
Noites Cariocas
Suspense Romântico
Quando a jovem jornalista investigativa Júlia Tavares aceita infiltrar-se como relações públicas no exclusivo Beach Club Copacabana para desmascarar um esquema de lavagem de dinheiro, ela não imagina que sua vida está prestes a implodir de formas que jamais poderia…
CAPÍTULO 1
A Cidade de Vidro
O Rio de Janeiro não é apenas uma cidade; é uma alucinação coletiva projetada em tecnicolor entre o granito e o sal. Visto de cima, da janela de um helicóptero blindado ou dos braços abertos do Cristo, é o Paraíso na Terra: uma curva de areia dourada abraçando um mar que oscila entre o turquesa e o chumbo, pontilhado de ilhas que parecem pedras preciosas jogadas por um deus descuidado. Mas Júlia Tavares não estava olhando de cima. Ela raramente olhava.
Júlia operava no nível da rua, onde o asfalto derrete sob o sol de quarenta graus e onde o cheiro de maresia se mistura, invariavelmente, com o odor adocicado de lixo fermentado e esgoto a céu aberto. Para quem olha de baixo, da sarjeta ou da mira de um fuzil, o Rio é um Purgatório com vista para o mar. Uma cidade de vidro: linda, transparente para quem tem dinheiro, mas cortante e frágil para quem tenta escalá-la.
Naquela sexta-feira à noite, a umidade do ar chegava a 90%, transformando a atmosfera em uma sopa quente que colava a roupa no corpo. Mas dentro do Beach Club Copacabana, o clima era polar. O ar condicionado industrial mantinha a temperatura em agradáveis dezoito graus, permitindo que a elite carioca desfilasse seus ternos de linho italiano e vestidos de seda sem transpirar uma gota sequer.
O evento era o lançamento "não oficial" da pré-candidatura de Marcelo Sampaio ao Senado. O convite dizia apenas "Celebração de Outono da Fundação Sampaio", mas todos ali sabiam ler as entrelinhas. No Rio, nada é o que parece, e uma festa beneficente é sempre, em última análise, um balcão de negócios.
O tema era "Ouro e Branco". A obediência da alta sociedade era canina. Mulheres com peles esticadas por cirurgiões de Zurique exibiam joias que poderiam financiar a construção de uma escola inteira na Baixada Fluminense. Homens com charutos na mão e relógios suíços no pulso riam alto, negociando licitações e sentenças judiciais entre um gole e outro de Blue Label.
Júlia Tavares não vestia ouro, nem branco. Ela vestia a cor da invisibilidade: preto. Um vestido de corte simples, comprado em uma líquidação na Zara, que lhe caía bem o suficiente para não levantar suspeitas, mas discreto o bastante para torná-la parte da mobília.
Ela não entrara pela porta da frente, sob o flash dos paparazzi e o escrutínio da lista VIP. Ela entrara pela doca de carga, misturada a uma equipe de catering, usando uma credencial falsificada que dizia "Assessoria de Imprensa - Staff". A credencial, feita por um contato seu na Lapa que atendia pelo nome de "Mago dos Pixels", era perfeita.
Agora, com uma taça de água com gás na mão para fingir socialização, Júlia navegava pelo salão. Seus olhos verdes, treinados por dez anos de jornalismo investigativo na Folha Carioca, não viam a festa. Viam os detalhes.
Ela via o Secretário de Segurança Pública cochichando com um bicheiro conhecido no canto do bar. Via a esposa do Governador aceitando um colar de diamantes "emprestado" de uma joalheira que estava sendo investigada por lavagem de dinheiro. Via a coreografia do poder.
Mas seu alvo principal estava no centro do salão, sob o lustre de cristal Baccarat que valia mais que a vida de todos os garçons somados.
Marcelo Sampaio. O "Golden Boy".
Aos quarenta e dois anos, Marcelo era a imagem esculpida do sucesso. Bronzeado, dentes brancos demais, cabelo grisalho nas têmporas que lhe conferia uma gravitas calculada. Ele ria, tocava o ombro de um empreiteiro, beijava a mão de uma socialite. Ele irradiava carisma como uma usina nuclear irradia calor.
Júlia sentiu o estômago revirar. Ela sabia o que estava por trás daquele sorriso. As planilhas que ela vira de relance, os rumores sobre as creches fantasmas na Zona Oeste, o dinheiro desviado da merenda escolar que agora pagava aquele champanhe Veuve Clicquot.
Ela deu um passo à frente, tateando a caneta no bolso da clutch. Não era uma caneta, claro. Era um gravador digital de alta fidelidade. Ela precisava de uma frase. Um deslize. Qualquer coisa que conectasse Marcelo diretamente ao esquema.
Mas antes que pudesse se aproximar do círculo de luz do candidato, algo a fez parar. Um instinto. Uma sensação de estar sendo observada, não por seguranças, mas por algo mais perigoso.
Ela olhou para cima.
No mezanino, longe dos holofotes, apoiado no guarda-corpo de vidro temperado, estava a sombra.
Rodrigo Sampaio.
O irmão mais novo. O ovelha negra. O homem que as colunas sociais chamavam de "O Lobo", um apelido que ele nunca desmentiu.
Diferente de Marcelo, Rodrigo não sorria. Ele não usava branco. Ele vestia um terno preto sob medida, sem gravata, a camisa branca aberta no colarinho revelando o pescoço forte. Ele segurava um copo de old fashioned que parecia intocado. Seus olhos escuros varriam o salão com o tédio clínico de um predador que já se alimentou e agora apenas assiste, com leve curiosidade, as presas dançarem antes do abate.
Diziam que Rodrigo era o operador. O homem que sujava as mãos para que as de Marcelo permanecessem imaculadas. Diziam que ele gerenciava os cassinos clandestinos, negociava com as milícias e resolvia "problemas" de formas que não constavam no Código Penal.
Júlia sabia que ele era a chave. Se Marcelo era a fachada, Rodrigo era a estrutura. E para derrubar o prédio, você não ataca a pintura; você ataca a viga mestra.
Ela respirou fundo, alisou o vestido e caminhou em direção à escada em espiral. Subir até lá era entrar na cova do leão, mas Júlia Tavares nunca fora conhecida pela prudência.
Ao chegar ao mezanino, o ar parecia mais rarefeito. O som da festa lá embaixo chegava abafado, como se estivessem submersos.
Rodrigo não se virou quando ela se aproximou. Ele continuou olhando para o irmão lá embaixo.
— A vista é melhor daqui de cima? — Júlia perguntou, parando ao lado dele, respeitando uma distância de segurança que parecia ridícula diante da aura de perigo que ele emanava.
Rodrigo tomou um gole lento de sua bebida. Água com gás, notou Júlia. O copo de uísque era camuflagem. O Lobo estava sóbrio.
— A vista é a mesma — ele disse. Sua voz era grave, arranhada, como se tivesse sido usada para dar ordens em lugares onde se grita muito ou se sussurra pouco. — O que muda é o cheiro. Aqui em cima cheira menos a hipocrisia e mais a ozônio do ar-condicionado.
Ele finalmente virou o rosto para ela.
O impacto foi físico. Júlia já vira fotos dele, mas ao vivo, a intensidade era perturbadora. Havia uma cicatriz fina cortando a sobrancelha esquerda, uma linha branca na pele morena que contava uma história de violência. Os olhos eram inteligentes, cansados e totalmente desprovidos de calor.
— Você não é convidada — ele afirmou. Não havia acusação no tom, apenas a constatação de um fato.
— Sou imprensa — Júlia retrucou, erguendo o queixo.
— Você é Júlia Tavares. Repórter investigativa da Folha Carioca. A mulher que derrubou o Secretário de Transportes mês passado com aquela série sobre a máfia dos ônibus. Eu leio sua coluna. É bem escrita, embora adjetivada demais para o meu gosto.
— Fico lisonjeada. O "Lobo" sabe ler. Achei que você só soubesse contar dinheiro e quebrar pernas.
Rodrigo sorriu. Foi um movimento sutil dos lábios, um sorriso de canto de boca que não chegava aos olhos, mas que tinha um charme magnético e perigoso.
— O Lobo sabe fazer muitas coisas, Senhorita Tavares. Inclusive farejar problemas. E você... você cheira a problema. O perfume é barato, mas a intenção é cara. O que você quer?
— A verdade.
— A verdade é uma commodity cara no Rio de Janeiro. Geralmente custa a vida.
— Eu estou disposta a pagar. Tenho fontes, Rodrigo. Fontes que dizem que a Fundação Sampaio é uma lavanderia. Que o dinheiro das creches está indo para contas offshore para financiar a campanha do Marcelo.
Rodrigo soltou uma risada curta, seca.
— Você acha que vai encontrar provas numa festa? Acha que vai gravar o Marcelo confessando crimes de colarinho branco entre um canapé de salmão e um aperto de mão? Você é ingênua ou apenas suicida?
— Eu acho que onde há fumaça, há fogo. E você, Rodrigo, está sempre perto dos extintores. Você é quem apaga os incêndios dele.
Rodrigo girou o corpo, ficando de frente para ela. Ele invadiu o espaço pessoal dela com uma deliberação predatória. Júlia sentiu o cheiro dele — sândalo, tabaco frio e algo metálico, como chuva no asfalto quente. Ela se forçou a não recuar.
— Um conselho de amigo, Júlia: não brinque com fogo se você não sabe como ele queima. O Marcelo não é o Secretário de Transportes. Ele não é um burocrata gordo que cai com uma manchete de domingo. Ele é uma instituição. Se você cutucar essa onça com sua caneta tinteiro... ela não vai rugir. Ela vai comer você. E não vai sobrar nem o ossinho para contar a história.
— É uma ameaça? — A voz de Júlia tremeu, apenas um pouco.
— É uma consultoria gratuita. Vá embora. Volte para a sua redação abafada. Escreva sobre buracos de rua, sobre a Anitta, sobre o Fluminense. Deixe a Família Sampaio em paz.
— E se eu não deixar?
Rodrigo olhou nos olhos dela. Por uma fração de segundo, a máscara de frieza escorregou. Júlia viu algo profundo naqueles olhos negros. Viu exaustão. Viu o peso de carregar o mundo — ou pelo menos o mundo do irmão — nas costas. Viu um homem que estava preso em uma jaula que ele mesmo ajudara a construir.
— Então eu espero que você tenha um bom plano funerário — ele sussurrou.
Ele deu as costas a ela, terminando a conversa com a mesma brusquidão com que começara. Ele desceu a escada, mergulhando na multidão dourada, abrindo caminho como Moisés no Mar Vermelho, até chegar ao lado de Marcelo. Ele sussurrou algo no ouvido do irmão. Marcelo olhou para cima, para o mezanino.
O olhar do "Golden Boy" não tinha nada de dourado. Era frio, calculista, letal.
Júlia sentiu um arrepio percorrer sua espinha. Ela apertou a bolsa contra o corpo. Ela não tinha conseguido a gravação. Mas tinha conseguido algo mais valioso: a confirmação.
Eles estavam com medo. E se o Lobo estava rosnando, era porque ela estava perto da toca.
Júlia deu meia volta e saiu pela cozinha, deixando para trás o brilho falso da festa e mergulhando na noite quente e perigosa do Rio de Janeiro. A caçada tinha começado.
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