Do Avesso
romance-contemporaneo
Diego Ferreira passou a vida sendo o cara engraçado na sala — em inglês, em português, em qualquer língua. Mas em São Paulo, a cidade de onde seus pais fugiram antes de ele nascer, o humor sai torto. As referências…
CAPÍTULO 1
Congonhas
O avião desceu por cima de uma cidade que não acabava mais.
Diego Ferreira ficou com o nariz colado na janela os últimos vinte minutos de voo, tentando encontrar o ponto onde São Paulo terminava. Não encontrou. A cidade se espalhava em todas as direções como se tivesse decidido, em algum momento da história, que o conceito de limite era provinciano demais para ela. Lá embaixo: prédios, mais prédios, viadutos, prédios, uma represa, prédios, uma nesga de verde que devia ser parque, e então prédios de novo até o horizonte, onde a neblina de poluição e umidade grudava no céu como um filtro antigo de Instagram.
O pai tinha descrito São Paulo como "grande, mas você se acostuma". O pai tinha descrito São Paulo como "barulhenta, mas você se acostuma". O pai tinha descrito São Paulo como "quente, mas você se acostuma". Diego estava chegando à conclusão de que o pai tinha uma relação muito otimista com o verbo acostumar.
O avião bateu na pista com aquele tranco característico de Congonhas, o aeroporto que ficava dentro da cidade como uma questão mal resolvida de planejamento urbano. Vinte e dois anos de vida em Toronto, onde o aeroporto ficava decentemente afastado do centro, não tinham preparado Diego para a estranheza de aterrissar e já estar em meio ao tecido urbano. Pela janela ele via um prédio residencial com roupa estendida no varal. Alguém, naquele prédio, acordava todo dia com a vista de aviões pousando. Diego achou isso ou perturbador ou fascinante e não conseguiu decidir qual.
No corredor de desembarque, o português começou.
Não que Diego não falasse português — falava, fluentemente, desde que aprendeu a falar. Língua da casa, língua dos domingos, língua das brigas entre os pais que achavam que ele não entendia e ele entendia perfeitamente. O problema não era o idioma. O problema era o registro. Em Toronto, ele e os pais falavam um português de diáspora, conservado em âmbar nos anos oitenta quando os Ferreira tinham deixado São Paulo com duas malas e uma promessa vaga de "é temporário". Temporário tinha durado vinte e seis anos e gerado um filho.
Então Diego falava português. Mas quando cumprimentou o agente de imigração com "boa tarde, como vai o senhor", o homem deu uma olhada nele que Diego não soube interpretar. Não foi hostil. Foi mais como calibragem. Como quando um músico ouve uma nota ligeiramente desafinada e inclina a cabeça.
"Bem, bem," disse o agente, carimbou o passaporte canadense e acenou para o próximo.
Diego atravessou para o saguão de retirada de bagagem carregando a mochila nas costas e tentando processar que estava, pela primeira vez na vida, em solo brasileiro. Tecnicamente. Considerando que tinha crescido ouvindo histórias sobre esse lugar, comendo comida desse lugar, crescendo com uma nostalgia de segunda mão por uma cidade que nunca tinha pisado, havia algo ligeiramente surreal em finalmente estar aqui. Era como conhecer pessoalmente um personagem de livro que você adorava há anos e descobrir que a voz dele é completamente diferente do que você imaginava.
A mala demorou doze minutos para aparecer na esteira. Diego cronometrou porque não tinha mais nada para fazer e porque estava com aquela energia nervosa de chegada que precisava de algum destino.
Gustavo estava do lado de fora da área de desembarque.
Diego viu o cartaz antes de ver o primo. PRIMO CANADIANO, estava escrito em letras maiúsculas, caneta pilot vermelha sobre papel sulfite dobrado em quatro. Gustavo era dois anos mais velho, mais alto por uns três centímetros, e tinha o sorriso exato do tio Sérgio, o pai de Diego, só que sem a saudade nos olhos. Era o mesmo sorriso mas sem peso.
"Canadense," disse Diego. "Sem I no final."
Gustavo olhou para o cartaz, olhou para Diego, olhou de volta para o cartaz.
"Sei," disse ele.
Eles se abraçaram com aquele abraço de primos que é ao mesmo tempo íntimo e ligeiramente desajeitado porque se conhecem desde criança mas só através de videochamadas e uma visita quando Diego tinha onze anos e Gustavo treze. A arquitetura emocional estava lá, o conforto estava lá, mas o corpo precisava de um segundo para lembrar.
"Você está menor do que eu esperava," disse Gustavo, segurando o ombro de Diego para medir.
"Você está exatamente do mesmo tamanho que a câmera do celular sugeria."
"A câmera do celular mente pra todo mundo. É o trabalho dela."
Gustavo pegou a mala sem perguntar e começou a caminhar em direção ao estacionamento. Diego o seguiu, notando que o primo se movia pelo aeroporto com a fluidez específica de quem nunca precisou parar para pensar em qual direção virar — um tipo de incorporação geográfica que Diego não tinha e provavelmente não teria tão cedo.
O calor do lado de fora foi uma declaração.
Toronto em outubro era quinze graus e vento. São Paulo em outubro era trinta e um graus e uma umidade que não era chuva mas era quase, a qualidade do ar parecendo mais com água aquecida do que com ar de fato. Diego tinha uma camiseta e uma jaqueta leve. A jaqueta ficou na mochila nos próximos trinta segundos.
"É sempre assim?" perguntou ele.
"Em outubro? Às vezes piora."
"Ótimo."
"Você vai se acostumar."
Diego decidiu que "você vai se acostumar" era a frase mais utilizada em referência a São Paulo e que provavelmente havia uma razão para isso que ele ainda ia descobrir.
O carro de Gustavo era um Civic cinza com um cheirinho de pinheiro de plástico no retrovisor e uma playlist no Spotify que Diego reconheceu como sendo majoritariamente funk carioca com algumas incursões em pagode. Gustavo entrou na fila para sair do estacionamento com a paciência de quem faz isso regularmente e não guarda rancor dos outros motoristas, o que Diego achou imediatamente suspeito.
"Como foi o voo?"
"Bem. Conectei em Guarulhos, o terminal internacional é maior do que eu esperava."
"Guarulhos não conta como SP. É uma cidade separada."
"Tecnicamente."
"Não tecnicamente. Tecnicamente, geograficamente, emocionalmente. Quem é de Guarulhos é de Guarulhos."
Diego ia perguntar sobre essa distinção mas aí o carro saiu do estacionamento e entrou no tráfego e São Paulo aconteceu de uma vez.
Não havia outra maneira de descrever. A cidade não revelava a si mesma — ela acontecia, em todas as direções simultaneamente, com a intensidade de um argumento que estava rolando há horas quando você chegou na sala. O viaduto sobre o qual eles passavam era mais longo do que certas ruas que Diego conhecia de cor em Toronto. A rodovia era seis faixas e mesmo assim havia lentidão, não o tipo de trânsito parado de saturação urbana mas um fluir irregular, orgânico, como sangue num organismo muito grande. Os prédios não tinham escala coerente — um espigão de trinta andares ao lado de um sobrado de dois, ao lado de um muro pichado, ao lado de uma padaria com toldo listrado verde e branco de onde emanava o cheiro de pão de queijo com precisão cirúrgica.
Diego abriu a janela. O cheiro de pão de queijo ficou mais forte por um segundo e depois foi substituído pelo cheiro da cidade — borracha, asfalto quente, flores que ele não reconhecia, comida de alguma barraca que passaram rápido demais para ele ver.
"O seu português vai precisar de ajuste," disse Gustavo, de forma completamente casual, olhando para o espelho retrovisor.
"Meu português é fluente."
"Seu português é fluente. Mas o seu paulistano está uns vinte anos atrasado. Você fala igual ao seu pai quando o seu pai liga pra minha mãe, e o seu pai saiu daqui em oitenta e seis."
Diego ficou quieto considerando isso. Não era ofensa — era diagnóstico. E provavelmente correto.
"Vai me dar aula?"
"Não tenho paciência pra dar aula. Mas você vai aprender por osmose se ficar tempo suficiente. Quanto tempo você está aqui mesmo?"
"Seis meses. O mestrado quer que eu faça a pesquisa de campo aqui, entrevistas com comunidades de emigrantes e descendentes."
"Entrevistas com pessoas como você."
"Entrevistas com pessoas como eu, sim."
Gustavo deu uma risada curta. "Acho que tem ironia aí."
"Não me diga. Passei três anos estudando diáspora brasileira de Toronto e não percebi que era pessoalmente relevante."
"Você é engraçado."
"Obrigado."
"Não era elogio. Era observação." Mas o canto da boca de Gustavo subia ligeiramente. "Você vai ficar no apartamento da fellowship, no Consolação. Tem outros residentes — estudantes, jornalistas, uns intercambistas. Eu moro no Vila Madalena, a uns vinte minutos dependendo do tráfego, que na prática significa de quinze a cinquenta e cinco."
"Lógica clara."
"SP não tem lógica. Tem padrões. É diferente."
Eles pararam num sinal. Do lado esquerdo, uma moto entre os carros com a fluidez de quem nunca considerou que aquilo poderia terminar mal. Do lado direito, uma criança vendendo balas pela janela. Em cima, um outdoor anunciando um apartamento com "vista privilegiada para o Parque do Ibirapuera" disputando espaço com outros seis outdoors em pilha.
Diego tirou o celular e fotografou sem pensar.
"Turista," disse Gustavo.
"Pesquisador documentando o campo."
"Claro."
O sinal abriu. São Paulo continuou acontecendo, implacável e indiferente e completamente inteiriça naquele jeito de cidades muito grandes que não precisam da sua aprovação para existir. Diego ficou olhando pela janela com a sensação específica de estar na superfície de algo que ia demorar muito tempo para entender.
Vinte e dois anos de segunda mão. Agora o original.
Ele ia precisar de mais tempo no sinal pra pensar, mas o sinal não ligava pra isso.
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