
O Preço de Uma Mentira
Romance Contemporâneo
Isabela Montenegro é uma advogada brilhante com um segredo: está falida. Quando a família cobra um namorado para a semana de festas na Côte d'Azur, ela faz o impensável — contrata um acompanhante de luxo. Rafael é tudo o que…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — A Proposta
O café já tinha esfriado duas vezes.
Isabela Montenegro encarava os números na tela do laptop como quem lê uma sentença de morte — com a calma forçada de quem sabe que desmoronar não é uma opção. O extrato bancário mostrava R$87.412,39. Três meses. Era o que restava entre ela e a falência completa do Montenegro & Associados, um nome que agora soava como piada de mau gosto, considerando que o "associado" tinha levado dois milhões e evaporado como fumaça de cigarro caro.
Gustavo. O nome ainda arranhava a garganta.
Ajeitou os óculos no topo da cabeça e fechou o laptop com mais cuidado do que a situação merecia. O escritório na Faria Lima ocupava um andar inteiro de um prédio de vidro que, há um ano, parecia conquista; agora, era um sarcófago elegante. As mesas vazias dos estagiários que demitira no mês passado ainda tinham manchas circulares de canecas de café. O ar-condicionado central zumbia para um público que não existia mais.
Restavam ela, Beatriz — a secretária que se recusava a ir embora — e o cheiro persistente de ambição que já não tinha onde se apoiar.
— Isa, sua mãe na linha dois — a voz de Beatriz atravessou o interfone com a suavidade de quem entrega uma granada com o pino puxado.
Isabela respirou. Respirou de novo. Apertou o botão.
— Mãe.
— Filha, que tom é esse? Parece que comeu limão no café da manhã. — A voz de Cláudia Montenegro era um instrumento afinado para provocar culpa em frequências que só filhas captavam. — Enfim, eu ligo com novidades maravilhosas. Seu pai e eu decidimos: quarenta anos de casamento merecem algo à altura. Alugamos uma villa em Cap Ferrat. Uma semana. Toda a família.
Cap Ferrat. Côte d'Azur. O tipo de lugar onde Isabela, neste momento, não podia nem bancar a gorjeta do manobrista.
— Mãe, eu tenho prazos, o escritório está...
— O escritório não vai a lugar nenhum, querida. Você precisa de sol, de um bom vinho e, pelo amor de Deus, de trazer aquele namorado misterioso que você menciona há meses.
O namorado misterioso. A mentira que Isabela tinha inventado numa noite de desespero, quando Cláudia perguntara pela décima segunda vez no jantar de Natal se ela "pretendia morrer sozinha como a tia Glória." Tinha dito que sim, estava saindo com alguém, alguém ótimo, e o assunto mudara para a receita do peru. Achava que a mentira morreria ali, afogada em espumante. Não morreu.
— Mãe, sobre isso...
— Fernanda já confirmou, vem com Marcos e as crianças. Lucas vem com aquele rapaz francês, o Théo. Isabela, minha filha, se você aparecer sozinha de novo, eu juro que coloco aquele seu primo Otávio sentado do seu lado no jantar. O que gosta de répteis.
— Ele é herpetólogo, mãe.
— Ele levou uma iguana pro casamento da Renata.
Isabela esfregou a têmpora com o polegar. Do outro lado da janela, São Paulo pulsava sua rotina indiferente — buzinas, concreto, a névoa cinzenta de agosto que engolia os prédios a partir do vigésimo andar. Lá embaixo, as pessoas tinham vidas normais. Contas que fechavam. Namorados reais.
— Eu vou ver, mãe.
— Não é "vou ver." É "eu vou e ele vem comigo." A passagem é por nossa conta. Os quartos já estão distribuídos. Você e seu namorado ficam na suíte azul, tem vista para o mar, é divina. Mando as fotos.
Cláudia desligou antes que Isabela pudesse construir mais uma desculpa. Era assim que a matriarca Montenegro operava: com a eficiência de um rolo compressor revestido de Chanel N.º 5.
§
Beatriz apareceu na porta com uma caneca nova de café — este, ao menos, quente.
— Pela sua cara, a dona Cláudia não ligou para perguntar da sua saúde.
— Ela quer que eu leve meu namorado para a França.
— O namorado que não existe.
— Esse.
Beatriz se sentou na cadeira de frente, cruzou as pernas e inclinou a cabeça com a expressão de quem avalia um acidente de carro em câmera lenta.
— Isa, sem querer ser a voz da razão — o que claramente é mentira, eu adoro ser a voz da razão — mas a que ponto exato da sua vida você pretende parar de cavar esse buraco?
— No ponto em que eu tiver uma pá melhor.
— Isso nem faz sentido.
— Eu sei.
Isabela tomou um gole do café. Amargo, sem açúcar, como ela aprendeu a beber na faculdade quando precisava varar noites e a máquina de espresso do dormitório só funcionava no modo punição. O gosto a ancorava. Amargo era previsível. Amargo não mentia.
O problema era claro: aparecer na França sem namorado significava enfrentar uma semana de interrogatório materno, olhares compassivos de Fernanda, provocações de Marcos — que adorava lembrar que Isabela era "a que escolheu carreira em vez de família" — e, pior, as perguntas sobre o escritório. Porque se Cláudia farejasse fraqueza, iria escavar. E Isabela não podia, sob hipótese alguma, deixar a família descobrir que a filha perfeita estava a três meses de fechar as portas.
A vergonha seria insuportável. Não pela falência em si — falências acontecem, ela sabia disso, era advogada, pelo amor de Deus. Mas pela mentira. Meses sorrindo nos jantares, dizendo que "o escritório vai muito bem, obrigada", comprando presentes de Natal que colocara no cartão de crédito. A construção elaborada de uma vida que já não existia.
Mais uma mentira em cima dessa pilha nem fazia diferença. Era como um grão de areia a mais num deserto.
— Bea, você acha que... — Isabela parou, mordeu a parte interna da bochecha. — Esquece.
— Não, termina. Sua cara de ideia perigosa está acesa feito letreiro de motel.
— Acompanhantes. De luxo. Tipo... agências.
Beatriz arregalou os olhos. Depois os apertou. Depois inclinou a cabeça para o outro lado, como uma coruja reavaliando a sanidade da presa.
— Você quer contratar um homem para fingir ser seu namorado.
— Eu quero contratar um profissional para uma semana de atuação convincente num ambiente de alta pressão social. É basicamente um advogado com melhor guarda-roupa.
— Isabela Montenegro, isso é a coisa mais ridícula e ao mesmo tempo mais brilhante que você já disse, e olha que a barra é alta.
— Então me ajuda a pesquisar.
§
Duas horas depois, Isabela estava em casa — o apartamento no Itaim que já tinha placa de "vende-se" no lobby, embora a família não soubesse. Sentada no sofá com o laptop apoiado num travesseiro, descalça, cabelo preso num coque precário, ela navegava por um mundo que não sabia existir.
Agências de acompanhantes de luxo. Não as escrachadas, não as que vendiam o óbvio com eufemismos transparentes. As discretas. As que atendiam executivas em viagens de negócio, viúvas em eventos sociais, mulheres que precisavam de uma presença masculina sofisticada sem as complicações de um relacionamento real. O mercado existia com a naturalidade silenciosa de tudo que dinheiro compra sem alarde.
Descartou três agências — duas pareciam amadoras, uma tinha cara de lavagem de dinheiro. Na quarta tentativa, encontrou.
**Élysée Companions. Paris.**
O site era minimalista. Fundo creme, tipografia elegante, sem fotos de capa. Um parágrafo:
*"Discrétion absolue. Compagnie sur mesure. Clientèle internationale exclusive."*
O catálogo exigia cadastro prévio, verificação de identidade e pagamento de uma taxa de acesso. Isabela preencheu os formulários com a meticulosidade de quem monta uma petição jurídica, entregou documentos e, vinte minutos depois, recebeu um e-mail com as credenciais.
Seus dedos hesitaram sobre o trackpad. A tela de login esperava com a paciência impessoal de quem já viu muita gente hesitar ali.
Isabela pensou no extrato bancário. R$87.412,39.
Pensou na voz de Cláudia. "Se você aparecer sozinha de novo..."
Pensou em Marcos, com aquele sorriso de quem sabe algo que você não sabe, sempre pronto para alfinetar. Pensou em Gustavo, que levou tudo e não olhou para trás.
Pensou que, em toda a sua vida, tinha feito tudo certo. Estudou certo, trabalhou certo, sorriu certo. E aqui estava: sozinha num apartamento que não era mais dela, com uma carreira em decomposição, prestes a pagar um estranho para segurar sua mão diante de uma família que ela amava demais para decepcionar.
A ironia não escapou a ela. Isabela Montenegro, especialista em tributação e estruturas legais, prestes a contratar o serviço mais fraudulento da sua vida.
Digitou login e senha.
O catálogo se abriu.
§
Havia vinte e três perfis disponíveis para a janela de datas que ela precisava. Cada um apresentava uma foto discreta — rosto parcialmente visível, sempre em ambientes neutros — acompanhada de dados: idiomas, formação, interesses, especialidades sociais. Eram categorizados como se fossem vinhos numa carta refinada: origem, perfil, harmonização.
Isabela descartou os primeiros doze com eficiência clínica. Jovem demais. Velho demais. Sorriso falso demais. Um parecia modelo de catálogo de roupa íntima — Cláudia desconfiaria em segundos. Outro tinha "interesses: polo e ópera" — Marcos faria chacota antes da entrada ser servida.
Então parou.
Perfil 17. **R.M.**
A foto mostrava um homem de perfil, encostado numa balaustrada de pedra com o mar ao fundo. Camisa de linho branco com as mangas dobradas até o cotovelo, mãos apoiadas na pedra, relógio discreto no pulso esquerdo. O rosto era visível apenas em três quartos — maxilar definido, cabelos escuros, um toque de grisalho nas têmporas que em qualquer outro homem pareceria envelhecimento e nele parecia deliberado. A postura era de quem não precisava provar nada a ninguém.
*Idiomas: Português, Francês (nativo), Inglês, Italiano.* *Formação: Economia e Enologia.* *Especialidades: Eventos corporativos, jantares familiares, semanas em propriedades privadas.* *Observações: Discreto. Adaptável. Familiarizado com ambientes de alto patrimônio.*
"Familiarizado com ambientes de alto patrimônio." Isabela quase riu. Ela não tinha patrimônio nenhum, mas a família sim. E era a família que precisava ser convencida.
Português e francês nativo. Economia. Enologia — saberia falar de vinho, o que na Côte d'Azur era basicamente uma segunda língua. Jantares familiares. Semanas em propriedades privadas. Era como se alguém tivesse construído o perfil sob medida para o inferno social específico que a esperava.
Isabela clicou em "Solicitar Contato."
A resposta veio em quatro minutos. Um número de telefone francês e uma instrução: "Ligar entre 19h e 21h, horário de Paris. Perguntar por Rafael."
Rafael.
Isabela olhou o relógio. 14h em São Paulo, 19h em Paris. A janela estava aberta.
Seus dedos encontraram o número no teclado do celular. O tom de chamada internacional tinha aquele atraso quase imperceptível, como se o som precisasse cruzar um oceano antes de decidir se conectava dois estranhos.
Três toques.
— Oui?
A voz era grave, sem pressa. Uma única sílaba que continha o tipo de calma que as pessoas fingem mas raramente possuem.
— Boa noite. Eu... meu nome é Isabela Montenegro. Encontrei seu perfil na Élysée.
Um silêncio de dois segundos. Calculado, ela percebeu. Não hesitação — avaliação.
— Bonsoir, Isabela. — O nome dela soou diferente na boca dele, as sílabas ganhando um peso que não tinham em português. — Como posso ajudá-la?
— Preciso de um acompanhante para uma semana na Côte d'Azur. Evento familiar. Celebração de bodas de rubi dos meus pais. Villa em Cap Ferrat. Preciso de alguém que convença uma família brasileira conservadora de que é meu namorado. Alguém que fale português perfeitamente, saiba se portar em jantares formais e não entre em pânico com uma matriarca que faz interrogatório melhor que a Receita Federal.
Silêncio novamente. Isabela pensou que talvez tivesse falado rápido demais — falava rápido quando estava nervosa, era um defeito que nenhuma sessão de terapia conseguira corrigir.
— As datas? — Ele perguntou, direto.
— 15 a 22 de setembro. Oito dias, sete noites.
— Entendido. Posso perguntar — por que não um namorado real?
A pergunta era simples. A resposta, não.
— Porque namorados reais fazem perguntas para as quais eu não tenho respostas convenientes.
Uma pausa. E então, algo que poderia ser um riso contido ou apenas uma expiração mais longa.
— Justo. — Ele fez outra pausa breve. — Isabela, uma semana com família é o trabalho mais complexo que existe neste métier. Não é um jantar de três horas onde se pode ser charmoso e desaparecer. É convivência. É café da manhã com olheiras. É inventar memórias compartilhadas sob pressão. Exige briefing detalhado, preparação conjunta e confiança mútua. O valor reflete isso.
— Quanto?
— Quinze mil euros. Mais despesas de deslocamento e vestuário, se necessário.
Isabela engoliu. Quinze mil euros. Ao câmbio atual, quase noventa mil reais. Praticamente tudo o que restava na conta do escritório. Pagar um estranho para fingir que a amava com o dinheiro que deveria manter seu negócio vivo.
A lógica gritava que era insanidade. Mas Isabela já tinha passado do ponto onde a lógica governava suas decisões.
— Aceito.
— Précisons les termes, então. Enviarei um contrato por e-mail. Leia com atenção — presumo que seja algo que você faça bem, Isabela.
Algo no tom dele — aquela ironia sutil, quase imperceptível como perfume de cedro — fez Isabela apertar os lábios para não sorrir.
— Presumo que você também cumpra bem o que assina, Rafael.
— Invariavelmente.
Ele desligou primeiro. Sem despedida, sem floreios. A ligação durou quatro minutos e trinta e sete segundos. Isabela sabia porque ficou olhando o cronômetro no visor enquanto o silêncio do apartamento a engolia de volta.
Largou o celular no sofá. Encostou a cabeça no encosto e fitou o teto branco do apartamento que em breve seria de outra pessoa. O cheiro de café velho vinha da cozinha. O barulho do trânsito na Nove de Julho entrava pela janela entreaberta como um zumbido perpétuo.
Tinha acabado de gastar quase toda a sua reserva num desconhecido com voz de barítono e talento para pausas calculadas.
A parte racional do seu cérebro — aquela que passara na OAB de primeira e montara um escritório aos vinte e sete — catalogou a decisão como "irrecuperavelmente insana."
A parte que conhecia sua família catalogou como "único plano viável."
Isabela fechou os olhos. Quando os abriu, o celular já mostrava a notificação de um e-mail. Remetente: Élysée Companions. Assunto: Contrat — Mlle. Montenegro / R.M.
Abriu o documento. Vinte e três cláusulas, francês jurídico impecável. Confidencialidade absoluta. Proibição de contato pessoal após o término do serviço. E, na cláusula dezessete, sublinhada:
*"Le prestataire ne développera aucun lien affectif avec le/la client(e). Toute relation dépassant le cadre professionnel entraîne la résiliation immédiate du contrat."*
O prestador não desenvolverá nenhum vínculo afetivo com o/a cliente.
Isabela leu a cláusula duas vezes. Assinou digitalmente sem hesitar.
Afinal, ela era advogada. Sabia melhor que ninguém que contratos existem para dar a ilusão de que o caos pode ser controlado.
E que as cláusulas mais importantes são sempre as que acabam sendo quebradas.
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