CAPÍTULO 3Gratuito
A Estrada para a Cidade
Capítulo 3: A Estrada para a Cidade
O Barão explicou as coisas do modo como explicava tudo o que não queria explicar: com precisão suficiente para parecer transparente e omissão suficiente para não o ser.
Isabel estava de pé diante da janela do escritório quando o pai começou a falar — a janela que dava para o terreiro e, além, para o início do cafezal, a vista que o Barão dissera uma vez ser a mais valiosa da propriedade, valendo mais do que qualquer peça de mobiliário importado. O escritório cheirava a tabaco de cano e a papel e à madeira de carvalho da escrivaninha que viera de Lisboa nos tempos do avô. As pastas dos advogados haviam desaparecido, mas a mesa ainda tinha os sulcos de lápis onde alguém fizera cálculos na noite anterior.
Eduardo Monteiro sentou-se na cadeira de braços de couro e olhou para a filha com a expressão de um homem que está construindo uma frase enquanto fala.
— Os negócios precisam de atenção — disse ele. — É natural, depois de um período de doença prolongada na família. Certas coisas ficam sem supervisão. — Ele juntou as pontas dos dedos sobre a mesa, um gesto que Isabel associava às decisões já tomadas que ele apresentava como se ainda estivessem sendo consideradas. — Tenho compromissos em São Paulo nas próximas semanas. Consultas com o banco, reuniões com o advogado, matérias que não podem ser tratadas por correspondência.
— Que matérias? — perguntou Isabel.
O Barão não respondeu imediatamente. Era a pausa que ela reconhecia — o intervalo entre a pergunta e a resposta que seria a resposta mas não seria a resposta completa.
— Financeiras — disse ele. — Nada que deva preocupar você agora. Mas preciso que venha comigo. Você precisa de distração, Isabel. Ficar aqui, na fazenda, nesse estado... — Ele fez um gesto vago na direção do mundo exterior à janela, o gesto que englobava o luto e a saudade e tudo mais que não tinha nome de negócio. — A Tia Amélia tem perguntado por você. Faz mais de um ano que não vão a São Paulo.
Isabel alisou as luvas sem olhar para elas.
— A senhora quer que eu vá à capital porque o senhor vai tratar de questões financeiras que não devem me preocupar agora — disse ela, devagar, como quem devolve uma frase para ver se ela soa da mesma forma na direção contrária.
O Barão a olhou por um momento. Havia, no olhar do pai, algo que Isabel precisava nomear e não conseguia completamente — não era crueldade, não era indiferença, era algo mais próximo do que acontece quando um homem passa anos tomando decisões por alguém e chega ao ponto em que a decisão é grande demais para ser tomada da forma usual e ele ainda não aprendeu outra maneira.
— A Tia Amélia tem boa companhia — disse ele. — Vai fazer bem.
Isabel assentiu.
Não porque concordasse inteiramente, mas porque havia uma categoria de conversas com o pai onde concordar era a única forma de sair do quarto com informação suficiente para pensar no que havia de fato acontecido. Ela sairia para SP. Ficaria com a Tia Amélia. O Barão trataria de seus assuntos financeiros com os bancos e os advogados e os homens que haviam deixado sulcos de lápis na escrivaninha de carvalho. E em algum ponto durante esse tempo, talvez, o tamanho das dívidas se tornaria visível de um ângulo ou de outro.
A diligência partiu na manhã de quinta-feira.
Era o serviço de carruagem que fazia o trajeto Campinas-São Paulo três vezes por semana, caro o suficiente para que apenas certos passageiros o usassem e desgastado o suficiente para lembrar que mesmo os certos passageiros podiam ter melhores dias. Isabel foi com Chica, que o Barão mandara para acompanhar a filha e que subia na carruagem com a expressão de quem sabe que algumas viagens não são sobre o destino. O Barão viajaria no dia seguinte por assuntos que não especificara.
A estrada de Campinas a São Paulo naquele abril de 1888 era uma história de dois países dentro do mesmo Estado. A primeira hora era fazenda atrás de fazenda — as propriedades dos cafezais que iam da beira da estrada até onde a vista alcançava, as casas-grandes recuadas entre as árvores, os colonos trabalhando nas fileiras com o ritmo dos que sabem que o dia não tem fim definido. Chica ficou olhando pela janela com uma atenção que Isabel notou sem comentar. Ela própria olhava, mas o que via era filtrado pela camada do que havia crescido sabendo.
Passaram pelos alojamentos de colonos italianos na segunda hora de viagem.
Era uma vila pequena de casas de madeira bruta às margens da propriedade de alguém — Isabel não conhecia o fazendeiro, eram terras que ficavam entre Campinas e Jundiaí — com o aspecto das construções feitas para durar o tempo suficiente e não mais. Um lavador comunal, uma espécie de galpão que servia de armazém ou celeiro ou ambos. Roupas estendidas entre os postes. Crianças que não estavam na escola porque a escola, se existia, ficava longe demais ou custava demais ou havia uma colheita que precisava de mãos de qualquer tamanho.
Um menino de uns oito anos estava parado no portão de madeira tosca — provavelmente o limite da propriedade, o ponto além do qual os colonos não iam sem razão. Ele viu a carruagem passar e acenou. Um gesto simples, sem cerimônia, o aceno de uma criança para qualquer coisa que se mova na estrada e rompa a monotonia do dia. Isabel o viu pela janela e acenou de volta — um movimento do pulso, pequeno, antes que tivesse pensado sobre ele.
Chica a olhou.
— Filho de colono — disse Chica, baixinho, não como explicação mas como se estivesse nomeando algo para que não ficasse sem nome. — Italiano, parece.
Isabel olhou pelo vidro que se movia com a carruagem e a cena já havia ficado para trás, o menino e o portão e as casas de madeira diminuindo na perspectiva até virar uma mancha indistinta na beira da estrada. Ela pensou nos contratos de parceria que seu pai assinara com quantas famílias iguais a essa, nos vinte anos que a fazenda Sant'Ana funcionara com aquela mão de obra, nos colonos que vieram com contratos que prometiam propriedade ao cabo de cinco anos e que quinze anos depois ainda deviam ao Barão mais do que ganhavam na safra.
Não era um pensamento novo. Era um pensamento que ela havia aprendido a ter e a não dizer — a ter nos lugares abertos, no cafezal, nos intervalos entre as visitas de luto, nos momentos em que a casa estava quieta o suficiente para que a consciência falasse no volume normal. Dizer era outra conta. Dizer implicava consequências que ela ainda não havia terminado de calcular.
— Chica — disse Isabel.
— Dona Isabel.
— Você tem família em Campinas?
Chica ficou quieta por um momento. Não era um silêncio de hesitação — era o silêncio de quem está verificando se a pergunta é o que parece ser ou se tem uma camada que precisa ser entendida antes de responder.
— Tenho uma irmã — disse ela por fim. — Casada com um livre, lá no bairro do Guanabara. E a minha filha.
— Maria.
— Maria — confirmou Chica, com a ternura dos nomes que valem mais do que as palavras ao redor.
Isabel não fez mais perguntas. Havia perguntas que ela ainda não sabia fazer de maneira que não soasse como a filha do Barão tentando entender algo que era muito maior do que a janela de uma carruagem permitia ver. Ficou olhando a paisagem mudar conforme a estrada descia das colinas de Campinas para a várzea — as propriedades cafeeiras dando lugar gradualmente a terrenos mais parcelados, mais úmidos, com o mato diferente das terras que ficavam abaixo de mil metros.
A Tia Amélia havia escrito na semana do velório uma carta que chegara tardia, com os pêsames que os endereços distantes atrasam e com uma frase final que Isabel lera três vezes: *venha quando puder, minha querida — São Paulo está diferente este ano, tem coisas acontecendo que você deveria ver com os próprios olhos.* Coisas acontecendo. A Tia Amélia nunca era específica por escrito, por razão de prudência que Isabel aprendera a respeitar sem nunca tê-la discutido abertamente com a tia. Coisas acontecendo em São Paulo em abril de 1888 tinha uma quantidade muito limitada de interpretações possíveis.
A abolição estava sendo votada no Parlamento. Todo mundo sabia. Os jornais de Campinas publicavam as movimentações com a excitação contida de quem noticia algo cujo resultado ainda não é oficial mas cujo tamanho já é sentido nas conversas de armazém e nas reuniões de câmara e nos dormitórios das senzalas onde as notícias chegavam por caminhos que não passavam pelos donos das propriedades.
O que isso significava para a fazenda Sant'Ana, Isabel ainda não sabia calcular.
O que significava para Chica, para a filha Maria, para a irmã casada com o livre no bairro do Guanabara — isso ela sabia que sabia e que ainda não havia encontrado a linguagem para dizer em voz alta sem soar oca ou invasiva ou as duas coisas.
A carruagem começou a subir a serra pouco depois do meio-dia. A paisagem mudou de novo — mais pedra, mais mata fechada, o ar mais frio e mais cheiroso, com a umidade da Mata Atlântica que ainda resistia nos flancos mais íngremes onde o café não conseguia chegar. Isabel adormeceu por um tempo, o balanço da diligência fazendo o que o sono havia se recusado a fazer nas últimas três noites. Sonhou com o cafezal — mas no sonho ele era diferente, as plantas mais baixas e mais escuras, e havia uma névoa que não levantava nunca, e ela estava andando entre as fileiras sem encontrar a saída.
Acordou quando a carruagem começou a descer para o vale do Tamanduateí.
São Paulo se apresentou pela janela como sempre se apresentava para quem chegava pela estrada de Campinas — primeiro as casas esparsas e depois mais juntas, depois as chaminés das primeiras fábricas do Brás, depois os telhados multiplicados que desciam até o fundo do vale e subiam no espigão oposto onde o centro se erguia com a solenidade das cidades que ainda estão aprendendo que são cidades de verdade.
A Tia Amélia morava num sobrado da Rua do Carmo, não longe do Largo do Paiçandu, num bairro que havia sido elegante e estava sendo substituído pelo elegante de outra geração — as velhas famílias dando espaço aos novos ricos do café, que construíam maiores e mais altos. Amélia Monteiro Faria, viúva havia seis anos, era uma anomalia discreta naquele bairro: mulher de recursos independentes, sem filhos, com opiniões que não partilhava com quem não merecesse a confiança necessária para recebê-las.
A carruagem parou em frente ao sobrado às quatro da tarde.
A Tia Amélia estava na porta antes mesmo que o cocheiro saltasse do banco. Abraçou Isabel com a força específica das pessoas que não têm filhos e direcionam para os sobrinhos toda a intensidade do afeto que os filhos teriam dissipado em gestes menores ao longo dos anos.
— Minha querida — disse a tia, sem soltá-la por um momento. — Minha pobre querida.
Isabel ficou nos braços da tia por um segundo mais longo do que costumava. Era estranha a facilidade com que o corpo reconhecia quando estava num lugar onde não precisava se manter ereto pela própria vontade.
— Estou bem, Tia Amélia — disse ela.
— Você está — concordou a tia, recuando para olhá-la. — E por isso estou um pouco menos preocupada do que estava. — Ela olhou para a carruagem onde Chica descia com a bagagem. — Entrem, entrem. A cidade está quente esta semana. Há coisas para contar.
Isabel olhou para a rua antes de entrar. O bonde a burro passava ao fundo da esquina, os animais trotando com a dignidade cansada dos que fazem o mesmo caminho há anos. Na calçada oposta, dois homens discutiam com a intensidade de quem tem a mesma discussão há meses mas ainda não chegou ao fim. Um deles gesticulava para um jornal dobrado na mão.
São Paulo estava diferente, como a Tia Amélia havia escrito. Isabel sentia isso antes de ter evidência suficiente para nomear — o ar tinha uma qualidade de véspera, de coisa que está prestes a acontecer e que todo mundo sente no corpo antes de saber com a cabeça.
Ela entrou no sobrado.
A cidade esperou do lado de fora com toda a paciência das coisas que não precisam ser apressadas porque já estão em movimento.
