Fissura
romance-contemporaneo
Sofia Barros chegou à Islândia em outubro com uma bolsa de pesquisa de doze meses e quatro frascos de shampoo de coco — porque sabia que ia sentir falta do Brasil. No bar do hotel, na noite anterior ao primeiro…
CAPÍTULO 1
Reykjavik, Outubro
Capítulo 1 — Reykjavik, Outubro
O avião desceu às 6h14 da manhã e não havia nada lá fora. Só escuridão.
Sofia ficou olhando pela janelinha oval enquanto as rodas batiam na pista de Keflavík — a sensação de aterrar num buraco negro, no nada absoluto, no fim do mundo. Ela sabia que outubro na Islândia seria assim. Leu sobre isso. Preparou-se mentalmente durante as oito horas de voo de Lisboa, onde fez conexão, antes disso as seis horas de São Paulo, o total de quatorze horas numa posição que não favorecia nenhuma das vértebras da coluna. Sabia que seria escuro. Mas saber e ver são coisas que o cérebro processa em partes diferentes, e a parte que processou a janela preta às seis da manhã de uma segunda-feira de outubro num país que ela mal conseguia localizar no mapa há dois anos — essa parte disse: o que você fez.
Respondeu baixinho, em português, porque estava exausta demais pra se policiar: — Aceitei um contrato de doze meses numa ilha vulcânica.
A mulher no assento do lado não falava português. Dormia. Bom.
O terminal de Keflavík tinha aquela qualidade particular dos aeroportos escandinavos — limpo com crueldade, iluminado de forma que você não consegue fugir da sua própria aparência nos reflexos do vidro polido. Sofia viu a versão aeroporto dela: cabelo cacheado amassado do lado esquerdo onde tinha encostado na janela, a jaqueta técnica que ela comprou especificamente porque a etiqueta prometia resistência a -20 graus (ela ia precisar disso aqui, prometeu pra si mesma). Mochila de campo nas costas. Uma mala despachada esperando na esteira. Vinte e seis anos e um contrato de pesquisa com a Andersen Energy que pagava o dobro do que ela faria no Brasil nos próximos três anos.
Não estava arrependida. Estava com frio e com sono, o que é diferente.
O transfer da empresa esperava do lado de fora do desembarque — um homem com um cartaz onde estava escrito SOFIA BARROS em letras maiúsculas com marcador, como se o nome fosse uma afirmação de algo. Ele se chamava Gunnar, era alto da forma que todos os islandeses pareciam ser altos, e disse "bom dia" em inglês com um sotaque que transformou o "good" em algo mais redondo e honesto do que a palavra normalmente soa.
— Good morning, — ela respondeu, — I really hope it is.
Ele riu. Bom sinal.
A estrada de Keflavík para Reykjavik levava quarenta minutos e eram quarenta minutos de lava coberta de musgo, montanhas baixas no horizonte e um céu que gradualmente abandonava o preto pelo cinza mais completo que Sofia já viu. Não era o cinza do tempo fechado de Porto Alegre antes da chuva — era cinza de granito, de rocha, de uma paleta que não admitia negociação. Bonito da forma que as coisas assustadoras às vezes são.
Ela dormiu na última metade do trajeto com a testa encostada no vidro frio.
O hotel da empresa ficava no centro de Reykjavik, a três minutos a pé da Hallgrímskirkja — ela sabia disso pelo Google Maps que tinha estudado durante semanas antes de vir. Do lado de fora era uma construção moderna discreta que não tentava parecer nórdica com folclore de design, o que ela apreciou. Por dentro: aquecimento central funcionando como promessa de civilização, recepcionista com inglês perfeito, quarto no quarto andar com janela que dava pro telhado de um edifício mais baixo e, no fundo, uma fatia de baía.
Sofia atirou a mochila na poltrona, ficou parada no meio do quarto por trinta segundos avaliando prioridades, e depois desmontou: bota técnica num canto, jaqueta numa cadeira, calça num gancho atrás da porta, camisa debaixo do travesseiro porque ela tinha esse costume desde a faculdade e nunca conseguiu largar. Deitou. Olhou pro teto que era branco-hospitalar mas com boa iluminação indireta. Pensou: vou colocar o alarme pras dez da manhã.
Acordou às doze e dois minutos porque esqueceu de apertar salvar no alarme.
Pela janela: não era exatamente noite. Era uma versão do anoitecer — o céu tinha cor de ferrugem diluída no horizonte, acima disso cinza, acima disso um azul escuro que só existe no hemisfério norte no outono e que Sofia nunca tinha visto pessoalmente. Ela ficou olhando por um minuto inteiro antes de lembrar que havia um jantar de boas-vindas às 19h30, que eram agora — ela olhou pro celular — 12h07, e que ela precisava de banho, comida e pelo menos uma hora de ser humana funcional antes de enfrentar outras pessoas.
O shampoo de coco do Brasil que ela havia embalado em quatro frascos porque não ia arriscar ficar sem — o cheiro encheu o banheiro pequeno e preciso e ela ficou com os olhos fechados sob a água quente por tempo além do necessário. Sentiu o avião sair do corpo pouco a pouco, a pressão da altitude se dissolvendo, a tensão das vértebras cedendo. Quando saiu estava mais parecida com ela mesma.
Às 19h ela estava no elevador descendo. O jantar era às 19h30 e ela não conseguia aparecer exatamente no horário — tinha alguma coisa nos jantares de boas-vindas que a deixava com ansiedade de nível menor mas suficiente pra estratégias de evitação. Quarenta e cinco minutos antes era razoável. Daria tempo de sentar num canto do bar, tomar alguma coisa, se calibrar antes de ter que funcionar em inglês com pessoas que seriam seus colegas pelo próximo ano.
O bar do hotel era discreto — quatro mesas pequenas, balcão comprido de madeira escura, iluminação de âmbar que tornava tudo mais tolerável. Dois casais de turistas numa mesa, um laptop aberto em cima de um copo de água sem dono na outra. E no balcão, do lado esquerdo, um homem.
Ela foi pro lado direito automaticamente — preferência de quem não quer conversa, posição com o máximo de espaço disponível entre ela e o próximo ser humano. Pediu ao barman, em inglês com sotaque que ela já havia aprendido a não se envergonhar: — What's local? Whisky, beer, something.
— Einmaleitt, — disse o barman, — local Icelandic whisky. Made in Borgarnes.
— That, please.
— Good choice, — disse uma voz do outro lado do balcão, em inglês com um sotaque que não era britânico nem americano — algo mais ao norte, mais horizontal nas vogais. — It doesn't try to be Scotch.
Sofia olhou. O homem era alto mesmo sentado — dava pra perceber na proporção dos ombros no banquinho, no comprimento dos braços no balcão. Cabelo louro-acinzentado, o tipo que precisava de corte mas havia decidido não se incomodar com isso por ora. Terno sem gravata, a gravata provavelmente esquecida no escritório ou no casaco. Cara de quem encerrou uma reunião há menos de uma hora e ainda estava processando.
— Você está bebendo o mesmo, — ela disse, olhando pro copo dele.
— Estou. Há quarenta minutos.
O barman trouxe o dela. Ela girou o copo, sentiu o cheiro antes de beber — mel, turfa, algo que ela não conseguia identificar e que descobriria depois ser musgo, ou o cheiro que musgo tem quando destilado. Bebeu um gole.
Não estava ruim. Estava, na verdade, preciso — a palavra certa era preciso, da forma que algumas coisas são quando chegam sem floreio e entregam exatamente o que prometem.
— Funciona, — ela disse.
— É isso que whisky islandês faz. Funciona.
Ele disse isso sem sorrir mas sem agressividade também — o tom neutro de quem está descrevendo um fato e não tentando ser charmoso. Ela apreciou. Tinha chegado ao fim da capacidade de processar charme por hoje.
— Você chegou hoje? — ele perguntou.
— Hoje de manhã. Às seis.
— Da manhã.
— Da manhã, — ela confirmou. — Não havia sol. Não havia nada. Só pista de pouso e vento.
— Outubro, — ele disse, como se isso explicasse o universo inteiro, e talvez explicasse.
— Você é daqui?
Ele olhou pro copo. — Não exatamente. Mas faz tempo.
Ela aceitou isso. Não tinha energia pra genealogia de estranhos em bar às sete da tarde com uma hora de sono a mais do que devia ter. O barman passou, ele acenou pro copo, veio mais whisky.
— Você trabalha aqui? — ela tentou.
— Trabalho.
— Em quê?
Ele levou um segundo. — Energia.
— Renovável.
— Principalmente.
Ela olhou pra janela — do bar não dava pra ver a Hallgrímskirkja mas dava pra imaginar, a torre branca cortando o céu que ainda estava naquele laranja enferrujado que durava mais do que deveria. — Faz sentido. País certo pra isso.
— É o país certo pra muita coisa, — ele disse. — Você?
— Dados. Ciência de dados. — Ela bebeu mais um gole. — Vou trabalhar numa empresa de energia por doze meses.
Algo no rosto dele — não exatamente movimento, mais uma quietude diferente da que já havia. Mas ela estava cansada demais pra catalogar.
— Por escolha? — ele perguntou.
— Por contrato. Mas que eu escolhi. — Ela olhou pro próprio copo. — Há uma diferença filosófica aí que não tenho energia pra explorar hoje.
— Justo.
Ficaram em silêncio por um momento. Não era silêncio de desconforto — era o silêncio de dois adultos que estão confortáveis com a presença um do outro sem precisar preencher o ar. Sofia não sabia quando havia sido a última vez que tinha sentido isso com alguém que acabou de conhecer. Talvez nunca. Talvez o whisky.
— De onde você é? — ele perguntou.
— Brasil. Sul.
— Rio?
— Não. — Ela quase sorriu. Todo mundo perguntava Rio. — Porto Alegre. No sul mesmo, perto da fronteira com a Argentina.
— Mais frio do que as pessoas esperam do Brasil.
— Muito mais. Mas não assim. — Ela fez um gesto vago pra janela. — Ainda não assim.
— Vai acostumar.
— Todos dizem isso.
— Porque é verdade. Mas leva tempo. — Ele olhou pro relógio — não o celular, um relógio de pulso, ela notou, coisa cada vez mais rara. — Você tem planos pra noite?
Ela sentiu a pergunta pousar e avaliou em meio segundo o que ele quis dizer com ela. Chegou à conclusão: era literalmente a pergunta, sem subcamada.
— Jantar, — ela disse. — Da empresa. Aqui mesmo, daqui a quarenta minutos. O tipo de coisa que você vai mesmo sem querer muito.
— Conheço esse tipo de coisa.
— Tenho certeza. — Ela terminou o whisky. Ele estava quase no fim do dele também. O barman olhou pra eles mas nenhum dos dois acenou. — Obrigada pela dica do whisky.
— Não foi dica. Você já tinha pedido antes de eu falar.
— Foi confirmação, então.
Pela primeira vez ele demonstrou algo parecido com um sorriso — não nos lábios exatamente, mais nos olhos, numa suavização que durou menos de dois segundos. — Boa confirmação.
Ela escorregou do banquinho, pegou o casaco que estava dobrado no banco ao lado, pagou. Ele não fez menção de ir — o copo vazio, as mãos abertas no balcão, a postura de quem ainda tinha que processar alguma coisa antes de se mover.
— Bom jantar, — ela disse.
— Você também.
Ela foi sem olhar pra trás, porque olhar pra trás nesse tipo de situação era o tipo de coisa que ela havia parado de fazer quando tinha vinte e três anos e aprendido que a antecipação sempre era melhor do que o que estava lá.
O jantar de boas-vindas era numa sala reservada no fundo do hotel — oito pesquisadores novos, três membros da equipe de integração, e uma mesa comprida com comida que Sofia catalogou em dois segundos como "nórdica boa" (peixe defumado, pão escuro, algo com beterraba). Ela sentou no meio, tomou água, começou a processar nomes e rostos com a eficiência de quem foi treinado a mapear ambientes.
E então a porta abriu.
O homem do bar entrou. Terno ainda sem gravata. Cabelo ainda precisando de corte. E à sua volta, numa reconfiguração instantânea de postura de todos na sala, ficou absolutamente claro que a hierarquia havia chegado.
Um dos membros da equipe de integração se levantou. — Dr. Andersen, we weren't expecting you tonight.
— I had a free hour, — ele disse. — I wanted to meet the new team.
A apresentação foi feita. Erik Andersen. CEO da Andersen Energy. Fundador. Filho do homem que havia fundado a empresa há trinta anos, que havia escalado ela, que havia apostado na geotermia da Islândia quando era aposta ainda. O homem que assinava o cheque que pagaria o salário de Sofia pelos próximos doze meses.
Ela estava sentada com as costas retas e o rosto absolutamente neutro porque isso era o que ela fazia quando precisava de tempo pra recalibrar.
Ele sentou no lado oposto da mesa, canto. Não a olhou diretamente. Ou se olhou, fez isso da mesma forma que olhou pra todos — uma varredura neutra de quem está catalogando sem revelar o processo.
Sofia tomou um gole de água e pensou: trinta minutos num bar sendo completamente honesta com o CEO da empresa que vai pagar seu salário por um ano.
O que ela havia dito. O que ele havia respondido. Nada inadequado. Mas real.
Real, ela descobriu nos vinte e seis anos de vida que tinha, era mais perigoso do que inadequado.
A comida estava boa. O peixe defumado especialmente. Ela comeu com atenção e respondeu perguntas quando foram feitas e fez as perguntas certas sobre o projeto e sobre o campus de Hveragerði, e em nenhum momento olhou para o canto da mesa mais do que uma vez.
Uma vez foi suficiente.
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