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Carregando...romance-contemporaneo
Clara Mendes chegou a Istambul com dois anos de investigação na bagagem e uma única certeza: o think tank europeu que ela estava prestes a expor mudaria tudo. O que ela não esperava era que o homem encarregado de impedir…
CAPÍTULO 1
A fila de credenciamento do G20 de Istambul tinha uma característica que eu apreciava em toda fila de credenciamento de evento de grande porte: ela revelava a hierarquia de quem realmente importava versus quem achava que importava. Os ministros passavam por uma entrada separada, com carpete. Os assessores de segundo escalão ficavam numa fila à direita que movia razoavelmente rápido. Nós, imprensa, ficávamos na fila do meio, que era comprida, lenta, e decorada com a energia específica de pessoas que estavam com pressa mas não podiam demonstrar isso sem parecer amadores.
Eu abri o bloco de notas antes mesmo de chegar ao balcão.
Não porque eu precisasse anotar algo naquele momento. Era hábito — quase superstição. O bloco aberto significava que eu estava trabalhando. Significava que o tempo contava. Significava que aquela fila de quarenta minutos não era tempo perdido, era observação.
Havia uma delegação angolana três pessoas à minha frente. Dois assessores de imprensa alemães — reconheci o logo do Spiegel num crachá — atrás de mim. Uma mulher com um laptop fechado sob o braço e expressão de alguém que já tinha entregue três reportagens hoje e estava aqui pelo quarto. Solidariedade silenciosa.
O credenciamento levou quarenta e dois minutos. Fotografaram meu rosto duas vezes, o que eu nunca entendi — a lógica de que meu rosto pode mudar em dois minutos me escapa —, exigiram que eu explicasse "freelance" para um funcionário que provavelmente sabia muito bem o que freelance significava mas tinha um protocolo a cumprir, e me deram um crachá azul que indicava "IMPRENSA" em inglês, turco, e francês, porque o francês ainda era a língua do protocolo diplomático mesmo no século XXI, uma elegância que eu admiro e deploro em partes iguais.
Conrad Istanbul Bosphorus. O hotel tinha aquela qualidade específica de lugares construídos para serem cenários de negociações importantes: tudo levemente grandioso demais, os corredores largos o suficiente para duas delegações passarem sem se tocar, a iluminação calibrada para fazer qualquer um parecer mais sério do que era.
CAPÍTULOS
Eu conhecia o tipo.
Tinha ficado em lugares assim em Davos, em Genebra, em Bruxelas numa conferência sobre fundos de desenvolvimento que na época me pareceu menor do que era. Os lugares grandes tinham uma acústica particular nos corredores — um rumor constante de conversas que você nunca conseguia distinguir completamente, um fundo sonoro de poder circulando.
Meu quarto ficava no décimo segundo andar. Vista para o Bósforo, o que não estava no plano — eu tinha pedido algo simples e econômico, a Piauí tinha um limite de diárias que era generoso para São Paulo e apertado para Istambul —, mas alguém tinha feito um upgrade silencioso, provavelmente por eu ser mulher sozinha num andar misto de delegações e assessorias, uma cortesia que eu aceitei sem agradecer porque agradecer teria sido reconhecer que eu notei.
Larguei a mala. Tirei o laptop. Abri o bloco na página onde eu tinha os nomes.
O centro de convenções ficava a cinco minutos do hotel por um corredor interno coberto. Eu precisava de quarenta minutos antes da abertura oficial — tempo suficiente para identificar quem estava onde, mapear as saídas de cada sala, localizar os pontos de encontro informais onde as coisas reais aconteciam. As declarações oficiais eram para o registro. O trabalho verdadeiro era nos cantos.
Eu estava no corredor principal do centro de convenções, a vinte metros da entrada da sala plenária, quando o vi.
Não imediatamente. Primeiro vi o terno — azul-escuro, corte britânico, o tipo que custa mais do que parece e parece mais do que deveria —, depois o crachá que girava levemente enquanto ele caminhava, e só então o rosto. Alto, ombros levemente curvados para frente no modo específico de pessoas altas que aprenderam cedo que a altura era inconveniente em reuniões, cabelo escuro com começo de grisalho nas têmporas que era ou natural ou cuidadosamente mantido para parecer assim. Trinta e poucos, talvez início dos quarenta.
O crachá dizia: *Sebastian Andreou. Aliança Cívica Europeia. CCO.*
Eu tinha um arquivo sobre a Aliança Cívica Europeia com cento e quarenta e seis páginas.
O nome dele aparecia em quarenta e três delas.
Não foi uma decisão — foi instinto, o mesmo instinto que me fez abrir o bloco antes de chegar ao balcão de credenciamento. Dei três passos rápidos para interceptar a linha de caminhada dele e disse:
"Clara Mendes, colaboradora da Piauí e The Intercept Brasil. Posso fazer algumas perguntas sobre o Fundo Verde Europeu?"
Ele não parou completamente. Desacelerou — uma distinção importante —, me olhou com a expressão de alguém avaliando uma situação que já calculou, e disse:
"Não estou autorizado a comentar questões específicas de financiamento fora de contexto oficial."
Primeira recusa. Formal. Protocolo puro. Eu esperava.
"Entendo. Então sobre o processo de auditoria dos fundos climáticos — há algum comentário que a Aliança possa oferecer?"
Ele retomou o passo. Eu acompanhei — não correndo, só ajustando o ritmo para ficar paralela a ele, o que é uma técnica e tanto de jornalismo de corredor.
"A Aliança colabora integralmente com todos os processos de auditoria institucionais." Uma pausa. "Conforme declarado em nosso relatório anual, que está disponível no site."
Segunda recusa. Mais elegante. O acréscimo do relatório anual era um toque profissional — desviava a responsabilidade de responder para um documento que ele sabia que eu já tinha lido e que não respondia nada do que eu estava perguntando.
"O relatório anual cobre os exercícios de 2022 a 2024," eu disse. "Tenho perguntas sobre operações mais recentes."
Chegamos a uma bifurcação no corredor. Ele virou à direita. Eu virei junto.
"Ms. Mendes." Ele parou. Virou para mim. Tinha uns quinze centímetros de vantagem de altura, o que ele não usou — ficou levemente inclinado para frente, aquela postura aprendida de pessoas altas em reuniões. "Você está em território de declaração oficial solicitada sem agendamento prévio, no primeiro dia de um evento que tem protocolos de comunicação específicos." Uma pausa curta. "Não é o melhor momento."
Terceira recusa. Completamente diferente das duas anteriores. Pessoal, quase. Com um grão de algo que não era hostilidade — era reconhecimento. Ele estava me dizendo que entendia o que eu estava fazendo e que não ia funcionar, não porque ele não pudesse responder, mas porque o contexto estava errado.
Era a recusa mais interessante que eu tinha recebido em dois anos de investigação.
"Quando seria o melhor momento?" eu perguntei.
Mas a porta já tinha se fechado atrás dele — literalmente, uma das salas laterais, ele tinha virado o puxador com a mão esquerda enquanto ainda estava me olhando —, e eu fiquei no corredor com o bloco de notas aberto e a pergunta no ar.
Me virei. Encontrei uma cadeira encostada na parede e me sentei nela.
Abri uma página nova.
*Sebastian Andreou. CCO, ACE. Atenas / Londres / Genebra (Sciences Po, deduzir de qual programa). Terno britânico, crachá ACE. Três recusas em dois minutos — padrão: protocolo → desvio → reconhecimento. A terceira foi diferente das duas primeiras. Sabe quem eu sou? Verificar.*
Parei.
Adicionei uma linha.
*Eloquente. Perigoso. Investigar.*
Do lado de fora, o Bósforo estava lá — eu conseguia ver uma fatia dele pela janela no fim do corredor, cinza e quieto sob um céu que ainda não tinha decidido entre nublado e claro. Navios passando. A cidade continuava.
A sessão plenária de abertura do G20 começava em quarenta minutos.
Eu tinha tempo suficiente para localizar mais três fontes, mapear a sala lateral onde as delegações menores faziam suas bilaterais, e tomar um café que o Conrad provavelmente cobrava doze euros mas que eu ia colocar no recibo sem remorso porque quarenta e dois minutos de fila de credenciamento criavam necessidades básicas legítimas.
Fechei o bloco. Me levantei.
Mas fiquei parada por um segundo, olhando para a porta por onde ele tinha entrado.
A terceira recusa ainda estava ecoando de um jeito que eu não gostava. Não porque fosse hostil — porque não era. Porque tinha a qualidade específica de algo dito para uma pessoa específica, não para uma jornalista genérica chateando um assessor de eventos.
*Não é o melhor momento* pressupunha que existia um melhor momento.
O que não era, estritamente falando, um não.
Eu anotei isso também, numa página separada.
Então fui buscar o café.
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A sessão plenária de abertura foi o que sessões plenárias de abertura sempre são: discursos calibrados para dizer coisas importantes em linguagem suficientemente vaga para não comprometer ninguém, aplausos nos momentos certos, algumas delegações olhando para os celulares com a discrição específica de quem sabe que está sendo filmado mas não consegue deixar de fazer isso mesmo assim.
Eu fiquei no fundo, em pé, junto com a maioria da imprensa que não tinha conseguido lugar sentado ou não queria se sentar para conseguir sair mais rápido se algo acontecesse. Nada aconteceu. Era um dia de abertura.
Tomei nota de quem estava sentado onde. Mapeei as delegações. Identifiquei dois assessores que eu reconhecia de outras coberturas — um deles tinha sido fonte minha numa reportagem sobre fundos de infraestrutura em 2023, e ele me reconheceu também, o que significava que podia ser ativado.
Sebastian Andreou ficou do lado direito do plenário, na seção destinada a organizações observadoras. Eu o vi duas vezes — uma quando entrei, uma quando a sessão terminou e as pessoas começaram a se mover.
Ambas as vezes ele estava olhando para algum documento que segurava com as duas mãos, levemente curvado sobre o papel, aquela postura de altura. Não olhou na minha direção.
O que podia significar que estava genuinamente concentrado no documento.
Ou podia significar que sabia onde eu estava e estava evitando demonstrar que sabia.
Eu preferia não decidir ainda qual das duas opções era.
No corredor depois, encontrei Priya Sharma, da Reuters, que eu conhecia de Davos e de uma tarde longa num bar de Genebra onde tínhamos trocado informações sobre fundos europeus com a generosidade específica de duas jornalistas que sabiam que as investigações delas não se sobrepunham o suficiente para ser concorrência.
"Clara." Ela acenou com o queixo. "Aqui pelo quê?"
"Fundos climáticos."
"ACE?"
Eu não respondi imediatamente. Priya era boa nisso — fazia perguntas diretas e esperava a hesitação antes da resposta, porque a hesitação era informação.
"Entre outros," eu disse.
Ela me olhou. "Andreou foi credenciado como observador, sabia?"
"Vi o crachá."
"Curioso, né? Evento de governo, ele aparece como observador de think tank." Uma pausa. "ACE não costuma ter presença física em G20. Geralmente mandam relatórios. Dessa vez vieram pessoalmente."
"Você está cobrindo a ACE?"
"Estou cobrindo mecanismos de financiamento climático em geral. A ACE é um nó na rede." Ela abriu um sorriso pequeno. "Mas não é o único nó."
"Não."
Ficamos um momento em silêncio, do tipo que jornalistas ficam quando estão avaliando quanto vale compartilhar.
"Café amanhã?" ela disse. "7h30, antes do painel das 9."
"Posso."
Ela foi embora. Eu fiquei parada mais um segundo, depois abri o bloco e escrevi: *Priya, Reuters, fundos climáticos, mecanismos. Café 7h30 D2. O que ela sabe sobre ACE que não está nos releases?*
Do corredor, eu conseguia ver o Bósforo pela janela. A mesma fatia de antes, agora com a luz diferente — tarde avançando, o cinza ficando mais profundo.
Istambul continuava, impassível, como cidades velhas fazem.
Eu tinha trabalho para fazer.