Maré Alta
thriller
Fernando de Noronha é o tipo de lugar que parece impossível de temer. Águas turquesa, penhasco que corta o horizonte, céu sem arranhões. Mas Ana Luz sabe que a ilha guarda o que o mar não levou: sete anos atrás,…
CAPÍTULO 1
A Ilha Não Esquece
PRESENTE — Dia 1 | Noronha
O avião desceu sobre o Atlântico como se estivesse desafiando o oceano. Da janela, eu via as rochas surgindo da água — Morro Dois Irmãos, agulhas de pedra que pareciam perfurar a superfície do mar para respirar. Fernando de Noronha. Escandalosamente bonita. Obscenamente luminosa. Eu olhei para o horizonte e senti algo apertar no centro do peito, como se alguém estivesse torcendo um pano molhado.
Sete anos.
A ilha não tinha mudado. Eu sim.
O aeroporto é pequeno, quente, cheirando a protetor solar e sal marinho. Havia turistas em todo lugar — casais segurando câmeras, grupos de mergulhadores com seus equipamentos volumosos, mochilas fluorescentes. Gente que veio para ser feliz. Gente que tinha permissão de ser feliz aqui.
Eu peguei minha mochila e fui até a saída com a sensação de que estava chegando ao lugar errado. Não é que eu não quisesse vir. Eu precisava vir. Mas precisar e querer são coisas diferentes, e eu aprendi isso de uma maneira que eu não recomendo para ninguém.
O reencontro foi ideia minha. Isso é importante registrar.
Tinha sido eu que mandei as mensagens, que escolhera a data, que reservara os quartos no mesmo hotel — o Pousada do Mirante, um lugar de varanda com vista para o mar que qualquer pessoa de bom senso consideraria paradisíaco. Tinha sido eu que insistira quando Lucas disse que talvez não pudesse, quando Camila ficou em silêncio por três dias antes de responder "tudo bem", quando Marina simplesmente escreveu "ok" sem nenhum ponto de exclamação.
Rafael foi o único que respondeu imediatamente. "Vai ser bom", ele disse. Não sei se acreditei nele.
Peguei um táxi — os carros elétricos que circulam na ilha — e fui até a pousada olhando pela janela sem realmente ver a paisagem. A estrada subia e descia entre a vegetação baixa, e às vezes o mar aparecia nos vãos entre as colinas, aquele azul absurdo que parece pintado. Eu tirei o telefone do bolso e não fiz nada com ele. Só segurei.
Não é que eu seja sentimental. Sou jornalista. Observo, catalogo, ordeno. Mas há lugares que têm peso específico, e Fernando de Noronha, para mim, tinha o peso de uma pedra de naufrágio.
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Eles já estavam no saguão quando cheguei.
Primeiro vi Camila — impossível não ver Camila em qualquer ambiente, porque ela entrava num cômodo como se o cômodo estivesse esperando por ela. Havia mudado o cabelo desde a última vez que a vi pessoalmente; agora usava um trançado com mechas loiras, e estava de vestido de linho laranja, e parecia exatamente o tipo de pessoa que frequenta Fernando de Noronha nos stories. Mas eu conhecia Camila há doze anos, e eu reconhecia o jeito que ela segurava o copo — muito firme, os nós dos dedos brancos.
"Ana!" Ela se levantou e me abraçou antes que eu colocasse a mochila no chão, e o abraço foi longo demais, do tipo que não é de alegria mas de alívio. "Finalmente você chegou."
"Meu voo atrasou." Mentira. Meu voo tinha chegado no horário. Eu tinha ficado sentada no aeroporto por quarenta minutos sem conseguir sair.
Lucas estava ao lado dela, de bermuda e camiseta azul-marinho, com aquela postura de médico que ele tinha desenvolvido nos últimos anos — a coluna muito reta, os ombros quadrados, como se o corpo precisasse transmitir autoridade mesmo em férias. Ele me deu dois beijos no rosto e disse "que bom te ver" com um sorriso que não chegava aos olhos.
Lucas tinha envelhecido. Não de maneira ruim — era um homem atraente, com as primeiras linhas de expressão bem localizadas. Mas havia algo diferente na maneira como ele olhava ao redor, como se estivesse constantemente avaliando rotas de saída.
"Rafael está no quarto ainda", disse Camila. "Disse que desce em meia hora."
"E Thiago?"
Uma pausa. Pequena, mas eu a registrei.
"Chegou mais cedo que todo mundo", disse Marina, que estava sentada numa cadeira perto da janela e que eu quase não tinha percebido. Isso era típico de Marina — ela tinha o dom de estar presente sem ocupar espaço. "Mas foi direto para o quarto. Disse que estava cansado da viagem."
Marina estava de calça e blusa de manga longa, o que era uma escolha estranha para trinta e dois graus. Ela segurava um livro no colo, fechado. Não estava lendo — estava usando o livro como objeto, como algo para ter nas mãos.
Eu a olhei por um segundo a mais do que deveria. Ela me devolveu o olhar com a tranquilidade de sempre.
"Sete anos", eu disse, sem destinar a frase a ninguém específico.
"Sete anos", Camila repetiu, e havia algo na voz dela que era ao mesmo tempo nostálgico e pesaroso, como quem diz o nome de alguém que morreu.
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O quarto era bonito. Claro, com paredes brancas e cama de dossel, e uma varanda pequena de onde se via um pedaço de mar entre dois morros. Eu coloquei a mochila em cima da cama e fui até a varanda e fiquei lá por alguns minutos olhando para a água.
De onde eu estava, se eu virasse para a direita e olhasse para além do hotel, conseguia ver — ou imaginar que conseguia ver — a silhueta distante das pedras na ponta da ilha. O penhasco.
Não virei para a direita.
Voltei para dentro e abri o caderno que carregava na bolsa lateral. Hábito de jornalista: anoto tudo. Não para as reportagens — para mim mesma, para manter a cabeça organizada.
Escrevi: *Camila — mãos. Lucas — olhos. Marina — manga longa. Rafael — não vi ainda. Thiago — ausente.*
Depois fiquei olhando para o que escrevi e não acrescentei mais nada.
A verdade, a que eu não escrevia no caderno porque me recusava a colocar em palavras mesmo para mim mesma, era esta: eu não tinha organizado esse reencontro para "fechar o capítulo". Isso era o que eu dizia para as pessoas. Era o que eu dizia para mim mesma quando precisava de uma razão suportável.
A verdade era que eu precisava entender o que tinha acontecido com Felipe.
E a outra verdade, debaixo desta: eu achava que sabia. Achava que tinha visto. E durante sete anos eu tinha carregado isso — o que achei que tinha visto — como uma pedra no bolso, pesada o suficiente para afundar, leve o suficiente para carregar.
Fechei o caderno.
Do corredor, eu ouvia o barulho abafado do oceano, que entrava pelas janelas abertas do hotel. Noronha tinha esse som constante, essa presença do mar que não parava nunca. No dia que Felipe morreu, o mar estava exatamente assim — largo, azul, indiferente.
Peguei o telefone e mandei mensagem para o grupo: *Estou aqui. Que tal jantar às 8?*
As respostas vieram uma por uma. Lucas: *Perfeito.* Camila: *Sim!!!* com três exclamações que pareciam um esforço. Marina: *Ok.*
Rafael: *Estarei lá.*
De Thiago, nenhuma resposta.
Eu olhei para o telefone por um momento e depois pus no carregador e fui tomar banho. A água era morna e o chuveiro tinha uma janelinha pequena voltada para o jardim, e enquanto eu ficava debaixo d'água tentei me lembrar de como era ter vinte e dois anos e estar nessa ilha e achar que a vida tinha o tamanho certo.
Não consegui me lembrar. Parecia outra pessoa.
Talvez fosse.
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Às seis da tarde eu desci e encontrei Rafael na varanda do bar, com uma cerveja que parecia ser a segunda ou terceira. Ele estava diferente — mais largo nos ombros, cabelo cortado mais curto, camiseta que devia custar o que eu gastava de aluguel. Advogado bem-sucedido. Era o que todo mundo dizia sobre Rafael agora.
Quando me viu, ele sorriu. Era um sorriso bom, Rafael sempre teve um sorriso bom. O tipo de sorriso que fazia você querer acreditar na pessoa.
"Ana." Ele se levantou e me abraçou. Forte. "Caramba, faz tempo."
"Faz."
Ficamos lado a lado por um momento olhando para o mar que se via lá embaixo, além das pedras e da vegetação. O sol estava descendo e tingindo o horizonte de laranja.
"Você está bem?" eu perguntei.
"Estou." Uma pausa. "Você?"
"Estou."
Nenhum de nós dois acreditou no outro, e nenhum de nós dois disse isso.
"Thiago ainda não desceu", ele disse depois de um momento.
"Sei."
"Você acha que ele vem jantar?"
Eu olhei para o horizonte. "Não sei."
Rafael girou a garrafa entre os dedos. "Foi estranho ele aceitar vir. De todos nós, eu achei que Thiago seria o último a dizer sim."
Eu não respondi nada, porque tinha pensado exatamente o contrário. Tinha achado que Thiago seria o primeiro.
E, de fato, ele tinha sido.
Thiago tinha respondido à minha mensagem em menos de dois minutos, naquela noite em que mandei o convite para o grupo. *Estou dentro*, ele escreveu. *Já estava na hora de acertar as contas.*
Eu tinha relido essa frase várias vezes, nos meses que se seguiram. *Acertar as contas.* Achei que entendia o que ele queria dizer. Achei que era o mesmo que eu queria — fechar, entender, seguir em frente.
Agora, em pé ao lado de Rafael com o sol poente tingindo tudo de cobre, eu não tinha tanta certeza.
A ilha estava escandalosamente bonita. E Thiago não tinha saído do quarto.
E eu sentia, com a precisão de quem aprende a sentir coisas antes de entendê-las, que alguma coisa estava errada.
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