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Carregando...comedia-romantica
Luna Ferreira veio para Kyoto fugindo de um ex que disse que ela era "demais" e de uma voz interior que começou a concordar. Fotógrafa brasileira, barulhenta, colorida e completamente fora de lugar na cidade mais silenciosa do Japão, ela…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — Fuso Horário
O aeroporto de Kansai às seis da manhã tinha cheiro de chão encerado e silêncio educado. Luna Ferreira atravessou o corredor de desembarque com duas malas, uma câmera pendurada no pescoço, os olhos inchados de quem chorou no avião inteiro e um fuso horário de treze horas grudado no corpo como ressaca.
Treze horas no futuro. Era o que ela repetia pra si mesma desde que o avião cruzou a linha de data — treze horas no futuro, treze horas à frente de São Paulo, treze horas longe de Marcos e daquela frase que não parava de ecoar na cabeça como um disco riscado. Você é demais, Luna. Demais pra qualquer um. Eu cansei.
Puxou as malas pelo corredor imaculado — uma vermelha, uma amarela, ambas parecendo gritando no mar de bagagem preta e cinza dos passageiros japoneses que caminhavam em linha reta, sem pressa, sem barulho, sem nenhuma mala que não fosse discreta. Luna olhou pra baixo: estava de vestido laranja, tênis rosa e jaqueta jeans com patches de bandas que não existiam mais. Pareceu um incêndio num aquário.
Nossa. Eu pareço um incêndio num aquário.
O ar-condicionado do aeroporto soprava gelado e uniforme, com aquela precisão japonesa que ela já estava começando a notar — tudo funcionava como se tivesse sido calibrado por relojoeiro. O piso de mármore polido refletia as luzes brancas do teto em retângulos perfeitos, e Luna se viu andando no próprio reflexo: uma mancha de cor descendo pelo corredor mais limpo do planeta, arrastando duas malas que faziam barulho demais nas rodinhas.
Passou pela alfândega sem problemas — o oficial olhou o passaporte, olhou pra ela, olhou o passaporte de novo como se tentasse conciliar a foto séria com a pessoa de cabelos escapando de uma presilha que já tinha perdido a guerra havia três fusos — e carimbou. O carimbo fez um som pequeno, preciso, definitivo. Pronto. Estava no Japão.
CAPÍTULOS
No Japão.
Luna Ferreira, vinte e oito anos, fotógrafa freelance de São Paulo, especialidade em matérias de viagem para revistas que pagavam pouco e atrasavam mais, estava no Japão por três meses inteiros com uma missão editorial que parecia simples: fotografar "a Kyoto escondida, fora dos roteiros turísticos." Uma residência artística bancada pela revista, alojamento num ryokan em Higashiyama, liberdade total pra explorar. O trabalho dos sonhos.
O que a revista não sabia era que Luna tinha fugido.
Pegou o celular assim que saiu da zona restrita e discou. Tom atendeu no segundo toque, voz pastosa de quem estava dormindo às cinco da tarde em São Paulo.
— Mano, eu tô no futuro. Literalmente treze horas no futuro.
— Luna, são cinco da tarde aqui e eu tava cochilando. Isso é abuso de fuso horário.
— Tom, é sério. Eu desembarquei, e tá tudo limpo. Tudo. O aeroporto parece um hospital bonito. Tipo, um hospital cinco estrelas. E tá todo mundo andando em fila. Sem empurrar. Sem gritar. Tom, ninguém tá gritando.
— É o Japão, mana. Eles não gritam.
— Eu sei! Eu li sobre isso! Mas é diferente ver ao vivo, sabe? É como se alguém tivesse abaixado o volume do mundo inteiro. — Luna parou no meio do corredor, o celular colado na orelha, e girou devagar, absorvendo. O teto altíssimo, as vigas de metal desenhando linhas geométricas contra a luz branca, o som quase imperceptível de passos em sincronia. Até o ar parecia ter sido filtrado — sem poeira, sem cheiro de comida, sem nada que não fosse propositalmente neutro. — É bonito de um jeito assustador, sabe? Tipo aqueles sonhos que você sabe que são sonho porque tudo é perfeito demais.
Um grupo de senhoras japonesas passou por Luna e desviou com educação milimétrica, sem contato, sem olhar de reprovação visível. Uma delas, de cabelos brancos e bolsa impecável, curvou levemente a cabeça. Luna curvou de volta — curvou demais, bateu a mala na canela, e soltou um ai que ecoou pelo corredor como tiro em biblioteca.
— Luna, o que foi isso?
— Eu bati a mala na perna tentando fazer reverência.
— Você tá no Japão há dez minutos e já tá causando acidente diplomático?
— Cala a boca. Eu tô nervosa. Eu tô com fome. Eu tô com olho inchado de chorar. E eu tô no futuro, Tom. Treze horas no futuro. Talvez aqui no futuro eu seja uma pessoa melhor.
Tom ficou quieto por dois segundos. Dois segundos de Tom quieto significava que ele estava escolhendo entre piada e cuidado. Luna torceu pelo cuidado.
— Mana. Você já é boa o bastante. Marcos que era pouco.
Luna engoliu seco. Os olhos arderam — aquele ardor específico de lágrima que insiste em voltar quando você achou que já tinha acabado o estoque. Piscou. Não ia chorar no aeroporto mais limpo do planeta. Não ia. Os japoneses não mereciam ver uma brasileira de vestido laranja soluçando no corredor de desembarque. Ia esperar pelo menos até o trem.
— Tá, preciso achar o trem pra Kyoto. Te mando foto.
— Manda áudio também. Quero ouvir o trem japonês.
Desligou. Respirou. O ar entrou frio e sem gosto — ar de aeroporto, ar de lugar nenhum, ar de transição. Puxou as malas em direção à estação de trem que ficava conectada ao aeroporto porque é claro que ficava, porque no Japão tudo era conectado e sinalizado e eficiente e silencioso e ela já estava sentindo que era alta demais, barulhenta demais, colorida demais pra aquele país inteiro.
Demais.
De novo essa palavra.
***
O trem para Kyoto era pontual ao segundo. Luna descobriu isso porque o painel eletrônico marcava não apenas minutos, mas segundos, e o trem chegou exatamente quando o número virou zero. Exatamente. Como se o universo tivesse um cronômetro e o Japão fosse o único país que levava a sério.
Entrou. Sentou. Duas malas ocupando espaço que pareciam dois planetas invadindo uma galáxia organizada. O vagão era silencioso — passageiros lendo, dormindo, olhando janelas com expressão neutra que Luna não conseguia decifrar. Ninguém comia. Ninguém falava no celular. Ninguém existia em volume acima do sussurro.
O banco era macio, coberto de tecido azul-escuro que cheirava a limpeza, e Luna encostou a cabeça no apoio, sentindo a vibração suave do trem acelerando. O corpo inteiro doía de avião — as costas, os ombros, aquele ponto entre as omoplatas que parecia ter sido amassado por dezoito horas de assento econômico. Mas a dor era secundária. Primário era o barulho que não existia: o silêncio do vagão era tão absoluto que Luna conseguia ouvir o próprio coração batendo, e o próprio coração estava batendo rápido demais, como se estivesse tentando compensar a calma ao redor.
Luna puxou a câmera e fotografou a janela — a paisagem passando rápida, subúrbios que pareciam maquetes, montanhas verdes ao fundo, telhados de cerâmica entre arranha-céus finos. Tudo limpo. Tudo organizado. Tudo exatamente no lugar em que deveria estar.
E ela, desorganizada, com manchas de café na jaqueta e o coração fora do ritmo, sentindo que era a única peça que não encaixava.
Pegou o celular. Abriu o WhatsApp. Tom tinha mandado uma figurinha de um gato fazendo reverência.
Luna sorriu. Depois parou de sorrir. Porque a tela do celular mostrava também a última conversa com Marcos — três semanas atrás, a mensagem final que ela nunca respondeu. Lu, eu sei que você tá magoada. Mas a gente precisa conversar. Quatro anos não se joga fora assim.
Quatro anos. Quatro anos de Luna tentando caber num espaço que Marcos desenhava — menor que ela, mais quieto que ela, com menos cor que ela. Quatro anos ajustando o volume da risada, engolindo opiniões na ponta da língua, pedindo desculpa por sentir alto demais. E quando não coube, a culpa era dela. Você é demais. Como se ser demais fosse crime. Como se o mundo inteiro tivesse um limite e Luna tivesse nascido do lado de fora.
Bloqueou a tela. Guardou o celular. Olhou pela janela.
Kyoto apareceu devagar — primeiro os subúrbios, depois templos entre prédios, telhados curvos, árvores que pareciam pintadas a mão. A estação de Kyoto era enorme, moderna, geométrica — um contraste que Luna amou imediatamente porque era exatamente isso que ela queria fotografar. O antigo e o novo. O silêncio e o barulho. O encaixe impossível.
Desceu do trem. Arrastou as malas pela plataforma. Procurou a saída com o GPS que mostrava caracteres que ela não entendia e setas que apontavam pra direções que não faziam sentido. Um grupo de estudantes de uniforme passou por ela em fila perfeita, mochilas idênticas, passos sincronizados, e Luna se sentiu como um erro de edição num filme japonês — a cena que não pertencia à narrativa mas que alguém tinha esquecido de cortar.
— Sumimasen — tentou, parando um senhor de terno. — Higashiyama? Ônibus? Táxi?
O senhor olhou pra ela com educação perfeita, disse algo em japonês que Luna não entendeu, fez um gesto que poderia significar "vire à esquerda" ou "o sentido da vida é relativo", e seguiu caminho.
Luna ficou parada no meio da estação de Kyoto com duas malas gritantes, uma câmera balançando e a certeza absoluta de que estava perdida.
Completamente, irremediavelmente perdida.
E por algum motivo que não sabia explicar — talvez o fuso, talvez o cansaço, talvez a liberdade assustadora de estar num lugar onde ninguém a conhecia e ninguém esperava nada dela — sorriu.
Sorriu o sorriso inteiro, o que ocupava o rosto todo, o que Marcos dizia que era demais.
Levantou a câmera. Fotografou a estação. A luz entrando pelos painéis de vidro. Os passageiros em silêncio perfeito. Ela mesma no reflexo — vestido laranja, olhos inchados, sorriso absurdo no meio de um país que não sorria pra estranhos.
Clique.
O som da câmera ecoou pelo saguão como uma nota desafinada numa sinfonia — pequeno, mecânico, completamente fora do tom. Um senhor de chapéu olhou na direção dela e desviou os olhos com a velocidade de quem viu algo que prefere não processar. Luna não se importou. Pela primeira vez em semanas, não se importou.
Mandou a foto pra Tom com legenda: chegada ao futuro. status: perdida. nível de pânico: moderado. nível de fome: crítico. nível de esperança: inesperadamente alto.
Tom respondeu em três segundos: vai dar certo, mana. agora come alguma coisa antes de desmaiar no trem bala.
Luna guardou o celular. Respirou o ar de Kyoto pela primeira vez — limpo, frio, com um toque distante de incenso que não sabia de onde vinha. Diferente de tudo. Diferente de São Paulo, do barulho, de Marcos, da versão dela mesma que tinha deixado pra trás. O incenso era quase imperceptível, mascarado pelo cheiro industrial da estação, mas estava ali — antigo, doce, como se a cidade estivesse sussurrando olá de longe.
Treze horas no futuro. Talvez fosse suficiente. Talvez treze horas fosse exatamente a distância que precisava entre quem ela era e quem podia ser.
Puxou as malas. Seguiu as placas. Se perdeu mais três vezes antes de encontrar o ponto de ônibus.
Kyoto podia esperar. Ela tinha acabado de chegar.