
Vinhas do Desejo
Romance contemporâneo rural francês
Quando Valentina Beaumont retorna ao Château Bellevue, o vinhedo centenário de sua família no coração da Provença francesa, após anos estudando administração de vinhos em Paris, ela encontra muito mais do que as fileiras infinitas de parreiras e os campos…
CAPÍTULO 1
O Retorno
O táxi percorria a estrada sinuosa que cortava os campos de lavanda da Provença, e Valentina Beaumont sentiu o coração apertar no peito quando avistou, ao longe, as torres de pedra do Château Bellevue recortadas contra o céu azul do fim de tarde. Cinco anos. Havia cinco anos desde que deixara aquele lugar, jurando a si mesma que só voltaria quando tivesse provado seu valor longe da sombra opressora do sobrenome que carregava.
Agora, aos vinte e oito anos, com um diploma de administração de vinhos da prestigiada Université de Paris pendurado metaforicamente em seu currículo e uma mala cheia de sonhos sobre como modernizar a vinícola da família, estava de volta. Mas não era apenas o triunfo acadêmico que a trazia de volta para casa — era o telefonema desesperado de sua mãe, três dias atrás, a voz embargada sussurrando palavras que gelaram seu sangue: "Seu pai está vendendo Bellevue. Precisamos de você."
— Nous sommes arrivés, mademoiselle — anunciou o motorista, parando em frente aos imponentes portões de ferro forjado que guardavam a entrada da propriedade.
Valentina pagou a corrida e desceu do carro, puxando sua mala de viagem. O ar estava carregado com o perfume inconfundível de lavanda misturado ao aroma terroso das vinhas maduras. Setembro sempre fora sua época favorita em Bellevue — o mês da colheita, quando a propriedade inteira pulsava com vida, energia e promessa.
Ela atravessou os portões, seus saltos afundando levemente no cascalho da alameda. A cada passo, memórias se desdobravam como páginas de um livro antigo: correndo descalça entre as fileiras de uvas quando criança, seu avô Jean-Pierre ensinando-a a identificar o momento exato em que cada cacho atingia a maturação perfeita, as festas suntuosas que seus pais ofereciam durante a época da colheita, quando a elite provençal se reunia nos salões do château para degustar os vinhos premiados da família Beaumont.
Mas também havia memórias mais sombrias. A discussão violenta entre seus pais na noite anterior à sua partida para Paris. O olhar decepcionado de seu pai quando ela anunciou que queria estudar longe. A frieza calculada com que ele dissera: "Se for embora, não espere encontrar um lugar esperando por você quando voltar."
Valentina sacudiu a cabeça, afastando os pensamentos amargos. Estava aqui agora, e faria o que fosse necessário para salvar o legado de sua família.
Foi quando o viu.
No alto da colina, entre as fileiras de parreiras que se estendiam até onde a vista alcançava, havia um homem. Ele estava de costas, examinando os cachos de uva com movimentos precisos e experientes, o corpo definido sob uma camisa branca com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Os cabelos escuros, ligeiramente longos, brilhavam sob a luz dourada do sol da tarde. Mesmo à distância, havia algo na postura dele — confiante, territorial, quase possessiva — que fez o estômago de Valentina revirar de um modo que ela não conseguia nomear.
Como se sentisse o peso do olhar dela, o homem se virou.
O mundo pareceu desacelerar.
Olhos escuros, intensos como a noite sem lua, encontraram os dela através da distância. Mesmo de longe, Valentina sentiu o impacto daquele olhar como um soco no estômago. O homem a observou por um momento que pareceu se esticar por uma eternidade, então acenou com a cabeça — um gesto mínimo, quase imperceptível — antes de voltar sua atenção para as vinhas.
— Valentina!
A voz aguda cortou o momento. Sua irmã mais nova, Isabelle, descia correndo a escadaria da entrada principal do château, os cabelos loiros esvoaçantes, um sorriso luminoso no rosto delicado. Aos vinte e três anos, Isabelle parecia ter saído diretamente de uma pintura renascentista — toda curvas suaves, pele de porcelana e uma beleza etérea que atraía olhares onde quer que fosse.
— Mon Dieu, você realmente voltou! — Isabelle jogou os braços ao redor do pescoço de Valentina, quase derrubando-a. — Achei que mamãe estava delirando quando disse que você estava vindo.
— Oi, Bella — Valentina retribuiu o abraço, inalando o perfume caro de rosa que sua irmã sempre usava. — Como estão as coisas por aqui?
O sorriso de Isabelle vacilou, e algo sombrio atravessou seus olhos azuis antes que ela recompusesse a expressão.
— Terríveis, para ser honesta. Papai está impossível. Mamãe passa os dias trancada no quarto. E Théo... — ela fez uma pausa, mordendo o lábio inferior. — Bem, você verá por si mesma.
Antes que Valentina pudesse perguntar mais, a porta principal do château se abriu novamente. Marguerite Beaumont surgiu no topo da escadaria, elegante como sempre em um vestido de linho bege, os cabelos grisalhos presos em um coque impecável. Mas havia algo diferente nela — uma fragilidade nos ombros ligeiramente curvados, linhas de preocupação profundas ao redor dos olhos que Valentina não se lembrava de terem estado ali antes.
— Valentina — a voz de sua mãe era suave, controlada, mas tremia nas bordas. — Minha filha.
— Maman.
Elas se abraçaram no topo da escada, e Valentina sentiu os dedos de sua mãe apertarem suas costas com uma força quase desesperada.
— Graças a Deus você veio — Marguerite sussurrou contra seu cabelo. — Graças a Deus.
Quando se separaram, os olhos de sua mãe estavam úmidos, mas ela piscou rapidamente, recompondo a máscara de serenidade aristocrática que usava como armadura.
— Entre, querida. Você deve estar exausta da viagem. Preparei seu quarto antigo. Nada foi mexido desde que você saiu.
Enquanto cruzavam o hall de entrada — com seu piso de mármore italiano, as tapeçarias antigas penduradas nas paredes de pedra e o lustre de cristal que havia pertencido à família por três gerações —, Valentina não conseguiu evitar olhar pela janela que dava para os vinhedos.
O homem ainda estava lá, movendo-se entre as fileiras com uma graça fluida e natural.
— Quem é aquele? — a pergunta saiu antes que ela pudesse se conter.
Isabelle e Marguerite seguiram seu olhar. Foi sua irmã quem respondeu, e havia algo estranho em seu tom — uma mistura de admiração e ressentimento.
— Ah, esse é Rafael Santoro. Nosso novo enólogo e gerente da propriedade. Papai o contratou há dois anos, depois que Monsieur Dubois se aposentou.
— Italiano? — Valentina arqueou uma sobrancelha.
— De Piemonte — confirmou Marguerite, e havia uma tensão em sua voz que Valentina não conseguia decifrar. — Filho de viticultores, estudou enologia em Alba. Seu pai e seu avô, aparentemente, eram enólogos respeitados na região. Rafael veio para a França há três anos, trabalhou em algumas das melhores propriedades de Bordeaux antes de seu pai... — ela hesitou, trocando um olhar rápido com Isabelle —...antes de chegarmos a um acordo.
— Um acordo?
— Conversaremos sobre isso depois — Marguerite cortou o assunto com firmeza. — Agora, você deve descansar. O jantar será às oito. Toda a família estará presente.
Havia um peso nessas últimas palavras que fez o estômago de Valentina se revirar novamente.
Seu quarto estava exatamente como ela o deixara — a cama de dossel com lençóis de linho branco, a escrivaninha antiga onde passara noites estudando para seus exames do liceu, as janelas amplas que ofereciam uma vista panorâmica dos vinhedos que se estendiam até as colinas distantes. Valentina deixou sua mala aos pés da cama e caminhou até a janela, abraçando a si mesma.
De seu quarto, tinha uma visão privilegiada da propriedade. Os vinhedos se estendiam em fileiras perfeitamente simétricas, as folhas verdes começando a ganhar tons dourados e avermelhados com a aproximação do outono. Mais além, podia ver as instalações de produção — a cave onde os vinhos envelheciam em barris de carvalho francês, os armazéns de engarrafamento, os escritórios administrativos.
E lá, ainda entre as vinhas, Rafael Santoro.
Mesmo à distância, havia algo magnético nele. A maneira como se movia, como tocava as plantas com uma familiaridade que beirava o reverente. Este era um homem que conhecia a terra, que entendia os segredos sussurrados pelas vinhas.
Valentina se afastou da janela, irritada consigo mesma. Estava aqui para salvar o château, não para se distrair com funcionários — não importava quão interessantes eles parecessem.
Ela tomou um banho rápido, trocou de roupa, optando por calças brancas de linho e uma blusa azul-marinho que realçava seus olhos castanhos-esverdeados, e desceu para o escritório de seu pai. Se ia jantar com a família, pelo menos queria ter uma noção do tamanho exato do desastre que a aguardava.
O escritório de Auguste Beaumont ficava no ala oeste do château, uma sala ampla revestida em madeira escura, com estantes repletas de livros sobre viticultura, enologia e história dos vinhos franceses. A mesa enorme de mogno dominava o centro da sala, normalmente coberta com mapas da propriedade, relatórios de safra e correspondências com distribuidores internacionais.
Agora, a mesa estava coberta de papéis em completa desordem — faturas não pagas, avisos de cobrança, propostas de compra com valores sublinhados em vermelho.
Valentina se aproximou, o coração disparando. Pegou uma das faturas — um fornecedor de equipamentos de engarrafamento. O valor era astronômico, e a palavra "VENCIDO" estava carimbada em vermelho no topo. Outra fatura, do banco, com juros acumulados que faziam sua cabeça girar. E outra, e outra.
— Bem-vinda ao inferno, irmãzinha.
Ela se virou bruscamente. Seu irmão, Théo, estava encostado no batente da porta, um copo de whisky na mão. Aos trinta e dois anos, ele deveria estar no auge da vida, mas parecia uma versão desgastada de si mesmo. Havia olheiras profundas sob seus olhos azuis, o cabelo loiro estava desgrenhado, e suas roupas — jeans e uma camisa amarrotada — eram impensáveis para os padrões de apresentação que seu pai sempre exigira.
— Théo — ela o cumprimentou, tentando esconder o choque em sua voz. — Quanto tempo.
— Cinco anos, quatro meses e dezessete dias, para ser exato — ele tomou um gole do whisky. — Mas quem está contando, não é?
— O que aconteceu aqui? — Valentina gesticulou para a mesa coberta de dívidas.
Théo riu, um som amargo e sem humor.
— O que aconteceu? Onde você quer que eu comece? A safra desastrosa de dois anos atrás, quando uma geada tardia destruiu setenta por cento da produção? Os investimentos idiotas de papai em derivativos financeiros que evaporaram quando o mercado despencou? Ou talvez devamos falar sobre como ele praticamente entregou a gestão da propriedade para um estranho enquanto bebia sua culpa até o esquecimento?
— Não fale assim do papai.
— Por quê? Porque a verdade dói? — Théo se aproximou, e ela pôde sentir o cheiro forte de álcool em seu hálito. — Você fugiu, Valentina. Correu para Paris e nos deixou aqui para lidar com a ruína. Então não venha agora com sua moral superior.
— Eu não fugi. Fui estudar.
— Você fugiu — ele repetiu, a voz mais baixa agora, quase triste. — E talvez tenha sido a mais inteligente de todos nós.
Antes que Valentina pudesse responder, uma voz grave e com sotaque italiano ecoou pela porta aberta:
— Desculpe interromper.
Ambos se viraram. Rafael Santoro estava parado na entrada do escritório, e de perto ele era ainda mais impactante do que Valentina imaginara. Alto, devia ter pelo menos um metro e oitenta e cinco, com ombros largos e um físico definido de quem passava os dias trabalhando sob o sol. Os olhos eram de um marrom tão escuro que pareciam quase negros, emoldurados por cílios espessos que qualquer mulher invejaria. Havia uma sombra de barba por fazer em seu maxilar angular, e quando ele passou a mão pelos cabelos escuros, Valentina percebeu as manchas de terra sob suas unhas curtas — mãos de trabalhador, não de aristocrata.
— Monsieur Beaumont — Rafael se dirigiu a Théo com um aceno respeitoso, mas havia tensão na linha de seus ombros. — Os caminhões para a primeira coleta de amanhã já estão preparados. Precisamos começar cedo, antes que o orvalho evapore completamente. Por volta das seis da manhã.
— Ótimo — Théo respondeu com indiferença. — Faça o que achar melhor. Você está no comando, afinal.
Rafael apertou os lábios em uma linha fina, e Valentina percebeu o músculo tenso em sua mandíbula. Havia história ali, tensão não resolvida entre seu irmão e este homem.
Foi só então que os olhos de Rafael se voltaram para ela, e quando seus olhares se encontraram, Valentina sentiu como se o ar tivesse sido sugado de seus pulmões.
— E você deve ser Valentina Beaumont — ele disse, e havia algo em seu tom que ela não conseguia identificar. Surpresa? Reconhecimento? — Rafael Santoro. É... um prazer finalmente conhecê-la. Ouvi muito sobre a filha prodígio que foi estudar em Paris.
Ele estendeu a mão, e quando Valentina a apertou, uma corrente elétrica percorreu seu braço. A mão dele era calejada, forte, envolvendo a dela completamente. O aperto durou um segundo a mais do que seria apropriado, e quando ele finalmente a soltou, Valentina teve que se forçar a não esfregar a palma contra a calça.
— O prazer é meu, Monsieur Santoro — ela respondeu, erguendo o queixo. — Espero que possamos conversar sobre a situação da propriedade em breve. Afinal, também sou uma Beaumont, e minha família construiu este lugar muito antes de você chegar.
Algo perigoso brilhou nos olhos dele — desafio, talvez, ou irritação. Mas quando ele falou, sua voz era perfeitamente controlada:
— Estou à sua disposição, mademoiselle. Embora deva avisá-la que a situação é mais complicada do que papéis em uma mesa podem mostrar. Esta terra... — ele fez uma pausa, e havia paixão em sua voz agora —...exige mais do que diplomas. Exige sangue, suor e compreensão de seus ritmos mais profundos.
— Nasci nesta terra — Valentina retrucou, sentindo o calor subir por seu pescoço. — Conheço cada centímetro destes vinhedos desde que aprendi a andar. Então não venha me dizer o que esta propriedade exige.
Por um momento, eles simplesmente se encararam, a tensão entre eles tão espessa que Théo soltou uma risada curta.
— Bem, isso promete ser interessante — seu irmão murmurou, terminando o whisky. — Acho que o jantar hoje à noite não será tão entediante quanto eu temia.
Rafael desviou o olhar primeiro, voltando sua atenção para Théo.
— Com sua permissão, preciso voltar para os vinhedos. A temperatura está caindo e quero verificar os níveis de açúcar nos cachos uma última vez antes de escurecer completamente.
— Vá — Théo gesticulou com a mão. — Você não precisa de minha permissão para fazer seu trabalho, Santoro. Nunca precisou.
Rafael acenou com a cabeça e se virou para sair, mas não sem lançar um último olhar para Valentina — um olhar que ela sentiu queimar sua pele mesmo depois que ele desapareceu pelo corredor.
— Cuidado com esse — Théo avisou quando ficaram sozinhos. — Rafael Santoro pode parecer apenas um funcionário dedicado, mas há mais nele do que aparenta. Muito mais.
— O que você quer dizer com isso?
Théo apenas sorriu, um sorriso triste e conhecedor.
— Você vai descobrir. Todo mundo sempre descobre os segredos de Bellevue eventualmente. É uma maldição desta terra — ninguém escapa ileso.
E com essas palavras crípticas, ele também saiu, deixando Valentina sozinha no escritório, rodeada por dívidas que ameaçavam consumir tudo que sua família construíra, e com a sensação perturbadora de que seu retorno ao Château Bellevue tinha acabado de desencadear algo que mudaria sua vida para sempre.
Lá fora, o sol se punha sobre os vinhedos, tingindo o céu de tons de laranja e púrpura. E entre as fileiras de parreiras, Rafael Santoro trabalhava enquanto a noite se aproximava, seus movimentos precisos e ritmados, como se dançasse uma música que só ele podia ouvir — a música antiga e implacável da terra que ele agora comandava com mais autoridade do que qualquer Beaumont ousara ter em décadas.
Valentina se virou para a janela, observando sua silhueta contra o céu flamejante, e soube, com uma certeza que a assustava, que nada em sua vida seria mais simples daqui em diante.
A colheita estava prestes a começar.
E não seriam apenas as uvas que seriam colhidas naquele outono em Bellevue.
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