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Carregando...romance-contemporaneo
Valentina Ferraro, 27, italiana — Top 8 WTA, jogo explosivo, backhand que a imprensa chama de il fulmine. Três anos atrás perdeu a final de duplas mistas de Roland Garros por causa de James Whitmore. Nunca esqueceu. Nunca perguntou por…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — Chave O avião pousou em Charles de Gaulle às onze e quinze da manhã, com vinte minutos de atraso, e Valentina passou esse tempo extra olhando pela janela oval para uma faixa de céu cinza que nem chegava a se decidir entre nuvem e chuva. Maio em Paris era assim, ela sabia. Havia jogado ali três vezes antes. O céu nunca se decidia até o dia da final.
No corredor de desembarque, alguém a reconheceu — uma mulher com mochila e blusa do Roland Garros do ano anterior. O olhar dela passou pelo rosto de Valentina, voltou, parou. Ela não disse nada. Valentina também não. Era cedo no torneio e ainda dava para circular sem ser interceptada. Daqui a três dias seria diferente.
O motorista do torneio estava na saída segurando uma placa onde estava escrito FERRARO em letras azuis. Era um homem magro, de uns sessenta anos, que cumprimentou em francês, depois mudou para um inglês esforçado quando ela respondeu. Ela poderia ter respondido em italiano — entendia francês razoavelmente, e sabia que ele entenderia italiano também. Mas o inglês era a língua neutra dos torneios, a língua sem peso. Ela usou inglês.
— Hotel Pullman?
— Sim.
— Vinte minutos. Talvez vinte e cinco. Há trabalho na via.
Ela acenou. Sentou no banco de trás. Pôs o celular no colo, a tela virada para baixo. Não queria olhar ainda.
A janela do táxi mostrou os subúrbios de Paris primeiro — os blocos cinzas que nenhum filme romântico mostrava, o muro de pichações ao lado da autoestrada, um outdoor enorme com a foto de uma mulher sorrindo segurando um perfume cujo nome era em italiano e que ela nunca havia comprado. Ela nunca tinha sido convidada a posar para um perfume. Tinha sido convidada para um relógio, três anos atrás, e tinha recusado porque a sessão de fotos coincidia com Wimbledon. A agência havia ficado irritada. Hoje provavelmente não a chamariam mais. Tudo bem.
CAPÍTULOS
O motorista virou o rádio para baixo sem que ela tivesse pedido. Ela agradeceu mentalmente. O silêncio era melhor.
Depois de uns vinte minutos a paisagem mudou — a periferia virou bairro, o bairro virou Paris-Paris, com os prédios de pedra cor de areia, varandas pretas de ferro, janelas altas. Era a primeira vez na temporada que ela estava numa cidade europeia que não a fazia pensar em fuga. Nas semanas antes — Madrid, Roma — ela tinha perdido nas quartas em Madrid e ganho Roma, mas Roma tinha sido difícil de uma forma que ela não sabia explicar. Tinha jogado bem. Tinha ganhado. E mesmo assim havia voltado para o quarto do hotel toda noite com a sensação de estar fora do próprio corpo. Lucia tinha notado. Não tinha dito nada, mas tinha notado.
Roland Garros estava em algum lugar à direita da janela, ainda invisível atrás dos prédios, mas Valentina sentiu a presença do torneio como se fosse um som. Era assim toda vez. A cidade vibrava de um jeito específico durante os Grand Slams. Os táxis estavam mais cheios. Os hotéis perto de Auteuil tinham as recepções tomadas por gente com credenciais penduradas no pescoço. Os restaurantes próximos a Porte d'Auteuil duplicavam os preços e ninguém reclamava.
O Pullman ficava a quinze minutos do estádio, num bairro chamado Boulogne. Era o hotel oficial dos atletas — não o único, mas o maior. A maioria do circuito principal ficava ali. Os jogadores que tinham mais dinheiro alugavam apartamentos em outros bairros e iam de motorista, mas Lucia preferia o hotel. *Mais perto do trabalho*, era o que ela sempre dizia. *Menos tempo gasto chegando.* Lucia raciocinava em minutos.
O táxi entrou na alameda de árvores que levava ao hotel e parou em frente à entrada. Dois seguranças do torneio estavam parados perto da porta giratória. Eles a reconheceram, acenaram com a cabeça. Um deles abriu a porta do táxi. Valentina saiu, agradeceu o motorista em francês — *merci beaucoup* — e entrou.
A recepção tinha um cheiro específico que ela já conhecia: ar-condicionado misturado com um perfume cítrico que aparentemente era o cheiro corporativo da rede Pullman. O lobby estava cheio. Ela viu duas treinadoras de circuito europeu sentadas num sofá, conversando em alemão. Viu um fisioterapeuta que ela conhecia de Indian Wells passar com uma maleta. Não viu ninguém do top dez, o que significava que eles estavam todos no quarto, ou no estádio, ou ainda chegando.
A moça do check-in, que falava italiano com sotaque romeno, a chamou pelo nome.
— Senhorita Ferraro. Quarto 814, oitavo andar, vista para o jardim. Sua mãe já chegou esta manhã. Ela está no 816, do lado.
— Obrigada.
— A draw foi divulgada esta manhã. Há um envelope para a senhorita no quarto.
Valentina assentiu sem deixar a expressão mudar.
O elevador subiu devagar. Havia um jogador chinês no fundo do elevador, junto com o treinador dele, conversando em mandarim baixinho. Valentina conhecia o jogador de vista — top 60, estava fazendo uma temporada melhor que o normal. Ele cumprimentou com a cabeça. Ela também.
O quarto era grande, dois compartimentos, cama king, escrivaninha em frente à janela. A janela dava para os telhados de Boulogne — telhados de zinco, chaminés pretas, antenas, e mais ao fundo, a copa de algumas árvores que provavelmente faziam parte do Bois de Boulogne. Não era uma vista bonita no sentido cartão postal. Era uma vista de cidade onde gente trabalhava. Era exatamente o que ela queria.
Pôs a mala no chão. Não desfez. Sentou na borda da cama. Olhou para o envelope.
Era branco, lacrado, com o logo do torneio. Lá dentro estaria a draw oficial impressa, mais um cronograma personalizado dela, mais uma carta protocolar de boas-vindas. Ela já sabia onde estava na draw porque tinha visto online dez minutos antes do voo decolar de Roma. Mas abrir o envelope físico era uma espécie de ritual.
Abriu.
Cabeça de chave número quatro. Setor superior da chave do WTA. Estréia contra Anastasia Soroka, ucraniana, número 38, jogo de fundo de quadra com forehand pesado e segundo saque vulnerável. A segunda rodada seria contra a vencedora de Mei-Lin Zhao versus uma qualifier. Provavelmente Zhao. Quartas de chave seriam previsíveis até a terceira rodada. Depois apareceriam as cabeças mais altas do setor — Petrova, possivelmente, e na semifinal teoricamente a número um. Era uma chave administrável. Não fácil. Administrável.
Ela puxou o tablet da mala. Abriu a aba que tinha deixado aberta no voo. A draw paralela do ATP, publicada na mesma manhã, lado a lado com o WTA porque era assim que a imprensa esportiva fazia. Ela rolou para o lado direito da chave masculina.
James Whitmore. Cabeça número três. Setor inferior.
Ela ficou olhando para o nome por um tempo que não conseguiu medir depois.
Era estúpido. Os torneios masculino e feminino aconteciam em paralelo dentro do mesmo complexo, mas eram universos separados. Não havia jogo possível entre eles. Não havia, sequer, motivo para que os caminhos deles se cruzassem além do refeitório, dos eventos de patrocinador, e de circular pelos corredores. Setor inferior dele significava nada para ela em termos esportivos.
Mas ela tinha verificado.
A primeira coisa que fez ao receber a draw foi verificar onde ele estava. Não os adversários dela. Ele.
Levantou. Foi até a janela. Os telhados de Boulogne continuavam ali, indiferentes. O céu continuava cinza. Ela pousou a testa no vidro, que estava frio, e respirou.
*Basta*, pensou em italiano. *Basta. Lei è qui per giocare.*
Bateram na porta.
Ela esperou três segundos antes de abrir. Lucia entrou sem cumprimentar — entrou já falando, em italiano, de um jeito que era ao mesmo tempo afetuoso e completamente desprovido de cerimônia.
— A Soroka está com problema no joelho. Tá no relatório do médico do circuito da semana passada. Pegou tendinite em Praga e jogou em cima. Você abre com o backhand cruzado e ela vai ter que correr para o lado fraco. Acaba em uma hora.
Valentina virou da janela. Sorriu de canto.
— Bom dia para você também, mãe.
Lucia olhou para o tablet em cima da escrivaninha. Olhou para Valentina. Voltou a olhar para o tablet. Não disse nada.
— Estou cansada do voo — disse Valentina, em italiano. — Vou desfazer a mala daqui a pouco.
— Você comeu?
— Comi no avião.
— Comeu mesmo ou comeu o que eles servem?
— O que eles servem. Mas era frango. Estava ok.
Lucia foi até a janela. Abriu uma fresta, depois fechou. Tinha um tique de fazer isso em quartos de hotel novos — testar se a janela abria, e quanto. *Para o caso de incêndio*, era a desculpa oficial, mas Valentina suspeitava que era para verificar a altura. Era a forma de Lucia dizer: *você está num oitavo andar, está alta, está longe do chão, lembre-se*. Era napolitana. Era assim.
— Treino marcado para as três — disse Lucia. — Quadra dezessete. Saibro novo, vão estar ainda umedecendo na hora.
— Quadra dezessete?
— É a única que ficou disponível com horário decente. As principais estão lotadas.
Valentina assentiu. Fechou o tablet. Pôs o tablet com a tela virada para baixo, sobre a escrivaninha, em cima do envelope da draw, de modo que quando ela voltasse para o quarto depois ela tivesse que levantar o tablet para ver o nome dele de novo. Era uma camada de fricção. Ela conhecia o próprio cérebro o suficiente para saber que precisava de camadas de fricção.
Lucia notou o gesto. Não comentou. Mas notou.
— Almoço lá embaixo em vinte minutos — disse Lucia. — Vou tomar banho.
Saiu. Fechou a porta com cuidado.
Valentina ficou parada no meio do quarto. O ar-condicionado fazia um ruído baixo. Ela ouviu, do quarto vizinho, o som da chave de Lucia entrando na fechadura, a porta abrindo, a porta fechando, e depois o silêncio.
Abriu o zíper da mala. Tirou o estojo das raquetes primeiro, antes mesmo das roupas. Eram quatro raquetes, todas com o mesmo encordoamento, todas com o mesmo grip, todas marcadas com fita preta no cabo para distinguir de qualquer outra. Pôs as quatro na escrivaninha, em fileira, como se fossem instrumentos cirúrgicos.
Depois tirou as roupas. Pendurou os vestidos da semana — eram seis vestidos brancos e azul-marinho, todos cortados igual, todos do mesmo patrocinador. Pôs os tênis no chão do armário. Pôs a meia compressiva no segundo gaveta.
Quando terminou, olhou de novo para a escrivaninha. Para o tablet em cima do envelope.
Foi até ele. Levantou o tablet. Olhou de novo o nome.
*James Whitmore. Cabeça três. Setor inferior.*
Fechou. Pôs o tablet na gaveta. Fechou a gaveta.
Foi para o banheiro.
Lavou o rosto com água gelada. Olhou-se no espelho — cabelo preto preso num coque de viagem, olhos castanhos cansados, a pequena cicatriz no queixo de quando tinha caído de bicicleta aos nove anos. O rosto que jogava tênis. O rosto que estava em Paris para jogar tênis.
— Sei perché sei qui — disse em voz alta, baixinho, para o espelho. *Sei por que está aqui.*
Saiu. Pegou a chave. Foi para o elevador. Almoço com Lucia. Treino às três. Soroka na primeira rodada.
A draw do ATP estava na gaveta. O nome estava na gaveta. Tudo estava onde deveria estar.
Era assim que ela ia fazer.