CAPÍTULO 4Gratuito
Capítulo 4 — O Estúdio
O café de Camila era horrível.
Helena segurava a caneca — cerâmica branca com a inscrição "Advogada de manhã, ser humano depois do almoço" — e tentava identificar a substância escura que boiava ali dentro. Era aguado, amargo demais, com um gosto de fundo que lembrava papel queimado. Nada a ver com o café que Lurdes preparava todas as manhãs na casa dos Monteiro: grãos moídos na hora, coador de pano, o aroma denso e aveludado enchendo a cozinha como um abraço.
Mas Helena bebeu. Cada gole.
— Eu sei que é ruim — disse Camila, largando-se na cadeira da frente com a graça de um saco de batatas. Estava de moletom, cabelo preso num coque torto, sem maquiagem, e tinha olheiras que sugeriam que dormira tão pouco quanto Helena. — Comprei a cafeteira no Shopee por trinta e nove reais. Funciona, mais ou menos.
— É perfeito — disse Helena, e não era mentira. Era o primeiro café em oito anos que ninguém tinha feito para impressioná-la, para atender um padrão, para ser digno de uma mesa de Monteiro. Era café ruim, feito por mãos amigas, numa cozinha com louça suja na pia e um pano de prato que dizia "Foda-se o patriarcado". Era honesto.
O apartamento de Camila ficava no quinto andar de um prédio sem elevador na Vila Madalena. Dois quartos, um banheiro, uma sala-cozinha que tentava ser dois ambientes mas não conseguia. As paredes tinham estantes cheias de livros de direito e romances de banca de jornal, e havia uma samambaia no canto da janela que sobrevivia por pura teimosia. O chão era de taco antigo, gasto no meio dos cômodos onde os passos repetidos tinham polido a madeira até um brilho opaco.
Era pequeno. Era vivo. Era o contrário de Higienópolis.
Helena sentou no sofá — um sofá-cama de dois lugares que Camila abria para visitas e que tinha uma mola solta do lado esquerdo — e olhou pela janela. A Vila Madalena se estendia lá embaixo como uma colcha de retalhos: telhados irregulares, grafites nos muros, fios de eletricidade cruzando o céu como partituras malfeitas. Um cachorro latia em algum lugar. Uma música saía de uma janela — samba antigo, voz de mulher, melodia que subia pelas paredes do prédio como trepadeira.
— Você precisa de um lugar — disse Camila, sentando ao lado dela e puxando o notebook para o colo. — Meu sofá é seu pelo tempo que precisar, mas você precisa de um espaço. Um lugar que seja seu.
"Um lugar que seja seu." Helena repetiu a frase mentalmente, saboreando cada palavra como se fosse uma língua estrangeira que estivesse reaprendendo. Seu. Nos últimos oito anos, nada era seu. A casa era dos Monteiro. O carro era da construtora. A conta era conjunta mas controlada. Até o nome — Helena Carvalho Monteiro — era metade emprestado.
— Eu não tenho dinheiro, Cami — disse Helena, e a frase saiu com o peso de quem admite uma doença. Porque era isso. Oito anos de casamento com um bilionário e Helena Carvalho não tinha poupança, não tinha conta própria, não tinha um centavo que não viesse do marido. A vergonha subiu como ácido pela garganta. — Eu não tenho nada.
Camila fechou o notebook com um clique seco. Olhou para Helena com aquela expressão que ela conhecia desde a faculdade — o olhar de quem já decidiu algo e está apenas informando.
— Primeiro: você vai ter dinheiro. Divórcio com traição comprovada, oito anos de casamento, renúncia de carreira — eu já tenho três argumentos que dariam arrepio em qualquer juiz de vara de família. Segundo: eu vou te adiantar o primeiro mês de aluguel. Não é empréstimo. É investimento na minha futura cliente mais vingativa. — Ela abriu um sorriso que era puro Camila: afiado, quente, impiedoso. — Terceiro: eu achei uma coisa.
Abriu o notebook outra vez. Girou a tela para Helena.
Na tela, uma página de classificados. Foto de um estúdio — sala única, cozinha americana, banheiro. Piso de concreto. Janela grande dando para uma rua arborizada. Paredes brancas com marcas de quadros retirados. Trinta metros quadrados.
Vila Madalena. Mil e duzentos reais por mês.
Helena olhou para a foto. O espaço era minúsculo — caberiam uma cama, uma mesa e pouco mais. A cozinha consistia em dois metros de bancada com um fogão de duas bocas. O banheiro tinha box de vidro e azulejo branco sem graça. Não havia closet, não havia lavabo, não havia suíte. Não havia nada do que Helena tinha em Higienópolis.
Era o tamanho exato de um recomeço.
— Quando posso ver? — perguntou.
§
O estúdio ficava na Rua Fidalga, numa viela lateral que cheirava a grafite fresco e mato crescendo entre paralelepípedos. O prédio era antigo — três andares, fachada descascada, portão de ferro que rangia ao abrir. A síndica era uma mulher de sessenta anos chamada Dona Elza que usava chinelos de dedo e brincos de argola e olhava para Helena com a avaliação precisa de quem já viu muita gente chegar àquele prédio fugindo de alguma coisa.
— Terceiro andar — disse Dona Elza, subindo as escadas com uma agilidade que desmentiam a idade. O corrimão de ferro era frio sob a mão de Helena, e o concreto das escadas tinha aquele cheiro úmido e mineral de prédio antigo — cal, umidade, o fantasma de décadas de gente subindo e descendo. — Sem elevador. Gás encanado. Porteiro só até as seis. Silêncio depois das dez.
O apartamento — chamar de apartamento era generoso; era um cômodo com ambições — ficava no fim do corredor. Dona Elza abriu a porta com uma chave que tirou do bolso do avental e o espaço se revelou.
Trinta metros quadrados.
Helena entrou. O chão era de concreto queimado — cinza, frio sob os pés, com pequenas imperfeições na superfície que formavam um mapa de rachaduras mínimas. A janela era grande, como a foto prometia: dava para a rua arborizada, e a luz da tarde entrava inclinada, projetando retângulos dourados no piso. As paredes brancas tinham marcas retangulares onde quadros estiveram — fantasmas de uma decoração anterior, molduras de ausência.
O cheiro era de tinta, cal e espaço fechado. Um cheiro novo. Um cheiro de ninguém.
Helena caminhou até a janela. A rua lá embaixo estava quieta — uma bicicleta encostada num poste, uma planta crescendo pela fresta do muro, o som distante de alguém tocando violão. A Vila Madalena no fim da tarde tinha uma luz específica — dourada, morna, com aquela qualidade de fotografia antiga que faz tudo parecer ao mesmo tempo presente e lembrança.
— Quanto é o depósito? — perguntou, sem se virar.
— Um mês — disse Dona Elza. — E eu preciso de referência.
— Eu sou a referência dela — disse Camila, que tinha subido os três lances ofegando e estava apoiada no batente da porta com a dignidade de um advogado que acabou de correr uma maratona. — Camila Duarte, OAB-SP 287.412. Pode ligar para verificar. Eu garanto o contrato.
Dona Elza olhou de uma para a outra. Tinha olhos de quem calcula — não dinheiro, mas caráter. Depois olhou para Helena, que estava parada no retângulo de luz da janela com a mesma mala preta com que fugira de casa, e alguma coisa naquela imagem — a mulher, a mala, a luz — deve ter contado uma história que Dona Elza reconheceu.
— Pode se mudar amanhã — disse a síndica.
§
Naquela noite, sentada no chão do apartamento de Camila com comida tailandesa de delivery entre as duas — o pad thai morno, o curry picante que fazia os olhos arderem, o arroz grudando nos pauzinhos — Helena contou tudo.
Contou sobre o celular. Sobre as mensagens. Sobre o "senta" de Bernardo. Sobre o closet e a mala e a aliança no criado-mudo. Sobre o carro na Marginal e a noite no banco do motorista. Contou em frases secas, sem floreio, como quem lê um relatório de danos. A voz não tremeu. Os olhos não encheram.
Camila ouviu com os pauzinhos suspensos no ar, a boca semiaberta, o curry esfriando na embalagem de alumínio. Quando Helena terminou, a amiga pousou os pauzinhos com cuidado — o gesto deliberado de quem precisa fazer algo com as mãos antes de explodir.
— Filho da puta — disse Camila, e a frase saiu baixa, contida, com a precisão de um bisturi. Não era xingamento genérico. Era diagnóstico clínico. — Dois anos. Aquele filho da puta manteve caso por dois anos enquanto você organizava os jantares da família dele.
— Eu sei.
— E a Regina sabia?
Helena não tinha pensado nisso. Mas agora que Camila perguntava, a resposta era óbvia — tão óbvia que machucava. Regina sabia. Claro que sabia. Regina sabia tudo que acontecia na órbita de Bernardo, controlava cada variável, inventariava cada jantar. A matriarca que chamava Helena de mínimo enquanto cobria a infidelidade do filho como se fosse um defeito estrutural a ser tapado com massa corrida e tinta nova.
— Provavelmente — disse Helena.
— Não provavelmente. — Camila puxou o notebook de cima da mesa de centro. Os dedos voaram sobre as teclas com a velocidade furiosa de quem já está montando um caso. — Isso muda tudo. Cumplicidade familiar na ocultação. Dá pra incluir dano moral. Helena, me escuta: eu sei que agora tudo que você quer é respirar. E eu vou te dar espaço pra isso. Mas amanhã, quando você estiver pronta, nós vamos começar o divórcio. E eu vou fazer aquele homem pagar cada minuto desses dois anos em valores corrigidos.
Helena olhou para a amiga. O rosto de Camila tinha a ferocidade concentrada de quem nasceu para brigar por quem não pode — ou por quem ainda não sabe que pode. Era o mesmo rosto que Helena vira na faculdade, quando Camila confrontou um professor que assediava alunas, quando enfrentou a banca de TCC que queria reprovar um colega sem justificativa, quando largou o escritório do marido e abriu o próprio com uma mala e uma lista de contatos.
— Obrigada, Cami — disse Helena.
— Não me agradece. Ainda vai ser pior antes de ficar melhor. — Camila fechou o notebook e pegou os pauzinhos. — Agora come. Você parece que não dorme há dois dias.
— Não durmo — disse Helena.
— Eu sei. Come assim mesmo.
§
Às onze da noite, quando Camila já tinha dormido — Helena ouvia a respiração pesada do quarto, o som de alguém que dorme com a consciência limpa e o corpo exausto —, Helena pegou o celular.
Sete ligações perdidas de Bernardo. Quatro mensagens.
*"Volta para casa. Vamos conversar."* *"Helena, isso é irracional."* *"Minha mãe está preocupada."* *"Atende o telefone."*
Helena leu cada mensagem. Em nenhuma havia um pedido de desculpas. Em nenhuma havia a palavra "errei" ou "sinto muito" ou qualquer coisa que se parecesse com o reconhecimento de que ele tinha feito algo errado. Apenas ordens disfarçadas de preocupação. "Volta." "Atende." "Vamos conversar." O vocabulário do controle, mascarado com a sintaxe da razão.
"Minha mãe está preocupada." Não "eu estou preocupado". Minha mãe. Até na crise, Bernardo terceirizava o sentimento.
Helena digitou uma resposta. Apagou. Digitou outra. Apagou. Na terceira tentativa, escreveu:
*"Não me procura."*
Três palavras. Enviou. Desligou o telefone.
Depois deitou-se no sofá-cama de Camila — a mola solta cutucando as costelas, o lençol de algodão simples que cheirava a amaciante de supermercado, o som da Vila Madalena à noite entrando pela janela aberta: um cachorro, uma risada, o motor de um carro, a vida acontecendo do lado de fora como acontece todas as noites para todas as pessoas que não estão no meio de um desmoronamento pessoal.
Fechou os olhos.
Amanhã teria um estúdio de trinta metros quadrados com paredes brancas e chão de concreto e uma janela que dava para uma rua onde pessoas comuns viviam vidas comuns. Não era o apartamento em Higienópolis. Não era a casa que imaginara quando era jovem e tinha projetos e prêmios e um futuro com linhas retas.
Mas era dela.
E por agora, isso tinha que ser o bastante.
Helena dormiu. No sofá de mola quebrada, com o curry ainda queimando na boca e o lençol enrolado nos pés e o telefone desligado e o coração pesado e as mãos — mãos de arquiteta, mãos que faziam coisas — abertas sobre o peito como asas dobradas de um pássaro que ainda não sabe que pode voar.
E lá fora, a Vila Madalena piscava suas luzes e cheirava a grafite e chuva de verão e comida boa e vida imperfeita, e não se importava nem um pouco com o sofrimento de mais uma mulher recomeçando — porque a Vila Madalena já tinha visto isso antes, muitas vezes, e sabia que o começo é sempre assim: feio, desconfortável, assustador.
E necessário.
