
Ilha de Mentiras
Romance Contemporâneo
Lara Mendes jurou nunca mais chegar perto dos Antonidis. Dois anos casada com Nikos bastaram para aprender que charme disfarça veneno — e que, quando pediu divórcio, ele reescreveu a história para a família inteira. Para todos, Lara é a…
CAPÍTULO 1
O Convite
O café tinha esfriado no caneco, mas Lara continuava segurando com as duas mãos, como se o objeto ainda pudesse aquecer alguma coisa. Na mesa da varanda, o notebook abria a caixa de entrada com dezessete e-mails de editores, três faturas atrasadas e um convite para fotografar baleias-jubarte em Abrolhos que ela provavelmente deveria aceitar mas não ia.
O vento sul batia no varal da vizinha, e as toalhas faziam aquele barulho de vela de barco sem destino. Floripa em fevereiro era isso: um calor grudento que de repente virava ventania, o céu trocando de humor como gente indecisa. Lara gostava. Gostava do imprevisível do clima porque o previsível da vida já estava de bom tamanho — café coado às sete, caminhada na Joaquina às oito, edição de fotos até o almoço, e o silêncio bem-vindo de uma casa onde ninguém mentia.
O celular vibrou entre as contas de luz e o prato de mamão.
Número internacional. Prefixo +30.
Grécia.
O estômago torceu antes do cérebro processar. Três anos e o corpo ainda respondia ao código de área de Atenas como se fosse alarme de incêndio. Lara olhou para o número. Não era o de Nikos — aquele ela tinha bloqueado, desbloqueado, rebloqueado e finalmente apagado da memória com a mesma determinação com que apagara as fotos do casamento.
Atendeu no quarto toque, porque no terceiro ainda estava decidindo se queria.
— *Lara mou.*
A voz de Stavros Antonidis carregava o mesmo calor de sempre — grave, lenta, com aquele sotaque que transformava o nome dela em algo que parecia carinho. Dos Antonidis todos, Stavros era o único que pronunciava "Lara" como se a palavra significasse alguma coisa boa.
— Senhor Stavros. — Ela sorriu sem querer. Era involuntário, como espirrar. — O senhor tá bem?
— Velho. Teimoso. Vivo. Nessa ordem.
Lara levantou da cadeira e foi até a mureta da varanda. Dali via a ladeira de pedra que descia até o mar — o mar verde de Floripa, tão diferente do azul escuro do Egeu que às vezes parecia que eram oceanos de planetas diferentes. Sentiu o sal no ar, o vento quente no pescoço, o peso dos cachos grudando na nuca. Encostou o quadril na mureta.
— Faço setenta anos semana que vem — disse Stavros, e havia na voz dele algo que Lara não conseguiu nomear. Não era tristeza. Era mais parecido com urgência disfarçada de casualidade.
— Eu sei. — Ela sabia. Anotava as datas dos Antonidis ainda, num canto teimoso da memória que se recusava a fazer faxina. — Feliz aniversário adiantado.
— Não liguei pra receber parabéns, *koukla*. Liguei pra te convidar.
Lara parou de respirar. Depois soltou o ar devagar, controlado, como fazia antes de apertar o obturador numa longa exposição.
— Convidar pra quê?
— Cruzeiro. Sete dias pelo Egeu. O iate, a família, comida demais, *ouzo* demais. Meu aniversário de setenta. E eu quero você lá.
O silêncio que se seguiu tinha textura. Pesava como o ar antes de temporal — carregado, elétrico, cheio de coisas que ainda não tinham caído.
— Stavros... — Lara apertou o celular. O plástico da capinha estava quente do sol que batia no parapeito. — O senhor sabe que não dá. Eu e aquela família... não funciona.
— Você *é* aquela família.
— Fui. Passado.
— Família não tem passado, Lara. Tem presente mal resolvido.
Ela quase riu. Quase. Mas a risada morreu em algum lugar entre a garganta e o peito, porque lembrou. Lembrou de como Stavros a chamava de filha. De como cortava a *moussaka* sempre servindo ela primeiro, antes até de Theo, o primogênito, o herdeiro, o trono. De como na noite de Natal do primeiro ano de casamento, quando Nikos saiu para "resolver uma coisa no escritório" às onze da noite e Lara ficou sozinha na mesa com quinze gregos que falavam rápido demais, foi Stavros quem puxou a cadeira para mais perto e disse, em português quebrado que ele praticava em segredo: "Você não está sozinha, *minha menina*."
O nó na garganta era velho conhecido. Lara engoliu.
— A família inteira vai estar lá — disse, e não era pergunta.
— Theo, Nikos, Dimi, *yiayia* Eleni. E a namorada do Nikos. Helena. — Uma pausa. — Não vou mentir pra você. Nunca menti.
Era verdade. Dos Antonidis, Stavros era o único que nunca tinha mentido. Também era o único que tinha ligado depois do divórcio — uma ligação só, curta, três meses depois, quando Lara já estava de volta em Floripa e dormia no quarto de infância com pôsteres da National Geographic nas paredes e o coração em carne viva. "Você está bem, filha?" E Lara tinha dito que sim, porque era mais fácil do que explicar que "bem" era uma palavra que não significava mais nada.
— Eu não posso, Stavros. — Lara olhou para o mar. Uma canoa de pescador cortava a água lá embaixo, lenta, despreocupada. O pai dela tinha uma igual. Azul com a borda branca. Cheirava a peixe e diesel e infância. — Nikos... Theo... não tem como. Sabe o que eles pensam de mim.
— Sei o que acham que sabem. É diferente.
A frase ficou suspensa no ar como fumaça.
— O que quer dizer com isso? — perguntou Lara, devagar.
— Quero dizer que faço setenta anos e posso não fazer setenta e um, e quero as pessoas que importam perto de mim. Você importa, Lara. Sempre importou. E se os outros não entendem, problema é deles. Mas venha. Não por eles. Por mim.
Lara fechou os olhos. O vento trouxe cheiro de maresia e fritada — a vizinha de baixo fazendo bolinho de aipim naquela hora, como fazia todo sábado. Sons de Floripa: rádio AM com pagode, criança gritando na rua, moto sem escapamento. Sons que eram seguros. Sons de um mundo onde ninguém a olhava como se fosse uma mancha no nome da família.
— Sete dias — repetiu.
— Sete dias. Você vem, come, fotografa o mar — porque eu sei que vai levar a câmera —, e se alguém te tratar mal, eu cuido.
— Theo vai me tratar mal.
— Theo trata todo mundo mal. Faz parte do charme.
Dessa vez Lara riu. Uma risada curta, surpreendida, que escapou antes que pudesse segurar. Stavros rio junto, e a risada dele era rouca, afetuosa, e fazia Lara lembrar de jantares longos na casa de Kifisia, com vinho tinto e azeitonas e a *yiayia* cantando canções que ninguém mais sabia a letra.
Depois a risada morreu, e ficou o silêncio. O tipo de silêncio que espera uma resposta.
Lara abriu os olhos. O mar de Floripa brilhava lá embaixo como uma promessa que não pedia nada em troca. Bonito. Seguro. Dela.
Pensou em Stavros, setenta anos, querendo a família perto. Pensou no "posso não fazer setenta e um" e na coisa que não era tristeza na voz dele. Pensou em como, dos restos carbonizados do casamento, o velho era a única brasa que ainda aquecia.
— Tá. Eu vou.
— Sabia.
— Mas se Theo me chamar de vergonha da família de novo, eu jogo ele no mar.
— *Koukla*, se Theo te chamar de vergonha da família, eu mesmo jogo.
Desligou com instruções sobre passagem — classe executiva, "não discuta, é presente" — e datas. Lara ficou olhando para o celular como se ele fosse explodir. O protetor de tela mostrava uma foto da Patagônia: um guanaco solitário contra montanhas nevadas, olhando para o horizonte com aquela cara de quem sabe que o mundo é grande e perigoso e bonito e não se importa.
Ela se identificava demais com guanacos.
Largou o celular. Entrou no apartamento, que era pequeno, alugado, e cheirava a café e livros e resina de revelação. A estante da sala tinha mais tripés do que decoração. Na geladeira, um ímã de Santorini que Dimi tinha dado de presente no aniversário de um ano de casamento — *"Pra você nunca esquecer que é grega honorária, cunhada"* — e que Lara guardava por motivos que não conseguia explicar racionalmente.
O ímã era azul e branco. Uma cúpula de igreja contra o céu do Egeu. Lara passou o dedo na superfície lisa, fria. Sentiu a tinta gasta nos cantos.
O flashback veio sem convite, como sempre.
Atenas. Apartamento em Kolonaki. A noite em que tudo acabou. Nikos tinha chegado às duas da manhã cheirando a perfume que não era o dele — doce, frutado, enjoativo, nada parecido com a colônia amadeirada que Lara comprava pra ele todo Natal. Ela não gritou. Não chorou. Sentou na cama e disse, com uma calma que surpreendeu a ela mesma: "De quem é o perfume?"
E Nikos — Nikos com seus olhos de mel, suas mãos de pianista, seu sorriso que devia vir com rótulo de perigo —, Nikos não negou. Fez pior. Riu. Riu e disse: "Que importa? Você fica."
Ela não ficou.
Fez a mala em vinte minutos. Nikos só percebeu que era sério quando ouviu o barulho da porta. Correu atrás — descalço, camisa para fora, subitamente sóbrio e em pânico — e agarrou a mala no corredor. "Ninguém sai da minha família. Ninguém."
Lara soltou a alça da mala. Olhou para ele. E disse a frase que Nikos nunca ia perdoar: "Sua família é o seu problema. Eu era sua esposa. Passado."
No táxi para o hotel, o celular tocou quinze vezes. Nikos. Lara não atendeu. Às três e doze da manhã — ela lembrava do relógio digital do quarto de hotel barato em Monastiraki, os números vermelhos piscando como coração mecânico —, parou de tocar.
Ela só descobriu depois o que aconteceu às três e doze: Nikos ligou para Theo. Chorando. "Ela tem um amante, irmão. Saiu de casa. Me humilhou."
A mentira foi plantada em solo fértil. Theo, que já desaprovava a "brasileira sem nome nem dinheiro" que tinha fisgado o irmão, acreditou sem piscar. E fez o que Theo fazia melhor: assumiu controle. Advogados. Divórcio rápido. Acordo vantajoso para Nikos. E a versão oficial que se cristalizou como verdade nas paredes da casa de Kifisia: Lara Mendes era a traidora. A interesseira. A que usou o nome Antonidis e saiu quando encontrou algo "melhor".
Ninguém perguntou a versão dela. Nem Dimi, que costumava ligar todo dia. Nem a *yiayia*, que rezava por ela na igreja de Agios Nikolaos. Ninguém.
Só Stavros.
Lara tirou o ímã da geladeira. Segurou na palma. Azul e branco. Pequeno e inútil e significativo como só um pedaço de cerâmica pode ser.
Recolocou.
Depois abriu o armário, tirou a mala de mão que usava em expedições, e começou a fazer uma lista mental. Protetor solar. Câmera. Lente grande-angular. Cartões de memória. Paciência suficiente para sete dias num iate com pessoas que a achavam uma farsa.
Na lista não incluiu esperança. Esperança era peso desnecessário, e Lara viajava leve.
Mas enquanto separava a roupa — vestidos simples de algodão, biquíni preto, sandálias de tira, nada que gritasse "impressionar" —, o reflexo no espelho do corredor mostrou algo que ela não esperava: a sombra de um sorriso. Pequeno. Involuntário. Como se alguma parte dela, a parte que ainda guardava ímãs de Santorini e anotava aniversários de sogros, estivesse satisfeita com a decisão.
"Sete dias", disse em voz alta para o apartamento vazio.
O vento de Floripa bateu a janela da cozinha como resposta.
E no bolso do vestido que ia usar no embarque, Lara colocou a única coisa que sempre carregava em território hostil: a câmera compacta. Pequena, à prova d'água, com a lente arranhada de cem expedições. A câmera não mentia. A câmera não pedia explicação. A câmera mostrava o que estava ali — e o que estava ali bastava.
Sempre bastava.
No dia seguinte, reservou a passagem. Classe executiva, como Stavros insistira. Florianópolis — São Paulo — Atenas, com conexão em Frankfurt. Vinte e três horas de viagem para chegar a um lugar de onde tinha fugido três anos atrás descalça num táxi, com uma mala de mão e o coração estilhaçado entre os dentes.
A mãe ligou na hora do almoço.
— Vi a passagem no cartão. — Sofia Mendes não era mulher de rodeios. Professora de história há trinta anos, tratava os fatos da vida da filha como tratava os da Revolução Francesa: com análise crítica e desconfiança saudável do poder. — Grécia, Lara?
— Aniversário do Stavros.
Silêncio.
— Do Stavros ou do Stavros e mais seis gregos que te fizeram chorar por oito meses seguidos?
— Do Stavros. O resto é paisagem.
— Paisagem não machuca. Família machuca.
— Eles não são mais minha família.
Sofia fez aquele som — meio suspiro, meio pronúncia de "ah, minha filha" comprimida em ar — que significava que discordava mas não ia insistir. Ainda.
— Leva protetor. Aquele sol grego não perdoa.
— Já separei.
— E leva a dignidade intacta. Se algum desses Antonidis abrir a boca pra te diminuir, lembra quem te criou.
— Uma professora que enfrentou a diretoria inteira por causa do currículo de história.
— Duas vezes. E ganhei as duas. Então se algum magnata grego achar que pode olhar torto pra minha filha, lembra dele que eu derrotei burocratas municipais armada de PowerPoint e indignação.
Lara sorriu. A mãe era assim: fortaleza de concreto com voz de veludo. A combinação mais perigosa que existe.
Desligou. Terminou a mala. Trancou o apartamento, regou a samambaia, pediu pra vizinha olhar o correio.
E antes de sair, olhou uma última vez para o ímã na geladeira. Santorini, azul e branco, com um arranhão no canto que parecia cicatriz.
Iria voltar pra Grécia. Pelo velho que nunca mentiu. Pelo único Antonidis que merecia sua presença.
E se o resto da família quisesse guerra, que viesse. Lara Mendes tinha sobrevivido à Patagônia em julho, ao Saara em agosto e a dois anos de Nikos Antonidis em qualquer estação.
Um cruzeiro de sete dias não ia quebrar o que o deserto não quebrou.
Pelo menos era o que dizia pra si mesma enquanto o táxi descia a ladeira em direção ao aeroporto, o mar de Floripa brilhando no retrovisor como um lembrete de tudo que era seguro e distante do Egeu.
No bolso, o celular vibrou. Mensagem de Stavros: *"Obrigado, koukla."*
E embaixo, um emoji de coração que só um grego de setenta anos mandaria sem ironia.
Lara guardou o celular. Olhou pela janela. O motorista do táxi cantava uma MPB antiga — Djavan, talvez, ou Marisa Monte — baixinho, desafinado, com a tranquilidade de quem não tem um cruzeiro grego no futuro imediato.
O mar de Floripa sumiu numa curva. A estrada abriu para a ponte que ligava a ilha ao continente, e Lara atravessou aquele limiar geográfico que sempre sentia como metáfora: ilha para terra. Conhecido para desconhecido. Seguro para perigoso.
E sentiu, pela primeira vez em três anos, o peso de uma decisão que podia ser a mais corajosa ou a mais idiota da vida dela.
Provavelmente as duas.
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