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Carregando...romance-contemporaneo
Mariana Luz chegou a Abu Dhabi como a nova chefe de comunicação da Vega Racing. Na noite antes de começar, tomou um drinque sozinha no bar do hotel e foi para o quarto de um homem que só disse o…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — Antes de Saber
O bar fechava à uma da manhã.
Mara sabia disso porque tinha lido o guia do hotel três vezes durante o voo — onze horas de São Paulo a Abu Dhabi com escala em Doha, onde ela perdeu a conexão e ficou uma hora sentada num gate sem janelas comendo um sanduíche que custava vinte e dois dólares e tinha gosto de papelão morno. O bar fechava à uma. Eram onze e quarenta e dois. Ela tinha tempo para um drinque, talvez dois, e depois subia para o quarto onde ia fingir que dormia até o alarme das seis.
Era o primeiro GP da temporada. Era o primeiro dia na Vega Racing. Era o tipo de noite em que você não quer fazer nada e ao mesmo tempo sabe que se ficar no quarto vai ficar acordada até as três pensando em tudo que pode dar errado.
O bar do hotel Yas Island tinha aquele tom que bares de hotel internacional sempre têm — luz âmbar que faz todo mundo parecer mais bronzeado, música que existe só para preencher silêncio, e um cardápio em seis idiomas que essencialmente oferecia três variações do mesmo drinque. Mara pediu whisky com gelo. Não porque queria whisky — queria uma taça de vinho branco gelado — mas porque whisky parecia mais difícil de reprovar. Não tinha sentido nenhum. Ela sabia que não tinha sentido nenhum.
Estava sozinha no balcão. O barman era filipino e tinha a cortesia profissional de não tentar puxar conversa. Havia duas mulheres numa mesa do fundo que Mara identificou como jornalistas pelo jeito que olhavam para o celular a cada trinta segundos — aquele olhar específico de quem está esperando notificação de alguém que manda notificação importante mas não prioritária, que é exatamente o tipo de pessoa que jornalistas de esporte sempre estão esperando notificação. Havia um casal de turistas que não era casal — ela viu quando eles se sentaram: o homem com pressa, a mulher com aquele jeito particular de colocar a bolsa na cadeira entre os dois.
CAPÍTULOS
E havia um homem três bancos à sua esquerda no balcão.
Ela não prestou atenção nele de imediato. Prestou atenção no copo dele — uísque também, sem gelo, quase no fim. E nas mãos que seguravam o copo, que eram grandes e tinham a palma com uma textura que não era normal, uma calosidade que ela não conseguia identificar à distância mas que notou de qualquer jeito, porque era analítica demais para o próprio bem e isso incluía observar detalhes físicos de estranhos em bares de hotel. Depois prestou atenção no restante dele: os ombros que tinham aquela largura específica de quem treina o corpo como instrumento de trabalho, não de aparência. A postura no banco de bar que era relaxada mas não mole — alguém acostumado a sentar ereto durante horas. As mãos de volta, que ela não conseguia parar de notar.
— Você também leu o guia do hotel — disse ele.
Mara piscou. Virou.
O homem estava olhando para ela com uma expressão que não era exatamente sorriso — era mais curiosidade, a versão não performática dela. Britânico, pensou ela automaticamente, e depois: não, não exatamente. Algo no "também" que soou mais aberto nas vogais do que inglês britânico costuma soar. Australiano, talvez, com inglês britânico por cima, como camadas de sotaque acumuladas ao longo de anos.
— O quê?
— O bar fecha à uma. — Ele inclinou o copo para o lado, levemente. — A maioria das pessoas que aparecem aqui perto da meia-noite ou não sabe que fecha ou chegou de avião há poucas horas. Você chegou de avião.
— Como você sabe que não sou moradora.
— Você ainda está com o olho enrugado do cinto de segurança. — Pausa. — Olha assim para o celular quando ele vibra, não olha naturalmente — ainda se adaptando ao fuso. E tem aquela qualidade de pessoa que está aqui por função, não por prazer. Não é má qualidade. Só é específica.
Ela olhou para o próprio celular. Era verdade. Tudo era verdade, o que era levemente perturbador.
— É perturbador que você tenha notado isso.
— Provavelmente. — Ele não pareceu perturbado por ser perturbador. — De onde?
— São Paulo.
Ele assentiu como se isso explicasse algo. Deslizou dois bancos para mais perto dela — não invasivo, mas definitivo, a distância reduzida com uma economia de movimento que não precisou de nenhuma palavra de cobertura. Ela não se afastou.
— Eu sou Seb.
— Mara.
Ele não perguntou sobrenome. Ela também não perguntou. Havia algo de descansante nisso — uma conversa que existia no momento presente sem o peso de localizar as pessoas dentro de hierarquias ou histórias.
O barman voltou. Seb pediu mais um, ela pediu mais um. O barman colocou os copos sem cerimônia e sumiu na direção do estoque. As jornalistas do fundo estavam rindo de alguma coisa no celular de uma delas. O casal que não era casal tinha ficado em silêncio, cada um olhando para o próprio lado do bar com a expressão de pessoas que chegaram a alguma conclusão mas ainda não sabem o que fazer com ela.
— Trabalho ou turismo? — Seb perguntou.
— Trabalho. Você?
— Trabalho.
— O que você faz?
Ele considerou isso por um segundo mais longo do que deveria para uma pergunta simples. Havia algo deliberado na pausa — não evasivo, mas como alguém escolhendo o ângulo certo de entrada.
— Dirijo.
— Motorista de aplicativo em Abu Dhabi parece um nicho específico.
Ele deu um som que era quase risada — não chegou a ser risada, ficou no caminho, e era um som mais grave do que ela esperava, com aquela abertura australiana nas vogais. — Não exatamente. E você?
— Comunicação.
— Para o GP?
— Para uma equipe. — Ela não especificou. Havia algo de libertador em não especificar — a noite inteira existindo naquele espaço sem enquadramento profissional. — Você acompanha F1?
— Às vezes.
Ela aceitou isso. Bebeu o whisky. Era melhor do que esperava — o barman havia colocado um cubo de gelo maior do que o padrão e havia algo nessa atenção silenciosa a detalhes que ela apreciava.
Eles ficaram em silêncio por um tempo que não foi desconfortável, o que era suficientemente incomum para ela registrar. Mara não tinha a facilidade de silêncio com estranhos — tinha facilidade com estrutura, com agenda, com a conversa que ia de A para B com propósito claro. Silêncio com estranhos normalmente ficava largo demais, cheio de responsabilidade de preenchimento, a obrigação social de produzir palavras que justificassem a presença de dois corpos no mesmo espaço.
Com ele não ficou.
— Você não dorme no avião — disse ele. Não era pergunta.
— Não. Você?
— Normalmente sim. Essa rota não. — Ele girou o copo levemente. — Tem algo em Doha que não deixa.
— O gate sem janela.
Ele olhou para ela. — Gate C14.
— Gate C14.
Ela riu. Não planejou rir — simplesmente aconteceu, pequeno e genuíno, e ele a observou rir com aquela mesma atenção não performática que ela tinha notado antes. Havia algo levemente incômodo em ser observada com atenção desse tipo. Incômodo não era a palavra certa. Era o oposto de incômodo — era o nome que ela dava quando não queria dar o nome que a palavra realmente tinha.
— O que você faz quando não consegue dormir num hotel novo? — ele perguntou.
— Leio os materiais do briefing de amanhã.
— De novo?
— Na terceira vez eu consigo dormir.
— Isso é perturbador.
— Você disse que era perturbador me observar. Nós dois somos perturbadores, está resolvido.
Dessa vez ele riu de verdade — rápido, contido, mas real. A voz era mais grave do que ela esperava. As vogais mais abertas quando ria — mais Perth do que Liverpool, ela pensaria mais tarde, depois de ter contexto para o mapa.
— O que você ia fazer se a temporada não tivesse começado amanhã? — ela perguntou, porque havia algo nele que fazia perguntas parecerem naturais, e ela gostava de fazer perguntas mesmo que raramente o admitisse.
— Dormia oito horas e ia correr de manhã.
— Disciplinado.
— Necessário. — Uma pausa. — E você?
— Ia ligar para minha mãe e fingir que estava descansando enquanto lia o briefing mesmo assim.
Ele deu aquele som de quase-risada de novo. — Pelo menos é honesta sobre isso.
— Só comigo mesma, geralmente.
O barman anunciou last call às doze e cinquenta.
Mara olhou para o copo. Estava no meio. Olhou para o copo de Seb. Também estava no meio. Havia uma matemática implícita acontecendo e ela estava calculando mesmo sem querer calcular — a proporção de drinque restante versus tempo disponível versus o que acontecia se os dois terminassem ao mesmo tempo.
— Você vai subir? — ele perguntou.
— Sim.
— Eu também.
Eles dividiram o silêncio mais um minuto enquanto terminavam os drinques. Ela não estava embriagada — dois whiskys num corpo que não tinha comido quase nada desde o sanduíche de papelão, talvez, mas não embriagada. Estava clara o suficiente para saber exatamente o que estava acontecendo e clara o suficiente para decidir sobre isso com informação completa.
A informação completa era: ela tinha chegado de avião num país que não era o dela, ia trabalhar o dia inteiro amanhã, não conhecia ninguém aqui ainda, e havia um homem com mãos calejadas e sotaque impossível de classificar que tinha notado o olho dela enrugado do cinto de segurança e não tinha tentado impressioná-la com nenhuma única coisa. Que tinha esperado o silêncio em vez de preencher. Que tinha dado o próprio nome e não esperado reconhecimento.
Isso era, ela decidiu, informação suficiente.
— Qual andar? — ela perguntou.
Ele a olhou. — Quatorze.
— Eu sou do doze.
Pausa. — O elevador passa pelo doze primeiro.
— Ou — disse ela, devagar — pode parar no doze.
Ele não disse nada por um segundo. Depois se levantou, jogou o dinheiro no balcão antes dela, sem drama, como se fosse coisa normal, e esperou.
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O quarto dela era o padrão internacional de hotel caro: cama king, cortinas blackout, ar condicionado que tinha uma temperatura default de dezoito graus que ninguém jamais queria. Ela não acendeu a luz principal — acendeu a da mesa de cabeceira, que era âmbar e suficiente, que criava um cone de claridade que não chegava ao banheiro nem às cortinas.
Ele entrou sem hesitar, o que ela apreciou. Homens que hesitam na porta criam uma dinâmica que é responsabilidade de todo mundo excetuando eles próprios — uma abertura que exige preenchimento, que transforma a decisão já tomada em algo que precisa ser decidido de novo.
— Você trouxe trabalho — disse ele, olhando para a mesa coberta de papéis que ela tinha organizado antes de descer.
— Eu sempre trago trabalho.
— Isso é um problema?
— Provavelmente.
Ela tirou os sapatos. Eram os de bico fechado que ela usava para viagens longas porque suportavam bem o inchaço, que era informação completamente irrelevante mas que passou pelo cérebro de qualquer jeito. Ele tirou os sapatos também, sem pedir licença, sem dramatizar, os colocou ao lado dos dela com a praticidade de alguém que estava acostumado a ser eficiente com espaços pequenos.
Havia algo muito calmo nele que ela estava tentando não analisar excessivamente porque analisar excessivamente era exatamente o tipo de coisa que interferia com decisões que ela já havia tomado e que não precisavam de revisão.
Quando ele ficou perto o suficiente para ela sentir o calor do braço dele, ela notou o cheiro: borracha, alguma coisa residual e seca que ela não conseguiu identificar, uma assinatura que não era de produto nenhum mas de trabalho — de material específico, de horas dentro de alguma coisa que retinha esse cheiro. E por cima, sabão de hotel neutro — ele tinha tomado banho havia pouco tempo, a pele ainda com aquela limpeza de chuveiro recente — e uma loção de algum tipo no pescoço, mentolada, discreta, que chegou ao nariz dela quando ele ficou perto e que ela archivou na categoria de coisas que não ia esquecer.
Ela colocou a mão no peito dele.
Era mais firme do que esperava. Não a musculatura — ela tinha visto que era atlético, que havia ombros e braços que indicavam exercício físico como parte do trabalho — mas a pressão que ela usou, que foi mais direta do que pretendia, como se o corpo estivesse mais decidido do que a cabeça. Ele não recuou. Olhou para a mão dela, depois para ela, com aquela atenção específica que ela já havia catalogado.
— Ok — disse ele.
Não era pergunta. Era confirmação. Era: recebi a informação, entendo o que você está comunicando, vou responder de forma proporcional.
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Ela tinha ficado por cima porque ele esperou — ficou de costas na cama enquanto ela se movia por cima dele com aquela calma que ela tinha, a mesma calma analítica que aplicava a tudo mas que aqui era diferente porque era corpo, era temperatura, era o peso das próprias coxas sobre as coxas dele. O quarto estava quase escuro. A luz da cabeceira mal chegava aqui, só suficiente para fazer contornos.
As mãos dele eram frias no primeiro toque — frias nas palmas, calejadas, surpreendentemente gentis para mãos que eram claramente trabalho físico intenso, que tinham aquela textura que ela havia notado no bar e que agora sentia no quadril, na cintura, na parte de baixo das costelas onde as mãos dele pousaram com uma pressão que era firme mas não apertada. Ficaram mornas rápido quando ela cobriu a mão dele com a sua — o calor passando em questão de segundos como se as mãos fossem rápidas para absorver temperatura, como um material que não precisava de tempo para se ajustar.
Ela sentiu a umidade antes de perceber que havia tomado uma decisão muito mais definitiva do que achava — e então parou de pensar sobre isso porque não cabia mais pensamento no espaço que a sensação estava ocupando. Havia o peso do próprio corpo sobre o dele, a temperatura das coxas dele em contato com as suas, a pressão das mãos grandes que se moviam devagar para cima e para baixo ao longo da lateral do torso dela como se estivessem mapeando, registrando.
Ele era metódico, o que não era a palavra que ela esperaria mas era a mais precisa — não no sentido frio, mas no sentido de alguém que presta atenção genuína ao que está acontecendo e ajusta. Cada vez que ela mudava de ângulo, de pressão, de ritmo, ele registrava e respondia sem atraso, sem antecipar o que ela ia fazer, esperando o que ela fazia e acompanhando. Era uma qualidade específica de atenção que ela reconhecia como rara mesmo sem ter comparação imediata.
O pênis dele contra ela — a pressão, a temperatura — era dado que o corpo processava enquanto a cabeça ainda tentava estruturar, e em algum ponto os dois sistemas pararam de competir e ela simplesmente estava aqui, nesse quarto de hotel com ar condicionado em dezoito graus, com um homem que cheirava a borracha e sabão neutro e loção mentolada.
Então em algum ponto — ela não soube exatamente quando — ele virou o ritmo.
Não com força. Com peso. Houve uma mudança de equilíbrio que aconteceu devagar o suficiente para ela participar, as mãos grandes no quadril dela reposicionando com uma intenção clara mas sem urgência. O calor começou nas costas das coxas — uma linha de temperatura que ela conseguia rastrear, que subia devagar pela parte de trás das coxas e chegava à cintura e continuava para cima pela espinha — e ela respirou fundo pelo nariz tentando manter alguma referência. A loção mentolada no pescoço dele era o cheiro mais constante, aquela nota fria e discreta que chegava toda vez que ela se inclinava um pouco.
Ela pressionou a testa no pescoço dele. Sentiu o pulso — regular, mas não lento. Sentiu a curvatura da mandíbula quando ele virou levemente a cabeça na direção dela.
— Aqui — disse ela. Em português. Não percebeu que tinha dito em português.
Ele não parou. Não corrigiu. Mas ela sentiu a brevíssima atenção dele se aguçar — uma leve pressão a mais das mãos, como resposta, como: recebi. Havia algo de específico em ser ouvida assim, com aquela precisão silenciosa.
Ela sentiu o clitóris com uma qualidade de pressão que não era acidente — havia intenção na forma como ele movia o quadril, que era lenta e deliberada, o tipo de movimento de alguém que não tinha pressa porque sabia que pressa não servia. O quarto cheirava ao protetor solar que ela tinha aplicado horas antes e ao âmbar do perfume que usava todo dia e à loção mentolada e a algo que não tinha nome mas que era os dois no mesmo espaço.
O som que saiu dela em seguida não tinha nome exato — não era exatamente gemido, era mais curto, mais involuntário, o tipo de coisa que não se produz de propósito e que existia antes da decisão de produzi-la. Ela pressionou mais a testa no pescoço dele e a loção mentolada entrou pelo nariz e por alguma razão esse detalhe específico — aquele cheiro, naquela temperatura, naquele momento — foi o que fixou tudo no lugar, o que transformou o quarto e a cama e as dezoito graus do ar condicionado em algo que ia ficar registrado.
Depois veio a descida — o ritmo diminuindo por graus, a respiração se normalizando em camadas, o corpo tomando consciência de si mesmo novamente de forma gradual. Ele ficou quieto enquanto o quarto assimilava o silêncio de volta. Havia só a respiração dos dois e o som baixo do ar condicionado.
Ela ficou com a cabeça no peito dele.
Não havia plano de ficar — aconteceu como consequência de não se mover, e não se mover aconteceu porque mover exigia decisão e decisão exigia pensamento e ela estava num lugar onde o pensamento ainda não tinha se reorganizado completamente. O peito dele subia e descia com respiração que estava voltando ao normal. Havia pelos — não muitos, o suficiente — e a temperatura da pele que havia aquecido além do início. Ela podia sentir o coração dele, que era regular. Que estava desacelerando.
Ele passou a mão uma vez no cabelo dela — devagar, sem possessividade, com o dorso da mão, como quem passaria a mão numa superfície para verificar a temperatura — e depois parou. A mão ficou no ombro dela, sem peso, sem pressão. Ficaram em silêncio.
Mara estava processando. Era o que ela sempre fazia, mas normalmente o processamento era verbal, estruturado, ela transformava experiência em narrativa imediatamente — classificava, nomeava, construía o frame que fazia o acontecimento gerenciável. Agora o processamento não encontrava palavras e ela deixou assim, porque forçar a estrutura parecia errado de um jeito que ela não conseguia articular.
Em algum momento ela adormeceu.
Não percebeu que estava dormindo até acordar.
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Acordou às 5h43.
O número estava no celular quando ela piscou para ele: 5:43. O quarto estava escuro, o ar condicionado em dezoito graus, e havia uma forma adormecida ocupando metade da cama de um jeito que indicava sono profundo e real — o tipo de sono de atleta, ela pensou sem entender por que pensou isso especificamente, mas havia algo na qualidade de imobilidade que era diferente do sono agitado de quem está processando.
Ela ficou quieta um segundo.
Depois sentou devagar, colocou os pés no chão, encontrou os sapatos na escuridão sem ligar a luz — a memória muscular de onze anos de quarto de hotel, o saber onde as coisas estão sem ver. Pegou o celular. Pegou o blazer da cadeira. Ficou de pé com a roupa toda na mão por um momento olhando para a forma na cama.
O ombro direito dele estava descoberto. A lençol tinha ficado pela cintura. Havia uma cicatriz lá — ela tinha passado os dedos nela no escuro sem saber o que era, tinha achado que era costura da camiseta primeiro e depois tinha percebido que era pele, uma linha irregular de tecido mais denso, não novo mas não antigo também, com a qualidade de acidente que cicatriza bem mas que guarda a memória da ruptura. Ela tinha passado os dedos duas vezes, devagar, e ele não havia acordado.
Ela olhou para a cicatriz por mais três segundos.
Depois foi para a porta.
Abriu com cuidado, segurou a maçaneta enquanto fechava para não fazer barulho, ouviu o clique suave do trinco encaixar com a precisão de quem faz isso muitas vezes em quartos de hotel em muitos países sem acordar ninguém.
O corredor do hotel estava vazio e com aquela luz artificial perpétua que corredores de hotel têm às cinco da manhã — uma claridade que não é dia nem noite, só iluminação funcional de lugar que não fecha.
Ela subiu dois andares pelas escadas, não pelo elevador.