Sangue e Raiz
romance-sobrenatural
Seis meses depois de salvar Londres, a Marcadora Iris Navarro está perdendo o poder — e na Amazônia, uma garota de dezoito anos cujas tatuagens brilham no escuro é a chave para impedir que a floresta desperte algo que nenhum…
CAPÍTULO 1
A Tatuagem que Brilha
Capítulo 1 — A Tatuagem que Brilha
O calor acordou Yara antes da luz.
Não o calor de Manaus — esse ela já carregava nos ossos desde que nascera, o tipo de calor que se confundia com respirar, com existir, com o suor permanente na dobra dos cotovelos e atrás dos joelhos. Aquele calor era parte dela como o sangue era parte dela, e Yara tinha aprendido a ignorá-lo do mesmo jeito que se ignora o próprio coração batendo. Esse era outro. Vinha de dentro. Dos pulsos. Era um calor com intenção, como se algo debaixo da pele tivesse decidido se revelar.
Yara abriu os olhos no escuro do quarto e a primeira coisa que viu foi a cor errada. Âmbar. Um brilho dourado-alaranjado pulsando sob a pele, como se alguém tivesse acendido uma vela dentro das veias. As duas tatuagens — a vitória-régia no pulso esquerdo, o boto no direito — estavam incandescentes. A luz lambia as paredes do quarto em ondas preguiçosas, projetando sombras que se moviam com vida própria.
Sentou na cama com o coração na garganta. O colchão fino rangeu no estrado de madeira, e o lençol de algodão grudou nas costas molhadas de suor. Do outro lado da parede fina, Denise dormia com o ventilador girando naquele ritmo desconjuntado que Yara conhecia desde criança — tec-tec-tec-vuuum, tec-tec-tec-vuuum. O relógio digital no chão, com o visor meio apagado de tanto uso, marcava 3:17.
— Que merda — sussurrou, erguendo os braços diante do rosto.
A vitória-régia no pulso esquerdo brilhava como metal derretido. Cada pétala tatuada com tinta preta barata numa tarde de dezembro, quando Raoni roubou a máquina do primo e tatuou os dois na laje do prédio abandonado da Cachoeirinha enquanto bebiam cerveja quente — cada pétala agora era uma língua de fogo dourada. O boto no direito ondulava, e Yara jurava que viu a cauda se mover, um deslizar lento e deliberado como se o animal nadasse por baixo da derme. Impossível. Tatuagens não se movem. Tatuagens não brilham. Tatuagens são tinta morta em pele viva, e nada mais.
Mas ali estavam, iluminando o quarto como duas lanternas presas à pele.
Yara desceu da cama. Os pés descalços encontraram o piso frio de cimento — o único frescor disponível àquela hora, e ela apertou os dedos contra ele como se pudesse absorver a frieza para dentro de si, apagar o calor anormal que subia dos pulsos. O quarto era um retângulo de três por dois metros: cama, cômoda com espelho trincado que dividia seu reflexo em dois, um cabideiro de arame onde pendiam duas camisetas e o uniforme da lanchonete com o cheiro permanente de óleo de fritura. Na parede, um pôster de Anitta colado com durex amarelado e uma foto da avó Inaê, sorrindo na proa de uma canoa com o Rio Negro atrás, escuro como café sem açúcar.
Yara olhou para a foto. A avó tinha os mesmos cachos que ela. Os mesmos olhos que agora, no reflexo do espelho trincado, brilhavam num tom de castanho que não era mais castanho — era alguma coisa entre mel e brasa, uma tonalidade que não pertencia a nenhum rosto humano que Yara conhecesse.
— Para — disse aos pulsos, como se eles fossem obedecer. — Para, para, para.
Não pararam. A luz continuou pulsando no mesmo ritmo teimoso, indiferente à sua ordem, indiferente ao medo que apertava o estômago de Yara como um punho fechado.
O ar do quarto cheirava a citronela — o repelente barato que Denise borrifava em tudo, nos lençóis, nas cortinas, até na toalha de mesa — e a terra molhada que subia do quintal de chão batido depois da chuva das oito. Manaus de madrugada era um animal enorme respirando: cigarras serrando a noite com seus dentes invisíveis, sapos croando no quintal alagado, um cachorro latindo em algum beco com a insistência desesperada de quem não tem dono, o ronco distante de um motor no rio. E sob tudo isso, um zumbido. Yara não sabia se o zumbido vinha de fora ou de dentro. Parecia a vibração de um diapasão encostado ao crânio — uma nota só, constante, grave demais para ser imaginação e aguda demais para ser conforto.
Caminhou até a cozinha no escuro. Seus pulsos iluminavam o corredor estreito — uma luz difusa que fazia sombras dançarem nas paredes descascadas, transformando as manchas de umidade em formas vivas. Na pia, uma bacia de alumínio com louça de molho, os pratos empilhados na água turva que cheirava a detergente de limão. Yara despejou a água com louça, encheu a bacia com água da torneira e, num impulso que não soube explicar — um instinto animal, como a vontade de coçar uma ferida —, mergulhou os dois braços até os cotovelos.
A água ferveu.
Não esquentou — ferveu. Borbulhas violentas, vapor subindo em colunas densas que molharam o teto baixo, a bacia chacoalhando na pia como panela esquecida no fogo. Yara puxou os braços de volta com um grito que engoliu a tempo, mordendo a língua com tanta força que sentiu o gosto de ferro na boca. A água continuou borbulhando por mais três segundos e depois parou. Morta. Estática. A bacia estava quente ao toque, como se tivesse ido ao fogo por meia hora.
Yara encostou as costas na parede e escorregou até o chão da cozinha. O azulejo estava pegajoso de gordura antiga e o piso gelado atravessou o shorts fino, mas ela não se importou. Os pulsos continuavam brilhando, mas o susto pareceu diminuir a intensidade — de fogueira para vela. O coração batia tão alto que ela sentia na mandíbula, nos dentes, nas têmporas. Cada batida era um lembrete: isso é real, isso é real, isso é real.
— Tá, beleza — murmurou, passando a mão molhada e trêmula pelo rosto. — Tá. Calma. Tu tá acordada. Tu não tá sonhando.
Checou. Apertou a coxa com força, cravando as unhas curtas na pele. Doeu. Não era sonho.
Levantou-se e foi ao quarto. Abriu a cômoda — a gaveta emperrou como sempre, e ela puxou com o joelho apoiado no móvel — e pegou o primeiro pano que encontrou — uma bandana azul-marinho que usava para prender o cabelo no trabalho. Enrolou no pulso esquerdo. A luz atravessou o tecido como se ele fosse papel manteiga. Tentou com a camiseta dobrada em três camadas. Mesmo resultado. A vitória-régia brilhava através de tudo, implacável, bonita de um jeito que ofendia, que parecia zombar da tentativa de escondê-la.
Yara sentou na cama e ficou olhando. O medo começou a ceder para outra coisa — um fascínio relutante, do tipo que se sente ao ver relâmpago perto demais, quando o corpo quer fugir mas os olhos se recusam a fechar. As pétalas da vitória-régia se abriam e fechavam num ritmo lento, como respiração. O boto subia e descia na curva do pulso, nadando num rio de pele e tinta e luz, e havia algo quase hipnótico naquele movimento — uma beleza que Yara não pediu e não queria, mas que a prendia ali, imóvel, com os braços erguidos na penumbra do quarto.
A tatuagem que Raoni fizera era tosca. Linhas irregulares, proporções erradas, tinta que já estava desbotando depois de seis meses. Mas agora, sob o brilho, as linhas pareciam se corrigir. Os traços ganhavam uma precisão que não tinham antes, como se algo debaixo da pele estivesse redesenhando o trabalho com paciência infinita, transformando garranchos em caligrafia.
— Égua — respirou Yara. — Que que tu é?
O brilho pulsou mais forte por um segundo, como se respondesse. E Yara sentiu — não nos olhos, mas em algum lugar atrás do esterno, num órgão que ela não sabia que tinha — que a resposta não era simples, e que talvez nunca fosse.
***
Às cinco da manhã, o brilho finalmente apagou. Yara tinha ficado sentada na cama olhando os pulsos por quase duas horas, sem conseguir dormir, sem conseguir pensar em outra coisa, as pernas cruzadas e os braços apoiados nos joelhos como quem medita diante de um altar que não escolheu. Quando a luz se foi, restou apenas a tatuagem — mas diferente. O boto agora tinha detalhes que não existiam antes: escamas minúsculas na cauda, um olho que parecia mais vivo, mais presente, como se enxergasse de volta. A vitória-régia tinha mais pétalas, mais simetria, mais profundidade. Como se a tinta tivesse sido refeita por dentro, camada sobre camada, por mãos invisíveis e pacientes.
Yara tocou o pulso com a ponta do dedo. A pele estava morna, não quente. Normal. O zumbido também sumiu, deixando em seu lugar um silêncio interno que parecia grande demais para o corpo dela.
Os sons de Manaus amanhecendo tomaram conta: panela batendo na casa do vizinho, galo cantando atrasado como sempre, rádio ligando numa estação gospel que Denise ouvia todo domingo mas que durante a semana servia de despertador às cinco e meia. O cheiro de café começou a escorrer por baixo da porta — forte, adocicado, com aquele toque de queimado que significava que Denise já estava de pé e distraída.
Yara vestiu uma camiseta de manga comprida apesar do calor. Trinta e dois graus previstos para o dia e ela ali, com tecido até os pulsos, já sentindo o suor brotar na curva dos braços. Olhou-se no espelho trincado. Pele parda-dourada, cachos pretos armados pelo sono, olhos castanhos que — se olhasse rápido — pareciam normais. Se olhasse devagar, tinha um brilho âmbar ao redor da íris que não estava lá antes. Sutil, quase invisível, mas ali. Como uma promessa. Ou uma ameaça.
— Yara! Café! — Denise chamou da cozinha.
Ela desceu o corredor. A cozinha era pequena e cheia de vida: toalha de plástico com estampa de frutas tropicais descascando nos cantos, ímãs de geladeira de todas as cidades que Denise nunca visitou — Rio, Salvador, Gramado, Foz do Iguaçu —, pano de prato com crochê da vizinha dona Fátima pendurado no forno. Denise estava de costas, coando café no pano, o corpo largo apertado num vestido florido, chinelo arrastando no chão com aquele som que era a trilha sonora de todas as manhãs da vida de Yara.
— Bom dia, mãe.
Denise virou. Quarenta e dois anos, rosto bonito e cansado, mãos ásperas de quem limpa casa dos outros desde os quinze. Olhou Yara de cima a baixo com aquele radar materno que detectava qualquer anomalia a cinco metros de distância.
— Manga comprida, menina? Tu quer morrer de calor?
— Tô com frio.
— Frio. Em Manaus. — Denise ergueu uma sobrancelha, a descrença estampada em cada linha do rosto. — Tá doente?
— Não, mãe. Tô bem.
Sentou-se à mesa. A cadeira de plástico branco, manchada de café antigo, gemeu sob seu peso. Denise serviu café com leite e tapioca. Yara comeu sem fome, escondendo os pulsos debaixo da mesa, os dedos apertando a borda do tampo como se pudesse se ancorar ali. A mãe falava sobre o turno na casa da patroa, sobre a conta de luz que veio errada de novo — sempre errada, sempre a mais —, sobre o pastor que pediu dízimo especial para reformar o telhado da igreja.
Yara não ouvia. Estava pensando na água fervendo. Na luz que atravessava tecido. No boto que nadava sob a pele. Pensava em todas as coisas impossíveis que tinham acontecido nas últimas duas horas e em como nenhuma delas podia ser contada a ninguém — não à mãe, não a Raoni, não a nenhuma alma viva naquela cidade inteira.
Quando Denise virou de costas para lavar a louça, Yara puxou a manga e olhou. As tatuagens estavam quietas agora. Tinta preta, linhas refeitas por algo que ela não entendia. O pulso esquerdo coçava. Não uma coceira de pele — uma coceira de dentro, como se as veias estivessem impacientes. Como se algo lá embaixo quisesse sair, ou quisesse ser reconhecido.
— Mãe — disse, antes de pensar.
— Hm?
Yara abriu a boca. Fechou. Abriu de novo. As palavras estavam ali, prontas — mãe, minhas tatuagens brilham, mãe, eu fervi água com os pulsos, mãe, o que tá acontecendo comigo —, mas cada uma delas parecia absurda demais para existir fora da sua cabeça.
— A vó Inaê... ela tinha tatuagem?
Denise largou a esponja. Não virou. Seus ombros subiram dois centímetros e congelaram ali, tensos como cabos de aço sob o tecido florido.
— Por que tu tá perguntando isso?
— Nada. Só curiosidade.
O silêncio durou cinco segundos inteiros. Cinco segundos em que Yara ouviu a torneira pingando, o galo cantando de novo, o próprio sangue circulando. Denise pegou a esponja de volta e esfregou o prato com força desnecessária, a espuma transbordando entre os dedos.
— Tua avó tinha uns desenhos no braço. Coisa antiga. Não era tatuagem de salão, era... — Pausa. A esponja parou. — Não era nada. Já foi. Come tua tapioca.
Yara comeu a tapioca. Mas guardou cada palavra, cada pausa, cada ombro levantado, cada segundo daquele silêncio carregado. Denise sabia de alguma coisa. E o que Denise sabia tinha a ver com o brilho âmbar que Yara agora carregava nos pulsos como um segredo que recusava ficar no escuro.
A coceira voltou. Mais forte. Yara cerrou os punhos debaixo da mesa e apertou os dentes.
Na foto da geladeira, presa por um ímã de abacaxi, Inaê sorria na proa da canoa. E Yara, pela primeira vez na vida, reparou num detalhe que sempre estivera ali: nos braços da avó, mal visíveis na foto desbotada, linhas escuras serpenteavam do pulso ao cotovelo.
Desenhos que pareciam raízes. Ou veias. Ou rios.
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