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Carregando...romance-contemporaneo
Isabela Ferraz construiu a reputação de ser imprevisível exatamente onde não deveria ser: nos negócios. Herdeira do Grupo Ferraz, o segundo maior conglomerado de mídia da América Latina, ela sabe exatamente o que está fazendo — até quando parece que…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1: O Último Embarque
Monaco — Presente (Isabela)
O voo para Nice saía às 22h40. Isabela chegou ao aeroporto de Guarulhos com três horas de antecedência — hábito de mulher que aprendeu cedo que o tempo perdido não se recupera — e ficou no salão VIP olhando a pista de pouso como se as luzes intermitentes dos aviões fossem uma linguagem que ela estava prestes a decifrar.
Tinha uma frase guardada. Várias, na verdade. Versões e revisões de uma conversa que precisava acontecer, que devia ter acontecido antes, que ela tinha adiado por razões que na época pareciam razoáveis e agora pareciam apenas covardia sofisticada.
O telefone vibrou. Adriana.
— Você embarcou?
— Ainda não. Daqui a pouco.
Uma pausa curta, calculada. Adriana era a única pessoa no mundo que sabia dos setembro — não pelos detalhes, mas pela existência. Tinha descoberto no segundo ano, não por indiscrição de Isabela, mas porque Adriana tinha o talento específico de notar o que as pessoas tentam esconder.
— Tem certeza? — perguntou Adriana.
Isabela conhecia a pergunta por dentro. Não era *tem certeza de que vai?* Era *tem certeza do motivo pelo qual vai?*
— Sim — disse Isabela.
— Você não precisa fazer isso pessoalmente.
— Eu sei que não preciso.
— Então por que vai?
Isabela olhou para a pista. Um avião taxiando lentamente, luzes de posição piscando no escuro. Havia uma resposta honesta para aquela pergunta e havia a resposta que ela estava disposta a dar em voz alta, e as duas não eram a mesma coisa.
— Porque quatro anos merecem uma conversa — disse ela. — Não um silêncio.
Adriana não respondeu de imediato. Quando falou, havia uma cautela específica na voz que Isabela reconheceu como a cautela de alguém que sabe mais do que está dizendo.
CAPÍTULOS
— E o noivado?
— O anúncio é em duas semanas. Temos tempo.
— Isabela.
— Adriana.
Outra pausa. Desta vez foi Adriana quem cedeu.
— Ligue quando chegar.
— Vou ligar.
Ela desligou e ficou com o telefone na mão por um momento. A tela apagou. Ela viu o próprio reflexo no vidro escuro — mulher de terno claro, cabelo preso, postura de quem foi treinada para ocupar espaços como se fossem seus por direito. Havia uma versão de Isabela Ferraz que existia para o mundo: eficiente, composta, herdeira de um império de comunicação que o pai havia construído com trinta anos de trabalho implacável. Essa versão sabia exatamente o que estava fazendo ao embarcar para Monaco.
A outra versão — a que existia em setembro, fora do ar, fora do alcance de qualquer coisa que tivesse o sobrenome Ferraz — estava com medo de uma conversa.
O anúncio com Felipe seria em quinze dias. Um jantar, famílias, fotógrafos selecionados, uma nota para a imprensa que a assessoria já havia redigido. Felipe Drummond era um homem razoável num acordo razoável que não tinha nada de amor e tinha tudo de estratégia — os Drummond tinham o que o Grupo Ferraz precisava para a próxima fase de expansão, e os Ferraz tinham o que os Drummond queriam em troca. Eduardo Ferraz havia apresentado a proposta com a gentileza calculada de quem sabe que a filha vai dizer sim porque foi criada para entender que certas decisões são maiores do que o desejo pessoal.
Isabela havia dito sim.
Lucien Moreau não sabia de nada disso.
Ela estava indo a Monaco para que soubesse. Para que o fim tivesse uma forma, um momento, uma última vez — porque desaparecer sem explicação era o que pessoas sem coragem faziam, e Isabela Ferraz tinha muita coisa para se reprovar, mas não seria isso.
Ou assim ela dizia para si mesma. Havia, enterrada mais fundo, uma razão que ela não articulava nem para Adriana: ela precisava de uma última vez para ter certeza. Não de Lucien — dessa parte ela já sabia. Mas de si mesma. Precisava saber se, quando se despedisse dele e fechasse aquela porta, conseguiria andar pelo corredor sem virar.
O voo foi chamado.
Isabela pegou a mala de mão, passou pelo controle, encontrou seu lugar na primeira fileira da classe executiva. Recusou o champanhe que a comissária ofereceu. Pediu água e ficou olhando a escuridão do lado de fora da janela enquanto o avião ganhava altitude e as luzes de São Paulo diminuíam abaixo dela — primeiro o caos orgânico da cidade, depois apenas pontos, depois nada.
Ela dorme? Não. Ficou reclinada com os olhos fechados, deixando as frases circularem. *Preciso te dizer algo antes de irmos embora.* Não, muito formal, parecia reunião de negócios. *Isso não pode continuar.* Demasiado vago, e ele ia perguntar por quê, e então ela ia ter que explicar o que era Felipe Drummond, e aquilo ia ter uma textura que ela não queria. *Vou me casar.* Direto. Brutal. Talvez justo.
Ela não sabia qual era o tom certo para encerrar quatro anos de setembro.
Monaco não era um lugar que existia para ela fora de setembro. Era essa a arquitetura daquilo tudo: um lugar fora do tempo, fora do ar, fora de qualquer coisa que tivesse consequências reais. O Hotel de Paris com seus corredores de mármore e a vista do porto. A suíte que era sempre a mesma. Ele chegando sempre no segundo dia — nunca no primeiro, por convenção não-dita que nenhum dos dois havia estabelecido explicitamente mas que ambos obedeciam.
Quatro anos. Quatro setembro.
Ela conhecia a forma da mão dele. Sabia como ele segurava um copo de vinho — não pela base, pelo talo. Sabia que ele lia dois livros em paralelo, sempre um de não-ficção e um de ficção, nunca misturando os ritmos. Sabia que ele acordava antes dela e ficava quieto, esperando que ela acordasse sozinha, como se soubesse que ela precisava daqueles primeiros minutos sem observação.
O que ela não sabia era o que ele sentia depois que ia embora. Se havia uma contabilidade do custo. Se setembro era suficiente para ele da mesma forma que havia sido suficiente para ela — até parar de ser.
O sol nasceu sobre o Atlântico antes de Nice. Isabela olhou para o mar abaixo do avião — aquela faixa específica de azul mediterrâneo que não existe em lugar nenhum mais — e sentiu algo que não era exatamente saudade e não era exatamente medo. Era o peso específico de uma decisão que já foi tomada mas ainda não foi dita em voz alta.
No táxi de Nice para Monaco, a estrada contornava a costa com aquela insolência de paisagem que se sabe bonita demais. Isabela encostou a cabeça no vidro frio e olhou o mar. A luz era diferente naquela hora — ainda matinal, ainda sem a brutalidade do sol do meio-dia, uma luz que tornava tudo ligeiramente irreal.
Ela tinha as frases prontas. Ia dizer o que precisava ser dito.
O carro entrou em Monaco e o porto apareceu à direita — iates, água verde-azulada, a encosta pontuada de edifícios brancos. Isabela ficou olhando.
Ela não virou.