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Carregando...romance-contemporaneo
Helena Braga chegou a Oxford com uma bolsa Rhodes, uma mala e a certeza absoluta de que mérito existe. James Ashford chegou porque três gerações de Ashfords estudaram ali antes dele. Quando são designados como clinical partners, ambos pedem para…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1: O Peso do Subfusc
Helena Braga aprendeu cedo que existem dois tipos de lugar no mundo: os que te recebem e os que te toleram. Oxford, ela concluiu às oito da manhã de uma quinta-feira de outubro, era do segundo tipo.
A cidade acordava devagar, envolta numa neblina que não era exatamente chuva e tampouco era névoa — era algo tipicamente inglês, sem nome claro, sem compromisso de ser qualquer coisa. Helena carregava a mala pelo calçamento de pedras irregulares da High Street com a determinação de quem não tem a opção de fraquejar. A mala rangia. As pedras eram traiçoeiras. Os transeuntes passavam como se ela fosse parte do cenário, e talvez fosse — mais uma jovem com bagagem chegando para a temporada de outono, sem nada que a distinguisse exceto, talvez, o ângulo da mandíbula quando ela decidia que não ia tropeçar.
R$ 800 na conta. Uma bolsa Rhodes que cobria tuition, acomodação, e uma mesada que parecia generosa até ela converter para reais. Uma mala média com tudo que julgou necessário para dois anos. Uma Fortaleza inteira empurrada para o fundo do peito, onde ficaria guardada com cuidado cirúrgico.
Ela havia estudado o mapa do Merton College até decorar cada pátio, cada nome, cada passagem. Sabia que era um dos mais antigos de Oxford — fundado em 1264, quatro anos antes de a maioria dos países onde ela poderia ter nascido sequer existir como conceito político. Sabia que a biblioteca Mob Quad era a mais antiga do mundo ainda em uso contínuo. Sabia que o jardim do college tinha murais medievais que sobreviveram à Reforma por razões que os historiadores ainda debatiam. Sabia essas coisas porque saber era a única vantagem que ela podia construir do zero, de Fortaleza, com um computador compartilhado e a conexão de internet da biblioteca da UFC, nas noites em que sua mãe já dormia e o apartamento ficava quieto o suficiente para pensar.
CAPÍTULOS
O portão do Merton se abriu para um pátio que não precisava fazer esforço para ser impressionante. Pedra cinza amarelada. Gramado tão verde que parecia pintado por alguém com opiniões fortes sobre o que verde deveria ser. Uma torre no centro que provavelmente existia antes de o Brasil ser Brasil. Helena ficou parada por exatamente três segundos — o tempo que se permitiu para sentir o peso daquilo — e depois foi buscar sua acomodação.
O porteiro do Merton a recebeu com a eficiência profissional de alguém que havia processado gerações de estudantes assustados com a compostura de quem sabe que o college vai sobreviver a todos eles. Lhe deu a chave, o mapa do site, o número da tutora de boas-vindas, e um horário impresso para a cerimônia do dia. Helena agradeceu, pegou tudo, e encontrou o quarto sozinha usando o mapa que havia memorizado antes de chegar.
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O quarto era no segundo andar de um bloco que devia ser vitoriano — mais novo do que o resto do college, portanto, o que aqui significava apenas cento e poucos anos. Janela com visão para o pátio. Escrivaninha de madeira escura com a superfície marcada por décadas de cadernos e canetas de outros estudantes. Uma estante. Uma cama individual que parecia sólida, o que era o necessário. Um aquecedor elétrico na parede que, ela testou imediatamente, funcionava.
Helena abriu a mala e começou a desempacotar com a metodologia de quem estava mudando para um lugar pequeno e precisava otimizar o espaço. Roupas de inverno que havia comprado em segunda mão em Fortaleza — casaco de lã que custou dezessete reais numa brechó da Aldeota, suéteres que sua mãe havia separado com a expressão de quem está equipando a filha para uma expedição polar. Livros que havia trazido porque os livros técnicos custavam uma fortuna em Oxford mesmo com o desconto de estudante: o Moore's Clinical Anatomy, o Guyton & Hall, o Harrison compacto.
No fundo da mala havia uma foto plastificada — ela e seus pais na formatura da UFC, em julho. Helena de beca azul de medicina, a mãe com o batom vermelho que usava nas ocasiões importantes, o pai com a camisa social que ele chamava de "a camisa das visitas" e que cheirava ao perfume que só saia do armário em dias assim. Os três com o sorriso de quem acabou de ultrapassar algo enorme.
Ela colocou a foto na prateleira, virada para a escrivaninha.
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A cerimônia de matrícula foi às quatro da tarde.
*Matriculation*. A palavra em inglês era diferente da portuguesa: mais formal, mais densa, com a sensação de um rito de passagem que havia sido repetido tantas vezes que havia se solidificado em tradição. Helena repetia isso mentalmente enquanto se arrumava no quarto pequeno e perfeito do Merton, que cheirava a madeira antiga e a algum produto de limpeza discretamente britânico, sem odores excessivos, como se até os produtos de limpeza tivessem aprendido a ser contidos.
O *subfusc* era obrigatório.
Helena tinha lido sobre isso com cuidado — a vestimenta formal que todo estudante de Oxford usa nas cerimônias académicas e nos exames. Para mulheres: vestido ou saia preta, meia calça preta, gola fechada, laço preto (*ribbon*), e a *gown* — a beca preta curta dos undergraduates, diferente das becas longas dos graduates e dos fellows. Ela havia comprado tudo na semana anterior numa visita expressa que havia feito após a chegada para os preparativos, na loja da universidade, com o dinheiro que o orientador da bolsa lhe garantiu ser reembolsável nos primeiros trinta dias.
Quando se olhou no espelho da casa de banho do corredor, sentiu algo que não conseguiu nomear imediatamente.
Não era orgulho, exatamente — orgulho era uma emoção quente, e o que ela sentia era mais frio, mais estratificado. Não era medo — medo implicava incerteza sobre o que ia acontecer, e Helena havia se preparado para as variantes possíveis desta tarde com o cuidado de um engenheiro de sistemas. Era uma sensação de personagem — como se a mulher de preto no espelho fosse uma versão de si mesma que ainda estava aprendendo a existir fora de Fortaleza, fora do apartamento da Aldeota, fora da UFC onde todo mundo conhecia seu nome e sabia de onde ela tinha vindo.
Aqui ninguém sabia de onde ela tinha vindo.
Aqui ela era apenas o *subfusc* e o que coubesse dentro dele.
Helena amarrou o laço preto no colarinho com precisão. Verificou que o laço estava centralizado, que a beca estava sobre os ombros com a borda certa, que o vestido preto chegava ao joelho como o regulamento especificava. Saiu.
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O Sheldonian Theatre encheu com o cheiro de solenidade e naftalina académica — um cheiro que era provavelmente imaginado pela maior parte das pessoas mas que Helena jurou poder sentir enquanto encontrava seu lugar na fila dos alunos do Merton. Centenas de estudantes novos, todos de preto, todos com a mesma expressão flutuante entre excitação e terror cuidadosamente disfarçado. Os tutores e professores entravam com becas coloridas, cheias de história e hierarquia que Helena ainda estava decifrando — havia vermelho da Oxford, havia azul de Oxford, havia verde-escuro que ela não sabia nomear ainda, havia o creme amarelado dos fellows mais antigos que pareciam não precisar de explicação.
Ela encontrou seu lugar na fila do Merton e ficou parada, olhando para frente.
À sua direita, uma menina de tranças longas e pele escura como noite de Natal lhe deu um sorriso que parecia genuíno demais para ser protocolar — não o sorriso de solidariedade performática de quem identifica outra não-branca num mar de brancos e sorri por isso, mas o sorriso de alguém que simplesmente tinha uma expressão que era naturalmente amistosa. Helena notou isso. Guardou. Não estava ainda em condições de fazer amizades — ainda estava no modo de sobrevivência, inventariando ameaças e saídas possíveis, construindo o mapa do novo território.
À sua esquerda, dois rapazes ingleses conversavam sobre algo que ela não tentou acompanhar. Havia um conforto neles que ela reconhecia como o conforto de quem está em território familiar — não necessariamente porque Oxford era casa deles, mas porque o tipo de lugar que Oxford era era o tipo de lugar para o qual eles haviam sido preparados.
E então, a três pessoas à frente e ligeiramente à esquerda, ela viu ele pela primeira vez.
Alto — ela calculou 1,87 metros, o tipo de cálculo automático que ela fazia e que a maioria das pessoas não fazia. Cabelo castanho-escuro cortado com a precisão discreta de alguém que nunca precisou pensar em quanto corte de cabelo custa, porque havia sempre dinheiro suficiente para que isso não fosse um pensamento. Ombros dentro da beca como se a beca tivesse sido costurada especificamente para aqueles ombros, o que era impossível mas era o efeito. Perfil quieto, com uma linha de mandíbula que era geométrica sem ser afetada. Expressão que não era exatamente arrogante — era mais como ausência de necessidade de ser qualquer coisa para quem quer que fosse. A expressão de alguém para quem a plateia era irrelevante.
Helena olhou para ele por menos de um segundo.
O que a irritou não foi o olhar de curiosidade que todos os outros lançavam para ela ao longo da tarde — o olhar de *quem é essa, de onde veio, o que ela está fazendo aqui*, um olhar que ela conhecia bem, que havia aprendido a devolver com a temperatura de uma superfície de aço. Esse olhar ela esperava. Estava pronta para ele. Tinha desenvolvido, nos últimos vinte e dois anos, uma armadura específica para esse olhar, e a armadura funcionava.
O que a irritou foi que ele não olhou.
Não para ela. Não com curiosidade, não com avaliação, não com qualquer forma de reconhecimento da sua existência. Olhava para frente com a mesma expressão de quem está em qualquer lugar que já conhece bem demais para precisar prestar atenção — o Sheldonian, o ritual, os outros estudantes, ela.
Para ele, evidentemente, ela era invisível.
Helena Braga, que havia cruzado o Atlântico com uma mala e R$ 800 e uma bolsa que provava que ela era a melhor que sua universidade tinha produzido em anos — era invisível para um rapaz inglês em beca de Oxford que olhava para frente como se a cerimônia fosse algo que ele fazia todos os anos.
A cerimônia começou. O Vice-Chancellor falou em latim. Ela havia estudado o latim suficiente para acompanhar as fórmulas, e havia algo simultaneamente ridículo e majestoso nisso — um ritual que existia há séculos, que havia absorvido gerações de jovens que chegavam com suas esperanças e seus terrores, e que continuaria absorvendo gerações depois que todos eles fossem embora e que ninguém se lembrasse de nenhum de seus nomes.
Ela repetiu os juramentos junto com todos os outros. Em latim, depois em inglês. A voz dela não tremeu.
Mas quando o rapaz de perfil quieto a três lugares à frente finalmente se virou — não para ela, apenas um movimento mecânico para checar algo na fila — e seus olhos passaram pela fileira de estudantes sem se fixar em nada, sem se fixar nela, como se ela fosse parte da arquitetura —
Helena sentiu algo que reconheceu, depois de um momento, como raiva.
Não a raiva barulhenta. A outra. A que fica quieta e acumula. A que virou combustível para ela ao longo de vinte e dois anos toda vez que alguém havia assumido que ela não pertencia a algum lugar.
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À noite, no quarto que já cheirava um pouco mais a ela — ao creme de mãos de bergamota que ela usava desde os dezesseis anos, comprado na farmácia de bairro em Fortaleza —, Helena ligou para a Fortaleza.
A mãe atendeu no segundo toque. Isso era uma constante do universo: Isabela Braga sempre atendia no segundo toque quando a filha ligava, como se estivesse esperando do lado do telefone, como se soubesse de alguma forma que seria aquela hora e não outra. Sua mãe tinha essas certezas que pareciam superstição mas que na prática se provavam como a coisa mais científica do mundo.
— Chegou bem? — A voz da mãe era a Fortaleza toda condensada num som. O sol da tarde, a calçada quente da rua Liberato Barroso, o cheiro de caju que entrava pela janela do apartamento em dezembro, o ventilador de teto do quarto que tinha um ruído em si menor que era o som da infância de Helena.
— Cheguei — Helena disse. — Tudo certo.
— E a cerimônia? Foi bonita?
Helena olhou pela janela para o pátio do Merton, que a essa hora estava vazio e iluminado por postes que pareciam ter sido instalados no século XIX e nunca substituídos. A pedra cinza-amarelada brilhava molhada pela neblina-que-não-era-chuva. O gramado impossível de verde estava escuro agora, convertido em sombra.
— Foi bonita — ela disse. — Histórica. Tem latim e tudo.
A mãe riu. — Minha menina. Latim.
— Mãe.
— Tô falando! Latim é chique. Seu pai ficou na porta esperando notícia, viu? Ele não admite, mas ficou. Ficou lá, de pé, feito sentinela, com o telefone na mão desde as duas da tarde.
Helena fechou os olhos por um segundo. Seu pai com as mãos que às vezes ainda tinham traço de graxa de motor nas dobras dos nós dos dedos, parado na porta do apartamento da Aldeota esperando notícia da filha que estava do outro lado do oceano em Oxford. Ela abriu os olhos. Tinha que manter o peito firme.
— Tá tudo bem — ela disse. — Pode falar pra ele que tá tudo ótimo.
Havia uma pausa. Curta. A mãe conhecia ela bem demais para preencher essa pausa com ruído.
— Helena.
— Mãe, tô com sono. Fuso horário. A gente fala amanhã.
— Tá bom. Dorme bem, meu bem. Come alguma coisa antes, que você esquece.
— Eu comi.
— Não comeu.
— Comi, mãe.
— Tá bom.
Ela desligou antes que a voz da mãe pudesse fazer mais alguma coisa ao espaço dentro do peito onde ela havia guardado Fortaleza com tanto cuidado cirúrgico. O espaço já estava pressionando as costelas de dentro para fora.
Ficou deitada olhando para o teto do quarto antigo de Merton, com o barulho distante da cidade — Oxford à noite tinha um tipo diferente de barulho que ela estava aprendendo a ler, sirenes distantes, o som de bicicletas no calçamento, vozes de estudantes nos pátios — e o silêncio próximo, que era o silêncio do college, profundo e velho e com camadas.
Não admitiu, nem para si mesma, o quanto estava assustada. O quanto o pátio vazio e a pedra cinza-amarelada e o latim da cerimônia e o gramado verde-demais tinham pesado durante o dia com um peso que era simultaneamente a coisa que ela queria e a coisa que mais poderia destruí-la se ela não fosse suficientemente boa.
Mas não conseguiu dormir por um longo tempo.
E quando finalmente dormiu, a última coisa que passou pela sua cabeça foi o perfil de um rapaz inglês que não havia se dado ao trabalho de olhar para ela.
Isso, ela decidiu na borda do sono, era um problema que ela trataria depois.
Depois de todas as outras coisas que precisavam ser tratadas primeiro.