
Entre Fios de Seda e Desejo
RomanceQuando Valentina Rossi, uma jovem estilista de 24 anos vinda de Nápoles, consegue uma cobiçada vaga de estágio na Bellanti Fashion Group — a mais poderosa casa de moda feminina da Itália —, ela acredita que finalmente terá a chance…
CAPÍTULO 1
O Primeiro Encontro
O táxi atravessava as ruas de Milão sob um céu cinzento de março, e Valentina Rossi sentia o coração disparar a cada quarteirão que a aproximava de seu destino. Suas mãos suadas apertavam a alça da bolsa vintage que havia pertencido à sua avó — sua única conexão tangível com o sonho que a trouxera até ali.
A Bellanti Fashion Group.
Apenas o nome já fazia seu estômago revirar de ansiedade e excitação. A mais poderosa casa de moda feminina da Itália. Um império que ditava tendências, lançava carreiras e destruía aqueles que ousavam desafiá-lo. E ela, Valentina Rossi, uma garota de Nápoles criada pela mãe costureira em um apartamento minúsculo, havia conseguido uma vaga de estágio.
Seis meses. Era tudo que tinha para provar seu valor.
— Siamo arrivati, signorina — anunciou o taxista, e Valentina ergueu os olhos.
O edifício da Bellanti erguia-se diante dela como uma catedral moderna de vidro e aço, refletindo as nuvens carregadas. Doze andares de puro luxo e poder no coração do quadrilátero da moda milanês. Valentina pagou a corrida com as últimas notas que sobraram depois de alugar o quartinho minúsculo na periferia e saiu do carro, alisando nervosamente o vestido preto simples que usava.
Não era Prada. Não era Valentino. Era uma criação própria, costurada à mão nas madrugadas dos últimos dois meses. Cada ponto carregava sua esperança, seu talento, sua fome de pertencer àquele mundo.
O saguão de entrada roubou-lhe o fôlego. Piso de mármore Carrara, lustres de cristal Murano, e nas paredes, fotografias gigantes de campanhas icônicas da Bellanti que marcaram décadas. Mulheres poderosas, sensuais, inesquecíveis, usando criações que custavam mais do que Valentina ganharia em anos.
— Posso ajudá-la? — A recepcionista olhou-a de cima a baixo com aquela expressão que Valentina conhecia bem. Avaliação. Julgamento. Conclusão silenciosa de que ela não pertencia ali.
— Valentina Rossi. Começo hoje como estagiária no departamento criativo.
A mulher conferiu o computador, ainda com aquele ar de superioridade.
— Décimo primeiro andar. Alguém da equipe virá buscá-la. Aguarde ali. — Apontou para uma área de espera com sofás brancos imaculados que pareciam nunca terem sido usados.
Valentina sentou-se na ponta do sofá, as costas eretas, observando o movimento no saguão. Modelos altíssimas entravam e saíam. Homens de terno impecável falavam em diversos idiomas ao celular. Mulheres elegantes carregavam sacolas com o logo da Bellanti. Tudo ali respirava um glamour inacessível, quase cruel.
Vinte minutos se passaram. Depois quarenta. Valentina começou a suar sob o vestido preto.
— Valentina Rossi?
Ela ergueu os olhos e encontrou uma mulher de aproximadamente quarenta anos, cabelos loiros presos em um coque perfeito, usando um conjunto Bellanti da última coleção. Seu rosto era bonito, mas havia algo afiado em seus olhos claros.
— Sim, sou eu! — Valentina levantou-se rápido demais, quase tropeçando.
— Chiara Bellanti. Diretora criativa. — A mulher não ofereceu a mão. — Você está atrasada.
— Atrasada? Mas eu... — Valentina olhou para o relógio. — Meu horário era nove horas. São nove e quarenta.
— Na Bellanti, chegar no horário é chegar atrasado. Você deveria estar aqui às oito e meia. — O sorriso de Chiara era gélido. — Espero que esse seja seu único deslize. Me acompanhe.
O coração de Valentina despencou enquanto seguia Chiara até os elevadores. Começara com o pé esquerdo, e aquela mulher claramente não tinha paciência para erros.
O elevador subiu em silêncio constrangedor. Chiara digitava algo no celular, ignorando completamente sua presença. Valentina aproveitou para observá-la pelo reflexo do espelho. Tudo nela era perfeito. Geometricamente perfeito. Do corte de cabelo às joias discretas mas caríssimas. Ela representava exatamente o que a Bellanti vendia: elegância inacessível.
As portas se abriram no décimo primeiro andar, revelando um espaço aberto gigantesco. Mesas de trabalho ocupadas por pessoas incrivelmente elegantes, manequins com protótipos de roupas, tecidos caríssimos empilhados, máquinas de costura de última geração. As paredes de vidro ofereciam uma vista deslumbrante de Milão.
— Preste atenção porque não vou repetir — disse Chiara, caminhando rapidamente. — Você trabalhará diretamente comigo e com a equipe de desenvolvimento de coleção. Suas funções incluem organização de materiais, pesquisa de tendências, apoio aos estilistas seniores e tudo mais que eu ou qualquer pessoa acima de você na hierarquia solicitar. Horário de trabalho: oito e meia às dezenove horas, segunda a sexta. Sábados quando necessário, e confie em mim, será necessário. Perguntas?
— Eu...
— Ótimo. Aquela será sua estação de trabalho. — Chiara apontou para uma mesa minúscula no canto, praticamente escondida atrás de uma coluna. — Vista isso. — Entregou-lhe um crachá. — E vá até a sala de tecidos no nono andar. Procure por Francesca e diga que precisa trazer todas as amostras de seda que chegaram da Como. Todas. Não aceito desculpas se algo faltar.
— Sim, claro, eu...
Mas Chiara já havia se virado e se afastado, seus saltos Louboutin repicando no piso de madeira clara.
Valentina engoliu em seco, prendeu o crachá e tentou se orientar. Algumas pessoas olharam para ela com curiosidade, outras com indiferença. Ninguém se aproximou para cumprimentá-la.
Bem-vinda à Bellanti, pensou amargamente.
Encontrou o caminho até o nono andar e, depois de perguntar três vezes, localizou a sala de tecidos. Francesca era uma mulher de meia-idade com óculos de grife e um ar perpetuamente irritado.
— Amostras de seda de Como — disse Valentina, tentando soar confiante. — Chiara Bellanti pediu.
Francesca suspirou dramaticamente.
— Claro que pediu. Sempre pede tudo para ontem. — Apontou para uma prateleira alta. — Ali. São vinte rolos. Você vai precisar de um carrinho.
Vinte rolos. Cada um pesando facilmente três quilos.
Valentina passou a hora seguinte transportando os rolos de seda, empurrando o carrinho pesado para dentro do elevador, tentando não deixar nada cair. Suas costas já doíam e ela mal havia começado o dia.
Quando finalmente retornou ao décimo primeiro andar com todas as amostras, Chiara estava em uma reunião em uma sala de vidro com paredes transparentes. Valentina podia vê-la gesticulando dramaticamente para três pessoas que faziam anotações frenéticas.
— Deixe ali. — Uma voz masculina a sobressaltou.
Valentina virou-se e encontrou um homem jovem, talvez trinta anos, bonito de um jeito despojado, cabelos castanhos levemente desalinhados e sorriso amigável.
— Sou Leonardo. Leo. Assistente sênior de design. — Ele estendeu a mão. — Você deve ser a nova estagiária.
— Valentina. — Ela apertou sua mão, grata pela primeira interação humana decente do dia.
— Bem-vinda ao inferno. — Leo sorriu, mas havia genuína simpatia em seus olhos castanhos. — Primeiro dia?
— É tão óbvio assim?
— Você ainda tem esperança no olhar. Isso passa. — Ele riu. — Brincadeira. Mais ou menos. Chiara é... intensa. Mas você se acostuma. Ou enlouquece. Uma das duas.
Valentina não soube se ria ou chorava.
— Deixa eu te dar uma dica — Leo baixou a voz, aproximando-se. — Hoje à tarde tem uma reunião importante no décimo segundo andar. O grande chefe está voltando de Nova York. Fique invisível. Chiara fica especialmente terrível quando ele está no prédio.
— O grande chefe?
— Matteo Bellanti. O CEO. Dono de tudo isso aqui. — Leo fez um gesto abrangente. — O homem mais poderoso da moda italiana e também o mais... complicado.
Antes que Valentina pudesse perguntar mais, Chiara saiu da sala de reuniões como um furacão.
— Valentina! Por que essas sedas ainda estão no carrinho? Organize por tonalidade e textura. Agora. E depois quero que você...
A lista de tarefas continuou. E continuou. E continuou.
Às três da tarde, Valentina não havia parado nem para almoçar. Suas mãos estavam manchadas de tecido, seus pés latejavam nos sapatos simples, e ela tinha certeza de que ia desmaiar a qualquer momento.
Foi quando ouviu.
Um alvoroço sutil percorreu o andar. Pessoas endireitando-se em suas mesas. Conversas cessando. Olhares direcionando-se para os elevadores.
As portas de vidro do elevador se abriram.
E Matteo Bellanti entrou.
Valentina sentiu o ar escapar de seus pulmões.
Ele era devastador. Não havia outra palavra. Alto, facilmente um metro e noventa, ombros largos sob um terno cinza grafite que com certeza era feito sob medida. Cabelos negros perfeitamente penteados para trás, mandíbula marcada, e mesmo à distância, ela podia ver que seus olhos eram de um cinza tempestuoso impossível.
Mas não era apenas a beleza. Era a aura. Poder absoluto emanava dele como um campo de força invisível. Ele atravessou o andar sem olhar para os lados, e ainda assim todos se curvaram sutilmente à sua presença.
Chiara materializou-se instantaneamente ao lado dele, falando baixo, mostrando algo em um tablet. Matteo ouvia sem expressão, acenando brevemente.
E então aconteceu.
Valentina, distraída observando-o, não percebeu que estava segurando um rolo de seda de Como. Um rolo caríssimo. Um rolo que, de repente, escorregou de suas mãos.
Ela tentou agarrá-lo. Falhou. O rolo caiu no chão com um som surdo que ecoou pelo andar silencioso.
Todos olharam.
Incluindo Matteo Bellanti.
Seus olhos cinzentos encontraram os dela através do espaço aberto, e Valentina sentiu como se alguém tivesse retirado todo o oxigênio da sala. Ele a encarou por um longo momento — dois segundos que pareceram uma eternidade — com uma intensidade que a fez tremer.
Então, sem uma palavra, ele desviou o olhar e continuou caminhando até seu escritório no canto do andar.
Mas algo havia acontecido naquele breve contato visual. Algo elétrico. Algo perigoso.
Chiara aproximou-se dela como uma serpente, olhos faiscando.
— Se você deixar cair mais alguma coisa, estará na rua antes do fim do dia — sibilou. — Entendido?
— Sim. Me desculpe. Eu...
— Não quero desculpas. Quero perfeição. — Chiara virou-se e foi embora.
Valentina agachou-se para pegar o rolo de seda, as mãos tremendo. Quando levantou, seu olhar foi involuntariamente atraído para o escritório no canto do andar.
Através das paredes de vidro, ela podia ver Matteo Bellanti sentado atrás de uma mesa enorme, falando ao telefone.
E por um breve instante, antes de Chiara fechar as cortinas de vidro, ela teria jurado que ele estava olhando diretamente para ela.
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