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Carregando...romance-contemporaneo
Sophie Hartley acorda no hospital sem os últimos três anos de memória. Sabe o nome das ruas de Bath, sabe tocar violoncelo — mas não sabe quem é o homem brasileiro de olhos atentos que a olha como se a…
CAPÍTULO 1
Capítulo 1 — O Que o Estúdio Guarda
O telefone vibrou pela terceira vez antes de Léo perceber que era o número do hospital.
Ele estava com os fones em torno do pescoço, não nos ouvidos — um hábito que Theo ridicularizava com silêncio, que era o jeito de Theo ridicularizar qualquer coisa —, e o projeto de trilha que estava tentando finalizar havia vinte minutos se recusava a fechar na frequência certa. Havia uma nota no contrabaixo que soava levemente abaixo do que deveria. Não o suficiente para ser erro técnico. O suficiente para ele não conseguir ouvir mais nada.
O terceiro zumbido fez ele olhar para baixo.
Bath Royal Infirmary.
Ele atendeu sem saber o que esperava. Acidentes aconteciam. Ele tinha aprendido isso sobre a Inglaterra: chuva, pedra escorregadia, a velocidade desnecessária dos ônibus nas ruas estreitas. Ele pensou, por um décimo de segundo, em qualquer coisa menos no nome que a mulher do outro lado disse.
"Sophie Hartley. O senhor está registrado como contato de emergência."
O projeto ficou aberto na tela. Theo estava na sala de gravação, do outro lado do vidro, ajustando um microfone que não precisava de ajuste. Léo colocou os fones em cima da mesa com cuidado excessivo, como se a força com que os pousava tivesse qualquer importância.
"Estou indo."
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O carro de Léo estava estacionado duas ruas acima do estúdio, o que normalmente o irritava. Hoje ele correu sem pensar no irritante. As ruas de Bath em final de tarde de outubro eram uma questão de pedra molhada e luz laranja que não aquecia nada, e ele foi o tempo todo com a chave na mão, os dedos fechados tão forte que depois, já no corredor do hospital, ele encontrou a marca no centro da palma.
Eles tinham brigado na noite anterior.
Não era um pensamento que ele escolheu ter; era um fato que apareceu enquanto ele atravessava o estacionamento, sem aviso, como aparecem as coisas que você tentou não pensar a tarde toda. Tinham brigado. Ela tinha dito que ele nunca ficava. Ele tinha dito que ela nunca deixava espaço para ele ficar de verdade. Nenhum dos dois tinha razão inteiramente. Nenhum dos dois tinha errado inteiramente. Era o tipo de briga que não tinha vencedor e por isso durava mais.
CAPÍTULOS
No bolso do casaco havia um papel dobrado que ele tinha colocado ali de manhã, antes do trabalho, antes de tudo.
Ele não pensou no papel. Fechou o punho ao redor dele enquanto subia as escadas do hospital, amassando sem perceber, e quando a recepcionista da emergência confirmou o nome e o quarto, ele já tinha amassado o suficiente para que as dobras não fizessem mais sentido.
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O corredor cheirava ao que corredores de hospital cheiram: desinfetante, plástico aquecido, e um subtexto de ansiedade coletiva que nenhuma limpeza conseguia remover. Léo não gostava de hospitais. Poucos gostam, ele sabia, mas ele tinha uma razão específica que não era relevante agora.
O que era relevante agora estava no quarto 14B.
Ele ficou na porta por talvez quatro segundos antes de entrar. Quatro segundos não eram nada. Eram o tempo de uma fermata longa, o tempo que um músico espera antes de retomar depois de uma pausa marcada na partitura. Ele contou sem querer — era um hábito que Sophie tinha apontado nele uma vez, numa noite de inverno em que eles ficaram acordados mais tarde do que deveriam. *Você conta tudo*, ela tinha dito, *como se o tempo precisasse de inventário.* Ele tinha dito que era culpa do metrônomo interno. Ela tinha rido.
No quarto 14B, Sophie estava na maca com os olhos fechados.
Ele entrou.
A enfermeira que estava ao lado saiu sem fazer barulho, e Léo ficou de pé ao lado da cama olhando para Sophie com a atenção de quem cataloga. Era o que ele conseguia fazer: catalogar. Não era frieza; era o oposto. Quando você ama alguém por tempo suficiente, você memoriza sem querer. E agora ele passava o inventário como se cada detalhe confirmado fosse uma pequena vitória contra alguma coisa que não tinha nome ainda.
Os cabelos castanhos dela estavam espalhados no travesseiro da forma levemente desordenada que ela odiava em foto e achava aceitável na vida real. Havia um hematoma roxo-amarelado começando na têmpora direita — o acidente havia sido lateral, o táxi havia entrado pelo lado do passageiro, ele sabia disso da ligação. A boca estava levemente aberta. Ela sempre dormia assim quando estava profundamente inconsciente, não no sono leve, não no sono em que ela acordava antes do alarme com a expressão de quem já tinha resolvido uma equação.
As mãos.
Ele olhou para as mãos dela em cima do lençol branco e sentiu alguma coisa se apertar atrás do esterno — não metaforicamente, mas fisicamente, como pressão. As mãos de Sophie eram o instrumento do instrumento: calejadas nas pontas dos dedos da corda, a palma larga, os dedos longos e levemente recurvados mesmo em repouso, como se o violoncelo fosse uma presença fantasma que o corpo guardava. Aquelas mãos tinham tocado Dvorák para ele numa noite de novembro quando Bath estava coberta de geada e o aquecimento do apartamento havia decidido fazer greve. Ele tinha ficado sentado no chão da sala, encostado na parede, ouvindo.
Uma das mais bonitas memórias que ele tinha. Ele não tinha dito isso para ela ainda.
*Depois*, ele sempre pensava. *Depois eu digo.*
Havia uma cadeira ao lado da cama. Ele puxou e sentou, e não era confortável — era uma cadeira de hospital, nenhuma cadeira de hospital era confortável —, mas ele não ia a lugar nenhum.
Sentiu o papel amassado no bolso.
Não tirou.
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O médico veio vinte minutos depois: um homem de cabelos grisalhos, ar prático, que explicou o acidente em termos técnicos que Léo absorveu apenas parcialmente. Impacto lateral. Traumatismo craniano moderado. Tomografia sem sangramento, o que era bom — essa palavra, *bom*, soou estranha no contexto, mas ele se agarrou a ela. Nenhuma fratura. Nenhum dano à coluna.
"Ela está bem", disse o médico, e Léo entendeu que era a versão médica de *bem*, que excluía várias coisas.
"Quando ela vai acordar?"
"Já está acordando. O sedativo foi leve, para os exames. Mas quando acordar..." O médico fez uma pausa do tipo que não prenuncia nada fácil. "Precisamos conversar sobre o quadro neurológico. Há uma colega que vai querer falar com o senhor. Dra. Priya Okonkwo, neurologista. Ela está a caminho."
Léo olhou para Sophie na maca.
"O que aconteceu com ela?"
O médico disse uma coisa sobre amnésia pós-traumática. Disse a palavra *amnésia* com a naturalidade de quem a usa frequentemente, e Léo ouviu cada uma das três sílabas como se fossem separadas por compasso.
"Qual extensão?"
"A Dra. Okonkwo vai explicar melhor. Mas aparentemente... há um período considerável que ela não consegue acessar."
Léo ficou em silêncio por um momento.
"Quanto tempo?"
O médico disse um número.
Léo olhou para as mãos de Sophie no lençol branco. Os calos nas pontas dos dedos. A palma larga. Os dedos levemente recurvados como se o instrumento fosse uma presença fantasma.
No bolso, o papel amassado.
Ele não disse nada. Havia uma nota no contrabaixo que soava levemente abaixo do que deveria. Não o suficiente para ser erro técnico. O suficiente para mudar tudo.
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Nora chegou às oito e meia, de trem de Bristol, com uma mochila pequena e a expressão de quem recebeu a notícia e passou a viagem inteira segurando o que queria deixar vazar. Ela tinha vinte e sete anos e parecia simultaneamente mais velha e mais nova que Sophie — mais velha na mandíbula, nos ombros quadrados, na forma como entrou no quarto e avaliou a situação antes de falar. Mais nova no jeito que o queixo tremeu por exatamente dois segundos antes de ela controlar.
Léo estava na cadeira ao lado da cama quando Nora entrou. Ela olhou para ele por um momento que durou o suficiente para ser deliberado.
"Como ela está?"
"Estável", disse Léo. "Neurológica ainda está avaliando."
Nora puxou a segunda cadeira para o outro lado da cama. Ficou segurando a mão de Sophie com cuidado, como se soubesse exatamente quanto de força era suficiente sem ser demais.
Ficaram sentados dos dois lados sem falar por um tempo.
Eram passadas das dez quando Sophie começou a acordar. Primeiro os dedos — aquele movimento pequeno, o toque dos calos na beira do lençol —, depois os olhos, que abriram devagar e olharam para o teto com a desorientação específica de quem ainda não sabe onde está.
Léo se inclinou levemente para frente.
Nora disse o nome dela, baixinho, com a voz que se usa quando se quer anunciar presença sem assustar.
Sophie virou o rosto para o lado e encontrou o rosto da irmã.
O alívio que passou pela expressão dela foi tão visível que Léo teve que olhar para o chão por um segundo.
Depois Sophie virou o rosto para o outro lado.
Os olhos cinza-esverdeados encontraram os dele.
Ele esperou. Esperou o reconhecimento que conhecia, o olhar específico que ela usava para ele — não completamente suave, nunca completamente suave, havia sempre uma centelha de questionamento ali, como se ela ainda estivesse catalogando dados —, a versão do nome dele que ela dizia quando estava cansada, que soava diferente das outras versões.
Sophie olhou para ele.
Olhou para ele por tempo longo demais.
E então virou o rosto de volta para Nora.
"Onde estou?", ela disse. A voz era levemente rouca de desuso, mas era a voz dela.
Léo ficou muito quieto na cadeira. A nota do contrabaixo estava tocando de novo, aquela frequência levemente abaixo do correto, insuportavelmente presente.
No bolso do casaco, o papel amassado.
Ele fechou o punho ao redor dele e não abriu mais essa noite.