
Il Giuramento
Romance Dark / Suspense
Isabela Duarte nunca imaginou que uma noite em Napoles mudaria tudo. Fotojornalista brasileira baseada em Milao, ela estava apenas fazendo seu trabalho quando presenciou o impensavel: uma execucao a sangue frio numa rua deserta. Capturada pelos soldados da familia Ferrante,…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — A Cidade que Devora
O cheiro de tinta fresca e café queimado era o perfume de Milao as sete da manha.
Isabela Duarte ajustou a alca da Nikon sobre o ombro e atravessou a Piazza del Duomo com o passo apressado de quem já não se impressiona com catedrais. Dois anos vivendo na Italia tinham transformado o espanto em rotina, e a rotina, em uma especie de entorpecimento que ela confundia com paz. O Duomo continuava la, magnifico, indiferente. Ela também.
Seu apartamento ficava no quarto andar de um edifício sem elevador na Via Torino — um estudio minusculo onde o banheiro era separado da cozinha por uma cortina de plástico e as paredes exibiam mais fotografias do que tinta. Retratos de refugiados na fronteira hungara. Crianças brincando em escombros de Aleppo. Uma mulher idosa acendendo uma vela numa igreja em Sarajevo. E, no centro de tudo, emoldurada em madeira escura, a única foto que Isabela não tinha tirado: seu pai, Ricardo Duarte, sorrindo diante de uma redacao em Sao Paulo, a caneta atrás da orelha, os olhos castanhos iguais aos dela.
Nove anos. Nove anos desde que encontraram o corpo dele numa estrada de terra no interior de Minas Gerais. Dois tiros. Caso arquivado. Jornalista investigativo demais para um pais que prefere o silêncio.
Isabela passou os dedos pela moldura como fazia toda manha — um ritual que não era supersticao, mas memoria. Tocar a foto era tocar o pai. Manter o rosto dele vivo na pele dos dedos.
— Bom dia, pai — murmurou em português, a lingua que só usava sozinha ou com Giulia.
O celular vibrou sobre a mesa de trabalho, entre pilhas de cartoes de memoria e um prato com restos de brioche. Isabela olhou a tela: Marcello Conti, editor da Rivista Panorama.
— Pronto — atendeu em italiano.
— Isabela, bellissima, ho qualcosa per te. — A voz de Marcello carregava o entusiasmo de quem já esta no terceiro espresso. — Festival della Fotografia di Napoli. Uma semana. Cobertura completa para a revista. Paga bem, hotel incluso, e você tem liberdade total para o ensaio paralelo.
Napoles. A palavra desceu pela espinha de Isabela como um gole de água fria. Conhecia a cidade apenas por fotografias de outros — os vicoli estreitos onde a roupa secava entre os predios como bandeiras de rendica, o Vesuvio dormindo atrás de tudo como um deus distraido, as pizzas que transbordavam dos fornos a lenha e o perigo que transbordava de todo o resto.
— Quando?
— Domingo. Quatro dias. Diga que sim, Isabela. Você precisa sair desse estudio.
Ele não estava errado. Nos últimos três meses, Isabela tinha recusado duas pautas internacionais e passado semanas editando fotos antigas em vez de produzir novas. Giulia dizia que era depressão. Isabela preferia chamar de economia de energia.
— Quanto?
Marcello disse o valor. Era mais do que ela ganhava em dois meses de freelance.
— Manda o briefing — respondeu, e desligou antes que ele pudesse comemorar.
Sentou-se na cadeira giratoria que rangia a cada movimento e abriu o laptop. Enquanto esperava o e-mail de Marcello, seus dedos foram por conta própria até a pasta que nunca conseguia apagar: PAI_ARQUIVOS. Recortes digitalizados dos artigos dele. Anotacoes. Fragmentos de investigacoes que nunca foram publicadas.
Ricardo Duarte tinha passado os últimos dois anos de vida investigando redes de lavagem de dinheiro que conectavam o crime organizado brasileiro a organizacoes europeias. Italia, especificamente. Napoles, provavelmente. Os arquivos eram incompletos — a policia brasileira devolvera apenas parte do material apreendido —, mas Isabela conhecia cada linha, cada nome sublinhado, cada seta que o pai desenhava entre fotografias de homens de terno em restaurantes.
Não era por isso que aceitara o trabalho. Não era.
Fechou a pasta e abriu o e-mail de Marcello.
*
O resto do dia passou em preparativos. Isabela limpou as lentes, carregou baterias, separou três cartoes de memoria de 128 gigas e enfiou tudo na mochila de couro surrado que a acompanhava desde a faculdade de jornalismo em Sao Paulo. Escolheu roupas práticas — jeans escuros, camisetas pretas, uma jaqueta de couro que Giulia chamava de "uniforme de guerra" — e, no último momento, jogou um vestido preto na mala. Nunca se sabe.
As quatro da tarde, Giulia apareceu sem avisar, como sempre. Giulia Esposito era tudo o que Isabela não era: loira, alta, barulhenta, italiana até os ossos, fotografa de moda que achava fotojornalismo "nobre demais e triste demais". Eram melhores amigas desde que dividiram um estudio fotografico no primeiro ano de Isabela em Milao, quando a brasileira mal falava italiano e Giulia decidiu adota-la como projeto pessoal.
— Napoles? — Giulia largou-se no sofá como se o apartamento fosse dela. — Isa, sabe o que dizem de Napoles, ne? Vedi Napoli e poi muori.
— Veja Napoles e depois morra. Muito inspirador, Giulia.
— Estou falando sério. La e lindo e perigoso. Tipo um ex-namorado que você sabe que vai te destruir mas beija bem demais.
Isabela revirou os olhos, mas sorriu. Era o tipo de sorriso que Giulia arrancava dela sem esforco — raro, involuntario, quase culpado.
— E só um festival de fotografia. Uma semana. Volto inteira.
— Promete?
— Prometo.
Giulia a olhou com aqueles olhos azuis que viam demais.
— Você esta indo por causa do festival ou por causa do seu pai?
O silêncio durou três batidas de coração.
— O festival — disse Isabela.
Giulia não insistiu. Conhecia os limites. Em vez disso, abriu uma garrafa de prosecco que tirara da bolsa e serviu duas taças.
— Allora, um brinde. A Napoles, a fotografia e a você não fazer nada estupido.
Brindaram. O prosecco estava morno e perfeito.
*
Domingo.
O trem de alta velocidade cortou a Italia como uma lamina — Milao, Bolonha, Roma, e então a paisagem mudou. O norte organizado deu lugar ao sul indisciplinado: campos de limoes, casinhas coloridas grudadas em colinas, estradas que serpenteavam sem lógica aparente. Isabela sentia o ar mudar pela janela entreaberta — mais quente, mais denso, com um cheiro que misturava sal, gasolina e alguma coisa doce que ela não conseguia identificar.
Napoles apareceu como uma explosao.
Não havia outra palavra. A cidade não se revelava aos poucos como Roma ou Florenca. Napoles se jogava inteira contra os sentidos — o barulho dos motorinos zigzagueando entre carros, as vozes que gritavam de janela em janela como se a rua inteira fosse uma única conversa, o cheiro de fritura e massa de pizza e lixo e mar, tudo misturado numa sinfonia que era ao mesmo tempo repulsiva e hipnotica.
E la, atrás de tudo, o Vesuvio.
Isabela o viu pela janela do taxi e sentiu alguma coisa apertar no peito — não medo, não exatamente. Era o reconhecimento de algo enorme e dorminhoco e potencialmente catastrófico. O vulcão não fumegava, não ameacava. Apenas existia. E Napoles vivia a sua sombra com a indiferenca dos que já aceitaram que a destruição pode vir a qualquer momento.
O hotel ficava no Quartieri Spagnoli — um labirinto de ruas estreitas onde os predios se inclinavam uns sobre os outros como conspiradores trocando segredos. O quarto era pequeno, com uma cama de solteiro, uma janela que dava para um beco e um crucifixo sobre a cabeceira. Cheirava a detergente e incenso.
Isabela largou a mala, pendurou a camera no pescoco e saiu.
A cidade a engoliu.
Caminhou por horas. O festival não comecava até terca-feira, o que lhe dava dois dias livres para fazer o que fazia melhor: observar. Sua camera encontrou rostos antes de encontrar monumentos — a velha sentada na porta de casa descascando laranjas com as mãos manchadas de sol, o garoto equilibrando três caixas de pizza numa Vespa, o padre fumando escondido atrás de uma igreja barroca. Cada rosto era uma historia, e Isabela as colecionava com a fome de quem aprendeu que historias sao a única coisa que sobrevive.
No final da tarde, sentou-se num café na Via dei Tribunali e pediu um espresso. O garcom trouxe junto um copo de água e um sorriso que poderia significar qualquer coisa. O café era forte o suficiente para dissolver metal — amargo, denso, perfeito. Café napolitano. Nada no mundo se comparava.
Enquanto bebia, Isabela observou a rua. Dois homens de terno conversavam na esquina com a naturalidade estudada de quem não quer ser notado. Um carro preto com vidros escuros estacionou e partiu sem que ninguém entrasse ou saisse. Uma mulher atravessou a rua carregando uma imagem de Santa Lucia envolta em plástico.
Napoles era assim: sagrada e profana, bonita e suja, acolhedora e ameacadora. Uma cidade que você não visitava — você sobrevivia.
Isabela levantou a camera e fotografou a rua vazia que se abria além dos dois homens de terno — um vicolo que afunilava na escuridão, iluminado apenas por uma lâmpada solitária que pendia de um fio como uma estrela moribunda.
A foto ficou bonita. Sombras longas, contraste alto, uma sensação de algo prestes a acontecer.
Ela não sabia o quanto aquela sensação era profetica.
*
Na primeira noite, Isabela jantou sozinha num restaurante que só tinha quatro mesas e um dono que cozinhava, servia e cantava opera ao mesmo tempo. Comeu uma pizza margherita que a fez fechar os olhos — a massa fina e carbonizada nas bordas, o molho de tomate San Marzano que era doce e ácido e terroso, a mussarela de bufala que se dissolvia como um segredo na lingua. Pizza napolitana não era comida. Era religiao.
Voltou ao hotel com o estômago cheio e o coração estranhamente inquieto. Deitou-se na cama sem trocar de roupa, a camera ao lado como uma companheira de cama, e ficou olhando o teto rachado.
O celular brilhou. Mensagem de Giulia:
*Chegou viva? Manda foto do Vesuvio. E de algum napolitano bonito.*
Isabela digitou:
*Viva. Vesuvio e enorme. Napolitanos sao barulhentos. Boa noite.*
Giulia mandou quinze emojis e uma foto de um gato.
Isabela sorriu no escuro. Depois, como sempre antes de dormir, fechou os olhos e viu o rosto do pai. Não a foto emoldurada na parede — a lembrança real. O jeito como ele apertava os olhos quando lia, a risada que comecava no peito antes de chegar a boca, o cheiro de cigarro e colônia barata que era, para ela, o cheiro de segurança.
— Estou em Napoles, pai — sussurrou para o teto. — Acho que você teria gostado daqui.
Ou talvez não. Talvez Napoles fosse exatamente o tipo de lugar que destruia homens como Ricardo Duarte — homens que faziam perguntas demais, que abriam portas que deveriam permanecer fechadas.
Isabela virou de lado e forçou o sono. La fora, Napoles continuava acordada, e o Vesuvio vigiava tudo com a paciência de quem sabe que, eventualmente, tudo arde.
Ela dormiu sem saber que, em quarenta e oito horas, sua vida se tornaria irreconhecivel.
Que em algum lugar nos morros de Posillipo, num complexo de marmore e sombras, um homem de olhos verdes e mãos perigosas já tinha um dossiê com seu nome.
E que a cidade que devora estava prestes a fecha-la entre os dentes.
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