
A Esposa de Papel
Romance de CEO
Marina Duarte não veio ao mundo para ser esposa de ninguém — muito menos de um CEO bilionário que mal consegue sorrir. Mas quando Arjun Mehta precisa de um casamento para herdar o império tecnológico do pai, e Marina precisa…
CAPÍTULO 1
A Cláusula
O café da máquina do escritório tinha gosto de arrependimento — amargo demais, aguado demais, e nenhuma quantidade de açúcar disfarçava que era o terceiro copo desde as sete da manhã. Marina Duarte tomou mais um gole mesmo assim, porque cafeína era o único luxo que seu salário permitia sem culpa, e porque precisava de combustível para encarar a montanha de documentos que aguardava na sua mesa.
A mesa, aliás, nem era dela. Era compartilhada. Um hot desk no canto menos iluminado do escritório de Harrison, Locke & Partners, espremida entre o arquivo de casos antigos e a impressora que vivia atolando. Três anos em Londres, dois e meio naquele escritório, e Marina ainda não tinha um lugar fixo para apoiar a caneca.
Ajeitou os cachos que escapavam do coque — sempre escapavam, como se o cabelo dela recusasse domésticação tanto quanto ela própria — e abriu o laptop. A tela mostrava dezessete e-mails não lidos, todos do tipo que exigia resposta educada e energia que ela não tinha. Mas um deles, do escritório de James Chen, tinha o selo de prioridade alta.
"Duarte, sala do Chen, 9h30. Traga o dossiê Mehta."
Marina franziu a testa. O caso Mehta estava na mesa dela desde segunda — ou melhor, na mesa compartilhada —, mas era administração testamentária padrão. Um espólio. Patrimônio grande, família complicada, nada que justificasse ser convocada pelo advogado sênior em pessoa.
Conferiu o relógio no canto do monitor. Oito e quarenta e sete.
O dossiê era grosso. Duzentas e doze páginas, em papel timbrado de outro escritório que havia preparado o testamento original — Blackwood & Associates, Chancery Lane — e a maior parte era o inventário patrimonial. Holdings, participações, imóveis em quatro países, contas cujos zeros Marina contava três vezes antes de acreditar. Raj Mehta havia sido fundador da Nexus Group, um conglomerado de tecnologia que operava entre Londres e Mumbai, e morrera oito meses atrás de um infarto fulminante durante um voo entre Delhi e Heathrow.
Marina já tinha lido o inventário duas vezes. Sabia de cor os valores das subsidiárias, a distribuição dos imóveis entre os herdeiros, as doações para caridade previstas no anexo C. O que não tinha lido ainda — porque James instruíra que fosse "etapa dois" — era o adendo pessoal do testamento. Um documento separado, lacrado, que fora aberto em juízo duas semanas antes e cuja cópia certificada chegara ao escritório na sexta.
Pegou a pasta, o café e o caderno de anotações. Parou diante do espelho estreito no corredor — um gesto automático que detestava e não conseguia evitar — e alisou a blusa. Azul-marinho, sem graça, sem amassado. Profissional. Invisível. Exatamente o que uma advogada júnior devia ser numa firma onde os sócios usavam abotoaduras que custavam mais do que o aluguel dela.
O escritório de James Chen ficava no décimo segundo andar, com janelas amplas que davam para a City. Naquela manhã, o nevoeiro engolia os prédios ao redor, e o Shard era apenas uma sugestão vertical atrás de camadas de cinza. Marina bateu na porta aberta.
— Pontual — disse James, sem levantar os olhos do monitor. Vestia um terno cinza-grafite que parecia ter sido cortado diretamente no corpo, e os óculos sem aro davam a ele o ar de alguém que calculava probabilidades mesmo dormindo. — Sente-se.
Marina sentou. A cadeira era boa — couro macio, apoio lombar que a dela não tinha — e ela resistiu ao impulso de girar.
— Li o inventário completo — começou, colocando a pasta na mesa dele. — Está tudo documentado. A partição entre os dois filhos segue a estrutura padrão de...
— Leu o adendo? — James ergueu os olhos. Escuros, atentos, com aquela faísca de inteligência sardônica que tornava impossível saber quando ele estava falando sério.
— Ainda não. Você disse...
— Etapa dois. Eu sei. — Ele puxou uma folha de dentro da gaveta e deslizou pela mesa na direção dela. — Leia agora.
Marina pegou o documento. Quatro páginas, linguagem formal mas com o tipo de clareza que sugeria que o autor — Raj Mehta — tinha revisado cada vírgula pessoalmente. Ela começou a ler.
As duas primeiras páginas eram instruções sobre a gestão da Nexus Group após sua morte. Quem assumiria qual cargo, prazos de transição, cláusulas de não-competição entre os filhos. Tudo meticuloso. Tudo esperado.
A terceira página mudava o tom.
Marina leu devagar. Releu. Sentiu a testa se contrair e percebeu que estava segurando a respiração. Soltou o ar pela boca, tentando manter a expressão neutra, e leu pela terceira vez.
A cláusula era inequívoca.
*"O controle majoritário da Nexus Group — representado por 60% das ações ordinárias — será transferido ao filho que, até a data de seu 35º aniversário, comprovar estado civil de casado, em união reconhecida pela legislação britânica. Na ausência de cumprimento, o controle majoritário será dividido igualmente, com voto de desempate transferido ao conselho consultivo externo."*
— Isso é real? — Marina ergueu os olhos da página.
— Certificado em juízo, homologado, sem contestação formal até agora — disse James, recostando-se na cadeira. — Raj Mehta condicionou a herança ao casamento.
Marina olhou de novo para o documento. As letras não tinham mudado.
— O filho mais velho...
— Vikram Mehta. Trinta e oito anos, casado há seis com Sunita. COO da Nexus. Ele cumpre a cláusula.
— E o mais novo.
— Arjun Mehta. Trinta e quatro. CEO interino. Solteiro.
— Ele faz trinta e cinco quando?
James consultou algo na tela. — Novembro. Onze meses.
Marina processou a informação em camadas, como fazia com contratos. Primeiro a letra fria: uma cláusula testamentária condicionando transferência de ações a estado civil. Juridicamente incomum, mas não sem precedente. Segundo a implicação prática: sem casamento, Arjun Mehta perderia o controle da empresa que ajudara a construir. Terceiro — e isso a incomodava mais do que devia —, a pergunta que a cláusula não respondia: por quê?
Por que um homem como Raj Mehta, descrito em cada obituário como pragmático e visionário, condicionaria o destino de um conglomerado bilionário a algo tão pessoal quanto um casamento?
— Por que estou vendo isso? — perguntou, escolhendo a pergunta que cabia a uma advogada júnior.
James tirou os óculos e limpou as lentes com um lenço que pareceu materializar-se do nada. Um gesto que ela já identificara como tática de pausa — ele fazia sempre antes de dizer algo que mudaria o rumo da conversa.
— Porque eu preciso de alguém do departamento de contratos para estruturar um acordo pré-matrimonial muito específico. E porque, Duarte, você é a melhor redatora de cláusulas contratuais que esse escritório tem.
— A mais júnior, você quer dizer.
— Eu disse o que eu disse. — Ele recolocou os óculos. — O cliente é Arjun Mehta. Ele vai se casar.
Marina piscou. — Em onze meses?
— Em menos, se possível.
— Com quem?
James não respondeu imediatamente. Recostou-se de novo, cruzou as mãos sobre o abdômen e a olhou com uma expressão que Marina não conseguiu decodificar — algo entre divertimento e cálculo.
— Isso ainda está sendo determinado — disse ele, finalmente. — Por enquanto, preciso que você leia tudo. O testamento, o adendo, os estatutos da Nexus, e os precedentes que separei na pasta azul. Amanhã de manhã eu quero um memorando sobre a viabilidade jurídica de um casamento contratual sob a lei britânica. — Fez uma pausa. — Viabilidade, não moralidade. Sei que você sabe a diferença.
Marina sabia. Mas a diferença, naquela manhã nublada no décimo segundo andar de um escritório na City, pareceu mais fina do que de costume.
§
O apartamento de Marina ficava em Elephant and Castle — um studio de trinta metros quadrados no terceiro andar de um prédio que havia sido moderno em 1987 e agora era apenas funcional. O chuveiro tinha dois modos: gelado e morno. A janela dava para um estacionamento. O aluguel custava £1.200 por mês, o que era uma barganha para os padrões londrinos e um absurdo para os padrões de qualquer pessoa sensata.
Ela entrou às oito da noite, largou a bolsa na cadeira — a única cadeira — e abriu a geladeira. Sobras de curry de grão-de-bico que fizera no domingo. Colocou no micro-ondas e, enquanto esperava os três minutos giratórios, apoiou-se no balcão da cozinha e olhou para o extrato bancário aberto no celular.
Saldo: £743,22.
Próximo pagamento do empréstimo estudantil: £890, em doze dias.
Diferença: negativa.
Marina fechou o aplicativo com o polegar, como quem fecha uma porta antes que o monstro saia. Depois abriu de novo, porque ignorar o monstro nunca fizera ele desaparecer.
Oitenta mil libras. Esse era o número. O empréstimo que pagara seu mestrado em Direito Internacional na UCL, a taxa de inscrição na Law Society, os primeiros meses em Londres quando ainda não tinha trabalho e vivia de arroz com ovo. O mestrado abrira portas. O empréstimo cobrara o preço.
O micro-ondas apitou. Ela comeu o curry direto do pote, sentada na cama — que também era sofá — com a pasta de Raj Mehta aberta ao lado.
Tinha passado a tarde inteira lendo. Os estatutos da Nexus Group. Os precedentes que James separara. Casos de casamentos contratuais no Reino Unido, suas bases legais, suas vulnerabilidades. A maioria era sobre vistos — casamentos de conveniência para imigração, o tipo que o Home Office perseguia com vigor. Mas havia outros: casamentos para fins patrimoniais, sucessórios, fiscais. Casamentos que eram, essencialmente, acordos comerciais entre duas partes que não se amavam.
Marina mastigou uma garfada de grão-de-bico e pensou em Arjun Mehta.
Tinha pesquisado. CEO da Nexus Group desde que o pai adoecera, dois anos antes da morte. Formado em Oxford e no MIT. Aparecia nas listas de "30 under 30" e "Forbes Asia" e em fotografias de galas onde sorria com a precisão de quem aprendeu que sorrisos são ferramentas sociais, não expressões de emoção. Alto, anguloso, ternos impecáveis. Em nenhuma foto parecia relaxado. Em todas parecia no controle.
Uma matéria mais antiga — do Financial Times, quatro anos atrás — mencionava uma noiva. Priya Sharma, consultora de gestão, indiana. Morrera num acidente de carro no M25. A matéria era sóbria e breve, e Arjun Mehta não dera declarações à imprensa.
Marina fechou a aba. Não era da conta dela.
Abriu o documento de trabalho e começou o memorando. Viabilidade jurídica de um casamento contratual sob a lei britânica. As teclas do laptop estalavam no silêncio do apartamento, misturando-se com o barulho distante de sirenes e o zumbido do aquecimento que nunca aquecia o suficiente.
Duas horas depois, o memorando tinha seis páginas. Conclusão: era viável. Legalmente arriscado se contestado, mas viável, desde que nenhum dos cônjuges declarasse sob juramento que o casamento era fictício. A aparência de casamento genuíno era fundamental.
Marina releu a conclusão e sentiu algo estranho — não exatamente desconforto, mas uma espécie de sombra ética passando sobre o trabalho. Ela era advogada. Seu trabalho era encontrar caminhos dentro da lei, não julgá-los. Mas havia uma diferença entre redigir cláusulas para clientes e entender, com precisão cirúrgica, por que alguém pagaria para ter uma esposa.
Fechou o laptop. Escovou os dentes, trocou de roupa, deitou-se no escuro.
O teto do apartamento tinha uma mancha de umidade que, dependendo do ângulo, parecia a Itália. Ela sempre olhava para a mancha antes de dormir. Era o único pedaço de Europa que conseguia ver do travesseiro.
Na mesa ao lado da cama, o celular vibrou.
Mensagem de Dona Célia, a mãe. Horário de Brasília: cinco da tarde. Ela estaria na cozinha, provavelmente, com a novela das seis começando dali a pouco e o café coado esfriando na bancada.
*"Filha, vi no jornal que Londres tá com frio de novo. Tá comendo direito? Manda foto. Beijo da mãe."*
Marina digitou: *"Tá tudo bem mãe. Comi curry. Tá frio mas tenho casaco."*
Não mandou foto porque o curry de grão-de-bico reaquecido no pote não era o tipo de imagem que aliviaria a preocupação de Dona Célia, e porque o studio de trinta metros quadrados — com a cama encostada na parede e as roupas secando no varal improvisado no banheiro — contava uma história que Marina não queria que a mãe lesse.
Oitenta mil libras.
E um homem que precisava de uma esposa.
Marina virou para o lado, puxou o cobertor e fechou os olhos. O cheiro de curry persistia no ar. A mancha no teto continuava parecendo a Itália. E em algum lugar de Knightsbridge, num andar alto de um prédio que ela nunca pisaria, Arjun Mehta provavelmente também estava acordado, olhando para um teto que não tinha manchas, calculando quanto tempo lhe restava para cumprir a última vontade de um homem morto.
Onze meses.
Marina não dormiu rápido naquela noite. E quando dormiu, sonhou com contratos — cláusulas que se reescreviam sozinhas, letras miúdas que cresciam até cobrir a página inteira, e uma assinatura na linha pontilhada que era, inconfundivelmente, a sua.
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