
A Última Temporada
Romance de Época
Londres, 1814. Theodora Stirling tem vinte e seis anos, seis irmãos impossíveis, e uma certeza: esta é a sua última Season. Sete temporadas. Sete fracassos. Sete anos carregando sozinha o segredo de que a família está à beira da ruína.…
CAPÍTULO 1
A Sétima Vez
Havia exatamente três coisas que Theodora Stirling sabia com certeza absoluta naquela manhã de abril: que o teto do escritório de seu pai vazava sobre a terceira prateleira da esquerda, que restavam precisamente doze libras e seis *shillings* na conta da família, e que ela preferiria enfrentar um pelotão de fuzilamento a pisar em mais um salão de baile.
Infelizmente, o pelotão não era uma opção.
O livro-caixa estava aberto sobre a escrivaninha — aquele caderno de capa gasta que Thea mantinha trancado na gaveta falsa do escritório, escondido atrás de uma edição particularmente enfadonha de sermões anglicanos que ninguém na família jamais teria interesse em tocar. As colunas de números se estendiam em fileiras impiedosas, cada uma mais desanimadora que a anterior. Despesas do trimestre: trezentas e quarenta libras. Receita do trimestre: cento e vinte e duas. A diferença era um abismo que Thea conhecia de cor, porque era ela quem olhava para dentro dele todos os dias há sete anos.
A tinta da caneta manchava seus dedos — sempre manchava, porque a pena era velha e Thea se recusava a comprar outra quando havia contas mais urgentes. O cheiro amargo de ferro e nogueira subia do papel como uma acusação silenciosa. Ela fechou o caderno com um estalo seco, guardou-o no esconderijo e respirou fundo.
Doze libras e seis *shillings*. E a *Season* começava em duas semanas.
O som de algo se estilhaçando no andar de cima interrompeu seus cálculos. Thea não se sobressaltou — anos de convivência com seis irmãos haviam eliminado qualquer reflexo de susto. Apenas ergueu os olhos para o teto manchado de umidade e contou mentalmente. Três segundos depois, a voz de Freddie chegou abafada pelas tábuas do assoalho:
— Não se preocupem! A fumaça é inofensiva! Provavelmente!
Thea fechou os olhos. Provavelmente.
Levantou-se da cadeira — cuja perna direita tinha um calço de papel dobrado, outro segredo que só ela conhecia — e alisou as saias do vestido. Era um vestido de musselina azul-acinzentada que já cumprira três *Seasons*, remodelado com habilidade suficiente para enganar olhos distraídos, mas não os atentos. A lã fina estava começando a ceder nos cotovelos. O sabão de lavanda barato que usava — porque o de rosas francesas custava o que ela gastava em velas para um mês — impregnava o tecido com uma nota limpa e sem pretensões.
Ao sair do escritório, quase tropeçou em Hugo.
Seu irmão caçula estava ajoelhado no corredor, segurando algo contra o peito com a concentração reverente de um sacerdote diante de uma relíquia sagrada. Hugo tinha onze anos, cabelos que desafiavam qualquer tentativa de penteado e uma devoção inabalável ao reino dos invertebrados.
— Hugo — disse Thea, com a calma treinada de quem já encontrara criaturas variadas em lugares inesperados —, o que você tem nas mãos?
— Um *Lucanus cervus* — respondeu ele, os olhos brilhando. — Encontrei no jardim. Perto das rosas mortas.
— As rosas não estão mortas, estão dormentes.
— Estão mortas, Thea. Papai esqueceu de regar de novo.
Isso era verdade, mas Thea não ia admitir. As rosas eram outra responsabilidade que havia caído em suas mãos — junto com o orçamento doméstico, a correspondência com os credores, as negociações com o açougueiro que já não fiava, e a delicada tarefa de manter Lady Helena Stirling afastada de qualquer informação que pudesse causar um ataque de nervos, o que incluía, essencialmente, todas as informações relevantes.
— Leve o besouro para o jardim, Hugo.
— Mas preciso desenhá-lo primeiro. Para o meu catálogo.
— Então desenhe no jardim. Se mamãe encontrar outro inseto dentro de casa, vai desmaiar, e desta vez pode ser de verdade.
Hugo pareceu considerar a probabilidade estatística de um desmaio materno genuíno versus teatral, concluiu que os números favoreciam a ficção, mas obedeceu de qualquer forma. Saiu trotando pelo corredor, o besouro aninhado nas mãos em concha, e quase colidiu com Ned, que subia as escadas com um livro aberto diante do rosto.
Edmund Stirling, o quarto filho, tinha vinte anos e a convicção inabalável de que o mundo precisava ser reformado antes do almoço. O livro em suas mãos — Thea inclinou a cabeça para ler o título — era uma cópia surrada de *Rights of Man*. Naturalmente.
— Ned, cuidado com a...
O degrau rangeu. Ned tropeçou. O livro voou. Hugo desviou por instinto. O besouro sobreviveu.
— Essa escada vai matar alguém — disse Ned, ajeitando os óculos.
— Não vai — respondeu Thea —, porque para consertá-la seria preciso dinheiro, e para ter dinheiro seria preciso que papai parasse de comprar manuscritos gregos em leilão.
Ned abriu a boca para responder, mas foi interrompido por uma nova explosão — menor desta vez, mais um estalo do que uma detonação propriamente dita — seguida pela voz de Freddie:
— Tudo sob controle!
— Freddie está fazendo pólvora de novo? — perguntou Ned.
— Freddie está fazendo algo — disse Thea. — Prefiro não investigar antes do café.
A sala de café da manhã dos Stirling era um exercício de caos contido. A mesa, que já fora elegante em tempos melhores, exibia uma toalha remendada com competência, louça que não combinava — os pratos bons haviam sido vendidos discretamente dois anos atrás — e uma quantidade impressionante de geleia que a cozinheira, Mrs. Finch, produzia em volume industrial porque frutas do jardim eram gratuitas.
Lady Helena Stirling presidia a mesa com a majestade serena de uma rainha que escolheu deliberadamente ignorar que seu reino estava em ruínas. Helena era uma mulher bonita aos cinquenta anos, com os mesmos cabelos castanho-avermelhados de Thea — embora os seus estivessem impecavelmente arranjados, porque Helena dedicava à aparência a mesma energia que Thea dedicava a manter a família solvente.
— Bom dia, querida — disse Helena, sorrindo por cima da xícara de chá. — Dormiu bem?
— Como sempre — mentiu Thea, sentando-se e servindo-se de chá preto sem açúcar. O açúcar era caro. Ela havia se convencido, ao longo dos anos, de que preferia assim — amargo, escuro, honesto.
— Ótimo. Porque temos muito a discutir.
Thea reconheceu o tom. Era o tom que Helena usava quando estava prestes a anunciar algo que considerava brilhante e que invariavelmente envolvia a vida social de sua filha mais velha. O mesmo tom que precedera a temporada do vestido amarelo (desastrosa), a temporada do sarau musical (humilhante) e a temporada em que Helena tentara ensinar Thea a rir "de forma convidativa" (criminosa).
— Mamãe...
— Esta *Season* vai ser diferente — declarou Helena.
Thea mordeu a torrada. A geleia era de amora, densa e escura, e o pão estava ligeiramente queimado nos cantos — Mrs. Finch tinha uma relação complexa com o forno. O sabor amargo do chá se misturou ao doce da fruta e ao acre do pão chamuscado, e Thea pensou, não pela primeira vez, que a vida inteira podia ser resumida nessa combinação.
— A senhora disse isso nas seis temporadas anteriores.
— Sim, mas desta vez tenho um plano.
— A senhora também disse isso nas seis temporadas anteriores.
— Theodora — Helena pousou a xícara com a precisão de um general posicionando artilharia —, ouça sua mãe. Tenho informações. Informações privilegiadas. A *Season* deste ano vai ser absolutamente...
— Se disser "mágica", levanto da mesa.
— Ia dizer "estratégica."
Rosalind entrou nesse momento, e a sala ficou momentaneamente mais bonita, como sempre acontecia quando Roz entrava em qualquer lugar. Aos vinte e dois anos, Rosalind Stirling era o que a sociedade considerava uma beldade perfeita — loira, olhos azuis, sorriso fácil, cintura estreita. Era também inteligente o suficiente para saber exatamente quanto valia essa beleza no mercado matrimonial e cínica o suficiente para não gostar da cotação.
— Mamãe está planejando de novo — observou Roz, sentando-se e pegando uma torrada com a graça de quem praticava gestos elegantes sem perceber.
— Mamãe está garantindo o futuro desta família — corrigiu Helena.
— Mamãe está tentando casar Thea — traduziu Roz.
Thea encarou a irmã. Roz deu de ombros, meio pedido de desculpas, meio solidariedade.
Foi então que Thea tomou a decisão. Talvez tenha sido o número no livro-caixa. Talvez tenha sido a escada que rangia, ou o teto que vazava, ou a geleia no lugar da manteiga, ou os sete anos acumulados de sorrisos falsos em salões iluminados a velas. Talvez tenha sido simplesmente a torrada queimada.
— Esta é a última vez — disse Thea.
O silêncio foi imediato. Até Freddie, que apareceu na porta com fuligem no rosto e uma mancha suspeita no colete, parou.
— Como assim, "última vez"? — perguntou Helena.
— A última *Season*, mamãe. A sétima. Depois disso, acabou. Se eu não encontrar... — hesitou, porque a palavra "marido" parecia ridiculamente inadequada para o que realmente procurava — alguém adequado, vou para a propriedade do campo. Cuido da biblioteca de papai. Administro a casa.
— Você já administra a casa — murmurou Roz.
— Exatamente. Pelo menos no campo seria oficial.
Helena ficou pálida. Depois roxa. Depois adquiriu um tom peculiar de determinação que Thea reconheceu como genuinamente perigoso.
— Muito bem — disse Lady Stirling, com uma calma que não enganava ninguém. — Se esta é a sua última temporada, então faremos dela a melhor. A mais brilhante. A mais inesquecível.
— Mamãe, não precisa...
— Silêncio, Theodora. Estou pensando.
Thea trocou um olhar com Roz. Roz ergueu as sobrancelhas — o equivalente Stirling a um alarme de incêndio.
O resto do café transcorreu em silêncio calculado. Helena mastigava e maquinava simultaneamente. Lord Arthur Stirling apareceu tarde, como sempre, com um manuscrito debaixo do braço e tinta no nariz, beijou a esposa no topo da cabeça sem interromper a leitura e sentou-se na cadeira errada. Ninguém corrigiu.
Arthur Stirling era um visconde, um classicista brilhante, e um desastre financeiro tão absoluto que transcendia a incompetência e adquiria ares de filosofia. Comprava manuscritos com dinheiro do açougueiro e pagava o açougueiro com promessas que o açougueiro já não aceitava. Amava sua família com uma intensidade desatenta que fazia Thea querer simultaneamente abraçá-lo e sacudi-lo pelos ombros.
— Papai — disse Thea, observando-o espalhar geleia no manuscrito em vez da torrada —, isso é pergaminho do século quarto.
Arthur olhou para baixo. Olhou para a geleia. Olhou para o pergaminho.
— Ah — disse ele. — Bem. Amoras combinam com Aristófanes, não acham?
Georgie apareceu por último, silenciosa como sempre, e sentou-se no canto da mesa com um caderninho que nunca largava. Georgiana Stirling tinha dezessete anos, os olhos mais observadores da família e um talento para desaparecer em qualquer cômodo enquanto anotava absolutamente tudo. Thea às vezes a observava e sentia um arrepio de reconhecimento — a irmã mais nova via demais, e cedo demais.
— Por que mamãe parece que está planejando uma invasão militar? — sussurrou Georgie para Roz.
— Porque está — respondeu Roz.
— Contra quem?
— Contra os pretendentes de Londres. Todos eles.
Georgie fez uma anotação no caderno. Thea fingiu não ver.
Depois do café, Thea voltou ao escritório. Fechou a porta. Sentou-se na cadeira com a perna manca. Abriu a gaveta falsa, tirou o livro-caixa, e encarou os números mais uma vez.
A dívida total dos Stirling era de oito mil libras. Oito mil libras que se acumulavam há anos, camada sobre camada, como neve sobre um telhado que ninguém consertava — primeiro o médico de Helena quando adoecera, depois as mensalidades de Ned, depois os manuscritos de Arthur, depois a manutenção mínima de uma casa em Londres que precisava de muito mais do que o mínimo. Thea vinha administrando, cortando, negociando, vendendo pratos e joias menores e trocando o açúcar pelo chá amargo e o vestido novo pelo reformado. Mas a dívida não diminuía. Crescia. Com juros.
Oito mil libras. E mais um credor que escrevera na semana passada, em tom que abandonava a cortesia e flertava com a ameaça.
Thea fechou o livro. Guardou. Arrumou os sermões na frente. Verificou que a gaveta parecia inofensiva.
Depois foi até a janela e olhou para a rua. Londres se preparava para a *Season* — carruagens polidas, vitrines arrumadas, criados varrendo degraus de mármore. A casa dos Stirling ficava numa rua que já fora elegante e agora era respeitável, o que em termos de *ton* significava que estavam a uma geração de serem esquecidos.
Sete temporadas. A primeira, aos dezenove, quando tudo parecia possível e Thea ainda acreditava que bastava ser inteligente para ser valorizada. A segunda, quando descobriu que inteligência em uma mulher era como especiaria em excesso — admirada em teoria, rejeitada na prática. A terceira e a quarta se confundiam numa sequência de bailes idênticos e conversas ocas. Na quinta, Lord Thaddeus propusera casamento e Thea dissera não porque ele se referira aos livros dela como "aquela mania encantadora." Na sexta, Sir William oferecera posição, fortuna e uma vida inteira de tédio confortável, e Thea recusara porque a ideia de passar trinta anos sorrindo para um homem que achava que mulheres não deviam opinar sobre investimentos era pior do que a pobreza.
Havia sido coragem ou orgulho? Thea já não sabia. Sabia apenas que nenhum dos homens que a quiseram a queria de verdade — queriam a versão editada, a versão que ria nas horas certas e não corrigia gramática latina em público.
Esta era a sétima vez. A última.
Um ruído no andar de cima a arrancou dos pensamentos. Passos rápidos — Freddie e Hugo, pela cadência. Uma porta batendo — Ned, provavelmente voltando ao quarto para ler. O piano começou a soar, desafinado e hesitante — Ben, tocando algo que poderia ser Mozart ou poderia ser improvisação, era impossível dizer com aquele piano.
A casa dos Stirling era barulhenta, imperfeita, e o único lugar no mundo onde Thea se sentia completamente ela mesma. Cada degrau que rangia era familiar. Cada rachadura no reboco era mapeada. O cheiro de torta queimando — Mrs. Finch atacava novamente — se misturava ao de tinta velha e lã úmida e sabão barato, e era o cheiro de casa.
Oito mil libras. Uma última temporada. Seis irmãos que não sabiam de nada.
Thea endireitou os ombros, verificou que não havia tinta nos dedos — havia, sempre havia, mas hoje conseguiu limpar a maior parte —, e desceu para enfrentar qualquer que fosse o plano que sua mãe estava montando.
Na escada, o degrau rangeu.
No andar de cima, algo explodiu.
E em algum lugar de Londres, numa casa grande demais para uma pessoa só, Alexander Blackwood, 5o Duque de Ravenswood, olhava para um convite de baile com a mesma expressão que reservaria para uma sentença de morte.
Mas isso, claro, Thea ainda não sabia.
CAPÍTULOS
