento técnico, limpo, objetivo. O tipo de trabalho que fazia bem e pelo qual ninguém a elogiava, porque advogados juniores não eram elogiados — eram utilizados.
Mas algo na mensagem de James — o "venha preparada para negociar" — sugeria que o memorando não era o fim. Era o começo.
Marina passou a manhã revisando contratos de fusão no subsolo do escritório — o departamento júnior ficava literalmente abaixo do nível da rua, porque a metáfora era irresistível — e almoçou um sanduíche de supermercado na mesa, mastigando sem prestar atenção enquanto relia pela quarta vez os termos do testamento de Raj Mehta. A cláusula matrimonial continuava lá, imutável, com a certeza tranquila de uma bomba que já tinha sido armada.
Às treze e quarenta, foi ao banheiro. Lavou o rosto, secou com papel toalha áspero, e olhou para o espelho. Cabelo: parcialmente domesticado, os cachos tentando uma fuga na nuca. Maquiagem: rímel aplicado às seis e meia da manhã, quase desaparecido. Blusa: branca, sem manchas, milagrosamente. Blazer: preto, comprado no outlet da Zara há dois anos, que ela usava em todas as reuniões como se fosse um uniforme — e era.
*Vista algo profissional.* Aquilo era tão profissional quanto podia ser com um salário de advogada júnior. Se James esperava Armani, teria que pagar Armani.
§
O escritório de James estava diferente. A mesa, normalmente coberta de pastas e monitores, fora parcialmente limpa. Havia água, copos de cristal e um arranjo de cadeiras que sugeria uma reunião com mais gente do que o habitual. E havia uma terceira pessoa na sala.
Arjun Mehta estava de pé junto à janela, de costas para a porta, olhando o nevoeiro que engolia a City como se o panorama lhe pertencesse — o que, de certo modo, pertencia. Vestia um terno escuro de corte preciso, sem gravata, o colarinho aberto num gesto que em outro homem pareceria descuido e nele parecia cálculo. Alto. Mais alto do que nas fotos. A postura reta, os ombros largos sob o tecido que não fazia uma única prega, e as mãos nos bolsos com uma naturalidade que sugeria que ele sabia exatamente o efeito que sua presença causava e não tinha o menor interesse em amenizá-lo.
Quando se virou, Marina foi atingida por duas coisas simultâneas: os olhos dele — escuros, avaliadores, com uma quietude que não era calma mas contenção — e o cheiro. Sândalo, algo amadeirado, e uma nota mais fria por baixo que podia ser a lã do terno ou podia ser o próprio Arjun Mehta: elegante, distante, e inequivocamente caro.
— Marina Duarte — disse James, de pé entre os dois como um mestre de cerimônias que achava a própria produção divertida. — Arjun Mehta.
— Senhor Mehta — disse Marina, estendendo a mão.
— Senhorita Duarte. — O aperto foi firme, breve, seco. A mão dele era quente — surpreendentemente quente para alguém que parecia feito de mármore — e durou exatamente o tempo necessário para ser cortês sem ser amigável. — James fala bem do seu trabalho.
— James é generoso.
— James é preciso — corrigiu Arjun, e sentou na cadeira sem esperar indicação, cruzando uma perna sobre a outra com a economia de movimento de quem não desperdiça gestos. — É por isso que confio nele.
Marina sentou na cadeira oposta. Entre eles, a mesa de James funcionava como uma fronteira diplomática. James permaneceu de pé por mais um instante — o bastante para que Marina percebesse que ele estava avaliando a dinâmica — e depois sentou ao lado, ligeiramente recuado, como árbitro.
— Marina, você leu o adendo do testamento Mehta — começou James.
— Li.
— E escreveu o memorando sobre viabilidade jurídica de casamento contratual.
— Escrevi.
— Qual foi sua conclusão?
Marina olhou de James para Arjun. Arjun não se mexeu. Os olhos escuros estavam fixos nela com uma atenção que não era curiosidade — era medição. Ele estava calculando. Pesando. Decidindo se ela era o que James prometera.
— Viável — disse Marina, mantendo a voz no mesmo tom que usava em audiências: claro, desapaixonado, e inabalável. — Sob a lei britânica, o casamento civil não exige declaração de sentimentos. Exige consentimento mútuo, capacidade legal e ausência de impedimentos. Se ambas as partes consentem voluntariamente, o casamento é legalmente válido independentemente da motivação. — Fez uma pausa. — A vulnerabilidade é a contestação por terceiros. Se alguém provar que o casamento é simulado — apenas para fins patrimoniais —, pode-se argumentar fraude ao testamento. A defesa contra isso é aparência de legitimidade.
— Ou seja — disse James —, parecer casados.
— Conviver, frequentar eventos juntos, manter a narrativa. Sim.
Arjun não havia interrompido. Não havia feito perguntas. Apenas escutava, com a paciência de alguém acostumado a deixar os outros terminarem antes de fazer seu único movimento.
— Senhorita Duarte — disse ele, finalmente, e a voz era exatamente como Marina esperava e ao mesmo tempo diferente: grave, controlada, com um sotaque que era mais britânico que indiano mas que carregava uma cadência distinta nas vogais, como se duas línguas competissem por espaço em cada sílaba. — Eu preciso me casar em menos de onze meses. O casamento precisa parecer genuíno para o conselho da Nexus, para minha família e para qualquer eventual investigação jurídica. Precisa durar dezoito meses, tempo suficiente para consolidar a transferência das ações. Depois disso, divórcio amigável. — Pausa. — James sugeriu que você seria a pessoa adequada para esse arranjo.
Marina sentiu o chão mudar sob os pés. Não literalmente — a cadeira de couro era estável, o carpete era grosso, o prédio tinha fundações que aguentariam um terremoto —, mas algo dentro dela deslocou-se, como uma peça de Tetris caindo num espaço que ela não sabia que existia.
Ela. Não o contrato. Ela.
— Eu? — A palavra saiu com mais surpresa do que gostaria, e Marina odiou cada microssegundo de vulnerabilidade que a sílaba carregou.
James interveio. — Você é advogada. Entende os termos. Tem discrição profissional. E tem motivação financeira para considerar uma proposta com compensação significativa.
— Que tipo de compensação?
— Quinhentas mil libras — disse Arjun. A cifra caiu na sala como uma pedra num lago calmo — sem ruído excessivo, mas com ondas que atingiam todas as margens. — Pagas em parcelas ao longo dos dezoito meses, com uma parcela final na data do divórcio. — Ele a olhava sem piscar. — Em troca: casamento civil, coabitação, presença em eventos sociais e corporativos, e manutenção da aparência de casamento legítimo pelo período acordado.
Quinhentas mil libras.
A soma reverberou no crânio de Marina como o sino de uma catedral. Quinhentas mil. Seu empréstimo era oitenta mil. Sobrariam quatrocentas e vinte mil. Era mais dinheiro do que seu pai tinha visto na vida inteira. Mais do que sua mãe veria. Mais do que Marina ousara imaginar como realista — porque realismo, para ela, sempre fora uma versão atenuada de esperança.
— E o que mais? — perguntou, porque advogadas perguntam "o que mais" antes de perguntar "sim."
— Regras claras — disse Arjun. — Quartos separados. Sem envolvimento pessoal. Sem relacionamentos paralelos que comprometam a narrativa. Discrição absoluta. — Descruzou as pernas e inclinou-se para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos, e pela primeira vez Marina viu algo além do mármore: uma urgência contida, quase imperceptível, nos tendões do pescoço. — Isso não é um pedido, senhorita Duarte. É uma negociação. E eu gostaria de saber se você está interessada em negociar.
Marina olhou para as próprias mãos. As unhas estavam curtas, sem esmalte, porque esmalte era uma despesa e manutenção que ela abandonara há um ano. Os dedos eram firmes. Não tremiam. Bom.
Levantou os olhos.
— Posso ter vinte e quatro horas?
Arjun recostou-se na cadeira. — Pode ter quarenta e oito.
— Vinte e quatro é suficiente.
Algo passou pelo rosto de Arjun — não um sorriso, não exatamente, mas uma alteração mínima na musculatura ao redor dos olhos, como se ele tivesse acabado de reclassificá-la mentalmente de "candidata" para "adversária digna."
— James vai enviar os termos preliminares por e-mail — disse ele, levantando-se. — Leia com atenção. Modifique o que considerar necessário. — Abotoou o blazer com uma mão só, gesto que parecia ensaiado mas provavelmente era apenas o resultado de mil repetições diárias. — E, senhorita Duarte.
— Sim?
— O memorando que você escreveu era bom. Preciso mas não servil. — Fez uma pausa na porta. — Gosto de pessoas que sabem separar análise de opinião.
Saiu. O cheiro de sândalo ficou por mais alguns segundos, teimoso como uma impressão digital no ar.
Marina soltou o ar que não sabia estar segurando.
James sentou na cadeira que Arjun desocupara e a olhou com aquela expressão que ela já conhecia — sardônica, inteligente, e irritantemente presciente.
— E aí? — perguntou.
— Você poderia ter me avisado.
— Se eu avisasse, você teria ensaiado. E eu precisava que ele visse você de verdade.
— Ele me viu entrando em pânico.
— Ele viu você controlando o pânico. É diferente. — James abriu o tablet. — Marina, eu sei que isso parece insano. Eu sei que ontem de manhã você estava revisando um testamento e agora está considerando ser parte dele. Mas eu não teria sugerido seu nome se não achasse que você é capaz.
— Capaz de me casar por dinheiro?
— Capaz de manter o controle numa situação que a maioria das pessoas não aguentaria. — Ele a olhou por cima dos óculos. — E capaz de negociar termos que protejam você. Porque se eu conheço o Arjun, ele vai respeitar você na exata medida em que você exigir respeito.
Marina se levantou. As pernas estavam firmes. O estômago, menos.
— Manda os termos — disse. — Eu leio hoje à noite.
— Marina.
Ela parou na porta.
— Você não precisa aceitar.
— Eu sei.
— Mas se aceitar, negocie como se a vida dependesse disso. Porque para ele, depende.
Marina saiu do escritório, pegou o elevador até o subsolo, sentou na sua mesa compartilhada e ficou olhando para a tela do computador por sete minutos antes de perceber que não tinha aberto nenhum arquivo.
§
O studio em Elephant and Castle nunca pareceu tão pequeno quanto naquela noite.
Marina sentou no chão — o único lugar com espaço suficiente para espalhar papéis — com o laptop aberto, uma caneca de café coado que fizera no método improvisado (filtro de papel sobre a caneca, água fervida na chaleira elétrica, pó trazido do Brasil por uma amiga há três meses e racionado como ouro) e dezesseis páginas de termos preliminares.
James tinha sido meticuloso. O contrato cobria tudo: duração, compensação, coabitação, aparência pública, confidencialidade, condições de rescisão, alocação de bens, termos de divórcio. Era um documento que tratava um casamento como uma joint venture — porque era exatamente isso.
Marina leu cada cláusula com a atenção que dedicava a contratos de fusão, sublinhando, anotando, fazendo perguntas nas margens. Tinha um sistema: tinta preta para observações neutras, vermelha para problemas, azul para ideias. Quando terminou, as margens eram uma constelação tricolor.
O café esfriou. Ela fez outro.
Depois ligou para Belo Horizonte.
Dona Célia atendeu no segundo toque. — Filha! Espera, deixa eu abaixar a televisão. — O som da novela diminuiu até virar um murmúrio. — Pronto. Tudo bem?
— Tudo bem, mãe.
— Mentira. Você só liga essa hora quando tá com alguma coisa na cabeça.
Marina quase sorriu. Dona Célia tinha o tipo de intuição que tornava mentir não apenas inútil, mas ofensivo — como tentar esconder o sol com a peneira, como ela dizia.
— É trabalho — disse Marina, o que era tecnicamente verdade. — Um caso grande. Estou pensando se aceito.
— Paga bem?
— Paga muito bem.
— E por que tá pensando, então? Se paga bem e é trabalho, qual é o problema?
O problema, pensou Marina, é que o trabalho envolve fingir que estou casada com um homem que tem a expressividade emocional de uma estátua e o patrimônio líquido de um pequeno país. Mas isso ela não podia dizer.
— É complicado, mãe. Tem... implicações pessoais.
— Marina. — O tom de Dona Célia mudou para aquele registro que toda mãe mineira dominava: sério, amoroso, e impossível de ignorar. — Você é a pessoa mais inteligente que eu conheço. Se você tá pensando, é porque vale a pena pensar. Mas não pensa demais. Você pensa demais, filha. Às vezes a resposta certa é a que dá medo.
Marina engoliu o nó na garganta com um gole de café frio.
— Obrigada, mãe.
— Come alguma coisa antes de dormir. E bebe água.
— Tá bom, mãe.
Desligou. O studio estava em silêncio, exceto pelo rumor distante do trânsito e o gotejar da torneira do banheiro que precisava de reparo. Marina olhou para os papéis espalhados no chão, para os números sublinhados em vermelho — quinhentas mil libras, dezoito meses, regras claras —, e para o extrato bancário que ainda estava aberto no celular.
Saldo: £743,22.
A equação não era complicada. A equação era aritmética pura: de um lado, uma dívida que a estrangulava, um salário que mal cobria Londres, e uma carreira que avançava na velocidade de uma geleira. Do outro, uma quantia que resolveria tudo — a dívida, a ajuda à mãe, o espaço para respirar que ela não tinha há três anos.
Mas Marina era advogada. E advogadas sabiam que as melhores armadilhas eram justamente as que pareciam soluções perfeitas.
Pegou a caneta vermelha. Abriu o contrato na primeira página. E começou a escrever as condições que faltavam — as que protegeriam não o patrimônio de Arjun Mehta, mas a dignidade de Marina Duarte.
Trabalhou até as duas da manhã. Quando finalmente dormiu, a caneta vermelha ainda estava na mão, e os termos preliminares tinham mais anotações do que texto original.
Na margem da última página, em letras firmes e maiúsculas, havia uma frase que ela mesma sublinhou duas vezes:
*"Contrapartida: tudo. Custo: a ser determinado."*
