
Sangue e Lua
Romance Sobrenatural / Urban Fantasy
Iris Navarro é tatuadora em Camden e não acredita em nada que não caiba sob uma agulha. Até o dia em que um homem de olhos cinza-prateados entra em seu estúdio e chama-a de Marcadora — a última de uma…
CAPÍTULO 1
A Última Cliente
Capítulo 1 — A Última Cliente
A chuva caía sobre Camden como se alguém tivesse aberto uma torneira no céu e esquecido de fechar. Não a chuva fina e aristocrática que os ingleses fingiam não notar — essa era uma chuva suja, pesada, que fazia os neons do mercado sangrarem em poças de asfalto e dava ao ar aquele cheiro particular de Londres molhada: diesel, lúpulo velho e uma tristeza que não era de ninguém e era de todo mundo.
Iris Navarro gostava dessa chuva. Gostava do jeito como ela transformava Camden num aquário sujo, com as pessoas nadando atrás dos guarda-chuvas e os letreiros dos pubs piscando como peixes luminescentes. Do lado de dentro do Black Tide Ink, com a agulha zumbindo a três centímetros da pele de uma ruiva chamada Gemma, o som da chuva contra a vitrine era quase meditativo.
Quase.
— Ai — disse Gemma, pela quarta vez em dez minutos.
— Se você contrair o músculo de novo, a linha vai ficar torta e eu vou ter que recomeçar. — Iris não levantou os olhos. — E aí as duas vamos sofrer, mas eu vou sofrer com o orgulho ferido, que é pior.
Gemma riu, nervosa, e relaxou o antebraço na maca. A tatuagem estava ficando bonita — um ramo de hera que se enrolava do pulso até o cotovelo, cada folha desenhada com a obsessão pontilhista que era a marca de Iris. Blackwork botânico. Seu território. Plantas na pele, plantas no estúdio, plantas no flat. Se existisse um diagnóstico para vício em clorofila, Iris estaria internada há anos.
— Pronto — disse, afastando a máquina e esticando as costas. O zumbido cessou e o estúdio mergulhou naquele silêncio particular do fim do expediente: apenas a chuva, o ronronar do aquecedor e a playlist de Radiohead que Nando deixara no bluetooth antes de sair. — Olha aí.
Gemma olhou para o braço e fez aquele som — aquele pequeno "oh" de espanto que era, secretamente, a droga favorita de Iris. Melhor que qualquer elogio articulado. O "oh" era puro.
— É... é como se estivesse viva.
Iris sorriu, puxando as luvas de nitrilo com um estalo.
— Dá uns dias pra cicatrizar. Nada de sol direto, nada de piscina, hidrata com o creme que eu te passei. Se coçar, não coça. Se descascar, não arranca.
As instruções saíram no piloto automático enquanto Iris limpava a área, embalava a agulha usada e passava filme transparente sobre a tatuagem fresca. Seus movimentos tinham a coreografia eficiente de quem repete o ritual mil vezes — mão esquerda segura, mão direita aplica, olhos checam, próximo passo. O estúdio cheirava a tinta, Dettol e o incenso de nag champa que ela acendia todas as manhãs, um hábito herdado da avó que nunca conseguiu abandonar, mesmo sabendo que o cheiro grudava na jaqueta de couro e a fazia parecer uma hippie perdida nos anos setenta.
Gemma pagou por Pix — irônico, uma brasileira em Londres recebendo transferência instantânea de uma britânica — e saiu para a chuva com o braço embalado e um sorriso que valia a noite inteira. Iris trancou a porta atrás dela, virou a placa para "CLOSED" e soltou o ar que não sabia estar segurando.
Sozinha.
Finalmente.
Iris amava o Black Tide Ink com uma ferocidade que assustava até ela. Cada centímetro daquele estúdio tinha sido conquistado com horas extras, refeições puladas e uma teimosia que sua avó Celeste teria reconhecido como herança genética. As paredes eram de tijolo aparente, cobertas com seus próprios desenhos — botânicos em nanquim, mandalas em pontilhismo, o retrato de Frida Kahlo que Nando jurara que ia roubar um dia. No canto esquerdo, a prateleira de plantas formava uma selva em miniatura: Fernanda (a samambaia), Beyoncé (a costela-de-adão), Zé (o cacto que sobrevivera a tudo), e mais vinte companheiras verdes cujos nomes ela conhecia melhor do que os dos vizinhos.
— Boa noite, meninas — murmurou, passando os dedos por uma folha de Beyoncé. — Vocês se comportaram?
A planta, como sempre, não respondeu. Iris preferiu interpretar o silêncio como concordância.
Começou a limpar. Esfregou a maca, organizou as tintas por cor (preto-denso, preto-diluído, cinza-tempestade, cinza-névoa — sim, ela nomeava os tons, e não, não aceitava críticas), embalou as agulhas novas, jogou as usadas no descarte. Estava de costas para a porta, secando as mãos, quando o sino tocou.
Iris congelou. A placa dizia CLOSED. A chuva dizia vá-embora. O relógio na parede, um gato preto com olhos que se moviam — presente de Nando, péssimo, amava — marcava nove e quarenta e sete.
— Estamos fechados — disse, sem se virar.
A porta se abriu mesmo assim. O sino tilintou duas vezes, como se engasgasse.
O ar mudou.
Iris não saberia descrever de outro jeito. O ar mudou. A temperatura caiu dois graus — talvez três — e o cheiro de chuva que entrou junto com o visitante era diferente do que escorria pela vitrine. Cheirava a âmbar. A couro antigo, o tipo que reveste livros que ninguém abre há décadas. E debaixo disso, algo metálico que ela não conseguiu identificar — como uma moeda velha na ponta da língua.
Virou-se.
O homem estava parado na entrada como se o conceito de "fechado" não se aplicasse a ele — não por arrogância, mas por uma espécie de deslocamento temporal, como se ele pertencesse a uma época em que portas se abriam por conta própria na presença de certas pessoas. Alto. Magro de um jeito que sugeria escolha, não necessidade. A pele era pálida num tom que ia além de "britânico em fevereiro" e entrava no território de "não vê sol há um tempo preocupante". Cabelo preto, liso, cortado na altura do queixo, molhado de chuva e colado nas têmporas. O terno era escuro — tão escuro que parecia absorver a luz ao redor — e caía nele com a perfeição que só dinheiro obsceno e um alfaiate de Savile Row conseguem.
Mas foram os olhos que a travaram. Cinza-prateados, com a qualidade fria de uma lâmina recém-afiada. Olhos que pareciam ter visto tudo o que havia para ver e decidido que nada era particularmente impressionante.
Até agora. Porque ele olhava para Iris com uma curiosidade que não combinava com o resto do rosto — controlado, calculado, impecável.
— Estamos fechados — repetiu Iris. Cruzou os braços. A jaqueta de couro rangeu nos cotovelos.
Ele sorriu. Não era um sorriso de simpatia. Era o tipo de sorriso que um jogador de xadrez dá quando encontra um oponente inesperadamente competente.
— Eu sei. Peço desculpas pelo horário. — A voz era grave, modulada, com um sotaque que Iris não conseguiu localizar. Não era britânico. Não era nada que ela reconhecesse. Era como se vários idiomas tivessem se sedimentado uns sobre os outros ao longo de mais tempo do que fazia sentido. — Mas eu vim por algo específico, e acredito que você é a única pessoa em Londres que pode fazer.
Iris arqueou uma sobrancelha. Ouvira variações dessa frase antes — geralmente de bêbados às duas da manhã querendo tatuar o nome da ex.
— Amor, todo mundo acha que a tatuagem deles é urgente. Volta amanhã, agenda comigo pelo Instagram, e eu...
— Não é uma tatuagem comum. — Ele deu um passo para dentro. A porta se fechou atrás dele, e Iris poderia jurar que ninguém a empurrou. — É um selo.
Tirou do bolso interno do paletó — com dedos longos e pálidos que pareciam feitos para tocar piano ou estrangular alguém, possivelmente os dois — um pedaço de papel dobrado com a precisão de origami. Desdobrou-o sobre o balcão.
O desenho era intrincado. Linhas que se cruzavam em espirais concêntricas, formando um padrão que parecia geométrico à primeira vista, mas orgânico quando Iris olhava mais de perto. Havia algo de vegetal nas curvas — raízes, talvez, ou veias — entrelaçado com símbolos que ela nunca tinha visto.
Ou achava que nunca tinha visto.
Porque a mão de Iris se moveu sozinha.
Antes que seu cérebro processasse, seus dedos já estavam traçando as linhas no ar, milímetros acima do papel, como um maestro seguindo uma partitura conhecida de cor. Cada curva era familiar da forma como o caminho de casa é familiar — não porque se pensa, mas porque o corpo sabe. Os ângulos, as proporções, o jeito exato como a espiral interior se conectava com o anel externo.
Iris puxou a mão de volta como se tivesse tocado em fogo.
— O que é isso? — A voz saiu mais rouca do que pretendia.
O homem a observava com uma imobilidade perturbadora. Não piscou — Iris reparou, e depois ficou irritada por ter reparado.
— Você reconhece.
Não era uma pergunta.
— Eu não... — Iris olhou para o desenho de novo. A familiaridade era uma coceira no fundo do crânio, um déjà vu que não se resolvia. — Eu nunca vi isso antes.
— E mesmo assim sua mão sabia o caminho.
Iris abriu a boca para retrucar — algo afiado, algo que colocasse aquele homem estranho no lugar dele e devolvesse ao estúdio o cheiro normal de tinta e incenso em vez de âmbar e metal. Mas as palavras travaram na garganta porque, no instante em que seus olhos voltaram ao papel, ela viu.
As linhas. Eram as mesmas linhas que sua avó Celeste traçava na pele das pessoas com tinta de jenipapo, na varanda da casa em Belém. As "proteções", como ela chamava. Iris tinha oito anos e sentava no degrau comendo açaí enquanto a avó trabalhava, cantarolando baixinho em algo que Iris sempre achou que era tupi — mas nunca teve certeza porque a avó desconversava quando perguntada. As linhas eram diferentes, mais simples, mas a lógica era a mesma. A gramática visual. O jeito como os traços respiravam.
O chão pareceu inclinar-se levemente.
— Quanto? — perguntou Iris, porque quando o mundo começa a fazer pouco sentido, o melhor é agarrar-se ao concreto.
— Perdão?
— A tatuagem. Quanto paga?
Um canto dos lábios dele se ergueu.
— Dinheiro não é problema.
— Dinheiro nunca é problema pra quem tem. — Iris pegou o papel e levou para a luz. Estudou as linhas como faria com qualquer projeto, ignorando o fato de que seus dedos formigavam, ignorando o âmbar, ignorando os olhos de prata que não piscavam. — Onde quer?
— Antebraço esquerdo. Aqui. — Ele dobrou a manga do terno com um gesto que parecia ensaiado por séculos e indicou a face interna do antebraço. A pele era de uma brancura quase translúcida, e Iris pôde ver as veias por baixo — escuras demais, quase negras, como rios de tinta sob mármore.
Qualquer outra pessoa teria pensado: problema de circulação. Iris pensou: esse homem não é normal.
E então pensou: e daí? Ninguém em Camden é.
— Senta — disse, apontando para a maca.
Trabalhou em silêncio. A máquina zumbia, e o som que geralmente era reconfortante — o mantra do trabalho, a oração da agulha — parecia amplificado, diferente. A pele dele era fria sob os dedos enluvados de Iris. Não gelada, mas fria de um jeito constante que não flutuava como pele normal faz — sem o calor que sobe quando a agulha morde, sem o rubor que acompanha o trauma microscópico da tinta entrando na derme. Fria e parada, como couro curtido.
Iris não perguntou. Não era da conta dela.
A tinta entrou fácil — fácil demais, como se a pele estivesse esperando. As linhas fluíam da agulha com uma precisão que Iris não reconhecia como totalmente sua. Seus movimentos eram os mesmos de sempre, mas havia algo a mais — uma corrente sob os dedos, uma vibração baixa que subia pelo pulso e se alojava na base do crânio, como o início de uma enxaqueca que nunca se materializa.
A meio caminho, o homem falou.
— Você tem talento.
— Eu sei. — Iris não levantou os olhos. — E se fizer a gentileza de não contrair o braço quando eu fizer a curva interior, vou continuar tendo.
Ele riu. O som era inesperado — grave, curto, como uma porta que range ao abrir. O riso de alguém que não ri com frequência.
O trabalho levou quarenta minutos. Quando Iris afastou a máquina e limpou o excesso de tinta, a tatuagem brilhava na pele pálida como uma marca de ferro em brasa — mas negra, perfeitamente negra, cada linha precisa como se impressa por computador. Era, sem falsa modéstia, uma das melhores coisas que Iris já fizera.
E ela não entendia como.
O homem examinou o antebraço. Os olhos cinza percorreram cada traço com a atenção de quem lê um contrato — e talvez fosse exatamente isso. Iris não saberia dizer por que esse pensamento cruzou sua mente.
— Perfeito — ele disse. A palavra carregava um peso que ia além da estética. — Absolutamente perfeito.
Levantou-se da maca com a fluidez de quem não tem articulações — ou não as usa como humanos usam — e caminhou até o balcão. Do bolso interno do paletó, tirou um envelope e depositou-o sobre a madeira. Grosso. Dinheiro em espécie. Iris sentiu o volume sem precisar abrir.
— Isso é...
— Suficiente.
Ele caminhou para a porta. A chuva continuava lá fora, obstinada, mas o ar no estúdio parecia suspenso — como se esperasse algo.
Na soleira, o homem parou. Virou-se. O sorriso não era mais de xadrez — era de alguém que acabou de encontrar uma peça que procurava há muito tempo.
— Nos vemos em breve, Marcadora.
A porta se fechou. O sino tilintou uma vez. O ar voltou ao normal — tinta, incenso, Radiohead, chuva.
Iris ficou parada por um tempo que não soube medir. Os dedos latejavam. O cheiro de âmbar se desfazia lentamente, substituído pelo nag champa e pelo Dettol. Olhou para o envelope no balcão, para a maca onde ele estivera deitado — não havia marca de calor no vinil, percebeu, nenhum resíduo da presença dele além do dinheiro.
Marcadora.
A palavra pulsava no centro do peito como uma segunda batida. Iris pegou o envelope, contou o dinheiro — três vezes o valor normal, em notas que pareciam antigas demais para ainda estarem em circulação — e guardou no cofre.
Depois foi até o canto das plantas, sentou no banquinho e olhou para as mãos. As mesmas mãos que tatuavam desde os dezenove, que montaram um estúdio do zero, que aprenderam sozinhas a transformar tinta em algo que as pessoas carregavam na pele pelo resto da vida. As mesmas mãos que, minutos atrás, tinham se movido sozinhas sobre um desenho que nunca viram.
— Zé — disse ao cacto. — O que foi que eu acabei de fazer?
Zé não respondeu. Iris preferiu interpretar o silêncio como preocupação.
Trancou o estúdio, enfiou as mãos nos bolsos da jaqueta e saiu para a chuva de Camden. O neon do mercado sangrava em vermelho e dourado nas poças. Um bêbado cantava Amy Winehouse fora do tom num banco de ônibus. A noite era absolutamente normal, absolutamente londrina, absolutamente qualquer-coisa-menos-o-que-acabara-de-acontecer.
Iris andou rápido, a cabeça baixa, os pensamentos girando como a espiral do selo que tatuara.
No bolso, o celular vibrou. Mensagem de Nando: "amiga o oliver fez risoto e sobrou. quer? 🍷"
Iris digitou sem parar de andar: "quero. chego em 20. e abre o vinho que hoje foi weird."
Nando: "weird tipo cliente chato ou weird tipo existencial?"
Iris olhou para as mãos uma última vez. Os dedos ainda formigavam.
"Ainda não sei."
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