
Desejo Proibido em Bali
Romance Contemporâneo
Quando Laura Mendes aceita o convite de última hora para substituir uma colega em uma viagem de incentivo corporativa para Bali, ela não imagina que aquele mês mudaria sua vida para sempre. Recém-divorciada e em busca de recomeçar, Laura vê…
CAPÍTULO 1
O Convite Inesperado
Laura Mendes observava a chuva escorrer pela janela do seu apartamento em São Paulo enquanto segurava a xícara de café já frio entre as mãos. Aquela segunda-feira cinzenta parecia a metáfora perfeita para sua vida nos últimos seis meses. Desde o divórcio, tudo havia se tornado uma sucessão de dias iguais, mergulhados numa rotina que oscilava entre o escritório sufocante e aquele apartamento que ainda cheirava a promessas quebradas.
O celular vibrou sobre a mesa de centro, tirando-a do transe melancólico. Era Beatriz, sua melhor amiga desde os tempos de faculdade.
— Bia? Ainda nem são sete da manhã...
— Laura, você precisa sentar — a voz de Beatriz soava estranhamente animada do outro lado da linha.
— Já estou sentada — respondeu Laura, franzindo a testa.
— Então se segure. A Cláudia quebrou a perna.
Laura levou alguns segundos para processar a informação.
— A Cláudia da contabilidade? Meu Deus, ela está bem?
— Vai ficar bem, mas não pode viajar. E adivinha quem a diretoria escolheu para substituí-la na viagem de incentivo?
O coração de Laura deu um salto descompassado.
— Não.
— Sim! Bali, Laura! Um mês inteiro em Bali! Você tem que aceitar!
— Bia, eu não posso simplesmente largar tudo e...
— Largar o quê? — interrompeu Beatriz com aquela franqueza brutal que só melhores amigas podem ter. — Seu trabalho está uma chatice, você não sai de casa há meses, e a única companhia que você tem são esses livros de autoajuda que não estão ajudando nada.
Laura abriu a boca para protestar, mas as palavras morreram em sua garganta. Beatriz tinha razão. Sua vida havia se transformado numa prisão confortável de lamentações e autocomiseração.
— O voo sai quinta-feira — continuou Beatriz. — Três dias. Tempo suficiente para você comprar roupas de verão e deixar de ser essa múmia emocional que você virou.
— Obrigada pela sinceridade brutal — murmurou Laura, mas um sorriso pequeno começava a formar nos cantos de sua boca.
— É para isso que servem as melhores amigas. Então? Vai ou não vai?
Laura olhou ao redor do apartamento. As paredes brancas e vazias, a ausência de vida, o silêncio opressor. Quando foi a última vez que havia sentido algo além daquela dormência existencial?
— Eu vou — as palavras saíram antes que ela pudesse reconsiderar.
O grito de comemoração de Beatriz foi tão alto que Laura teve que afastar o telefone do ouvido.
***
Três dias depois, Laura estava no Aeroporto Internacional de Guarulhos, cercada por oito colegas de trabalho que mal conhecia. A empolgação contagiante do grupo começava a dissolver suas últimas resistências. Talvez aquela viagem fosse exatamente o que ela precisava.
— Primeira vez em Bali? — perguntou Daniela, da equipe de vendas, uma morena simpática com um sorriso acolhedor.
— Primeira vez na Ásia — admitiu Laura, ajeitando a alça da mochila no ombro.
— Você vai amar. Já fui duas vezes. A energia daquele lugar é... transformadora.
— Espero que sim — murmurou Laura, mais para si mesma do que para Daniela.
Foi quando ela a viu pela primeira vez.
Camila Seixas atravessava o saguão do aeroporto como se desfilasse numa passarela particular. Alta, loira, com aquele tipo de beleza que parecia calculada até o último detalhe. O vestido leve e elegante, a mala de grife, os óculos escuros enormes. Tudo nela gritava sofisticação e controle.
— Essa é a Camila — sussurrou Daniela ao seu ouvido. — Gerente de marketing. Linda, né? Mas cuidado. Ela não é exatamente do tipo que faz amizades.
Laura observou enquanto Camila cumprimentava o grupo com sorrisos educados mas distantes, como uma rainha concedendo audiência aos seus súditos. Havia algo na postura daquela mulher que a incomodava, embora não soubesse definir exatamente o quê.
— Pessoal, atenção! — chamou Ricardo Tavares, o diretor comercial que organizara a viagem. Um homem na casa dos cinquenta, barriga proeminente e sorriso largo. — Nosso voo sai em duas horas. Vamos fazer o check-in juntos para não perder ninguém pelo caminho.
O grupo se movimentou em direção aos balcões da companhia aérea. Laura ficou por último na fila, ainda processando o fato de que estava realmente fazendo aquilo. Fugindo. Não, corrigiu-se mentalmente. Recomeçando.
— Nervosa? — a voz grave e feminina veio de trás dela.
Laura virou-se e encontrou Camila observando-a com um sorriso que não chegava aos olhos.
— Um pouco — admitiu Laura. — Decisão de última hora.
— As melhores sempre são — Camila deu um passo à frente, eliminando o espaço entre elas com uma familiaridade que parecia invasiva. — Você é a Laura, certo? A substituta da Cláudia.
Havia algo na forma como ela disse "substituta" que soou quase depreciativo.
— Sou. E você é a Camila.
— Gerente de marketing — completou a loira, estendendo a mão com unhas perfeitamente feitas em vermelho sangue. — Espero que esteja preparada. Bali tem uma forma muito particular de... revelar quem realmente somos.
O aperto de mão foi firme demais, prolongado demais. Laura sentiu um calafrio percorrer sua espinha que nada tinha a ver com o ar-condicionado do aeroporto.
— Vou tentar estar — respondeu Laura, libertando sua mão.
Camila sorriu daquela forma enigmática novamente antes de se afastar, deixando um rastro de perfume caro e uma sensação incômoda no ar.
***
Vinte e quatro horas depois, após duas escalas extenuantes e uma quantidade absurda de café instantâneo, o grupo finalmente aterrissou no Aeroporto Internacional Ngurah Rai, em Bali.
O calor úmido envolveu Laura assim que ela saiu do terminal com ar-condicionado. Era diferente do calor de São Paulo. Havia algo denso naquele ar, quase palpável, carregado de umidade e do perfume adocicado de flores que não conseguia identificar.
— Bem-vindos ao paraíso! — anunciou Ricardo, abrindo os braços teatralmente.
Um homem balinês de sorriso gentil e camisa florida segurava uma placa com o nome da empresa. Atrás dele, uma van branca e espaçosa aguardava para transportá-los até o resort.
Durante o trajeto de quarenta minutos, Laura colou o rosto na janela, absorvendo cada detalhe daquela paisagem alienígena e fascinante. Os templos ornamentados que surgiam a cada esquina, as oferendas de flores depositadas nas calçadas, as mulheres balinesas com cestos na cabeça caminhando com uma graça que desafiava a gravidade. Os arrozais em terraços que se estendiam como degraus verdes em direção ao céu. As bandeirinhas coloridas penduradas por toda parte, dançando ao vento.
Era lindo. Era exótico. Era assustadoramente diferente de tudo que conhecia.
— Olhem! — exclamou Daniela, apontando pela janela. — É o resort!
Laura virou-se e sentiu o ar escapar de seus pulmões.
O Navarro Resort Ubud erguia-se diante deles como uma visão saída de um sonho. Não era um daqueles resorts gigantescos e impessoais. Era algo menor, mais íntimo, construído em harmonia absoluta com a natureza ao redor. Pavilhões de madeira escura e pedra vulcânica distribuídos em níveis diferentes, conectados por caminhos de pedra ladeados por jardins tropicais exuberantes. Uma piscina de borda infinita que parecia fundir-se com o vale verdejante abaixo. E ao fundo, envolta em névoa matinal, a silhueta majestosa do Monte Agung.
— Meu Deus — sussurrou Laura.
— Impressionante, não é? — comentou Camila ao seu lado, mas sua voz soava entediada, como se já tivesse visto coisa demais na vida para se impressionar com qualquer coisa.
A van parou em frente ao pavilhão principal. Funcionários balineses, todos vestidos com uniformes elegantes que misturavam modernidade e tradição, aguardavam com sorrisos calorosos e bandejas de bebidas de boas-vindas.
— Selamat datang — cumprimentou uma jovem balinesa de beleza serena, oferecendo a Laura um copo alto de suco tropical decorado com flores. — Bem-vinda ao Navarro Resort.
Laura aceitou a bebida, tomando um gole do líquido doce e refrescante. Manga, maracujá, algo mais que não conseguia identificar. Delicioso.
— Por favor, sigam-me para o lobby — disse a recepcionista, conduzindo o grupo por uma passarela de madeira suspensa sobre um lago repleto de lótus em flor.
O lobby era uma estrutura aberta, sem paredes, apenas colunas elegantes sustentando um teto alto de palha trançada. Móveis de madeira escura, almofadas coloridas, estátuas de divindades balinesas, o som constante de água corrente de uma fonte ornamentada. E aquele cheiro. Incenso, flores, algo amadeirado e sensual que parecia impregnar cada molécula de ar.
— Ele está vindo — murmurou alguém do grupo.
Laura virou-se para ver quem havia falado e percebeu que todos olhavam na mesma direção. Seguiu os olhares e o viu.
Enzo Navarro caminhava em direção ao grupo com aquela confiança natural de quem está absolutamente confortável em seu próprio território. Alto, ombros largos sob uma camisa leve de linho branco que realçava a pele bronzeada. Cabelos escuros ligeiramente despenteados pelo vento, como se tivesse acabado de sair do mar. Olhos cor de mel que pareciam capturar e refletir a luz tropical. Um sorriso fácil, genuíno, que iluminou seu rosto quando ele abriu os braços em boas-vindas.
— Finalmente! — sua voz era grave, calorosa, com um sotaque carioca suave. — Sejam muito bem-vindos ao Navarro Resort. Eu sou Enzo, e durante as próximas quatro semanas, quero que se sintam em casa. Ou melhor, que se sintam no paraíso.
Risadas corteses do grupo. Laura percebeu que várias mulheres haviam ajeitado instintivamente os cabelos.
Os olhos de Enzo percorreram o grupo, cumprimentando cada pessoa com um aceno de cabeça, até que pousaram em Laura.
E travaram.
Foi como se o mundo ao redor tivesse diminuído de velocidade. Laura sentiu o calor subir pelo seu pescoço, tingindo suas bochechas. Aqueles olhos cor de mel a estudavam com uma intensidade que beirava o invasivo, mas de uma forma completamente diferente do desconforto que Camila lhe causara. Isso era... outra coisa. Algo que fazia seu estômago dar um nó e seu coração disparar.
Enzo piscou, como se também tivesse sido pego de surpresa por algo, e o sorriso em seus lábios se transformou em algo mais suave, mais pessoal.
— Você deve ser a Laura — ele disse, aproximando-se. — A que aceitou o convite em cima da hora.
— Como você sabe? — a pergunta saiu antes que ela pudesse filtrar.
— Eu sempre sei quem está hospedado no meu resort — respondeu Enzo, estendendo a mão. — Principalmente quando alguém é corajoso o bastante para mudar toda a sua vida com três dias de antecedência.
A mão dele era quente, firme, e quando seus dedos envolveram os dela, Laura sentiu uma corrente elétrica percorrer todo o seu braço.
— Não sei se foi coragem ou loucura — admitiu ela, tentando manter a voz firme.
— As duas coisas raramente são muito diferentes — Enzo segurou sua mão por um segundo mais do que o socialmente aceitável antes de soltá-la. — Mas tenho a sensação de que você fez a escolha certa.
— Enzo — a voz de Camila cortou o momento como uma lâmina afiada. A loira havia se posicionado estrategicamente ao lado dele, seu corpo levemente inclinado em sua direção numa linguagem corporal inequívoca de posse. — Não sabia que você tinha o hábito de dar atenção tão... especial a todas as hóspedes.
Havia veneno embrulhado em seda naquelas palavras.
Enzo virou-se para Camila com um sorriso educado, mas Laura percebeu que algo havia se fechado em sua expressão. A calidez de momentos atrás tinha dado lugar a uma cortesia profissional e distante.
— Camila — ele cumprimentou com um aceno de cabeça. — Que bom revê-la.
*Revê-la?* Laura sentiu algo desconfortável se mexer em seu estômago. Eles se conheciam?
— Faz quanto tempo? Dois anos? — Camila deu um passo ainda mais próximo de Enzo, sua mão pousando levemente em seu antebraço num gesto que parecia ao mesmo tempo casual e absolutamente intencional. — Você está ainda mais bonito. Bali claramente lhe faz bem.
— Obrigado — Enzo gentilmente se afastou, libertando seu braço. — Bom, deixem-me explicar como funcionará a estadia de vocês.
Mas enquanto ele falava sobre horários de café da manhã, atividades opcionais e as regras do resort, Laura mal conseguia se concentrar. Seus olhos alternavam entre Enzo e Camila, captando cada microexpressão, cada linguagem corporal sutil.
A forma como Camila o observava não era apenas admiração. Era possessividade. Como se ele fosse algo que ela já tivesse reivindicado para si, e a simples presença de Laura perto dele fosse uma transgressão inaceitável.
E Enzo? Laura não conseguia decifrar completamente. Ele era educado com Camila, mas havia uma distância deliberada em cada movimento, como se estivesse tomando cuidado para não dar margem a... o quê? Mal-entendidos? Esperanças?
— Agora, a Dewi vai acompanhá-los até suas vilas — finalizou Enzo, fazendo um gesto em direção à recepcionista balinesa. — Descansem, se refresquem, e nos encontramos hoje à noite para o jantar de boas-vindas às oito horas no restaurante principal. Será um prazer conhecê-los melhor.
Seus olhos pousaram em Laura novamente quando disse aquelas últimas palavras, e ela sentiu seu coração dar aquele salto irregular mais uma vez.
***
A vila de Laura era uma pequena obra-prima arquitetônica. Um chalé de madeira escura com teto de palha, janelas enormes que se abriam para um jardim privativo exuberante, uma cama king-size com dossel de voile branco, móveis balineses entalhados à mão, e um banheiro aberto que incluía uma banheira de pedra cercada por plantas tropicais. Tudo era perfumado com aquele incenso característico que ela já começava a associar com Bali.
Mas o que realmente tirou seu fôlego foi o deck privativo. Uma pequena piscina de borda infinita que parecia flutuar sobre o vale verde abaixo, espreguiçadeiras confortáveis, e uma vista que poderia facilmente estar numa capa de revista de viagens.
Laura deixou-se cair numa das espreguiçadeiras e, pela primeira vez em meses, sentiu algo que quase se parecia com paz.
Seu celular vibrou. Uma mensagem de Beatriz.
*"Chegou bem? Já conheceu algum balinês gostoso? Manda fotos!"*
Laura sorriu, tirando algumas fotos do deck e da vista antes de responder.
*"Cheguei. O lugar é surreal. E não, nada de balineses gostosos. Mas tem um dono de resort brasileiro que é... complicado."*
A resposta de Beatriz veio em segundos.
*"COMPLICADO COMO? Quero detalhes!"*
Laura hesitou antes de digitar.
*"Complicado como em 'fez meu estômago dar um nó com um simples aperto de mão'. E complicado como em 'tem uma colega de trabalho que claramente o quer para ela'. Bia, eu vim aqui para me curar do divórcio, não para entrar em outra confusão."*
*"Ahhhh, Laura. Às vezes a cura vem exatamente da 'confusão'. Não estou dizendo para você se apaixonar. Mas um flerte inocente? Um beijo sob as estrelas tropicais? Uma aventura sem compromisso? Você MERECE se sentir viva de novo."*
Laura olhou para a tela do celular por um longo momento antes de guardá-lo sem responder. Beatriz tinha um ponto. Mas seria tão simples assim? Permitir-se sentir algo depois de tanto tempo entorpecida?
O rosto de Enzo surgiu em sua mente. Aqueles olhos cor de mel. O sorriso que parecia iluminar tudo ao redor. A forma como seus dedos haviam segurado os dela por um segundo a mais que o necessário.
E então, inevitavelmente, a imagem de Camila. A loira perfeita, sofisticada, claramente interessada. E claramente disposta a lutar pelo que queria.
Laura suspirou, fechando os olhos e deixando o sol tropical aquecer seu rosto.
Ela havia vindo a Bali para se encontrar, para se curar, para recomeçar.
Não tinha ideia de que estava prestes a se perder completamente.
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