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Carregando...comedia-romantica
Camila Duarte tem trinta e quatro anos, uma carreira brilhante em moda em São Paulo, uma filha de dez anos chamada Nina e um divórcio recente que deixou marcas que ela ainda finge não ver. Quando Nina precisa de férias…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — A Travessia
O aeroporto de Porto Seguro cheirava a protetor solar e arrependimento.
Camila Duarte arrastou a primeira mala pelo desembarque com a determinação silenciosa de quem está prestes a cometer um erro monumental e sabe disso. A mala — uma Rimowa cor de champanhe que ela comprara numa viagem a Milão, quando ainda era casada e acreditava que malas bonitas eram sinônimo de uma vida organizada — pesava trinta e dois quilos. A segunda mala, idêntica, pesava trinta e quatro. Juntas, carregavam o equivalente a duas estações de roupas para um lugar que, segundo o Google, não tinha asfalto.
— Mãe, meu estômago tá fazendo barulho de máquina de lavar — disse Bento, apertando a alça da mochila contra o peito como se fosse um colete salva-vidas.
— É fome, meu amor. A gente come quando chegar.
— Chegar onde? — Liz puxou a barra da camiseta de Camila com a autoridade de uma miniatura de editora de moda. — Porque até agora eu só vi mato. E aquele homem ali tá usando crocs com meia.
Camila olhou na direção que a filha apontava. De fato: crocs verdes com meias brancas de cano alto. Sentiu um leve espasmo na pálpebra esquerda, o mesmo tique que desenvolvia sempre que via combinações têxteis particularmente ofensivas. Como naquela vez em que o estagiário apareceu na reunião de coleção usando camisa havaiana com calça de alfaiataria. Ele não durou a semana.
— A gente vai pegar uma van até o rio — explicou Camila, consultando o celular pela última vez enquanto ainda havia sinal. — Depois uma canoa até o vilarejo.
— Canoa? — Bento empalideceu. — Tipo... na água?
— Canoas geralmente funcionam na água, sim.
— E se virar?
— Não vai virar.
— Mas e se virar?
— Bento, querido, eu não arrastei sessenta e seis quilos de bagagem até a Bahia para morrer afogada num rio. Confia na mãe.
CAPÍTULOS
Bento não parecia convencido. Para ser justa, Camila também não estava.
***
A van era um veículo que, em São Paulo, seria classificado como sucata e encaminhado diretamente para um ferro-velho. Na Bahia, aparentemente, era transporte público premium. Camila se acomodou no banco de trás entre as duas malas, com Bento de um lado e Liz do outro, e tentou não pensar no fato de que o motorista dirigia com um joelho enquanto mandava áudio no celular.
A paisagem mudava como se alguém tivesse trocado o filtro do Instagram. O concreto cinza do aeroporto deu lugar a uma estrada de terra ladeada por coqueiros que se curvavam como bailarinas bêbadas. O verde era de um tom que Camila nunca tinha conseguido reproduzir em nenhuma paleta de coleção — era verde demais, saturado demais, quase ofensivamente vivo. Como se a natureza não tivesse aprendido sobre minimalismo escandinavo.
— Mãe, aqui tem cobra? — perguntou Bento, olhando pela janela com a expressão de quem cataloga perigos potenciais.
— Não.
— Você não sabe.
— Eu sei que, estatisticamente, a chance de encontrar uma cobra é menor do que a chance de você parar de se preocupar com cobras.
— Isso não é uma estatística de verdade.
— É sim. Eu inventei agora.
Liz, que estivera estranhamente quieta nos últimos cinco minutos — o que em geral significava que estava planejando algo —, virou-se para Camila com os olhos muito abertos.
— Mãe, meu cabelo tá crescendo.
— Cabelo não cresce em vinte minutos, Liz.
— Tá sim. Sinto ele crescendo. É a umidade. — Ela tocou os cachos com horror genuíno. — Eu vou ficar parecendo um leão.
— Leões são lindos.
— Leões não precisam ir à escola.
Camila não tinha resposta para isso. Tecnicamente, a filha estava certa.
***
O rio Caraíva apareceu de repente, como se a estrada simplesmente desistisse de ser estrada e se rendesse à água. Camila desceu da van, afundou o salto do sapato na areia e sentiu o universo rir dela.
Valentino. Trezentos e oitenta reais no brechó de luxo da Augusta, o que significava que alguém tinha pago provavelmente dez vezes mais pelo par original. Camila os comprara porque tinham o tom exato de nude rosé que combinava com absolutamente tudo, e porque uma mulher divorciada merecia pelo menos um par de sapatos que a fizesse se sentir minimamente no controle da própria vida.
Agora esse sapato estava enterrado três centímetros na areia da Bahia.
— A senhora vai pra Caraíva? — Uma voz rouca surgiu de algum lugar à esquerda.
Camila se virou e viu um homem que parecia ter sido esculpido pelo sol e pelo tempo em partes iguais. Setenta anos, talvez mais, com a pele cor de mogno e um chapéu de palha que já tinha visto dias melhores. Estava sentado numa canoa de madeira pintada de azul desbotado, com os pés descalços apoiados na borda, fumando um cigarro de palha com a tranquilidade de quem não tem absolutamente nenhum lugar para estar.
— Sou o Zeca. Barqueiro.
— Camila. Turista. Aparentemente.
Seu Zeca olhou para as duas malas, depois para Camila, depois para as malas de novo. Tirou o cigarro da boca e soltou a fumaça devagar, como se estivesse calculando algo muito complexo.
— Tudo isso é roupa?
— E sapatos. E produtos de cabelo. E o kit de sobrevivência emocional da minha filha, que inclui sete bonecas, uma tiara e um secador de cabelo portátil que provavelmente não vai funcionar onde a gente tá indo.
— Funciona não. — Seu Zeca deu uma risada que parecia vir do fundo da barriga. — Lá não tem nem tomada direito.
— Maravilhoso.
Ele se levantou, esticou as costas com um estalo audível e apontou para a canoa.
— Bota aí. Mas ó, se a canoa afundar, a culpa é das malas, não minha.
Bento agarrou o braço de Camila.
— Mãe. Ele disse afundar.
— Ele tá brincando, Bento.
— Tô mais ou menos — disse Seu Zeca, já erguendo a primeira mala com uma força surpreendente para alguém da idade dele.
A travessia durou sete minutos. Camila sabia porque contou cada segundo. A canoa balançava com uma preguiça hipnótica, e a água do rio era de um marrom dourado que refletia o céu da tarde como um espelho de caramelo. Dos dois lados, a vegetação se debruçava sobre a margem como uma plateia verde assistindo ao espetáculo patético de uma paulistana tentando manter a compostura numa embarcação de madeira.
— Bonito, né? — disse Seu Zeca, remando sem esforço aparente.
— É... diferente — respondeu Camila, segurando a borda da canoa com força suficiente para deixar os nós dos dedos brancos.
— Diferente é bom. Igual a gente já tem demais.
Liz, que tinha superado o trauma capilar com a velocidade emocional de uma criança de sete anos, estava pendurada na borda da canoa tentando tocar a água.
— Liz, senta direito.
— Mas eu quero ver se tem peixe.
— Tem peixe, tem caranguejo, tem tudo que Deus botou no mundo — disse Seu Zeca. — E tem jacaré também.
Bento soltou um som que ficou entre um soluço e um grito de guerra.
— Jacaré?!
— Pequenininho. Do tamanho de um gato.
— Jacarés do tamanho de gatos ainda são jacarés! — A voz de Bento subiu duas oitavas.
Camila lançou um olhar para Seu Zeca que dizia, com toda a clareza de trinta e quatro anos de prática em comunicação não verbal: pelo amor de Deus, pare de aterrorizar meu filho. Seu Zeca sorriu, entendeu o recado e não mudou absolutamente nada no comportamento.
— Calma, rapazinho. Jacaré daqui é manso. Só morde se você puxar o rabo dele.
— Ninguém vai puxar o rabo de nenhum jacaré — decretou Camila com a mesma voz que usava em reuniões de diretoria quando a equipe de estamparia tentava emplacar animal print pela terceira temporada consecutiva.
***
Caraíva surgiu na outra margem como uma miragem que ninguém tinha pedido.
A primeira coisa que Camila notou foi a areia. Não a areia de praia — areia de rua. As ruas eram de areia. Não como metáfora. Literalmente areia. Onde deveriam existir calçadas, havia areia. Onde deveria existir asfalto, mais areia. Era como se alguém tivesse pegado uma praia inteira e decidido construir um vilarejo em cima, sem se dar ao trabalho de remover a praia primeiro.
A segunda coisa que notou foram as galinhas. Três, para ser precisa, atravessando a rua principal — se é que se podia chamar aquilo de rua — com o mesmo ar de superioridade que os modelos de passarela tinham ao cruzar o backstage. Uma delas era ruiva, a outra preta e branca, e a terceira tinha um topete que, Camila admitia com relutância, era bastante fashion.
— Mãe, olha! Galinha! — Liz largou a mão de Camila e correu atrás do trio com a empolgação de quem descobriu um zoológico sem ingresso.
— Liz, não persegue a galinha!
— Eu não tô perseguindo, tô fazendo amizade!
Camila arrastou as malas pela areia — o que era mais ou menos como arrastar malas pela superfície da lua, só que com mais mosquitos — e tentou absorver o cenário. Casinhas coloridas, pintadas em tons de amarelo ocre, azul turquesa e rosa goiaba. Bougainvilles explodindo pelos muros como fogos de artifício botânicos. Um cachorro vira-lata dormindo no meio da passagem sem nenhuma preocupação existencial. O cheiro de sal, coco queimado e alguma coisa frita que fazia o estômago de Bento roncar novamente.
Não tinha sinal de celular. Camila verificou três vezes. Levantou o aparelho pro céu como se estivesse fazendo uma oferenda tecnológica aos deuses da telecomunicação. Nada. Zero barras. O WhatsApp era uma lembrança distante.
— Sem sinal — murmurou para si mesma, com o tom de quem anuncia uma catástrofe natural.
— Aqui é assim — disse Seu Zeca, que aparecera ao lado dela carregando a segunda mala como se pesasse dois quilos. — Sinal só no quadrado, e olhe lá. Se quiser ligar pra alguém, vai na padaria da Dona Mércia, que tem Wi-Fi. Mas só funciona quando não chove.
— E quando chove?
— Aí você conversa com Deus mesmo, que é de graça.
Camila respirou fundo. O ar era quente e pesado, com uma umidade que grudava na pele como um abraço indesejado. Sentiu a blusa de seda — cortada sob medida, tecido italiano, peça da última coleção que ela mesma tinha dirigido — colar nas costas com uma intimidade inapropriada. Seu cabelo, normalmente uma cortina lisa e obediente que ela domava com babyliss e queratina, começava a dar os primeiros sinais de rebelião nos fios da nuca.
— Mãe, eu tô suando em lugares que eu nem sabia que suavam — informou Bento com precisão científica.
— Eu também, filho. Eu também.
***
A casa ficava no fim de uma rua sem nome — porque nenhuma rua ali parecia ter nome, ou se tinha, ninguém se importava o suficiente para colocar uma placa. Era uma construção térrea, pintada de branco com janelas azuis, cercada por um jardim que parecia ter sido planejado pela natureza e não por nenhum paisagista. Uma rede de dormir pendurada na varanda balançava sozinha, movida por uma brisa que cheirava a maresia.
Camila parou na porta. Olhou para a casa. Olhou para as malas. Olhou para Bento, que já estava desenhando algo no caderninho com a concentração de um cirurgião. Olhou para Liz, que voltara da perseguição às galinhas com areia no cabelo e um sorriso de orelha a orelha.
A chave estava debaixo do tapete. Debaixo. Do. Tapete. Em São Paulo, Camila tinha três fechaduras, um sistema de alarme com reconhecimento facial e um porteiro que pedia documento até para entregador de pizza. Aqui, a segurança consistia em um capacho de fibra de coco com a frase "Sinta-se em casa" bordada em letras tortas.
Ela abriu a porta. O interior era simples: sala com sofá de vime, mesa de madeira, ventilador de teto que girava com um rangido rítmico, cozinha aberta com azulejos pintados à mão. As paredes eram brancas e nuas, sem nenhum quadro, sem nenhuma prateleira de design escandinavo, sem nenhum vaso de cerâmica artesanal comprado na Dpot. Era o oposto exato de tudo que Camila tinha construído nos últimos quinze anos de carreira em moda. Era despojado não por escolha estética, mas por simplicidade genuína.
— É pequena — disse Liz, com o tato social de um buldogue.
— É aconchegante — corrigiu Camila.
— Tem Wi-Fi? — perguntou Bento, já procurando uma tomada.
— Tem uma rede. — Camila olhou para o papel colado na geladeira com a senha. — "Caraíva paraíso". Tudo junto, sem acento.
Bento digitou. Esperou. A rodinha girou por trinta segundos antes de entregar dois míseros traços de conexão que provavelmente não carregariam nem uma mensagem de texto.
— Internet de um megabyte — disse ele, com a solenidade de quem anuncia um diagnóstico terminal.
Camila sentou no sofá de vime. O vime rangeu. Ela olhou para a sala nua, para as malas absurdas encostadas na parede, para a areia que já cobria o chão inteiro, para as crianças que já estavam se adaptando com a velocidade que só crianças possuem. Liz tinha encontrado um lagarto na janela e estava tentando batizá-lo de Valentino. Bento desenhava a canoa de Seu Zeca com traços rápidos no caderno.
Pela janela aberta, Camila via o céu mudar de azul para laranja num degradê que nenhum Photoshop do mundo reproduziria. Uma galinha cacarejou ao longe. O ventilador rangia. O calor era um cobertor que ninguém pediu.
Trinta e quatro anos. Divorciada. Dois filhos. Sessenta e seis quilos de bagagem. Sem sinal de celular. Numa vila de pescadores no fim do mundo.
O que eu fiz da minha vida, pensou Camila.
Depois, sem saber exatamente por quê, deu uma risada. Baixinha, meio rouca, dirigida a ninguém em particular. O tipo de risada que escapa quando o plano desmorona tão completamente que a única resposta racional é rir.
Liz apareceu na porta da cozinha.
— Mãe, o lagarto fugiu e eu acho que entrou dentro da mala.
Camila fechou os olhos.
Era só o começo.