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Carregando...romance-contemporaneo
Marina Sousa chegou ao lounge do GRU às 22h40 com a segunda taça de champanhe que não deveria ter pedido e um voo para Dubai que saía em 35 minutos. Quando o homem sentou duas poltronas atrás e pediu café…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — Portão 47
O champanhe estava bom demais para ser culpa de ninguém além dela.
Marina Sousa olhou para a segunda taça com a consciência clara de que não deveria tê-la pedido. Reunião às 10h da manhã em Dubai. Onze horas de voo. Apresentação que ainda tinha três slides com marcadores que precisavam virar frases de gente. E mesmo assim — o champanhe estava ali, borbulhando com aquela leveza de coisa que custa caro o suficiente para não pesar.
O Lounge Premium da GRU às 22h40 estava quase vazio. Uma mulher de meia-idade dormia com uma máscara de olhos cor de lavanda, a boca levemente aberta. Dois homens em suits escuros teclavam em laptops com a urgência de quem acredita que o mundo para quando eles pousam. Num canto, um rapaz com fones canceladores de ruído assistia algo no tablet com expressão completamente morta para o universo externo.
Marina havia chegado cedo demais. Hábito de executiva ou neurose de voo, dependia de quem perguntava. Rafael dizia neurose. Rafael achava muita coisa sobre ela que ela preferiu parar de ouvir oito meses atrás.
Ela mexeu na segunda taça sem bebê-la. Abriu o laptop. Os três slides com marcadores continuaram sendo marcadores, impassíveis.
A promoção havia sido anunciada formalmente há quinze dias, mas ela sabia desde outubro — quando Roberto Vellani a chamou para um almoço em Milão que durou três horas e terminou com ele dizendo "Marina, London needs someone who understands both the brand and the client" com a voz de quem sabe que está entregando algo que a pessoa vai aceitar mesmo que não devesse. Ela aceitou. Claro que aceitou. Diretora Global de Marketing da Vellani. Dois anos em Londres. A carreira que ela havia construído tijolo por tijolo desde os vinte e três anos, quando chegou à Vellani como assistente de comunicação e alguém achou que seu jeito de escrever brief tinha qualidade diferente.
Dois anos. Londres. Apartamento em Battersea já alugado via e-mail, Whatsapp e uma vídeo chamada de trinta minutos onde ela olhou para um estúdio de teto alto com janelas enormes e disse "vou levar" antes de calcular a conversão em reais.
CAPÍTULOS
Era o certo. Era o passo certo. Era também — e ela só admitia isso para Bia, e mesmo assim em voz baixa — assustador de um jeito que não combinava com a Marina que todo mundo conhecia.
Fechou o laptop.
Bebeu o champanhe.
Foi quando ele entrou.
Ela não prestou atenção de início — a porta do lounge abriu, alguém entrou, a temperatura do ambiente não mudou. Mas houve algo no jeito que a mulher adormecida na poltrona de lavanda mexeu levemente a cabeça, como quem sente perturbação no campo, que fez Marina levantar os olhos do copo.
Ele atravessou o espaço em direção ao balcão com a quietude específica de quem conhece lounges de aeroporto como se conhece o próprio corredor de casa — sem olhar para os lados, sem verificar se há tomada disponível, sem hesitar em qual direção ir. Pediu café. Em português, mas com um ritmo que tinha alguma coisa italiana no meio — uma suavidade em certas sílabas, um prolongamento de vogal que não era paulistano nem carioca.
Marina percebeu as mãos antes do rosto.
Era estranho notar isso, ela sabia — a ordem habitual seria outra. Mas as mãos estavam no balcão, abertas sobre a superfície enquanto ele esperava o café, e havia algo nelas que prendeu o olhar. Grandes. Com precisão. A diferença entre mãos que seguram coisas e mãos que controlam coisas.
Ele pegou o café. Virou.
Cabelo castanho com fios brancos nas têmporas — mais brancos do que a idade justificaria, ou talvez a idade justificasse e ela só não soubesse a idade. Mandíbula angular. Olhos que ela não conseguiu definir cor a esta distância, luz de lounge não sendo particularmente generosa com detalhes. Não era bonito da forma que pede atenção. Era bonito da forma que retém atenção, que é diferente e em geral mais perigoso.
Ele varreu o ambiente com um olhar que não era avaliador — era apenas de alguém que localiza o espaço antes de habitá-lo. Parou nela por um segundo. Ela não desviou. Ele também não.
Então ele escolheu uma poltrona. Duas atrás dela, do outro lado do corredor central.
Marina voltou para o copo vazio.
Os três slides continuaram sendo marcadores no laptop fechado sobre a mesa. Ela devia abrir. Devia trabalhar. Tinha acabado de beber champanhe que não deveria e a reunião em Dubai começava em menos de doze horas e havia comprado aquela passagem para Dubai em business class com o cartão da empresa o que significava que o mundo esperava que ela chegasse funcional e capaz de apresentar uma estratégia de distribuição para o Oriente Médio que justificava os números projetados para 2027.
Ela não abriu o laptop.
Ficou olhando o aeroporto lá fora — as pistas iluminadas, um avião taxiando lento, as luzes de posição piscando vermelho e verde naquela linguagem de máquinas que sempre achou curiosamente melancólica. A vida de aeroporto era uma vida de trânsito. Ninguém estava chegando de verdade, ninguém estava partindo de verdade — todo mundo estava entre uma coisa e outra, suspendendo o julgamento sobre onde era o lugar certo de estar.
Ela estava entre uma coisa e outra há oito meses. Entre o Rafael que foi embora ou que ela mandou embora, dependendo de como contava — e os dois modos de contar eram igualmente verdadeiros. Entre o apartamento de Pinheiros que estava começando a desmontar mentalmente antes de desmontar fisicamente. Entre São Paulo que conhecia com os joelhos e Londres que era ainda só janelas no Google Street View e nomes de estações de metrô que ela havia decorado com aplicativo de flashcard como se fosse prova.
"Viagem longa."
A voz veio de trás e levemente do lado. Não alto. Não como quem quer chamar atenção — como quem comenta para o ar, e o ar decide se responde.
Marina não se virou imediatamente. Esperou um segundo, que era o tempo de decidir se estava sendo falada ou se havia entendido errado.
"A sua também, imagino."
Ela se virou. Ele estava duas poltronas atrás, a xícara de café no joelho, olhando para o mesmo ponto que ela havia estado olhando — as pistas lá fora, o avião taxiando.
De perto — bem, de perto relativo, havia dois metros de passagem entre eles — os olhos eram âmbar. Esverdeado na borda. Não era uma cor comum e ela ficou perturbada por um momento por ter notado isso com tanta precisão.
"Onze horas," ela disse, porque era resposta suficiente.
"Treze," ele disse, da mesma forma — informação, não conversa.
Ela assentiu. Ele também. Nenhum dos dois disse mais nada.
Marina voltou para a janela. Escutou ele tomar o café. Havia um silêncio confortável que era o tipo de silêncio que dois estranhos criam quando ambos entendem as regras não ditas do espaço compartilhado — você está aqui, eu estou aqui, nenhum de nós precisa fazer nada com isso.
O PA do aeroporto anunciou o embarque do voo para Buenos Aires em português e depois em inglês com sotaque que não era de nenhum dos dois idiomas. A mulher de máscara lavanda acordou, olhou em volta com o desorientamento de quem volta de algum lugar, pegou a bolsa e saiu sem se apressar.
Marina olhou para o relógio. 22h55.
O voo embarcava às 23h15.
Ela fechou o laptop dentro da mochila de couro preto que a Vellani havia dado como presente de despedida — Roberto tinha gosto caro e sabia que ela preferia funcional a ornamental. Arrumou o casaco. Bebeu o último gole de champanhe que sobrava, que era menos de uma taça mas mais do que devia, e se levantou.
Ele estava olhando para ela quando ela se virou para pegar o casaco. Não de forma insistente. Só olhando, da mesma forma que se olha para qualquer coisa que está em movimento quando o resto está parado.
Ela não disse nada. Ele também não.
Marina saiu do lounge em direção ao portão 47 com a sensação ligeiramente desconexa de quem deixou algo para trás e não tem certeza o quê.
O corredor do aeroporto estava naquela quietude de hora tardia — menos gente, mais eco, as lojas fechadas ou fechando, os funcionários com aquela expressão de pessoas que trabalham quando o mundo dorme. Seus saltos faziam barulho que ela normalmente não notava. Hoje notava.
O portão 47 estava no fim do terminal, depois de três curvas. Ela chegou cedo o suficiente para pegar uma poltrona de canto, encostou a mochila no joelho e abriu o laptop com a intenção real de trabalhar nos slides.
Os marcadores olharam de volta para ela.
Ela fechou o laptop.
Ficou olhando o avião lá fora pela janela do portão — enorme, estático, iluminado pelas luzes de rampa. A Meridian Airlines tinha aquele esquema de cores azul escuro e prata que ela sempre achou mais sóbrio do que o de outras companhias. Parecia um avião de gente séria. Isso não queria dizer nada sobre nada, ela sabia.
A área do portão foi enchendo devagar — o fluxo lento e sonolento de passageiros de voo noturno, todos com a expressão de pessoas que escolheram chegar em algum lugar em vez de sair, que era uma distinção que ela havia lido uma vez e nunca conseguiu desaprender. Famílias. Casais. Executivos com malas carrinho e o telefone colado na orelha mesmo a essa hora.
O homem do lounge chegou ao portão dois minutos antes do embarque.
Ela o viu pela janela lateral — e então na fila, de perfil. Não havia motivo para essa observação ser relevante e ela sabia disso enquanto observava. Estranho de aeroporto. Haveria outro estranho de aeroporto amanhã em Dubai e depois em Tokyo e depois em Londres — a vida de trânsito era cheia de estranhos que passavam pelo campo visual e saíam.
A comissária chamou as fileiras premium.
Marina pegou a mochila e entrou na fila.
Na escada rolante que levava à ponte de embarque, ela olhou para trás uma vez — hábito, verificação, não havia razão específica. Ele estava na fila de embarque geral, ou em alguma outra fila, ou havia desaparecido na lógica de aeroporto onde as pessoas se dissolvem antes de materializar do outro lado.
Ela não o viu.
Subiu a escada rolante com o barulho da turbina chegando de longe, aquele som de coisa enorme e viva que nunca deixou de a deixar ligeiramente sem chão — não de medo, mas de consciência. A consciência de que havia física suficiente naquilo para tornar o voo possível e que o voo ia acontecer de qualquer jeito, com ela a bordo ou não.
Em onze horas ela estaria em Dubai.
Em duas semanas estaria em Londres.
Eventualmente tudo faz sentido, Bia havia dito. Eventualmente.
Marina entrou no avião.