A Guarda-Costas
suspense-romantico
Marina Santos não acredita em heróis. Ex-BOPE e agente de elite da Aegis Security, ela aprendeu da pior forma que proteger alguém significa manter distância — emocional, física, total. Quando recebe a missão de proteger Erik Lindberg, herdeiro de uma…
CAPÍTULO 1
Protocolo Zero
Capítulo 1 — Protocolo Zero
O saco de pancadas balançou com o impacto do chute circular, e Marina sentiu a reverberação subir pelo tornozelo, pela canela, pelo joelho — até estourar no quadril como uma descarga elétrica que dizia: mais.
Girou o corpo. Cotovelo. Gancho. Joelhada.
O saco rangeu no suporte de aço, o som metálico ecoando pela academia vazia do subsolo da Aegis Security. Três da manhã. São Paulo dormia lá fora — ou fingia dormir, como faz toda cidade que nunca descansa de verdade. Marina preferia esse horário. Sem os seguranças do turno da manhã ocupando os aparelhos, sem conversas sobre futebol ou política, sem ninguém tentando puxar assunto. Só ela, o saco, e o cheiro familiar de suor, couro sintético e desinfetante industrial que impregnava cada centímetro daquele porão mal ventilado.
Direita. Esquerda. Cotovelada.
As bandagens nas mãos já estavam úmidas. Ela sentia o tecido colar na pele, a fricção quente nos nódulos dos dedos, aquele ardor que era ao mesmo tempo castigo e recompensa. O suor escorria pela têmpora esquerda, contornando a mandíbula antes de pingar no chão emborrachado com um som quase inaudível. Seu reflexo aparecia fragmentado no espelho rachado da parede — pixie cut preto grudado na testa, camiseta regata cinza escurecida de suor, a cicatriz fina no queixo capturando a luz fluorescente como uma linha de prata. O espelho tinha aquela rachadura desde que Leitão acertara um soco errado durante um treino de sparring, dois anos atrás. Ninguém consertou. Na Aegis, coisas quebradas continuavam funcionando até pararem de vez.
O celular vibrou no banco de madeira.
Marina deu mais dois socos — porque parar no meio de uma sequência era indisciplina — e só então caminhou até o aparelho. Os pés descalços no tatame emborrachado faziam um som úmido, quase orgânico. A tela mostrava: HENRIQUE MAIA. Três da manhã e o velho estava acordado. Isso significava uma de duas coisas: ou alguém tinha morrido, ou alguém estava prestes a morrer.
— Maia — atendeu, encaixando o telefone entre o ombro e a orelha enquanto desenrolava a bandagem da mão direita. O tecido soltava um cheiro acre de sal e algodão molhado.
— Santos. Meu escritório, zero sete zero zero.
— Briefing?
— Presencial. E vem de banho tomado, pelo amor de Deus. Sei que tu tá na academia.
A ligação caiu. Marina olhou para o telefone como se ele tivesse culpa de alguma coisa, guardou no bolso do short e terminou de tirar as bandagens. Os dedos estavam vermelhos, dois nódulos esfolados — a pele fina sobre os metacarpos rompida naquele ponto exato onde o osso encontra o couro do saco. Ela flexionou as mãos três vezes — um hábito que vinha dos tempos do BOPE, quando verificar que os dedos funcionavam podia ser a diferença entre apertar um gatilho ou não. Os tendões responderam com um protesto surdo, mas responderam. Suficiente.
***
O chuveiro do vestiário feminino cuspia água morna com pressão de cuspe. Marina ficou embaixo dele tempo suficiente para tirar o suor, ensaboou o corpo com eficiência mecânica — axilas, virilha, pés, nuca — e saiu em quatro minutos. O azulejo do chão estava gelado sob as solas dos pés, e o eco da água pingando do chuveiro fechado percutia no espaço vazio como um metrônomo preguiçoso. Secou-se com a toalha áspera que morava no armário número sete, vestiu calça tática preta, camiseta preta, coldre de ombro vazio. A arma ficava no cofre do escritório. Regra da casa: armas não descem pra academia.
No espelho embaçado do banheiro, passou os dedos pelo cabelo curto. Não precisava de pente, não precisava de produto, não precisava de nada. Esse era o ponto. A simplicidade não era estilo — era estratégia. Cada segundo a menos no espelho era um segundo a mais no campo.
Subiu as escadas — elevador era armadilha, sempre escadas — sentindo a queimação residual nos quadríceps do treino a cada degrau, e atravessou o corredor do segundo andar até a porta com a placa HENRIQUE MAIA — DIREÇÃO OPERACIONAL. O corredor cheirava a carpete velho e café que alguém tinha derramado e limpado mal. Bateu duas vezes. Não esperou resposta. Entrou.
O escritório de Henrique cheirava a charuto frio e café requentado — aquele cheiro espesso, turfoso, que se entranhava nas paredes como uma memória que se recusava a ir embora. O homem estava sentado atrás da mesa de mogno que parecia ter sobrevivido a pelo menos duas guerras, os óculos de leitura no nariz, três pastas abertas diante dele. Cinquenta anos, cabelo grisalho cortado rente, ombros de quem carregou fuzil por duas décadas. A lâmpada de mesa projetava um círculo de luz amarelada sobre os papéis, deixando o resto do escritório em penumbra, e as sombras sob os olhos de Henrique pareciam mais fundas que o habitual. Ele a olhou por cima dos óculos.
— Senta.
Marina sentou na cadeira de frente pra mesa. Não cruzou as pernas, não encostou nas costas da cadeira. Postura de briefing. A cadeira era dura, de estrutura metálica, e o estofamento fino deixava sentir cada barra contra a coxa. Henrique gostava assim — conforto era distração, e distração matava.
Henrique empurrou uma pasta azul na direção dela. O papel deslizou sobre o mogno com um sussurro seco.
— Karl Lindberg. Norueguês. CEO da Lindberg Energi, uma das maiores empresas de energia renovável da Escandinávia. Assassinado há doze dias em Oslo. Dois tiros, calibre nove milímetros, estacionamento subterrâneo da sede. Sem testemunhas. Câmeras desligadas quatro minutos antes do disparo.
Marina abriu a pasta. Foto do local: concreto cinza, um Mercedes preto com a porta aberta, sangue no chão em poça escura — o sangue tinha aquele tom de borgonha oxidado que significava horas, não minutos. Foto da vítima em vida: homem de sessenta e poucos, rosto angular, cabelo branco, olhos que pareciam calcular o peso do mundo. Relatório policial em norueguês, com tradução anexa. As folhas tinham aquele peso de papel timbrado oficial, grossas sob os dedos.
— Quem é o cliente? — perguntou Marina, folheando as páginas.
— Erik Lindberg. Filho mais novo. Vinte e seis anos. O pai deixou a empresa inteira pra ele no testamento, passando por cima do primogênito. Isso gerou uma merda considerável. — Henrique tirou os óculos, esfregou os olhos com o polegar e o indicador, o gesto cansado de quem dormiu pouco e pensou demais. — A polícia norueguesa tá investigando, mas andando em círculos. A família contratou proteção privada. Nós.
— Por que a Aegis? Eles não têm empresas de segurança lá?
— Têm. Mas o contato veio através do Viktor Sørensen, CFO da Lindberg Energi. Ele conhece nosso trabalho pela operação que fizemos pro Banco Nórdico em 2023. Pediu especificamente alguém de fora do circuito escandinavo. Alguém que não tenha conexões locais que possam ser exploradas.
Marina assentiu. Fazia sentido. Quando o inimigo podia ser qualquer um, você trazia alguém que não conhecia ninguém.
— Perfil da ameaça?
— Indefinido. Pode ser corporativo, pode ser pessoal, pode ser o irmão mais velho puto da vida com a herança. O relatório da polícia é vago. Eu quero você lá mapeando tudo do zero.
— Equipe?
— Você. Solo.
Marina ergueu uma sobrancelha. Não duas — ela não era melodramática.
— Solo num contrato internacional de proteção executiva?
— O cliente não quer circo. Quer uma sombra. Uma pessoa, discreta, competente. E você é a melhor que eu tenho, Santos. Não me faz repetir isso, que meu ego não aguenta.
Ela quase sorriu. Quase. A boca fez o movimento, mas a inércia de anos contendo expressões o interrompeu antes que se completasse.
— Duração?
— Indeterminada. Mínimo de três meses. Salário de campo internacional, com adicional de risco. Passagem, hospedagem e equipamento por conta da Lindberg Energi.
Marina olhou de novo para a foto de Karl Lindberg morto. O sangue no concreto tinha aquele tom escuro que significava que ele ficou ali um tempo antes de alguém encontrar. Morreu sozinho num estacionamento frio, sob luz fluorescente, entre vagas pintadas de branco e o cheiro de óleo de motor e cimento úmido. Ela conhecia esse tipo de morte — a que acontece quando alguém falha em proteger. A que ninguém vê, que ninguém ouve, que se torna um registro em pasta azul e um nome numa lápide.
— Quando embarco?
— Terça. Três dias pra resolver pendências aqui. — Henrique a olhou com aquela expressão que ela conhecia bem, a que dizia estou te avaliando e não vou admitir que me preocupo. Os olhos cansados se fixaram nela com uma atenção que não era profissional — era paternal, embora nenhum dos dois jamais usasse essa palavra. — E Marina.
— Senhor.
— Relatório às vinte e duas horas. Todos os dias. E come alguma coisa. Tá mais magra que da última vez.
— Estou no peso regulamentar.
— Tá mais magra — repetiu ele, num tom que não admitia réplica. O charuto apagado no cinzeiro exalou seu cheiro frio enquanto o silêncio se instalava entre eles como uma terceira presença.
Marina pegou a pasta, levantou e caminhou até a porta. Parou com a mão na maçaneta. O metal estava frio, e por um instante sentiu o peso do aço sob os dedos como quem sente o peso de uma decisão.
— Henrique.
— Hm.
— Obrigada.
Ele não respondeu. Não precisava. Treze anos de parceria tinham criado um idioma entre eles que dispensava palavras supérfluas.
***
No corredor, Marina encostou a testa na parede fria por exatamente três segundos. O reboco era áspero contra a pele da testa, e o frio do concreto penetrava como um analgésico. Permitiu-se esse tempo — três segundos de fraqueza, de sentir o peso do que estava aceitando. Proteção executiva internacional, cliente de alto perfil, ameaça indefinida, território desconhecido. O tipo de trabalho que ou construía uma carreira ou acabava com uma vida. A luz do corredor zumbia acima dela, aquele zumbido constante das lâmpadas fluorescentes que era o som de fundo da Aegis, tão onipresente que o cérebro parava de registrar — até momentos como esse, quando o silêncio interno deixava todo o resto mais alto.
Depois se endireitou e caminhou até seu escritório no final do corredor. O cômodo era do tamanho de um armário — literalmente tinha sido um armário de suprimentos antes de Henrique mandar colocar uma mesa e uma cadeira. Não tinha janela. Marina gostava disso. Janelas eram vulnerabilidades decoradas de luz natural.
Sentou, abriu o laptop — a tela azulada iluminando o rosto no cômodo sem janela — e começou a pesquisar.
Lindberg Energi. Fundada em 1987 por Karl Lindberg. Energia eólica, solar, hidrogênio verde. Faturamento anual de doze bilhões de coroas norueguesas. Sede em Oslo, operações na Noruega, Suécia, Dinamarca, Alemanha. Duzentos e quarenta funcionários diretos, mais de mil indiretos.
Erik Lindberg. Engenheiro mecânico pela NTNU em Trondheim. Mestrado em energia sustentável. Vice-presidente de inovação na empresa do pai desde os vinte e três. Nenhum escândalo público, nenhuma namorada nas colunas sociais, nenhum histórico criminal. Praticava escalada, esqui de travessia, fotografia analógica. O tipo de homem que preferia o silêncio das montanhas ao barulho dos salões.
Ela clicou nas imagens. Loiro escuro, olhos claros, rosto que parecia esculpido pelo vento de um fiorde — mandíbula angulosa, maçãs do rosto altas, uma simetria que não era bonita no sentido convencional mas que prendia o olhar como paisagens prendem. Tinha o tipo de beleza que pertencia a catálogos de roupa outdoor. Marina registrou isso com a mesma objetividade com que registrava calibre de munição: informação, não emoção.
Jonas Lindberg. Primogênito. Trinta anos. Graduação em administração que levou seis anos. Aparecia em colunas sociais de Oslo com frequência — festas, iates, uma ex-namorada modelo, outra atriz. Trabalhava oficialmente como "diretor de relações institucionais" na Lindberg Energi, o que geralmente significava que não trabalhava.
Viktor Sørensen. CFO desde 2015. Ex-consultor da McKinsey, MBA por Wharton. Cinquenta e dois anos, casado, dois filhos. Rosto de avô bondoso nas fotos — sorriso largo, olhos apertados, bochechas rosadas de quem janta bem. Marina anotou: caloroso demais para um CFO. Investigar.
Às quatro e quarenta e sete da manhã, ela fechou o laptop. A tela escureceu e o cômodo mergulhou em escuridão por um instante antes de a luz fluorescente do corredor filtrar pela fresta da porta. Tinha o suficiente para começar. O resto viria em campo — sempre vinha.
Levantou, apagou a luz e caminhou pelo corredor escuro até a saída. Os passos ecoavam no linóleo gasto, e o prédio inteiro tinha aquele silêncio de madrugada que não é paz, é apenas pausa. O prédio da Aegis ficava numa rua sem graça de Pinheiros, espremido entre uma gráfica fechada e um estúdio de tatuagem. Do lado de fora, o ar de São Paulo a envolveu como uma toalha quente e úmida — o cheiro de asfalto, escapamento, pipoca de micro-ondas de algum apartamento insone. Fevereiro paulistano. Trinta graus às cinco da manhã. A umidade grudava na pele instantaneamente, desfazendo o trabalho do banho como se dissesse aqui não existe seco, aqui não existe frescor.
Em breve estaria em Oslo. Fevereiro norueguês. Menos quinze, talvez menos vinte. Ela nunca tinha sentido frio de verdade — o frio do Rio era piada, o de São Paulo era desconforto. O frio nórdico era outra criatura. Uma criatura que ela teria que aprender a enfrentar com a mesma disciplina com que enfrentava tudo o mais.
Marina caminhou até o carro — um Civic preto, sem adesivos, sem personalidade. A pintura opaca refletia os postes de rua em manchas alaranjadas. Ligou o motor, ajustou o espelho retrovisor, e por um instante viu seus próprios olhos. Castanho-escuros, quase pretos. Olhos que tinham visto gente morrer e continuaram olhando. Olhos que não pediam permissão nem ofereciam desculpas.
Engatou a primeira e entrou na madrugada de São Paulo. As ruas estavam quase vazias — um ônibus noturno, um motoboy cortando uma esquina, uma ambulância distante com a sirene ligada competindo com o silêncio.
O trabalho era o que a mantinha de pé. Sempre tinha sido. Enquanto houvesse alguém pra proteger, ela não precisava pensar no que tinha falhado em proteger antes.
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