Cúmplice Perfeita
thriller
Beatriz Cavalcante passou cinco anos na Polícia Civil de São Paulo aprendendo que a maioria dos crimes é banal — e que as pessoas que os cometem raramente parecem capazes disso. Depois que um processo interno encerrou sua carreira na…
CAPÍTULO 1
A Fachada Mais Bonita do Mundo
Existem lugares que parecem construídos especificamente para fazer você sentir que está fazendo algo errado ao chegar neles de carro alugado com GPS desatualizado.
A Tenuta Ferrini é um desses lugares.
Larguei a Fiat Panda no acostamento da estrada provincial e fiquei olhando pelo para-brisa por um tempo que certamente pareceria estranho para qualquer pessoa que passasse. Não passou ninguém. A estrada estava vazia desde Greve in Chianti, e os ciprestes ladeavam o caminho de terra que subia até os portões da propriedade como uma escolta que não foi contratada para ser amigável.
Era agosto. O calor da Toscana não é o calor de São Paulo — não tem a umidade, não tem o cheiro de asfalto e exaustão. Tem o cheiro de terra seca e lavanda e alguma coisa fermentada que provavelmente tem um nome bonito em italiano e que eu descreveria como "uva quente tentando virar outra coisa". O sol batia nas pedras cor de mel do casarão lá em cima como se soubesse que estava sendo fotografado.
Peguei o celular. A mensagem do cliente ainda estava lá, a última antes do silêncio que começaria dois dias depois e que ainda não era problema nenhum naquele momento:
*Tenuta Ferrini, Greve in Chianti. Fale com o Sr. Aldo Ferrini. Diga que veio para a auditoria. Ele estará esperando.*
Auditoria. A palavra mais neutra que existe quando você não quer dizer o que está realmente fazendo.
O que eu estava realmente fazendo: verificar a existência e identidade de um suposto herdeiro. De quem, exatamente? O cliente não tinha sido específico. "Um parente que pode ter direitos sobre a propriedade" era a formulação aproximada que eu havia anotado durante a chamada de vídeo — câmera desligada, voz modificada o suficiente para ser desconcertante mas não o suficiente para ser profissional. Eu aceito casos assim quando o pagamento adiantado é substancial. O pagamento tinha sido substancial.
Coloquei o carro em marcha e subi a estradinha.
Os portões estavam abertos. Isso é sempre um sinal de alguma coisa, mas nunca fico certa de qual.
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A villa em si era exatamente o que você esperaria de uma vinícola toscana fundada no século XVI por uma família que tem o bom senso de parecer ter fundado a civilização junto: pedra desgastada, janelas altas com venezianas cor de floresta, uma glicínia que subia pela fachada com a autoridade de quem mora ali há mais tempo do que qualquer Ferrini. Ao redor da villa central, o borgo — um punhado de casas de pedra que devia ter abrigado trabalhadores rurais por séculos e que agora abrigava os funcionários permanentes da tenuta, porque no mundo moderno algumas coisas mudam de nome mas não de função.
No pátio interno, havia um homem esperando.
Carlo Ferrini tinha quarenta e oito anos segundo o que eu havia pesquisado, mas parecia mais. Não pelo aspecto físico — ele era bem-posto, cabelos escuros com grisalho nas têmporas, camisa de linho bem passada apesar do calor. Parecia mais velho pela maneira como ficava de pé: como se estivesse com medo de que o chão cedesse se ele se movesse rápido demais.
— Signora Cavalcante. — Ele pronunciou errado. *Cavalcânti*. Não corrigi. — Bem-vinda à Tenuta Ferrini. Viagem boa?
— Tranquila. A estrada de Greve é bonita.
— Sempre foi. — Ele sorriu com a parte inferior do rosto. Os olhos ficaram de plantão. — Minha esposa preparou café. Se quiser, antes de se instalar.
Quis. O café foi a primeira coisa genuinamente boa desde o aeroporto.
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A cozinha da villa era grande o suficiente para parecer uma escolha arquitetônica deliberada em vez de simplesmente prática. Teto alto, vigas de madeira escura, uma longa mesa de pedra no centro que provavelmente tinha visto mais refeições do que a maioria dos restaurantes de São Paulo. Potes de conserva nas prateleiras. Um buquê de alecrim em um jarro de barro.
Giulia Ferrini estava tirando uma bandeja do forno quando entrei. Quarenta e cinco anos, cabelos castanhos presos de forma útil em vez de elegante, avental que era funcional em vez de decorativo. Ela tinha o tipo de rosto que você descreve como "agradável" e depois percebe que não consegue descrever mais nada com precisão.
— Signora, seja bem-vinda. — Ela colocou a bandeja na mesa — cantuccini, o biscoito de amêndoas que os toscanos consomem em quantidades que me parecem otimistas — e foi direto para a cafeteira. — Viagem boa?
— Boa, obrigada. — Segunda vez que respondia essa pergunta. Contaria se fosse necessário.
— Carlo me disse que você veio para uma auditoria. — Giulia disse isso de uma forma completamente neutra, servindo o café com a precisão de quem já fez isso dez mil vezes. — A tenuta tem sido auditada algumas vezes nos últimos anos. Para exportação, para certificações. Estamos acostumados.
— Esse tipo de processo é sempre um pouco diferente, — eu disse, da maneira mais vaga possível, o que é uma técnica que aprendi na polícia e que funciona porque as pessoas tendem a preencher o vazio com o que elas já pensam que é verdade.
Giulia assentiu com a expressão de quem recebeu uma informação útil. Carlo ficou em pé perto da janela, olhando para o pátio.
O café era excelente.
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Aldo Ferrini me recebeu no escritório às cinco da tarde, depois de me avisar, através de Carlo, que estava ocupado até essa hora.
O escritório ficava no segundo andar, com vista para os vinhedos. A adega — *cantina*, como eles chamavam, mas eu pensava nela como adega mesmo, pelo cheiro que subia pela janela aberta — estava abaixo e à direita, uma construção separada com porta de madeira pesada. Os vinhedos se estendiam além, fileiras de videiras no calor da tarde, verde-escuras e ordenadas como uma coisa que foi plantada para durar.
Aldo Ferrini tinha setenta e dois anos e a postura de alguém que nunca considerou necessário ser gentil quando podia simplesmente ser preciso. Sentado atrás de uma escrivaninha que provavelmente estava naquela posição desde antes do meu nascimento, ele me olhou por um momento com a expressão de um alfandegário que suspeita de tudo mas não tem prova de nada específico.
— Signora Cavalcante. — Também errou. Talvez o meu sobrenome fosse simplesmente difícil para italianos. — Meu filho me informou da sua chegada.
— O senhor estava esperando, acredito. — Coloquei isso no tom mais neutro que consegui.
— Estava. — Ele não acrescentou nada.
Expliquei minha missão nos termos que o cliente havia me pedido: auditoria de genealogia, verificação de documentação para fins de herança eventual, procedimento padrão quando a estrutura familiar de uma empresa familiar atingia certa complexidade. Falei por três minutos com a fluência de alguém que acredita no que está dizendo, que era exatamente o tom que eu precisava.
Aldo ouviu com os braços cruzados e a expressão de alguém que está ouvindo uma segunda versão de uma história que já conhece.
— Encontre o que precisar encontrar, — ele disse, quando terminei. — A tenuta está à sua disposição. Carlo vai te mostrar onde tudo está. — Ele abriu uma gaveta da escrivaninha com o ar de quem declara uma reunião encerrada. — Se precisar de mim, fale com Carlo.
Saí do escritório com a certeza confortante de ter sido recebida exatamente como uma inconveniência necessária, que pelo menos é uma posição clara.
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O quarto de hóspedes ficava na ala oeste da villa, com janela dando para o pátio e, além, o borgo. As casas de pedra lá embaixo tinham luz acesa em algumas janelas, embora fosse cedo para isso. Uma mulher idosa sentada em uma cadeira do lado de fora de uma das casas olhou para cima na direção da villa com a regularidade de alguém que faz aquilo várias vezes por dia.
Desfiz a mala com o método que desenvolvi ao longo de anos fazendo isso em quartos de hotel e casas que não eram minhas: documentos de trabalho na gaveta da mesa, roupas no armário por categoria, kit de higiene no banheiro em ordem de uso. Não é obsessão. É que quando você não conhece um lugar, organizar o que você trouxe é a única maneira de ter algum controle sobre alguma coisa.
Sentei na beira da cama e abri o arquivo no tablet.
O cliente havia me passado o seguinte: nome da família, nome da propriedade, localização, e a instrução de verificar a identidade de "um possível herdeiro cujos documentos precisam ser confirmados antes de qualquer reivindicação formal". Nenhum nome. Nenhuma descrição. Nenhuma indicação de quem, entre as pessoas desta propriedade ou fora dela, era o meu alvo.
Eu não sabia quem estava procurando.
Isso, reconhecia, era um problema que eu deveria ter resolvido antes de embarcar para Florença. Mas o pagamento tinha sido substancial, e na época eu havia assumido que as informações viriam. As informações não tinham vindo. E agora eu estava em um quarto de pedra na Toscana, com a janela aberta deixando entrar o cheiro de lavanda e vinho e o som distante de grilos, tendo dito a um patriarca de setenta e dois anos que estava aqui para "encontrar o que precisasse encontrar" sem ter a menor ideia do que isso era.
Do lado de fora, o sol estava descendo sobre os vinhedos com a eficiência de quem tem um horário a cumprir.
Eu tinha chegado à casa certa. Não tinha certeza, ainda, se era a investigação certa.
Fechei o tablet. Fora, o último sol da tarde transformava as pedras da villa em ouro velho. Era muito bonito. Eu desconfio de coisas muito bonitas por princípio profissional.
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