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Carregando...comedia-romantica
Lívia Andrade chegou ao Wien Klassik Festival com um plano simples: competir, vencer e destruir Maximilian Brenner. O crítico mais temido da Europäische Musikzeitung transformou sua estreia europeia em escombros com uma resenha que a seguiu por dois anos —…
CAPÍTULO 1
O trem entrou na Westbahnhof às 14h37 com três minutos de atraso, o que Lívia registrou mecanicamente porque registrava tudo e porque três minutos de atraso na Áustria era praticamente uma declaração de guerra contra a ordem natural do universo.
Ela pegou a mala do compartimento superior sem pedir ajuda ao homem de terno cinza que havia passado as últimas duas horas tentando puxar conversa em alemão. Respondera em alemão fluente o suficiente para que ele entendesse que não estava interessada, o que na escala diplomática da Europa Central equivalia a um portão fechado na cara. Ele desistiu em Stuttgart. Ela considerou aquilo uma pequena vitória.
Viena em março cheirava a neve velha e expectativa. Lívia sabia que era uma impressão idiota — cidades não cheiravam a expectativa, cheiravam a escape de carro e comida de rua e o odor particular de milhões de pessoas vivendo muito próximas umas das outras. Mas havia algo no ar frio que descia pelo pescoço da sua jaqueta enquanto ela saía da estação que fazia a base da nuca formigar, e Lívia Andrade, violinista, vinte e oito anos, dois anos em Berlim reconstruindo o que havia sido desmontado com uma única caneta, não era supersticiosa.
Não era supersticiosa de jeito nenhum.
O táxi para o Hotel Sternberg levou dezoito minutos, que ela usou para revisar mentalmente os próximos vinte e um dias. O Wien Klassik Festival acontecia em três fases: apresentações de câmara na primeira semana, recital solo na segunda, e a gala final com orquestra na terceira. Ela havia preparado o programa Sibelius para o recital — o Concerto para Violino em Ré menor, Op. 47, que era ao mesmo tempo a escolha mais óbvia e a mais perigosa, porque todos sabiam o que o Sibelius deveria soar e qualquer desvio da expectativa seria chamado de erro em vez de interpretação.
Lívia sabia que sua técnica era impecável. Sabia disso da mesma forma que sabia que dois mais dois era quatro: como fato, não como vaidade. O problema era que técnica impecável sem alma não era arte, era acrobacia glorificada, e ela havia lido variações dessa frase em português, alemão e inglês suficientes vezes para ter memorizado a estrutura gramatical de todas elas.
CAPÍTULOS
A última vez, a frase havia vindo assinada por Maximilian Brenner, na Europäische Musikzeitung, edição de setembro de 2023.
Ela havia guardado o recorte. Não estava certa de por quê. Talvez porque destruir algo exige primeiro que você o conheça bem.
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O Hotel Sternberg ficava a três quarteirões do Musikverein, o que era conveniente e provavelmente intencional da parte dos organizadores do festival. Era um prédio de fachada amarelada com molduras brancas nas janelas, categoria quatro estrelas, o tipo de lugar que tentava equilibrar história e conforto moderno e conseguia fazer os dois parecerem ligeiramente insatisfatórios. O lobby tinha um lustre de cristal e um cheiro de cera de assoalho que Lívia associou imediatamente com salas de concerto, o que talvez fosse o ponto.
Havia um pequeno grupo na recepção quando ela chegou. Três pessoas com maletas de instrumento — um violoncelista pela forma do case, ela deduziu, e duas pessoas com cases que poderiam ser viola ou violino segundo. Uma mulher de cabelos brancos curtos estava discutindo com o recepcionista em francês sobre a localização do quarto em relação ao elevador, e o recepcionista respondia em alemão educado que significava "não posso fazer nada" em qualquer idioma.
Lívia foi até o balcão do lado, fez o check-in em quatro minutos, e recebeu a chave do quarto 214 com a informação de que havia materiais do festival no envelope junto. Ela pegou o envelope, a chave, e foi ao elevador sem olhar para o conteúdo — tinha aprendido na Berliner Philharmoniker que envelopes de festival eram sempre abertos no quarto, sentada, de preferência com alguma coisa para beber na mão.
O quarto era adequado. Cama de casal, escrivaninha junto à janela com vista para uma rua de paralelepípedos, banheiro de azulejo branco. Ela colocou a mala sobre o suporte, verificou que o armário tinha cabides suficientes, e então foi sentar na escrivaninha para abrir o envelope.
O envelope continha: programa completo do festival, mapa do Musikverein com as salas numeradas, horários de ensaio, lista de competidores com nomes e nacionalidades, e uma folha separada com o título **Corpo de Jurados — Wien Klassik Festival 2026**.
Lívia leu os nomes dos competidores primeiro. Vinte e dois violinistas de dezesseis países. Ela reconheceu seis nomes: dois que havia cruzado em festivais menores, três que conhecia por reputação, e um — Yuki Tanaka, japonesa, vinte e quatro anos, ganhadora do Menuhin Competition no ano anterior — que era o nome que todo mundo estava olhando. A favorita. A criança prodígio que já não era criança mas ainda assustava salas inteiras com a facilidade com que tocava coisas difíceis.
Lívia anotou o nome de Yuki Tanaka num bloco que havia comprado em Berlim especificamente para este festival e passou para a lista de jurados.
Eram seis nomes.
Ela leu o primeiro, depois o segundo, chegou ao terceiro e parou.
**Maximilian Brenner — Europäische Musikzeitung — Jurado Principal**
Ficou olhando para o nome por um tempo que seria difícil de justificar se alguém estivesse observando.
Depois pegou a caneta.
Circulou o nome.
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A questão, ela pensou mais tarde enquanto desdobrava a blusa de concerto e a pendurava com cuidado para as marcas de mala desfazerem, era de lógica. Ela havia vindo a Viena para reconquistar o que havia perdido. O que havia perdido — especificamente, a consideração dos festivais europeus de câmara, dois convites recusados que antes seriam certos, a palavra "promissora" sendo substituída pela palavra "técnica" nos textos sobre ela — havia sido destruído por uma crítica publicada na Europäische Musikzeitung em setembro de 2023.
A crítica havia sido assinada por Brenner.
E Brenner estava aqui. Era o jurado principal. O que significava que ele ia avaliar a performance dela.
Lívia ficou olhando para a blusa de concerto por um momento.
O plano se formou de forma tão natural que ela quase riu. Não riu porque estava sozinha no quarto e rir sozinha de si mesma era uma das poucas coisas que ainda achava constrangedoras, mas a vontade esteve lá. Brenner havia escrito críticas por doze anos. Doze anos de opiniões documentadas, posições editoriais, preferências estéticas, possíveis conflitos de interesse — tudo arquivado na internet, na hemeroteca digital da EMZ, nos arquivos de festivais.
Se havia padrões, ela ia encontrá-los. Se havia vieses, ela ia documentá-los. Se havia conflitos de interesse — um compositor que ele favorecia, uma escola interpretativa que ele sistematicamente desqualificava — ela ia construir um dossiê que tornaria muito difícil para qualquer pessoa séria no meio musical ignorar a questão da credibilidade do jurado principal do Wien Klassik Festival 2026.
Não era vingança. Era pesquisa. Era metodologia.
Era, ela admitia internamente com o humor seco que reservava para si mesma, também um pouco vingança.
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Às 19h havia um coquetel de boas-vindas no salão do hotel. Lívia desceu com a blusa azul-marinho que dizia "competente mas não tentando demais" e encontrou os vinte e um outros competidores em vários estágios de socialização ansiosa. Um rapaz de no máximo vinte e dois anos estava perto da mesa de bebidas com a postura de quem havia chegado cedo demais e estava arrependido. Ela o identificou como Nicolás — o nome estava no crachá — Gallardo, argentino, e pela forma como segurava o copo parecia que era a primeira vez que participava de um festival deste porte.
A mulher dos cabelos brancos do lobby estava encostada numa das colunas do salão com um copo de vinho tinto e um semblante que comunicava que ela havia visto coquetéis de festival o suficiente para estar completamente imune à experiência. O crachá dizia Ingrid Solberg. Norueguesa. Lívia conhecia o nome — Solberg havia tocado no Concertgebouw, no Carnegie Hall, havia gravado os concertos de Bartók numa versão que o Gramophone havia chamado de "definitiva" em 2019. Quarenta e três anos, quatro Grammys europeus, e estava aqui em Viena competindo.
O que significava que ela queria algo que a competição poderia dar, e Lívia ficou curiosa o suficiente para arquivar isso para pensar mais tarde.
Os organizadores chegaram às 19h30, três pessoas com crachás de STAFF, e um homem de cinquenta e poucos anos de óculos redondos que se apresentou como o diretor artístico do festival, Heinrich Kessler. Ele falou em alemão por dois minutos, depois repetiu o mesmo em inglês, dando as boas-vindas, explicando o cronograma da semana, lembrando a todos que os ensaios nas salas do Musikverein começariam amanhã às nove.
"Os jurados não estarão presentes nos ensaios," disse Kessler em inglês, e Lívia sentiu algo relaxar nos ombros dos competidores ao redor dela como um acorde resolvendo. "Primeira avaliação formal é na quarta-feira."
Lívia bebeu seu chá — ela não bebia álcool em período de festival — e observou a sala. Nicolás Gallardo havia encontrado outro competidor jovem e estavam conversando com a intensidade de dois náufragos que se reconheceram. Ingrid Solberg não havia se movido da coluna. Havia uma violinista coreana, Park Jisoo, que Lívia havia visto em Berlim no ano passado e que tinha uma maneira de segurar o arco durante conversa como se estivesse prestes a tocar — um tique de festival, ela supunha, o corpo que não sabia desligar.
Os jurados não estavam no coquetel. Lívia verificou. Era uma separação deliberada, provavelmente para evitar o constrangimento de competidores tentando fazer lobby, o que todos tentariam de qualquer jeito de formas mais sutis ao longo das três semanas.
Ela bebeu o chá até o fim, trocou doze palavras com Nicolás Gallardo quando ele veio pedir onde ficava a mesa de queijos ("ali, à direita"), e subiu para o quarto às 21h com o programa do festival, o bloco de notas, e a intenção firme de começar a pesquisa naquela mesma noite.
O nome "Maximilian Brenner" no campo de pesquisa da hemeroteca digital da EMZ retornou 847 resultados.
Lívia sorriu para a tela do laptop com a expressão de quem acabava de receber exatamente o que havia pedido.
Abriu o primeiro arquivo.
Era o suficiente para começar.