
As Nupcias de Inverno
Romance Erotico
Aurora Menezes sempre soube que a musica era seu unico refugio. Violoncelista talentosa vivendo em Londres, ela construiu uma vida longe das sombras de um pai que nunca conheceu — um conde italiano cuja existencia era apenas um sussurro nos…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — A Carta
A chuva de Londres tinha um jeito particular de se anunciar. Não era como os temporais de verão que Aurora conhecera na infância, aqueles que chegavam com estrondo e partiam deixando o chão fumegante. Não. A chuva londrina era uma presença constante, quase íntima — um véu cinzento que descia sobre a cidade como se alguém tivesse esquecido de fechar uma torneira celestial. Naquela tarde de novembro, ela tamborilava contra as janelas do pequeno apartamento em Primrose Hill com a insistência de dedos impacientes, e Aurora Menezes pensou, não pela primeira vez, que talvez a cidade estivesse tentando lhe dizer algo.
Estava sentada no banco junto à janela, com as pernas dobradas sob o corpo e uma xícara de chá Earl Grey equilibrada precariamente sobre o joelho. O vapor subia em espirais preguiçosas, carregando o aroma de bergamota que ela associava a manhãs de ensaio e partituras rabiscadas. Seus olhos castanhos — cor de mel quando a luz os alcançava no ângulo certo — percorriam a rua lá embaixo, onde os transeuntes se moviam como peças de um tabuleiro molhado, cada um protegido por seu guarda-chuva, cada um em seu mundo particular.
O violoncelo descansava no canto da sala como um amante adormecido. Aurora o olhou de soslaio, sentindo aquela pontada familiar de culpa. Deveria estar ensaiando. A audição para a cadeira de segundo violoncelo da London Philharmonic era em três semanas, e ela ainda não dominava a passagem do terceiro movimento da Sinfonia n. 7 de Dvořák que a atormentava há dias. Mas seus dedos estavam cansados — não o cansaço físico dos músculos, que ela conhecia e até apreciava, mas algo mais profundo, um esgotamento que vinha de algum lugar que ela não conseguia nomear.
Aos vinte e sete anos, Aurora Menezes vivia a vida que havia planejado com a precisão de uma partitura. Formada com distinção pela Royal Academy of Music, tocava como freelancer em orquestras de câmara e eventos privados, ganhando o suficiente para manter o apartamento minúsculo e o estoque de cordas de reserva que guardava como um tesouro. Sua rotina era um metrônomo: acordar às seis, café preto sem açúcar, três horas de prática antes do almoço, ensaios à tarde, leitura à noite. Uma vida disciplinada, ordenada, previsível.
Uma vida que, ultimamente, a fazia sentir como se estivesse tocando a mesma nota em loop infinito.
Levou a xícara aos lábios e tomou um gole longo. O chá já estava morno demais, quase frio, mas ela não se importou. Tinha o hábito de esquecer as coisas enquanto elas esfriavam — chá, comida, relacionamentos. James, o oboísta com quem saíra por quatro meses, dissera exatamente isso quando terminaram: "Você esquece as coisas enquanto elas esfriam, Aurora. Inclusive as pessoas."
Talvez ele tivesse razão. Talvez houvesse algo nela que funcionava em uma frequência diferente, algo que a mantinha sempre a um passo de distância do mundo, como se observasse tudo através do vidro de uma vitrine. Chiara, sua melhor amiga, dizia que era "intensidade contida" — uma forma elegante de dizer que Aurora sentia demais e mostrava de menos. "Você é como um vulcão coberto de neve", Chiara dissera certa vez, com aquele seu sorriso largo de italiana que morava em Londres havia tempo demais e misturava expressões dos dois idiomas com abandono alegre. "Um giorno, cara mia, vai explodir. E vai ser magnifico."
Aurora sorriu ao lembrar. Chiara Ferrante era a pessoa mais improvavelmente perfeita que ela conhecia — barulhenta onde Aurora era silenciosa, expansiva onde Aurora era contida, generosa com seus afetos de uma maneira que Aurora admirava e invejava em partes iguais. Tinham se conhecido no primeiro ano da Academy, quando Chiara, estudante de piano com mais entusiasmo do que técnica, derrubara uma pilha de partituras sobre Aurora no corredor e passara os quinze minutos seguintes pedindo desculpas em uma mistura de inglês, italiano e gestos dramáticos que envolviam todo o corpo. Desde então, eram inseparáveis — ou tão inseparáveis quanto duas pessoas podem ser quando uma delas tem o hábito de se recolher como uma tartaruga em sua concha.
O interfone tocou. Aurora franziu o cenho — não esperava ninguém. Pousou a xícara na borda da janela e caminhou até o aparelho montado na parede ao lado da porta. O piso de madeira estava frio sob seus pés descalços, e ela se arrependeu, como sempre, de não ter comprado aquele tapete que vira na loja de segunda mão em Camden.
— Sim? — Entrega para Aurora Menezes — disse uma voz abafada pela estática. — Carta registrada. Preciso de assinatura.
Carta registrada. A expressão carregava um peso que Aurora não soube explicar. Ninguém mandava cartas registradas com boas notícias. Contas, íntimações, notificações de cobrança — o vocabulário das cartas registradas pertencia ao território das coisas que preferimos não abrir.
Apertou o botão para destrancar a porta do prédio e esperou. Ouviu os passos do carteiro subindo os dois lances de escada — o elevador estava quebrado havia semanas, o que era apenas mais um item na longa lista de coisas que o senhorio prometia consertar "na próxima semana". Abriu a porta antes que ele batesse. Era um homem baixo, de boné azul-marinho, com o rosto úmido de chuva e uma expressão de quem já fizera entregas demais naquele dia.
— Aqui, por favor — disse, estendendo um dispositivo eletrônico. Aurora assinou com o dedo indicador, produzindo uma garatuja que não se parecia nem remotamente com seu nome. Recebeu o envelope em troca.
— Obrigada. — De nada. Tenha um bom dia.
Fechou a porta e ficou parada no corredor estreito, segurando o envelope. Era grande — tamanho A4 — e pesado, feito de um papel grosso cor de creme que parecia caro demais para ser uma conta. No canto superior esquerdo, em letras impressas em relevo escuro, lia-se: "Studio Legale Ferrara & Associati — Catania, Sicilia." Abaixo, em tipo menor: "Avv. Tommaso Ferrara."
Sicília.
A palavra pulsou em sua mente como uma nota sustentada, vibrando com harmônicos que ela não esperava. Sicília. Não tinha nenhuma conexão com a Sicília. Não conhecia ninguém na Sicília. Não tinha — até onde sabia — nenhum motivo para receber correspondência de um escritório de advocacia siciliano.
Caminhou de volta à sala, sentou-se no sofá gasto cujas molas rangiam em protesto, e abriu o envelope com cuidado, deslizando o dedo sob a aba como fazia com as partituras novas — devagar, quase com reverência, como se o conteúdo pudesse se despedaçar ao toque. Dentro, encontrou várias folhas dobradas, todas com o timbre do escritório, e uma carta manuscrita presa à primeira página com um clipe dourado.
Desdobrou a carta e começou a ler.
"Prezada Sra. Aurora Menezes,
Escrevo-lhe em minha capacidade de executor testamentário do falecido Lorenzo Visconti, e peço desculpas pelo caráter inesperado desta comunicação. Compreendo que o nome acima pode não lhe ser familiar, e é precisamente por isso que considero necessário explicar as circunstâncias com a maior clareza possível.
Lorenzo Visconti faleceu no dia 3 de setembro deste ano, em sua propriedade na província de Catania, Sicília. O Sr. Visconti era um homem de considerável patrimônio e influência na região, e em seu testamento — que redigi pessoalmente e do qual sou o guardião legal — ele a designou como herdeira de uma parcela significativa de seus bens.
Reconheço que esta informação deve lhe parecer, no mínimo, desconcertante. No entanto, asseguro-lhe que não se trata de um erro. O Sr. Visconti tinha plena consciência de suas disposições testamentárias e as confirmou em múltiplas ocasiões ao longo dos últimos anos de sua vida.
Devo, porém, informá-la de que a herança vem acompanhada de certas condições que o Sr. Visconti considerou essenciais, e que requerem sua presença física na Sicília para serem discutidas. Também devo mencionar — e lamento a franqueza — que o espólio inclui obrigações financeiras significativas. Em termos simples: a propriedade dos Visconti carrega dívidas consideráveis, e a herança está, em grande medida, vinculada à resolução dessas obrigações.
Sei que lhe peço muito — que viaje a um país que talvez não conheça, para tratar de assuntos relacionados a um homem que talvez nunca tenha ouvido falar. Mas acredito que, quando compreender a totalidade das circunstâncias, entenderá por que considero esta viagem não apenas conveniente, mas necessária.
Estou à sua disposição para esclarecer quaisquer dúvidas, pelo telefone ou por correspondência. Meu número está no cabeçalho desta carta.
Com os melhores cumprimentos, Tommaso Ferrara Avvocato — Studio Legale Ferrara & Associati"
Aurora leu a carta três vezes. Na primeira, as palavras passaram por ela como água — presentes, mas sem forma, sem peso. Na segunda, começaram a se cristalizar, ganhando contornos que ela tentou encaixar em alguma moldura de compreensão. Na terceira, sentiu algo gelado se instalar em seu estômago, como se tivesse engolido um cubo de gelo inteiro.
Lorenzo Visconti.
O nome não lhe dizia nada. Absolutamente nada. Girou-o em sua mente como uma pedra entre os dedos, procurando arestas familiares, e não encontrou nenhuma. Não tinha parentes na Itália — pelo menos, não que soubesse. Sua mãe, Elena Menezes, era brasileira de São Paulo, filha de portugueses, e nunca mencionara nenhum Visconti em nenhuma conversa, em nenhum jantar de Natal, em nenhuma daquelas raras ocasiões em que a memória a levava a falar do passado.
E, no entanto. E, no entanto, havia algo na carta que a perturbava de uma maneira que ia além do óbvio. Não era a herança — embora a ideia de herdar algo de um desconhecido fosse surreal o bastante. Não eram as dívidas — embora a menção a "obrigações financeiras significativas" tivesse feito seu coração acelerar de um jeito desagradável. Era algo mais sutil, algo que pulsava entre as linhas como uma nota subaudível, sentida mais do que ouvida. Era a cuidadosa diplomacia do advogado, a maneira como ele contornava certas palavras, a forma como dizia muito sem dizer quase nada.
"Quando compreender a totalidade das circunstâncias."
O que isso significava?
Pegou o telefone. Seus dedos — longos, com as pontas calejadas pelas cordas — hesitaram sobre a tela. Não era o tipo de pessoa que agia por impulso. Normalmente, teria pousado a carta, preparado uma nova xícara de chá, pensado no assunto por um dia ou dois, talvez uma semana, antes de tomar qualquer decisão. Mas algo na qualidade daquela tarde — a chuva, o apartamento vazio, a solidão particular de um dia sem ensaios — a empurrava na direção do desconhecido.
Discou o número impresso no cabeçalho da carta. Os tons de chamada soaram diferentes — o padrão europeu continental, mais longo, mais espaçado, como um metrônomo preguiçoso. Depois de quatro toques, uma voz atendeu.
— Studio Legale Ferrara e Associati, buongiorno — disse uma mulher com voz eficiente e levemente nasalada. — Buongiorno — respondeu Aurora, e seu italiano rudimentar, aprendido mais por osmose musical do que por estudo formal, soou hesitante até para seus próprios ouvidos. — Eu... eu gostaria de falar com o Avvocato Ferrara, por favor. Meu nome é Aurora Menezes.
Houve uma pausa breve do outro lado da linha — tão breve que poderia ter sido imaginada, mas Aurora, treinada para ouvir os silêncios entre as notas, percebeu-a com clareza.
— Un momento, per favore.
O momento se estendeu. Aurora ouviu o clique de uma transferência, depois música de espera — Vivaldi, "As Quatro Estações", o segundo movimento do "Inverno", o que lhe pareceu uma escolha curiosamente apropriada. Depois, outra voz, masculina, grave, com um sotaque que dava à língua inglesa uma textura quase comestível — como azeite de oliva derramado sobre pão quente.
— Signora Menezes. — Não era uma pergunta. — Tommaso Ferrara. Agradeço por ter me contatado tão rapidamente. Esperava sua ligação, embora confesse que não tão cedo. — Uma pausa. — Imagino que tenha perguntas. — Muitas — disse Aurora, e sua voz saiu mais firme do que esperava. — Começando pela mais óbvia: quem era Lorenzo Visconti, e por que ele me deixou qualquer coisa em seu testamento?
O silêncio que se seguiu foi diferente do anterior. Tinha peso, como o silêncio entre dois movimentos de uma sinfonia — carregado de tudo o que veio antes e tudo o que está por vir.
— Essa é, de fato, a pergunta central — disse Ferrara, devagar, como quem escolhe cada palavra com a deliberação de um joalheiro examinando pedras. — E a resposta, infelizmente, não é algo que eu possa lhe dar por telefone. Não por falta de vontade, Signora, mas porque algumas verdades requerem contexto. Requerem... — ele buscou a palavra —... paisagem. Me entende?
Não. Ela não entendia. Mas algo naquele tom, naquela voz que parecia saber mais do que dizia, fez com que o cubo de gelo em seu estômago se transformasse em algo diferente — não medo, exatamente, mas uma espécie de gravidade, como se o centro do seu universo estivesse lentamente se deslocando.
— O senhor está me dizendo que preciso ir à Sicília para descobrir por que devo ir à Sicília? — Estou lhe dizendo que algumas coisas não cabem em uma ligação telefônica. — A voz dele tinha um sorriso — ela podia ouvi-lo, do mesmo jeito que ouvia sorrisos em gravações. — Posso lhe adiantar o seguinte: a herança é real. As dívidas são reais. E a conexão entre a senhora e Lorenzo Visconti é... mais profunda do que a senhora imagina.
Mais profunda.
Aurora fechou os olhos. Através das pálpebras, o mundo se reduziu a sons: a chuva na janela, sua própria respiração, a estática leve da ligação internacional, e, muito distante, quase inaudível, o som de sua vida cuidadosamente construída começando a rachar.
— Quanto — perguntou. — As dívidas. De quanto estamos falando?
Outro silêncio calculado. Ferrara era um homem que usava o silêncio como instrumento.
— O espólio dos Visconti inclui a Villa della Pietra, uma propriedade de considerável valor histórico e arquitetônico nos arredores de Catania. A propriedade está hipotecada. Há também dívidas com credores locais, obrigações fiscais em atraso, e compromissos comerciais que o Sr. Visconti assumiu nos últimos anos de vida e não conseguiu honrar. No total... — uma pausa que parecia se estender por quilômetros —... estamos falando de aproximadamente dois milhões e meio de euros.
O número caiu no silêncio como uma pedra em um lago parado.
Dois milhões e meio de euros.
Aurora abriu os olhos. O apartamento parecia menor, de repente — as paredes mais próximas, o teto mais baixo. Dois milhões e meio de euros era uma quantia que pertencia a um vocabulário que não era o dela. Ela vivia em libras contadas, em cachês de concertos e aulas particulares, em um mundo onde cinquenta libras a mais no fim do mês era motivo de alívio.
— E a herança — disse, a voz agora não tão firme — inclui meios para pagar essa dívida?
— A herança inclui a propriedade em si, que, livre de dívidas, vale consideravelmente mais. Inclui também... — ele hesitou, e pela primeira vez Aurora sentiu que a hesitação não era calculada, mas genuína —... outras disposições. Condições específicas que o Sr. Visconti estabeleceu. Condições que, se cumpridas, resolveriam a questão financeira de forma... definitiva.
— Que tipo de condições?
— O tipo que requer sua presença, Signora Menezes. — A voz dele era gentil agora, quase paternal. — Posso apenas lhe dizer que Lorenzo Visconti pensou muito antes de redigir este testamento. Ele sabia que estava pedindo algo extraordinário. E quis garantir que, em troca, a senhora recebesse algo à altura.
Aurora ficou em silêncio por um longo momento. Na rua, um ônibus vermelho de dois andares passou devagar, suas luzes refletindo-se nas poças como velas em um rio escuro. Pensou em sua mãe, em São Paulo, no apartamento estreito de Pinheiros onde Elena vivia cercada de livros e gatos e de um silêncio que sempre parecera esconder mais do que revelava. Pensou em perguntas que nunca fizera — sobre seu pai, por exemplo. Elena sempre dissera que o pai de Aurora era um homem que "passou pela minha vida como um verão", uma frase bonita o suficiente para encerrar qualquer conversa antes que ela começasse de verdade.
Um verão.
Lorenzo Visconti.
Sicília.
A conexão surgiu na mente de Aurora não como uma dedução lógica, mas como uma nota musical — súbita, inevitável, ressonante. E, com ela, veio uma onda de algo que ela não sentia há muito tempo: raiva. Não a raiva quente e explosiva de Chiara, que gritava e gesticulava e depois esquecia tudo em cinco minutos. Mas a raiva fria e densa de Aurora, aquela que se instalava em seus ossos como o inverno de Londres e ali ficava, paciente, inamovível.
— Signor Ferrara — disse, e cada sílaba era uma corda afinada. — Lorenzo Visconti era meu pai?
O silêncio desta vez foi o mais longo de todos. Tão longo que Aurora ouviu o relógio de parede do escritório do advogado — ou imaginou ouvi-lo — marcando segundos em algum lugar de Catania, a milhares de quilômetros de distância, em uma ilha que ela nunca visitara, em um país que conhecia apenas pela música que tocava.
— Signora Menezes — disse Ferrara, finalmente, e sua voz carregava o peso de algo que ele guardava havia tempo — eu não posso confirmar nem negar essa informação por telefone. O que posso lhe dizer é que a resposta a essa pergunta está entre as razões pelas quais considero sua vinda absolutamente necessária. Há documentos. Há explicações. E há... pessoas que a senhora precisa conhecer.
Pessoas. No plural. Como se Lorenzo Visconti não fosse apenas um nome em uma carta, mas um fio puxado de uma trama inteira que Aurora nem sabia que existia.
— Quando — disse ela, e percebeu que já não era uma pergunta sobre logística, mas uma declaração. — Quando o senhor sugere que eu vá?
— O mais breve possível, Signora. Há prazos legais. E há... circunstâncias que tornam a urgência não apenas conveniente, mas prudente. Se pudesse vir dentro de duas semanas, seria ideal. Providenciarei acomodação — a própria Villa della Pietra tem quartos preparados — e cobrirei as despesas da viagem pessoalmente, se necessário. Considero isso parte das minhas obrigações como executor.
Duas semanas. Quatorze dias. Em quatorze dias, a audição para a London Philharmonic. Em quatorze dias, o concerto de beneficência no Wigmore Hall que levara meses para conseguir. Em quatorze dias, toda a estrutura cuidadosa de sua vida.
— Preciso pensar — disse. — Naturalmente. — A voz de Ferrara voltou ao tom profissional, embora com uma nota de algo que poderia ser compaixão. — Mas, Signora, se me permite um conselho que vai além das minhas atribuições legais: não demore muito. Algumas portas têm prazo para fechar. E esta, em particular, não abrirá duas vezes.
Aurora desligou. Ficou sentada no sofá, segurando o telefone como se fosse um objeto que acabara de mudar de forma. A chuva continuava — sempre a chuva, nesta cidade, este véu interminável — e o apartamento estava em penumbra, porque ela não acendera as luzes e o dia já começava a escurecer às quatro da tarde, como fazia em novembro, como fazia sempre.
Olhou para o violoncelo. Ele a olhou de volta com a paciência de um velho amigo.
Dois milhões e meio de euros. Um pai que talvez nunca soubera que era pai — ou que sempre soubera e escolhera o silêncio. Uma mãe que, pelo visto, tinha mais segredos do que livros em suas estantes. Uma propriedade na Sicília, hipotecada até os alicerces. Um advogado que falava em metáforas e usava o silêncio como pontuação.
E condições. Condições não especificadas que requeriam sua presença, sua concordância, sua... o quê, exatamente?
Levantou-se. Caminhou até o violoncelo, sentou-se no banco, e o trouxe para junto de si com o gesto automático de quem abraça algo que conhece desde sempre. Ajustou o espigão, posicionou o arco, e começou a tocar — não Dvořák, não a peça da audição, mas algo que saía de um lugar mais antigo, mais profundo. Uma melodia sem partitura, sem nome, que seus dedos encontravam nas cordas como quem tateia um caminho no escuro. Algo que soava como uma pergunta sendo feita ao vazio.
Tocou até a sala ficar completamente escura. Tocou até seus dedos doerem. Tocou até a chuva parar, o que, em Londres, era quase nunca.
E quando finalmente parou, quando o último harmônico se dissolveu no silêncio do apartamento, Aurora Menezes soube — com a certeza silenciosa e irrevogável que às vezes chega sem convite — que iria à Sicília.
Não por causa da herança. Não por causa das dívidas. Não por causa das condições misteriosas de um testamento redigido por um homem que talvez fosse seu pai.
Iria porque, pela primeira vez em vinte e sete anos, a partitura da sua vida tinha uma nota que ela não conseguia prever. E essa nota a chamava com a insistência de um acorde não resolvido, pendurado no ar, esperando pela resolução que só o próximo compasso poderia trazer.
Pegou o telefone e abriu a conversa com Chiara.
"Preciso te ver. Amanhã. É urgente."
A resposta veio em segundos, como sempre: "Dio mio, o que aconteceu?? Estou aí às 9. Trago cornetti."
Aurora quase sorriu. Quase.
Depois, abriu outra conversa — esta muito mais antiga, com muito menos mensagens, e com intervalos de semanas, às vezes meses, entre cada uma. A conversa com sua mãe.
Ficou olhando para a tela por um longo tempo. Do lado de fora, a cidade pulsava com seu ritmo noturno — sirenes ao longe, o murmúrio do trânsito, a vida que continuava independentemente de cartas e revelações e mundos que rachavam nas costuras.
Começou a digitar: "Mãe, quem é Lorenzo Visconti?"
Olhou para as palavras. Olhou por tanto tempo que a tela escureceu.
Apagou a mensagem.
Ainda não. Ainda não era hora dessa conversa.
Mas seria. Em breve. E quando fosse, Aurora sabia — com a mesma certeza com que sabia a afinação de cada corda — que nada do que Elena dissesse seria suficiente para devolver ao mundo a forma que ele tinha antes daquela carta.
A chuva recomeçou. Claro que recomeçou.
E Aurora ficou ali, sentada no escuro, com o violoncelo encostado em seu ombro como um companheiro silencioso, ouvindo a melodia secreta que Londres tocava para quem tivesse paciência de escutar — uma melodia feita de chuva e solidão e promessas não cumpridas, e, agora, de algo novo. Algo que tinha cheiro de limões e som de ondas quebrando contra pedras antigas, e que vinha de uma ilha no meio do Mediterrâneo onde um homem morto a chamava pelo nome.
Sicília.
A palavra ficou em sua boca como vinho — estranha, amarga, e impossível de ignorar.
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