
A Herdeira e Suas Aventuras em Nova York
Romance Contemporâneo | Drama | Suspense Romântico
Isabella Cavalcanti tinha tudo: beleza, fortuna e o império hoteleiro mais cobiçado do Brasil. Mas quando seu pai morre repentinamente, ela descobre que nada era o que parecia. Uma herança misteriosa em Manhattan, um hotel de luxo repleto de segredos…
CAPÍTULO 1
Legados e Mentiras
O veludo negro do vestido Dior contrastava com a pele pálida dos meus braços enquanto eu observava o caixão de mogno descendo lentamente à terra. Duas semanas. Apenas duas semanas desde que a voz do médico ao telefone destruiu meu mundo com três palavras: *"Sinto muito, Isabella."*
Papai. Antônio Cavalcanti. O homem que construiu um império do nada, que me ensinou que Cavalcantis nunca choram em público, que me prometeu que sempre estaria aqui.
Mentiroso.
— Meus sentimentos, Srta. Cavalcanti — mais uma voz desconhecida, mais um aperto de mão gelado, mais uma expressão de falsa compaixão.
Sorri mecanicamente, o mesmo sorriso vazio que mantinha há horas. O cemitério estava lotado — empresários, políticos, socialites. Todos querendo ser vistos prestando respeito ao grande Antônio Cavalcanti. Nenhum realmente sentindo sua falta.
— Isabella, querida — minha tia Helena se aproximou, os olhos vermelhos de choro. Ao menos ela era genuína. — Você precisa comer alguma coisa. Está pálida.
— Estou bem, tia.
— Você não está bem. Perdeu seu pai e aquele desgraçado do Lucas teve a audácia de aparecer aqui...
Meu estômago revirou ao ouvir o nome. Lucas Mendes. Meu ex-noivo. O homem que eu surpreendi na cama com minha melhor amiga três meses antes do casamento. A ferida ainda estava fresca, sangrando.
— Ele já foi embora?
— Sim, mas não sem antes tentar falar com você. Teve a cara de pau de dizer que "sente sua falta". — Tia Helena praticamente cuspiu as palavras.
Fechei os olhos, respirando fundo. Não podia desmoronar. Não aqui. Não na frente de todos esses abutres esperando para ver a herdeira Cavalcanti fraquejar.
A recepção pós-funeral na mansão da família em Joá foi uma tortura refinada. Garçons circulavam com champanhe e canapés enquanto as pessoas conversavam em tons respeitosamente baixos, dissecando a vida de papai como se fosse apenas outro assunto para debate.
— Isabella — a voz grave do Dr. Mendes, advogado da família há trinta anos, me fez virar. — Precisamos conversar. Em particular.
Seguimos para o escritório de papai. A sala cheirava a charutos cubanos e whisky escocês. Sua poltrona de couro ainda tinha a marca de seu corpo. Senti as lágrimas ameaçarem, mas engoli em seco.
— Há questões urgentes sobre a herança — Dr. Mendes abriu uma pasta de couro. — Seu pai deixou instruções muito específicas.
— Específicas como?
— O império Cavalcanti Hotels é seu, naturalmente. Os quinze hotéis no Brasil, as propriedades, as ações. Tudo conforme esperado.
— Mas?
Ele hesitou, o que era incomum. Dr. Mendes nunca hesitava.
— Há uma propriedade adicional. Em Nova York. Hotel Cavalcanti Plaza, Upper East Side, Manhattan.
Franzi a testa. — Papai tinha um hotel em Nova York? Desde quando?
— Há quinze anos. Ele manteve isso... discreto.
— Discreto? — Minha voz subiu uma oitava. — Ele tinha um hotel inteiro em Manhattan e nunca me contou?
— Isabella, seu pai tinha seus motivos. E há mais. O hotel está em dificuldades financeiras. Graves dificuldades. Há questões legais que precisam ser resolvidas presencialmente, imediatamente, ou você pode perder a propriedade.
— Quanto tempo tenho?
— Duas semanas. Talvez três.
Afundei na poltrona de papai, o couro rangendo sob meu peso. Um hotel secreto em Nova York. Problemas financeiros. Mais segredos.
— Há algo mais que eu deveria saber?
Dr. Mendes olhou para mim com algo parecido com pena. — O gerente geral do hotel. Um americano chamado Daniel Blackwood. Ele e seu pai eram... próximos. Muito próximos. Alguns documentos sugerem que eles eram sócios, não apenas empregador e empregado.
— Sócios? Papai tinha um sócio secreto?
— Preciso que você vá para lá e descubra exatamente qual era a natureza dessa parceria. Há cláusulas no testamento que só podem ser executadas com a presença do Sr. Blackwood. Ele se recusou a vir ao Brasil.
— Se recusou? — A raiva começou a ferver em minhas veias. — Quem esse homem pensa que é?
— Alguém que conhecia segredos do seu pai que nem eu conheço. — Dr. Mendes fechou a pasta. — Isabella, seja cuidadosa. Seu pai construiu esse império com determinação, mas também com segredos. Alguns deles podem ser... perturbadores.
Três dias depois, estava no aeroporto Santos Dumont, mala Vuitton ao lado, passagem de primeira classe para JFK na bolsa.
— Tem certeza de que não quer que eu vá junto? — Clara, minha assistente, perguntou pela décima vez.
— Clara, preciso fazer isso sozinha. — Ajeitei os óculos Chanel. — Cuide das operações aqui. Qualquer problema, me liga.
— E se o Lucas tentar falar com você de novo?
— Diga que morri também.
O voo foi um borrão de champanhe Veuve Clicquot e documentos legais. Revirei cada papel, cada cláusula, tentando entender o que papai estava escondendo. O Hotel Cavalcanti Plaza era uma propriedade premium, avaliada em 200 milhões de dólares. Como algo assim estava em dificuldades financeiras?
E quem diabos era Daniel Blackwood?
Quando o avião pousou no JFK, já era noite. Outubro em Nova York era frio, o ar cortante me fazendo puxar o casaco de cashmere mais apertado.
O táxi amarelo serpenteava pelo trânsito da cidade que nunca dorme. Luzes de neon, arranha-céus tocando o céu, milhões de vidas acontecendo simultaneamente. Papai amava Nova York. Agora eu entendia por quê — aqui, ele podia ser quem quisesse. Aqui, ele tinha segredos.
— Hotel Cavalcanti Plaza — anunciei ao motorista.
— Ah, ótimo hotel! Você vai adorar.
Se ao menos ele soubesse que eu era dona do lugar.
Quando o táxi parou em frente ao edifício de vidro e aço, meu coração acelerou. Trinta andares de luxo europeu no coração de Manhattan. A fachada art déco iluminada, o letreiro dourado brilhando: **CAVALCANTI PLAZA**.
Papai construiu isso. E nunca me contou.
O lobby era espetacular — piso de mármore italiano, lustres de cristal Baccarat, móveis de designer. Tudo gritava elegância e dinheiro. Funcionários impecáveis em uniformes pretos atendiam hóspedes que claramente pertenciam ao um por cento.
Aproximei-me da recepção, onde uma loira de olhos verdes me cumprimentou com um sorriso profissional.
— Boa noite! Bem-vinda ao Cavalcanti Plaza. Tem reserva?
— Não exatamente. Sou Isabella Cavalcanti. Preciso falar com Daniel Blackwood.
O sorriso dela congelou. — Srta. Cavalcanti? Nós... não esperávamos você até amanhã.
— Mudança de planos.
— É claro. Deixe-me... deixe-me chamá-lo. — Ela pegou o telefone, visivelmente nervosa. — Sr. Blackwood? A Srta. Cavalcanti está aqui. Sim, agora. Entendido.
Ela desligou, o sorriso ainda tenso. — Ele estará aqui em um momento. Posso oferecer champanhe enquanto espera?
— Por favor.
Aceitei a taça de Moët e observei o lobby. Tudo era perfeito demais. Nenhum sinal de problemas financeiros. O que estava acontecendo?
— Srta. Cavalcanti.
A voz veio de trás, grave, com um sotaque americano carregado. Virei e quase deixei cair a taça.
Daniel Blackwood era... devastador. Alto, facilmente 1,90m, ombros largos sob um terno Tom Ford perfeitamente cortado. Cabelo castanho-escuro ligeiramente despenteado, mandíbula forte com barba por fazer, e olhos — meu Deus, aqueles olhos. Azuis como gelo, penetrantes, do tipo que viam através de todas as suas defesas.
Ele não sorriu.
— Sr. Blackwood — estendi a mão, forçando minha voz a permanecer firme.
Ele a apertou brevemente. Sua mão era grande, calejada, quente. Uma corrente elétrica percorreu meu braço.
— Meus pêsames por seu pai — disse ele, mas sua voz era fria, sem emoção real.
— Obrigada. — Retirei minha mão. — Podemos conversar em particular?
— Meu escritório. — Ele gesticulou para os elevadores.
Subimos em silêncio tenso. Eu o observava pelo reflexo do espelho. Ele mantinha os olhos fixos nos números ascendentes, a mandíbula apertada. Havia raiva ali. Por quê?
O escritório dele no vigésimo andar era masculino e minimalista — madeira escura, couro preto, vista espetacular de Manhattan. Ele gesticulou para uma poltrona e sentou atrás da mesa, criando uma barreira física entre nós.
— Então — comecei —, quer me explicar por que meu advogado diz que este hotel está em dificuldades financeiras, mas tudo que vejo é luxo e prosperidade?
Ele se recostou, estudando-me com aqueles olhos glaciais. — Seu pai não te contou nada, contou?
— Claramente não. Nem sabia que este hotel existia até três dias atrás.
Algo passou pelo rosto dele. Surpresa? Raiva? — Típico do Antônio.
— Como ousa falar assim dele? — A raiva explodiu em mim. — Ele acabou de morrer!
— E você acha que eu não sei disso? — Ele se levantou bruscamente, as mãos apoiadas na mesa. — Antônio Cavalcanti era meu melhor amigo. Meu parceiro. Meu irmão em tudo, menos no sangue. E ele morreu sem me dar a chance de me despedir.
A dor crua em sua voz me desarmou. — Você... vocês eram próximos?
— Éramos tudo. — Ele passou a mão pelo cabelo, virando-se para a janela. — Construímos este lugar juntos. Do zero. Cada decisão, cada sacrifício. E agora ele se foi e deixou você no comando sem nem te contar que isso existia.
— Por que ele faria isso?
Daniel riu, um som amargo. — Porque Antônio Cavalcanti era brilhante nos negócios e um desastre em tudo mais. Especialmente em confiar nas pessoas que amava.
— Ele confiava em você.
— Confiava? — Ele se virou, o olhar penetrante. — Então por que o testamento tem cláusulas que basicamente me transformam em seu funcionário, quando sempre fomos sócios?
Franzi a testa. — Do que está falando?
— Você não sabe? — Ele pegou uma pasta na mesa e jogou na minha frente. — Leia você mesma. Segundo o testamento de seu pai, você herda 70% do hotel. Eu fico com 30%, mas apenas se continuar como gerente geral por no mínimo cinco anos. Se eu sair, perco tudo.
Abri a pasta, lendo rapidamente. Ele estava certo. — Isso não faz sentido. Por que papai faria isso?
— Proteção. Ele sabia que sem mim, você perderia este lugar em menos de seis meses. E sabia que eu jamais abandonaria o hotel que construí com minhas próprias mãos. — Ele se aproximou, apoiando as mãos na mesa, inclinando-se para perto demais. — Então parabéns, princesa. Você tem um novo sócio que não te quer aqui, e eu tenho uma nova chefe que não sabe nada sobre o negócio.
Levantei-me, enfrentando-o, recusando-me a ser intimidada. — Primeiro, não me chame de princesa. Segundo, aprendo rápido. E terceiro, se meu pai confiou em você o suficiente para te deixar 30% deste lugar, então havia uma razão.
Estávamos perigosamente próximos agora. Podia sentir o calor emanando dele, o cheiro de seu perfume — algo amadeirado e masculino que fazia meu estômago revirar.
— A razão — ele disse baixinho, os olhos descendo brevemente para meus lábios — era que eu era a única pessoa que ele não conseguia comprar ou controlar. E agora você está aqui, com seus sapatos de grife e seu ar de superioridade, achando que pode simplesmente assumir o controle.
— Eu não vim aqui para brigar com você.
— Não? Então por que veio?
— Para entender quem meu pai realmente era. — Minha voz saiu mais vulnerável do que eu pretendia. — Porque o homem que morreu guardava segredos. E tenho a sensação de que você conhece todos eles.
Algo mudou em seu olhar. A raiva suavizou, substituída por algo mais complexo. — Isabella... — Ele disse meu nome como se testasse o sabor dele. — Seu pai me fez prometer algumas coisas. A maioria delas te protegeria. Mas algumas... algumas vão te machucar.
— Eu posso aguentar.
— Pode? — Ele se afastou, criando distância novamente. — Porque eu já vi muitas herdeiras como você desmoronarem quando descobrem que papai não era o herói que pensavam.
A raiva voltou, quente e feroz. — Você não me conhece.
— Não? Deixe-me adivinhar. Cresceu em mansões, frequentou as melhores escolas, teve tudo que dinheiro pode comprar. Provavelmente acabou de terminar um relacionamento com algum playboy que não te merecia. E agora está aqui, perdida, tentando encontrar respostas que vão apenas gerar mais perguntas.
Cada palavra era verdade e isso me enfurecia ainda mais. — Vá se ferrar.
Ele sorriu pela primeira vez, mas não era um sorriso gentil. — Finalmente. Uma reação honesta.
— Sabe de uma coisa? Não preciso da sua aprovação. Sou dona deste hotel, goste ou não. E vou descobrir cada segredo que meu pai guardou, com ou sem sua ajuda.
— Boa sorte com isso. — Ele voltou para sua cadeira, claramente me dispensando. — Sua suíte está pronta. Vigésimo quinto andar, suíte presidencial. Alguém levará suas malas.
— Não terminamos de conversar.
— Terminamos por hoje. — Ele abriu o laptop, ignorando-me. — Tenho um hotel para administrar.
Cerrei os punhos, tentando controlar a vontade de jogar algo naquele rosto arrogante e irritantemente bonito. — Isso não vai acabar bem para você, Sr. Blackwood.
— Provavelmente não, Srta. Cavalcanti. — Ele não levantou os olhos. — Mas vai ser interessante.
Saí batendo a porta, o som ecoando pelo corredor. Meu coração batia descompassado, uma mistura confusa de raiva, frustração e algo mais perigoso que me recusava a nomear.
Daniel Blackwood era arrogante, impossível e sabia exatamente como me tirar do sério.
E por alguma razão, meu corpo inteiro ainda vibrava com a proximidade dele.
*Isso vai ser um problema*, pensei, entrando no elevador.
*Um grande, enorme problema.*
CAPÍTULOS
