CAPÍTULO 4Gratuito
O Contrato
Marina chegou ao escritório de James Chen às nove da manhã com o contrato anotado debaixo do braço, um café coado numa thermos que trouxera de casa — porque o café da máquina era uma ofensa a tudo que Minas Gerais representava — e uma lista de treze cláusulas adicionais escritas à mão numa folha de caderno pautado. Tinha dormido quatro horas. Parecia ter dormido oito. Era uma habilidade que desenvolvera na faculdade de direito em BH, quando trabalhava meio período numa loja de tecidos da tia e estudava durante a madrugada: o corpo aprendera a funcionar em modo econômico, e o rosto aprendera a mentir.
Arjun já estava lá.
Sentado na mesma cadeira do dia anterior, com um terno grafite que era quase idêntico ao de ontem — quase, mas Marina notou a diferença na textura do tecido, mais leve, provavelmente lã tropical para o escritório aquecido — e uma caneta preta entre os dedos que ele girava sem parecer perceber. O chai à frente dele estava pela metade. O aroma de cardamomo e sândalo disputava espaço com o cheiro de papel e couro da sala.
— Bom dia — disse Marina, sentando-se.
— Bom dia. — Arjun olhou para o contrato debaixo do braço dela e depois para a thermos. — Trouxe seu próprio café?
— O da máquina é criminoso. — Marina abriu a thermos, serviu-se na tampa que funcionava como copo e tomou um gole. O café era forte, coado no filtro de papel, com aquele amargor honesto que lembrava a cozinha da mãe e as manhãs em BH quando o mundo ainda era um lugar onde dívidas de oitenta mil libras não existiam. — Podemos começar?
James ergueu uma sobrancelha desde sua cadeira de árbitro, visivelmente divertido. — Quando quiserem.
Marina abriu o contrato na primeira página. As anotações em vermelho, preto e azul formavam um mapa — e ela conhecia cada rua.
— Li os termos — começou, com a voz que usava quando apresentava pareceres: firme, sem pressa, sem pedir permissão. — São bem redigidos. Cobrem o essencial. Mas têm lacunas.
— Lacunas — repetiu Arjun, sem inflexão. Não era uma pergunta. Era uma constatação de que ela pretendia questioná-lo, e Marina leu nessa constatação algo que poderia ser tanto ceticismo quanto curiosidade.
— Sete lacunas — disse Marina, e colocou a folha de caderno pautado sobre a mesa, ao lado do contrato impresso. — E seis cláusulas que precisam de reformulação. — Olhou-o nos olhos. — Posso ir ponto a ponto?
Arjun recostou-se. A caneta parou de girar. — Vá.
Marina respirou.
— Primeiro: autonomia profissional. O contrato prevê coabitação e presença em eventos, mas não garante explicitamente que minha carreira continua intocada. Eu quero uma cláusula que diga, em termos inequívocos, que nenhum aspecto deste arranjo pode interferir nos meus horários de trabalho, nas minhas responsabilidades profissionais ou nas minhas decisões de carreira. — Pausa. — Incluindo promoções, mudanças de escritório e aceitação de novos casos.
Arjun inclinou a cabeça. — Justo. Seguinte.
— Segundo: privacidade. O contrato tem cláusula de confidencialidade, mas é unilateral. Protege você e a Nexus. Preciso da mesma proteção. Se alguém — imprensa, investigador, seu irmão — vasculhar minha vida pessoal como resultado deste arranjo, quero cláusula de indenização e assistência jurídica custeada integralmente por você.
James anotou algo no tablet. Arjun não se mexeu.
— Terceiro — continuou Marina —: cláusula de saída. O contrato permite rescisão por acordo mútuo, mas não prevê rescisão unilateral por justa causa. Se em qualquer momento você descumprir os termos, ou se a situação se tornar insustentável por razões que não foram previstas, eu preciso poder sair sem perder a compensação proporcional ao tempo cumprido.
— Defina "insustentável" — disse Arjun.
— Assédio, constrangimento público, invasão de privacidade além do acordado, ou qualquer conduta que comprometa minha integridade pessoal ou profissional. — Marina sustentou o olhar dele. — Eu sei que parece excessivo. Não é. É precaução. E se você fosse advogado, exigiria o mesmo.
Silêncio. Um segundo. Dois. O relógio na parede de James fazia um tique-taque analógico que Marina nunca tinha notado antes.
— Continue — disse Arjun.
— Quarto: moradia. O contrato diz "coabitação na residência principal." Preciso de específicação: quarto privativo, banheiro privativo, e acesso a áreas comuns sem restrição de horário. Não sou hóspede. Se vou morar lá, preciso morar — não acampar.
— Há um quarto de hóspedes no segundo andar — disse Arjun. — Suíte completa. Vista do Hyde Park.
— Ótimo. Coloca no contrato.
O canto da boca de Arjun se moveu. Não era um sorriso — era o fantasma de algo que poderia ter sido um sorriso se ele se permitisse —, e Marina fingiu não ver.
— Quinto: despesas pessoais. O contrato prevê uma "alocação para vestuário e aparência compatível com o estilo de vida do contratante." — Ela leu a frase com a neutralidade de quem disseca uma autópsia. — Reformulação: despesas com vestuário para eventos corporativos e sociais exigidos pelo contrato serão custeadas separadamente da compensação principal. Não quero que meu guarda-roupa seja descontado dos quinhentos mil.
James tossiu. Marina suspeitou que fosse uma risada disfarçada.
— Sexto: exclusividade. O contrato diz que nenhuma das partes pode manter "relacionamentos paralelos que comprometam a narrativa." A redação é vaga. Quero específicação: ambos concordam em não manter relacionamentos românticos ou sexuais com terceiros durante o período do contrato. — Olhou para Arjun. — Isso protege os dois. Se alguém fotografar qualquer um de nós com outra pessoa, o casamento vira ficção pública.
— Concordo — disse Arjun. A palavra foi imediata — sem cálculo, sem hesitação —, e Marina registrou que esse era o primeiro ponto que ele aceitara sem pausar para processar. O que significava que ou ele já tinha pensado nisso, ou a ideia de se envolver com outra pessoa durante o contrato era tão remota para ele que a cláusula era irrelevante.
— Sétimo — disse Marina, e fez uma pausa deliberada antes de continuar, porque este era o ponto que a mantivera acordada até as duas da manhã. — Dignidade.
Arjun franziu a testa. — Dignidade não é um termo jurídico.
— Deveria ser. — Marina apoiou as mãos sobre a mesa. — Senhor Mehta, eu vou mudar para a sua casa, usar sua aliança, comparecer aos seus jantares e dizer ao mundo que sou sua esposa. Em troca, recebo dinheiro. — As palavras saíram com precisão cirúrgica, cada uma pesada antes de ser pronunciada. — Existe um universo de interpretações para isso, e a maioria delas é humilhante. O que eu quero — e isso é inegociável — é uma cláusula que estabeleça que, em público e em privado, ambas as partes se tratam com respeito. Sem condescendência, sem ordens, sem tratamento que sugira que uma parte é inferior à outra.
O escritório ficou em silêncio. James parou de anotar. Arjun parou de mexer na caneta. O tique-taque do relógio era o único som.
Arjun a olhou — não com a expressão avaliadora de ontem, mas com algo diferente. Algo mais lento. Como se estivesse relendo uma página que pensou ter entendido na primeira leitura e descobrisse uma camada que havia escapado.
— Senhorita Duarte — disse ele, e a voz desceu meio tom, não por sedução mas por gravidade. — Eu nasci numa família onde meu pai tratava minha mãe como igual. Foi a primeira coisa que ele me ensinou e a última que lhe direi que aprendi. A cláusula é desnecessária.
— Se é desnecessária, não custa nada incluí-la.
Outro quase-sorriso. Desta vez, mais visível.
— Inclua.
Marina sentiu algo soltar-se no peito — uma tensão que não sabia estar carregando — e passou para o ponto seguinte antes que o alívio se tornasse visível.
Os pontos restantes eram técnicos: cronograma de pagamentos, termos de divórcio, tratamento fiscal, NDA mútuo com penalidades iguais para ambas as partes. Marina os apresentou com a mesma precisão dos anteriores, e Arjun respondeu a cada um com perguntas objetivas, contrapropostas razoáveis, e uma ou duas concessões que fizeram James erguer as sobrancelhas.
A negociação durou duas horas e quarenta minutos.
Quando terminaram, o contrato tinha vinte e três cláusulas no lugar das dezesseis originais, e Marina sentia a garganta seca e as mãos formigando com a adrenalina residual de ter negociado, cara a cara, com um homem que provavelmente negociava fusões bilionárias antes do café da manhã.
— James vai redigir a versão final — disse Arjun, levantando-se. — Quarenta e oito horas para revisão, cinco dias para assinatura. — Abotoou o blazer. Olhou para Marina. — Mais alguma coisa?
— Uma — disse Marina. — Meu nome.
Arjun parou.
— Eu mantenho meu nome. Marina Duarte. Não Mehta. Não hifenizado. Duarte. — Levantou-se também, porque não ia dizer isso sentada. — Nas aparências públicas, posso ser apresentada como "Marina Mehta" se necessário. Mas nos documentos — e na minha cabeça — eu continuo sendo quem sempre fui.
Arjun a olhou por um momento que se estendeu um segundo além do profissional. Havia algo no fundo dos olhos escuros — não admiração, era cedo demais para isso, mas um reconhecimento. O tipo de reconhecimento que acontece quando uma pessoa identifica em outra uma qualidade que respeita.
— Duarte — disse ele. — Anotado.
Estendeu a mão. Marina apertou. O aperto durou um segundo a mais que ontem, e quando soltou, a palma dela estava quente.
Arjun saiu. O aroma de sândalo persistiu por menos tempo do que ontem — ou Marina prestou menos atenção. Ou mais.
James esperou até os passos no corredor se tornarem inaudíveis, depois tirou os óculos e olhou para Marina com uma expressão que combinava satisfação profissional com algo que se parecia, contra toda probabilidade, com orgulho.
— Posso fazer uma observação? — perguntou.
— Pode.
— Em dez anos de carreira, eu vi o Arjun negociar com banqueiros, reguladores, e um ministro do comércio que tentou blefar sobre tarifas. Nenhum deles o fez conceder sete pontos em uma única sessão. — James recolocou os óculos. — Você acabou de fazer o que o conselho da Nexus não consegue.
— Eu nego...
— Você o impressionou. E Arjun Mehta não se impressiona facilmente. — James abriu o laptop. — Vá trabalhar. Eu mando a versão final até sexta.
Marina pegou a thermos — agora vazia — e a folha de caderno pautado — agora desnecessária — e saiu do escritório de James com passos que eram propositalmente regulares, porque se andasse rápido demais pareceria fuga, e se andasse devagar demais pareceria triunfo, e nenhuma das duas coisas era o que sentia.
O que sentia era a primeira versão de algo que não tinha nome ainda — um peso e uma leveza simultâneos, como segurar um contrato que poderia mudar tudo e não saber se o papel era uma ponte ou um precipício.
§
No elevador, sozinha, Marina encostou-se na parede de aço espelhado e olhou para o próprio reflexo. Blazer preto de outlet. Cabelo escapando do coque. Olhos cor de mel que, naquele momento, tinham a expressão exata de alguém que acabou de pular de um avião e está no meio segundo entre o salto e a abertura do paraquedas.
— Marina Duarte — disse para o reflexo, testando o som. Depois, mais baixo: — Marina Mehta.
Os dois nomes ficaram suspensos no ar refrigerado do elevador, um real e outro fictício, separados por quinhentas mil libras e dezoito meses de mentira organizada.
O elevador chegou ao subsolo. As portas abriram. Marina endireitou os ombros, ajeitou o blazer, e saiu andando como quem tinha certeza de para onde ia.
Não tinha. Mas fingia bem.
No bolso, o celular vibrou. Mensagem de um número desconhecido.
*"Obrigado pela negociação. James tinha razão sobre você. — A.M."*
Marina leu. Releu. Guardou o celular.
E pela primeira vez em três anos de Londres, permitiu-se pensar que talvez — só talvez — aquele studio em Elephant and Castle não fosse o último endereço da história.
